Histórias com cavalos

O que mais choca na história das joias das arábias é a imagem do cavalo dourado com três pernas quebradas. Esculturas de cavalos são clássicas.

Cavalos não poderiam nunca ter as pernas quebradas, nem em esculturas. Porque não há como recuperar pernas quebradas de cavalos.

Meu primeiro prêmio como jornalista foi uma escultura, dessas com o cavalo erguendo as patas. Eu tive um cavalo dourado.

O jornal A Plateia, eu e o fotógrafo João Davi vencemos o primeiro lugar em reportagem do prêmio da Associação dos Diretores de Jornais do Interior (Adjori), em 1974. Era um prêmio importante.

Foi para uma série sobre Pampeiro, uma vila rural pobre no meio do latifúndio rico de Livramento.

Voltei à vila há quatro anos com meu amigo Emílio Pedroso. O cenário é desolador. É uma imensa tapera com uma estação ferroviária fantasma.

O cavalo do prêmio ficou sobre a mesa do diretor do jornal, João Afonso Grisolia, um grande cara.

Nunca me interessei pela escultura. Eu queria beber Norteña e comer chivito al plato em Rivera. Fui embora do jornal um ano depois e não sei o que aconteceu com o cavalo.

No fim dos anos 90, o famoso ex-ministro argentino Domingo Cavallo veio para uma palestra em Porto Alegre no salão São José do Plaza.

Na saída, embarquei de carona num taxi e fui com ele até o aeroporto. Cavallo levava um cavalo parecido com o que eu havia ganho. Todos esses cavalos são parentes.

Tiveram a ideia de dar um cavalo dourado para Cavallo. Conversamos até o Salgado Filho. E o cavalo ali, largado sobre o banco.

Cavallo desceu apressado, apenas com uma pasta, e deixou o cavalo. O taxista gritou, ele fez que não ouviu e seguiu.

Mas o motorista insistiu e não teve jeito. Cavallo teve que voltar para buscar o cavalo.

O argentino não havia se esquecido do mimo. Ele não queria o cavalo. E lá se foi Cavallo com o cavalo na mão para a fila de embarque. Quantos cavalos iguais ele deveria ter em casa?

Na terça-feira, por acaso, comprei numa loja de artesanato meu primeiro São Jorge. Vinha adiando a compra, sempre quis ter um São Jorge dourado.

Comprei por causa de São Jorge e do cavalo. Está numa prateleira. Já tenho uma ligação forte com eles, apesar dos poucos dias de convivência.

É natural que casas, lojas e escritórios tenham estátuas de São Jorge. Mas vemos cavalos como aqueles do prêmio da Adjori e do Domingo Cavallo até em consultórios médicos.

Por que eu ganhei um cavalo? Por que um cavalo na sala de espera de um dentista?

Porque os cavalos são a expressão da força. Esses cavalos com patas erguidas, pisando ou não em dragões, nos passam vitalidade, coragem e parceria.

O cavalo para Bolsonaro estava com as quatro patas no chão. Era sóbrio, comportado.
Já se sabe que o cavalo foi dado como presente oficial da Arábia Saudita. As joias estavam vindo por fora.

Os nossos cavalos são de uma imitação de bronze. O cavalo das arábias certamente era um cavalo árabe de ouro.

E quebraram as pernas do cavalo porque o importante era cuidar do colar, dos brincos e do relógio de R$ 16,5 milhões.

Se eles não cuidavam nem das emas, iriam cuidar de cavalos?

Os árabes admiram, veneram, amam seus cavalos árabes. E os bolsonaristas quebraram as pernas do cavalo.

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