Quem vende e quem compra

O DataFolha fez há pouco uma pesquisa reveladora do que o carioca pensa da matança no Rio. Para 53% dos moradores da cidade, a violência é causada muito mais pelo consumidor de drogas do que pelo traficante.

Na pressa, pode-se dizer que é uma conclusão óbvia do moralismo geral, que agora joga a ‘culpa’ em quem consome, até porque a Globo teria glamourizado os traficantes com a figura sedutora do Sabiá. Talvez não seja.

Se não houvesse demanda por droga, não haveria tráfico. E sempre haverá alguém querendo se drogar, com ou sem repressão. A droga dita ilícita é um produto com mercado, como qualquer outra droga lícita, como cigarro ou cachaça.

E a droga da violência é a cocaína. A cocaína é a droga do capitalismo financeiro. A maconha sempre foi a droga da contemplação, da arte, da sutileza e das utopias. A cocaína é a droga da pressa, do resultado e do egoísmo liberal.

A cocaína é a droga utilitária de quem quer ficar esperto para ganhar mais, mesmo que não seja dinheiro. A cocaína é pragmática, é a droga do neoliberalismo que não sabe perder.

O mercado, esse mesmo mercado que diz regular nossas vidas, que sustenta golpes, que determina movimentos de governos corruptos, que faz subir e descer o preço do dólar e da propina, esse mercado sabe bem o que é o mercado da cocaína.

Os homens do mercado, que cuidam de ofertas e demandas, de especulações, de ações, de riquezas gasosas, de blefes, sabem que, assim como seu mercado da grana, o mercado do pó é amoral.

Mas a oferta e a demanda por droga são mais liberais do que o mercado do dinheiro. O mercado do dinheiro, por mais liberal que se declare, mama no Estado e dele depende para sustentar seus rentistas e corromper e ser corrompido.

O mercado do dinheiro é por isso mesmo mais amoral do que o mercado da droga. O mercado da droga mata sem subterfúgios. O mercado do dinheiro dissimula, mas também aniquila e mata. Tudo na legalidade.

Os traficantes, pelo que se sabe, jogam com mais transparência com seus clientes. E ninguém sabe de traficante que ganhe o equivalente a 500% de juro ao ano.

Banco é o único negócio do mundo capitalista que no Brasil estrangula e mata o cliente, porque cada morto em seu cadastro será substituído por dois ou três que morrerão mais adiante.

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