Algo maior vai acontecer

24/10/2016 - PORTO ALEGRE, RS - Ato contra a PEC 241, que corta investimentos na Saúde e Educação, e contra o governo de Michel Temer / golpe. Foto: Guilherme Santos/Sul21

O confronto entre manifestantes antiPEC 241 e a Brigada, ontem à noite, aconteceu na Avenida Osvaldo Aranha, perto do Auditório Araújo Vianna. Lá dentro, realizava-se o Fronteiras do Pensamento com o escritor britânico Ian McEwan.

Li no Jornal do Comércio online uma boa matéria sobre a conferência. McEwan contou que uma de suas preocupações como romancista é assegurar o máximo de realismo ao que narra.

Pensamento, fronteiras, realismo… e os gases da repressão empestando os ares da Osvaldo Aranha.

Aí pelas 21h40, eu saía do Salão de Atos da UFRGS. Tentava lidar com alguns ventos metafísicos, depois de ver a bela peça A Partícula de Deus, quando os participantes da manifestação, dispersados pela Brigada, ocupavam o pátio.

A excitação da gurizada, as faixas, as frases soltas, como as frases que os personagens da peça tentam pegar um do outro e devolver com seus significados possíveis, tudo isso me ofereceu a sensação de que algo ainda vai acontecer.

Foi uma segunda-feira interessante ali naquele triângulo de eventos no entorno da Redenção, com o Fronteiras defendendo os pensamentos, a peça do Julio Conte lidando com os dilemas da ciência, da arte e dos deuses de cada um e a gurizada se rebelando com força contra a PEC 241 e as crueldades do golpe.

Foi bom passar pelo meio dos que voltavam de mais uma batalha e sentir os restos do cheiro de fumaça e repressão. Dependemos da coragem, do vigor físico, da vitalidade deles para o enfrentamento.

O golpe não acaba se não tiver gente jovem nas ruas. Essa é a grande missão dos estudantes.

Fui embora tentando proteger uma sensação boa de que algo maior contra os golpistas ainda está por acontecer.

O jornalismo é o réu

matheus

Matheus Chaparini (foto), repórter do jornal Já, agora é réu. A juíza Cláudia Junqueira Sulzbach, da 9ª Vara Criminal do Foro Central, acolheu a denúncia contra ele e mais 10 estudantes acusados de invasão da Secretaria da Fazenda.
Chaparini participava da cobertura de desocupação do prédio, no dia 15, e conseguiu o que outros repórteres não conseguiram (ou não quiseram) fazer: entrou na Secretaria com os estudantes e filmou a ação violenta da Brigada Militar. Chaparini foi repórter, fez o seu trabalho.
Um vídeo mostra que Chaparini identificou-se como jornalista por várias vezes. Mas ele acabou preso pela Brigada, indiciado pela polícia e denunciado pelo Ministério Público. Agora será processado.
Também passa a ser réu o cineasta independente Kevin D’arc, de São Paulo, que estava no prédio no mesmo dia.
Se eles forem condenados, muita gente deve pensar que o bom a partir de agora será cobrir qualquer acontecimento da janelinha das unidades móveis com ar condicionado (o que talvez seja uma tendência em algumas redações…).
Mas os jornalistas de verdade não irão se acovardar.
Como disse a ministra Carmén Lúcia, presidente do Supremo, este é o país dos muitos Judiciários. Que pelo menos um deles esteja a favor de quem faz jornalismo e combate a truculência policial de governos inseguros.