O URUGUAI EM SUSPENSE

Ninguém respira no Uruguai, porque ninguém sabe quem venceu. Mas é preciso admitir que hoje a realidade é essa, pelo que mostram os números: depois de 15 anos, a Frente Ampla de Tabaré e Mujica pode deixar o poder e ser oposição.
Se Daniel Martínez for derrotado por Luis Lacalle Pou, do Partido Nacional, a velha direita dos blancos, muda tudo, ou quase tudo.
É do jogo. Mas os uruguaios fazem perguntas básicas: é possível que a direita respeite os avanços democráticos e a base das conquistas sociais dessa década e meia?
A outra pergunta: que poder terão os militares num governo de direita e considerando que um general reformado, o ultradireitista Guido Manini Ríos, teve 11% dos votos no primeiro turno e apoiou Lacalle Pou?
(Sempre lembrando que Guido Manini Ríos, eleito senador, foi chefe do Exército do governo da Frente Ampla de 2015 até o início desde ano. Em setembro, o militar andou visitando gente da extrema direita no Brasil e conversou até com o vice Hamilton Mourão. Foi ele quem liderou, às vésperas do segundo turno, uma série de ataques às Frente Ampla, com o uso de mensagens pelo WhatsApp.)

À espera do milagre no Uruguai

Primeira pesquisa para o segundo turno no Uruguai, que acontece dia 24 de novembro.
Luis Lacalle Pou, do Partido Nacional, tem 47% das intenções de voto, e Daniel Martínez, da Frente Ampla, está com 42%.
Há apenas 6% de indecisos e 5% votariam em branco ou anulariam o voto.
Martínez está melhor em Montevidéu (48% a 41% de Lacalle) e o candidato blanco vence no interior (52% a 37%).
A direita conseguiu o que era previsto: saiu na frente para o segundo turno, porque obteve apoios da centro-esquerda de Ernesto Talvi, do Partido Colorado (inimigo histórico dos blancos), e da extrema direita do general reformado Guido Maníni Rios (Cabildo Aberto).
Agora, é torcer à distância pela virada.

MILAGRE URUGUAIO

É complicada a situação da Frente Ampla no Uruguai. Daniel Martinez conseguiu 39,17% dos votos. Mas a Frente Ampla encolheu e, se vencer no segundo turno, não terá maioria no Congresso.

Luis Laccalle Pou, do Partido Nacional (o velho partido Blanco, da direita), obteve 28,59%. Já tem o apoio declarado para o segundo turno de Ernesto Talvi, do Partido Colorado, de centro, mas que vinha pendendo para a direita (12,32% do eleitorado), e do ex-comandante do Exército Guido Manini Ríos, do Cabildo Abierto, o Bolsonaro deles (com 10,88%).

O interessante é que a Frente Ampla chegou ao poder há 15 anos ao quebrar, com a eleição de Tabaré Vásquez, a polarização blancos x colorados, que vem desde o século 19.

Agora, os reacionários dos blancos se unem ao centro dos colorados, seus inimigos históricos, e ganham o reforço da extrema direita de Guido Manini Rios para retomar o poder.

Numa simplificação matemática, os blancos venceriam com sobra no segundo turno, se tivessem o apoio integral dos aliados já conquistados. Mas a política não é o simples resultado de somas.

A Frente Ampla terá de buscar votos entre os colorados, porque os demais partidos são eleitoralmente insignificantes. As esquerdas uruguaias dependem de um milagre.