Abrão Slavutzky e os mistérios do destino

Os mistérios do destino

Abrão Slavutzky
Psicanalista

O escritor Eduardo Galeano ao ver uma cigana se aproximar para ler sua mão, disse que pagaria o dobro para ser deixado em paz. Escreveu que não deseja saber o que virá, pois vive e sobrevive pela curiosidade. Talvez o melhor do futuro é desconhecer, a incerteza do amanhã ajuda a viver.

Nem todos pensam assim, creio até que a maioria prefere sentir-se seguro quanto ao futuro com as crenças, a astrologia, numerologia, tarô, cartas e religiões. Uns dizem que tudo foi inventado para acalmar o homem pelo desconhecimento do futuro. Diante do desamparo há uma longa história da humanidade de buscar a segurança mais que a liberdade.

O que gostei também na história do Galeano foi a cigana, figura ligada aos mistérios do destino. E foi uma cigana, da Ucrânia, que ensinou minha avó a ler as cartas para saber o que virá no dia de amanhã. Parou de jogar, segundo meu pai, porque via coisas ruins, às vezes, e não gostava de dizer. Meus antepassados acreditavam no destino, logo estava escrito que eu devia escrever sobre ele.

O destino é enigmático, indefinível, contraditório, está no imaginário da condição humana desde que os homens eram nômades. Daí as palavras como Karma, Maktub, Providência que expressam certa resignação do homem. Entretanto, essa passividade pode não ser total, pelo contrário.

Um exemplo é o que ocorre no belo filme sobre a vida do cantor e compositor Elton John, Rocketman, dirigida por Dexter Fletche. Filme notável e saí do cinema emocionado e com uma pergunta: o que fez o músico mudar, já que caminhava rápido em direção a morte. No filme é evidente a importância do seu grupo de AA (Alcoolistas Anônimos), bem como a ótima relação com seu amigo Bernie Taupin, o letrista de suas músicas.

Fica claro também o quanto seu pai o desprezou em várias situações. Ele o humilhou desde criança até depois de ser famoso. Sua mãe se esforçou para criá-lo mas lançou uma maldição que marcou o artista. Ela assegurou que ninguém iria amá-lo e buscando conhecer sua vida descobri uma vivência traumática.

Ele escreve em sua autobiografia: “Quando Ryan morreu, em abril de 1990, aos 18 anos, eu não sabia como conversar com alguém sem estar sob o efeito de drogas e álcool. Depois de seu enterro, voltei para Londres e me tranquei em casa, o que acabou virando um hábito. Mas estou aqui por causa de Ryan. (…) Quando os olhos dele fecharam, os meus se abriram – e eles estão abertos desde então”.

Ele abriu os olhos pois estava indo de olhos fechados para casar com a morte. Em geral o suicida não se sente amado e sai da vida por não suportar mais viver desamparado. Passados trinta anos, Elton John segue vivendo sem drogas e indo aos grupos de AA.

A psicanálise pensar o destino a partir de conceitos entre os quais está o SuperEu. Ele é formado a partir das exigências e proibições parentais que é uma das chaves para pensar o futuro. Não são poucos os que sucumbem ao masoquismo moral, buscam o fracasso mesmo quando triunfam. Há os que não suportam o sucesso, e não podem ultrapassar os progenitores. Sentem-se diminuídos, inferiores, seja pela culpa ou melhor, a necessidade de castigo, que satisfaz o desejo masoquista.

Essa satisfação alivia o desamparo, pois os pais estão sempre acima.
Sobre os mistérios do destino há dois caminhos: ou se simplifica, ou se aceita a complexidade da condição humana. O futuro é sempre uma ilusão, o destino está ligado à incerteza. O último livro que Freud escreveu foi Moisés e a Religião Monoteísta, na década de trinta, para entender o destino sofrido do seu Povo Judeu.

Uma recordação feliz para concluir: Em 2005 Porto Alegre viveu a grande festa do quinto Fórum Social Mundial. No dia de sua abertura tinham dois artigos na velha Zero Hora: um afirmando que outro mundo é possível. O segundo foi meu e escrevi perguntando: Outro mundo é possível? Ambas frases me parecem necessárias, pois expressam as possibilidades e os limites de nossa humanidade.