O povo

Encontrei seu Mércio cortando grama na calçada na Aberta dos Morros (é o que ele faz quando não está atuando como guarda de rua) e comento sobre a última pesquisa de avaliação do homem do Jaburu.

Seu Mércio já sabia que o sujeito está com apenas 10,3% de aprovação, segundo a pesquisa da Confederação Nacional do Transporte, índice pior do que o de Dilma Rousseff no massacre que antecedeu o golpe.

– O povo abandonou o homem – eu disse.

E Seu Mércio respondeu:

– E quem dá bola para um povo que só manifesta insatisfação em pesquisas?

– Mas o golpe não tem mais medo do povo? – eu insisti.

Seu Mércio deu uma gargalhada:

– O único poooovo que interessa hoje é o do Judiciário.

 

O homem do Jaburu está confiante

A sensação geral é de que o homem do Jaburu ganhou confiança. Ele parece estar certo, por um conjunto de acontecimentos, de que aplicou o golpe no golpe que os tucanos estavam preparando. Adiós, golpe dentro do golpe.

Ele acredita que será poupado no Tribunal Superior Eleitoral, que as delações da Lava-Jato vão confundir todo mundo, que seus ministros envolvidos com corrupção somente serão denunciados formalmente daqui a muitos meses e que irá emplacar Alexandre de Moraes no Supremo..

Mas o que mais conta a favor do homem do Jaburu é que os golpistas descobriram o que nunca imaginaram. O governo pode continuar fingindo que governa, mesmo com a economia aos pedaços, o desemprego aumentando, o futuro cada vez mais incerto, porque isso não muda nada.

O que o Jaburu descobriu é que não precisa fazer nenhum esforço para evitar reações, porque não há nenhuma reação em articulação. O país entrou em estado de letargia.

A classe média que ajudou no golpe anuncia que voltará às ruas em nome da Lava-Jato, mas também isso não muda nada, só tira as camisetas da Seleção do roupeiro e oferece outra chance de protesto-lazer aos entediados da Avenida Paulista e do Parcão.

O homem do Jaburu que foi ao velório em Chapecó, dia 3 de dezembro, era um sujeito encolhido, inseguro. Hoje não. Suas estranhas mãozinhas agitam-se no ar em movimentos de prepotência, empáfia e soberba.

O homem finalmente se sente no poder, o que pode ser bom pra ele e pode também, por excesso de confiança, ser a sua ruína.

 

A frase pavorosa

Seu Mércio me manda um whatsapp: “A frase do ano já foi dita pelo sábio do Jaburu. Foi um acidente pavoroso, terrível. O homem pavoroso e suas definições terríveis. Ele diz uma frase do ano a cada semana. E ainda nos deve a frase do século”.

E encerra o seu Mércio: “A frase do homem me persegue, é um eco que não abandona minha cabeça. O golpe é cada vez mais pavoroso”.

 

Protestos

O homem do Jaburu está ensaiando uma fala pela TV para dizer a qualquer momento que o Brasil vem crescendo e que o governo está sob controle desde a saída do Jucá e do Geddel. E que o Padilha não incomoda.
Estão pedindo pelas redes sociais que se faça um boicote desligando a TV na hora do pronunciamento. Fiquei sabendo do protesto pela minha amiga Branca Egger Moellwald.
Não garanto nada. Acho que não consigo ficar com a TV desligada, sabendo que o homem do Jaburu estará ali prometendo o céu aos brasileiros com caras, bocas, piscadas, advérbios e mesóclises.
Não vou entrar neste protesto. Vou esperar o próximo, que será adequado ao Natal, com uma bateção de sinos fabricados na China.