A FOLHA DENUNCIADA NA FOLHA

Esta já é uma das charges do ano. Saiu na semana passada na Folha. Os chargistas Leandro Assis e Triscila Oliveira debocham da própria Folha.

Para quem não acompanhou o caso, é uma crítica à decisão do jornal de manter em seus quadros um colunista reaça acusado de racismo, o famoso Leandro Narloch.

Narloch é a voz de uma extrema direita metida a esperta dentro da Folha, como se fosse possível dar espaço, em nome das liberdades, a quem se alinha aos que sabotam as liberdades.

O que os chargistas fazem é, dentro da Folha, apontar o dedo na cara da Folha, que acolhe com Narloch o que diz condenar.

(Abaixo, o texto que deu origem a vários artigos que acusam o colunista de praticar o negacionismo da casa-grande.)

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FOLHA DE S. PAULO

30 de setembro

Leandro Narloch

Luxo e riqueza das ‘sinhás pretas’ precisam inspirar o movimento negro

Negras prósperas no ápice da escravidão são pedra no sapato de quem diz que o capitalismo é essencialmente racista e machista

Antonio Risério acaba de publicar um livro sobre um personagem fascinante da história do Brasil: a “sinhá preta”, como se dizia no século 19, a escrava que conquistou a liberdade, superou preconceitos, enriqueceu pelo comércio de rua e deixou em seu testamento joias, vestidos, casas e escravos.
Em 1836, Marcelina Obatossi comprou sua alforria de um outro negro liberto e a partir de então acumulou 18 escravos, meia dúzia de casas no que hoje chamamos de centro histórico de Salvador e muitas joias.
Francisca Maria da Encarnação, liberta em 1812, tinha quatro escravos e diversas peças de ouro e prata. Custódia Machado de Barros morreu com duas casas e seis escravos. Joaquina Borges de Sant’Anna tinha dinheiro suficiente para emprestar a donos de armazéns do porto de Salvador.
Casos assim são exemplos anedóticos ou um fenômeno mais consistente? Certamente não eram raros, pelo menos em regiões em que a economia prosperava e criava oportunidades.
“Na verdade, pesquisas mais recentes indicam, com segurança razoável, que mulheres de cor libertas formavam a categoria mais rica de nossa sociedade, depois dos homens brancos”, diz Risério em “As Sinhás Pretas da Bahia: suas Escravas, suas Joias”, baseado em estudos de Sheilla de Castro Faria e Eduardo França Paiva.
O viajante austríaco Johann Emanuel Pohl percebeu essa riqueza em 1819, quando passou pela cidade de Goiás. Segundo ele, muitas mulheres brancas, envergonhadas de sua pobreza, frequentavam a missa às 5 horas da manhã. “Nela aparecem principalmente as brancas empobrecidas, envoltas num manto de má qualidade, para não se exporem aos olhares desdenhosos das negras que aparecem mais tarde e entram altivamente ornadas de correntes de ouro e rendas.”
(As “joias de crioula” renderam outro grande livro, “Joias na Bahia dos Séculos 18 e 19”, de Itamar Musse Júnior, que conta com uma extensa coleção fotográfica.)
A sinhá preta é um personagem poderoso porque complica narrativas de ativistas. As negras prósperas no ápice da escravidão são uma pedra no sapato de quem acredita que “o capitalismo é essencialmente racista e machista” e que o preconceito é uma força determinante, capaz de impedir que indivíduos discriminados enriqueçam.
A teoria crítica racial, em voga hoje nas faculdades de humanas, enxerga o mundo pela lente das relações coletivas de poder. Nessa visão, houve na história uma divisão nítida entre opressores e oprimidos, nitidez que persistiria hoje. No entanto, como diz Risério, na história da Bahia “esse dualismo esquemático não encontra correspondência factual”.
Outra ideia que a sinhá preta abala é a da culpa coletiva pela escravidão. Na verdade, como se diz em sessões de terapia, “todos são culpados, mas ninguém tem culpa”. Se há um responsável pela crueldade escravista, não são exatamente os portugueses ou africanos que tiveram escravos. Muito menos os imigrantes europeus (cuja maioria chegou faminta por aqui no finalzinho da escravidão). A culpada é a época e seus valores diferentes dos nossos.
Ativistas do movimento negro não deveriam desprezar as lindas histórias de vida das sinhás pretas. O costume de tratar negros somente na voz passiva (“escravizados, humilhados, exterminados”) acaba por menosprezar o protagonismo deles na história do Brasil.
Como observou certa vez o historiador Manolo Florentino (que assina a apresentação do livro de Risério), é muito mais estimulante, para negros de hoje, imaginar que seus antepassados foram em alguma medida protagonistas de seu destino. Protagonizaram ações —ações dentro dos costumes da época, como a de comprar e alugar escravos.
Muitos ativistas e estudiosos militantes confundem a atividade do historiador com a de um promotor moralista que monta peças de condenação. As sinhás pretas oferecem a essas pessoas a oportunidade de enxergar o passado com mais maturidade e conciliação.

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