O que Lula pode fazer com os desencantos e ressentimentos da classe média

Se Lula acabar com a fome na última casa ainda sem comida, seus índices de aprovação não vão mudar muito. A aceitação do seu governo não depende das respostas aos programas sociais básicos para quem precisa comer.

O problema é que a classe média bem alimentada decidiu que não aceita seu terceiro governo. A classe média aprova Tarcísio de Freitas mais do que Lula e aplaude a matança da polícia do bolsonarista na Baixada Santista, porque não tá nem aí.

É maior o retorno político de quem autoriza a matar gente do que de quem manda matar a fome. Se melhorar a vida do povo, como vem melhorando. Se baixar a inflação, se reduzir o desemprego, não adiantará muito para Lula.

Se caçar todas as armas de bandidos fantasiados de caçadores e colecionadores, seu nível de aprovação pouco irá se alterar. Não muda nem se prender todos os grandes traficantes do país. E talvez nem se reduzir o preço da luz em 20%.

Ações e conversas propositivas não rendem mais como rendiam antes. O que rende e tem fácil assimilação é a ação destrutiva antissistema, consagrada pelo lavajatismo e aperfeiçoada pelo bolsonarismo. Vem rendendo muito agora na Argentina.

Não vai mudar nada se, depois de jogar o filé dos lucros da Petrobras para a Faria Lima, decidir atirar toda a picanha como bônus. A Faria Lima vai querer mais e pedirá os ossos da Petrobras.

Não resolve nem se conseguir mediar o fim da guerra na Ucrânia, ou se salvar os palestinos que restam em Gaza. Não adianta Lula dizer que Elon Musk nunca plantou um pé de capim no Brasil.

Só vai entender sua fala sobre o capim quem já entende tudo o que está acontecendo e o que Lula tenta dizer e fazer em seu terceiro governo.

As pesquisas que indicam aumento da desaprovação de Lula na verdade não estão captando uma percepção fora da realidade, por causa de uma distorção entre o que as pessoas vivem e, nas pesquisas, dizem viver.

As pesquisas captam a realidade vista pelo ponto de vista da classe média, essa que também contamina hoje, com seus ressentimentos e abatimentos, os sentimentos dos pobres em dúvida sobre melhoria de vida.

O Datafolha do final de março mostrou que a rejeição a Lula se acentua nesse contingente intermediário, vasto e nebuloso, porque assim é a classe média.

No segmento que ganha de dois a cinco salários mínimos (R$ 2.800 a R$ 7.000), de 19% do eleitorado, a avaliação negativa de Lula foi de 35% para 39%. Na faixa acima dessa, dos nos 12% da amostra que ganham de cinco a 10 mínimos (R$ 7 mil a 14 mil), saltou de 38% para 48%.

Bem abaixo deles, os pobres continuam com Lula, nem tanto fiéis apenas no Sul. Mas a grande imprensa e a classe média vão convencendo os pobres até de que, se não distribuiu lucros para os ricos que têm ações, a Petrobras agiu mal com os brasileiros.

E pobres passam a achar, e acham mesmo, que a Petrobras não deve garantir gasolina barata, mas lucros para a Faria Lima e para os donos de ações da estatal na Globo.

Assim como evangélicos remediados e pobres acreditam que Israel é um país cristão e que Bolsonaro, amigo de nazistas, é parceiro dos judeus e de Israel.

Lula pode estar sendo desaprovado por estar acertando ao reduzir pobreza, inflação e desemprego. Porque, para a classe média que o rejeita, essas melhorias favorecem mais os pobres.

E a competição com os pobres é o problema da classe média desde que o lulismo passou a ser efetivo e substantivo com os resultados dos outros três governos petistas.

A classe média lidava bem com utopias, e assim ajudou a construir o PT. Quando se viu com perda de poder econômico e de afirmação social e percebeu, ao mesmo tempo, que as classes subalternas subiam as escadas do avião, da universidade e dos restaurantes, aí a classe média se apavorou.

O que temos, segundo as pesquisas, é um agravamento dessa percepção de que o governo não oferece melhorias. Mas melhorias para quem?

Não há como contemplar, por maior que seja o esforço, a frustração e a queda de autoestima da classe média, essa que, como disse Paulo Guedes, viu a empregada doméstica viajando para Miami. Era, segundo ele, uma festa danada.

E ainda tem o fenômeno das igrejas. Tem a expansão da base de extrema direita no centro-oeste e no sul. E a sobrevivência, subestimada pelas esquerdas, da grande mídia hegemônica e mais articulada entre si (Folha, Globo e Estadão), para ser mais terrivelmente antilulista hoje do que foi nos governos anteriores.

Lula pode ter perdido a classe média, essa que está na origem do próprio lulismo, por não ter como lidar com seus desencantos, perda de sonhos e de perspectiva para filhos e netos. Não é a inflação da batata que atormenta a classe média.

É isso o que mostram as pesquisas. A degradação de um apoio que já existiu, mas não existe mais entre quem gostaria de ser dono de fato da Petrobras, não por causa do preço da gasolina na bomba, mas pelas ações na bolsa.

Mais empregos, gasolina sob controle, juro baixo para a casa própria e inflação baixa já não atendem as demandas da classe média. E ela é que manda nas pesquisas e expressa junto os efeitos dos humores da grande mídia, do poder neopentecostal e agora até da influência das afrontas do gângster Elon Musk.

3 thoughts on “O que Lula pode fazer com os desencantos e ressentimentos da classe média

  1. Moisés, você falou tudo sem pôr nem tirar eu como leigo sempre digo e falo isso. Não tem quem segura. Moro a 80km de Brasília e aqui só dá bozo e eu com o adesivo do lula até hoje no celular e na moto. Formosa GO 70 anos. Sou gaúcho de Ibirubá

  2. Moisés, o Lula está sendo influenciado pela Janja, que hoje é sua única conselheira política. Janja não deixa Lula fazer política, a não ser a politica de uma agenda inevitável para um presidente. Membros do Centrão menos radicais e dispostos a uma conversa e entendimento são completamente ignorados por Janja, que é uma espécie de ministra informal da Comunicação, da Casa Civil, da Educação e da Secretaria da Presidência – tudo junto.

    Lula não tem telefone celular e as ligações que ele recebe passam por ela primeiro, que não as repassa ao marido nos finais de semana (ver Estadão, Folha).

    Desde 2023 a situação é esta.

    É Janja que não deixa Lula demitir a péssima ministra da Saúde, que conseguiu a proeza de ser pior do que o Queiroga (não há vacina para gripe para todo mundo, e ela não se esforça nenhum pouco para a universalização da vacinação contra a dengue). Se não é para entregar o cargo ao centrão, então por que não entrega ao Humberto Costa ou a alguma outra pessoa competente? Porque seria “MACHISME”, com E no final, tirar a amiga da Janja.

    E aí vem a queda da popularidade: Lula não é mais o mesmo, além de não poder fazer política, diz coisas bizarras, faz piadas idiotas e fora de hora, se mete em assuntos que um anão diplomático como o Brasil jamais deveria se meter (suas falas sobre Israel não salvaram uma única vida palestina e fez sua popularidade derreter entre os evangélicos).

    Tudo isso tem relação com Janja, por ser ela a conselheira do marido em assuntos políticos e porque ele virou um velho babão gamado no brotinho.

    O que Lula deveria fazer para recuperar a popularidade? Imitar o Obama e não tentar imitar o Bolsonaro com piadas idiotas: ler os discursos (como ele fez no G20), evitar improvisos (ler discursos prontos até mesmo dentro de um sindicato e no MST), evitar provocações e polarizações; fazer política e colocar Janja para fazer obras de caridade (como Dona Ruth e a Micheque) ou cuidar dos cães e da casa (como a Dona Marisa).

  3. o senhor realmente falou isso? : “Lula pode estar sendo desaprovado por estar acertando ao reduzir pobreza, inflação e desemprego…”
    tá morando em que pais meu estimado?
    quer dizer que todo mundo precisa ser pobre, com fome, pra que tudo mundo venda sua primogenitura por um prato de LENTILHA né?
    se vc odia demais a classe media, tá FÁCIL saber qual é seu nivel social, mas parece que NÃO só social, TAMBÉM mental. e acredito que rico o senhor é NÃO.
    quando o senhor aprender ser honesto com seus “estudos”, suas pesquisas, palavras,naturalmente, vai ter vergonha de se identificar como um militante do governo atual.
    so pra o senhor lembrar, certeza absoluta que vai ser o ÚLTIMO goberno da esquerda neste PAÍS. chega de governos empobrecedores de NAÇÕES! .
    a classe MÉDIA tem direito se arrepender por ter apoiado governo BARBÁRIE atual. é só levantar a CABEÇA e apoiar gobernos que almenos garente sua seguridade, liberdade e propiedade privada.
    e viva a liberdade cara..o!
    boa noite. falou.

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