As ocupações

Participei hoje pela manhã de uma conversa com estudantes e professores da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da UFRGS, a Fabico. Falamos da ocupação, de jornalismo, vivências, resistência, democracia.

Eu disse que nunca fiz nada parecido com o que eles estão fazendo. Que a maioria dos jornalistas da minha geração também não fez. E que a mobilização dos estudantes já é vista para muito além das questões imediatas postas pelo golpe e atacadas pelas ocupações.

Vivi uma experiência que nunca vou esquecer ao conversar com os combatentes pela educação, pela saúde e pelas conquistas sociais e poder andar depois pelas salas ocupadas. O Brasil pós-golpe depende desses jovens, que não podem levar adiante sozinhos a luta contra os projetos da turma do Jaburu e seus cúmplices.

Eu sei, sem transferir responsabilidades, que dependo muito mais da vitalidade deles do que eles dependem de mim ou da minha geração. A História é feita pelos que ocupam as escolas e estão nas ruas.

Terei o orgulho de poder dizer mais adiante: eu estive lá na Fabico ocupada quando a democracia plena começou a ser restaurada.

O jornalismo-avestruz

jornais

As ocupações de escolas e universidades expõem mais um caso de negação da notícia pelos grandes jornais. Todos estão tratando do assunto com a mesma tática com que sempre trataram questões que os perturbam e devem ser evitadas, para que não incomodem governos e amigos: deixa assim que logo passa.

Mas não passa. As ocupações crescem em todo o país e são muito, muito mais do que um protesto contra as reformas pretendidas para a educação pela turma do Jaburu.

As ocupações são o primeiro grande movimento contra o golpe. É um ensaio de algo mais grandioso que pode estar vindo aí. E os jornais fingem que não é com eles.

O jornalismo-avestruz já agiu assim nas Diretas-Já e nos movimentos que levaram à queda de Collor. Mas naqueles episódios não havia internet.

O jornalismo brasileiro pode estar às vésperas de pagar um grande mico, se as ocupações se transformarem em um impasse nacional, com o aumento da repressão e da incapacidade de negociação do governo e do Judiciário.

A Escolinha do Professor Meirelles

Hoje ouvi A Voz do Brasil no rádio do carro. O locutor anunciou que era a nova Voz e que por isso iriam entrevistar ao vivo o ministro da Fazenda. Passei a prestar atenção.

E lá se veio o ministro da Fazenda com sua voz de locutor a comparar de novo os gastos do governo com os gastos de uma família. Meirelles disse o que se repete como mantra entre gente do governo e jornalistas amigos dos homens do Palácio do Jaburu: que, assim como as pessoas, os governos devem cortar despesas e adequar o que gastam ao que recebem.

Sabe-se que não é assim. Que não há como comparar despesas domésticas com despesas e investimentos do setor público. Qualquer aluno de economia sabe que essa comparação é emburrecedora.

O setor público não é uma família, é a estrutura complexa que assegura serviços e investimentos e cumpre também a tarefa de orientar a economia em geral e ajudar a corrigir desequilíbrios sociais.

Déficits (claro que sem grandes descontroles, como o caso gaúcho) são da natureza dos governos em todo o mundo, ou as demandas básicas e as prioridades não seriam atendidas.

Poucos, e a Alemanha é o melhor exemplo hoje, não têm déficits. Então, essa conversa de governo-família só ajuda a confundir ainda mais os desinformados.

O tal ajuste da PEC 241, o garrote nos recursos da saúde e da educação, é uma opção de governo para assegurar o pagamento de juros aos rentistas que vivem da renda paga pelo governo. Não tem nada que possa ser comparável à racionalidade doméstica de uma família.

Se tivesse, seria como se pai e mãe cortassem educação e saúde dos filhos para assegurar o pagamento de ganhos às aplicações financeiras.

Perdi meu tempo como aluno involuntário da Escolinha do Professor Meirelles.

Peraí

ocupação

Esta foto de Alicia Esteves, do site Vaidapé, é para aqueles cursos em que alguém diz e prova que uma imagem vale por mil palavras.

É do momento da chegada da polícia a uma escola de São Paulo – uma das centenas ocupadas por estudantes em protesto contra o desmonte da educação e as crueldades da PEC 241.

A foto não mostra o rosto da estudante. Nem precisa. O que mais se vê nesta imagem, sem ser mostrado, é o rosto da menina diante do jovem policial com cara de assustado-constrangido.

Vale a pena dar uma olhada no site:

www.vaidape.com.br/

A reportagem sobre as ocupações das escolas está nesta chamada, no centro da página:

“Alckmin faz de tudo para evitar nova

onda de ocupações nas escolas”