O fim do jornalismo que começou com Euclides

As demissões na Globo, que chegarão às outras corporações de mídia, mesmo que sem a mesma intensidade, não são consequência apenas da crise dos negócios nessa área.

É o fim de um modelo empresarial e profissional. O repórter deixa de ser a estrela de empresas de jornalismo na transição traumática para o mundo digital e de todo tipo de robô.

Grandes grupos de jornalismo podem estar deixando de oferecer o que sempre fizeram.

Folha, Globo e Estadão (e também as TVs do segundo time) terão mais gente de fora da empresa, de preferência comentaristas formados em Harvard e misturados a picaretas de direita, todos sentados numa bancada fixa, do que jornalistas nas ruas e nas redações.

O jornalismo clássico, no que tem de mais básico, virou um estorvo para empresas de jornalismo. Tudo será terceirizado e precarizado, na sequência da pejotização.

As crises das grandes fábricas e das montadoras chegam com força à linha de montagem das corporações de mídia. Os demitidos são veteranos integrantes da última geração do século 20 que vinha tentando fazer a passagem para a comunicação do século 21.

Outra coisa surgirá logo adiante, no lugar que eles ocupavam, sem que ninguém saiba que coisa será essa.

O jornalismo de campo e de longas distâncias, a reportagem com profundidade, as apurações investigativas, muitas vezes sem pressa, não existirão mais, com as exceções de sempre.

As corporações desistiram, por encolhimento de receita e mediocridade de projetos que pudessem fazer a transição para outros modelos.

Cumpre-se também nas corporações de mídia o que aconteceu com a indústria do século 20. Os fabricantes de carruagem não se transformaram nos novos fabricantes de automóveis.

É o que acontece com a indústria de carruagens da Globo. No jornalismo, é o começo do fim do que o repórter Euclides da Cunha iniciou no Estadão, com a cobertura de Canudos, e transformou em Os Sertões há 120 anos.

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Como homenagem a Euclides, o trecho de Os Sertões em que ele descreve as favelas de Canudos. São plantas que batizam um morro e que depois dariam origem à definição também aos morros cariocas:

“As favelas, anônimas ainda na ciência — ignoradas dos sábios, conhecidas demais pelos tabaréus —talvez um futuro gênero cauterium das leguminosas, têm, nas folhas de células alongadas em vilosidades, notáveis aprestos de condensação, absorção e defesa. Por um lado, a sua epiderme ao resfriar-se, à noite, muito abaixo da temperatura do ar, provoca, a despeito da secura deste, breves precipitações de orvalho; por outro, a mão, que a toca, toca uma chapa incandescente de ardência inaturável”.

Abaixo, um texto de Denise Griesinger, disponível no site da EBC, que explica a relação entre a favela baiana e a favela carioca:

“A origem do atual Morro da Providência remonta a 1897, quando soldados que combateram na Guerra de Canudos, na Bahia, e que sobreviveram àquele episódio foram trazidos para o Rio de Janeiro. Aqui, sem ajuda do governo, começaram a improvisar habitações na encosta do morro. O povoamento ficou conhecido como Morro da Favela, referência não só ao morro existente em Canudos e de onde os soldados atacavam os religiosos liderados pelo beato Antônio Conselheiro, mas também ao arbusto “faveleira” (Cnidoscolus quercifolius), comum no sertão baiano”.

No link, a íntegra de Os Sertões, de livre acesso:

http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bv000091.pdf

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