O TRUQUE DA EXTREMA DIREITA

Bolsonaro dá entrevistas exclusivas para a Record (deu uma hoje). E a Globo tenta contra-atacar com entrevistas exclusivas de Sergio Moro (vai apresentar uma amanhã no Fantástico).

Mas Bolsonaro criou uma armadilha para a Globo e para todos os jornais. Usando o truque de Trump, ele não convoca coletivas de imprensa, porque isso só dá incômodo, como aconteceu com o repórter da CNN hostilizado por Trump na Casa Branca.

O truque de Bolsonaro é falar direto com as pessoas por vídeos pelo Facebook. Como fez ontem, quando atacou a prova do Enem e a linguagem de gays e trans.

Trump escreve e usa o Twitter onde estiver, sem depender de assessores. Bolsonaro não sabe escrever e usa os vídeos.

Assim, obriga a Globo a divulgar o que ele gravar quase todos os dias em vídeos caseiros. Se a Globo esconder as falas, pode ser acusada de censura.

Se Bolsonaro fizer um vídeo neste domingo, e pode fazer, a Globo terá de divulgá-lo no Fantástico.

Bolsonaro, Trump e toda a direita conseguiram o que a esquerda tentou por toda a vida e fracassou: falar direto com o povo, sem intermediários.

Quando surge, pela internet e pelo WhatsApp, a chance desse contato direto de forma massiva, é a direita e não a esquerda que consegue usar melhor a ferramenta disponível.

Porque o que a direita quer dizer precisa apenas de meia dúzia de palavras. A esquerda ainda precisa de frases e frases para tentar transmitir o que defende, mesmo que hoje não tenha muito o que falar.

É dureza. Com o WhastApp, o Twitter e os vídeos no Facebook, Bolsonaro faz e acontece, sem intermediários, sem perguntas, sem cortes. Apenas como uma tradutora de sinais para surdos e mudos ao lado dele.

O eleito da extrema direita diz o que a classe média antiPT sempre quis dizer e ouvir e não tinha coragem de admitir. E fala o que, além da classe média, a ignorância de metade dos brasileiros absorve sem questionamentos. Sim, a ignorância.

Até quando? Até o dia em que as esquerdas se derem conta de que perderam a batalha da comunicação por omissão, por subestimarem a direita, por acharem que não precisavam dizer às pessoas o que elas nunca ficariam sabendo pela Globo, pelos jornais e pelas rádios dominadas pelo coronelismo paroquial.

Recuperar esse terreno, depois do golpe contra Dilma, da prisão de Lula e da derrota para Bolsonaro, não significa, como muitos pensam, amplificar a guerra do WhatsApp.

A guerra do Whats é tática e hoje só favorece a direita com suas frases curtas, a simplificação da informação, a produção da mentira e da difamação e a exacerbação da idiotia.

As esquerdas terão de entender que a saída estratégica para além da guerra tática de mensagens, como aconteceu na eleição, está na construção de uma comunicação alternativa forte, de massa, que supere a produção fragmentada de palpites no Facebook (como esse que vocês estão lendo).

A esquerda, incluindo partidos e sindicatos e setores progressistas do entorno, tem de produzir conteúdo, com estruturas que ofereçam um mínimo de resistência à comunicação hegemônica da direita.

Produzir informação, e não só proselitismo. Produzir e fazer circular informação como ação política de resistência. Como fazem os argentinos e os uruguaios.

Já fazemos isso de forma dispersa, com a bravura de combatentes de esquerda, inclusive no Rio Grande do Sul, mas é preciso mais. Estamos atrasados em tudo, inclusive na regulação dos meios, o que parece ser, mas não é outra história. Hoje, somos perdedores.

A direita está vencendo essa guerra há décadas. E agora Bolsonaro se apropria do meio e da mensagem e vence a Globo e as esquerdas.

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