Um duelo com pouco jornalismo


A Globo decidiu que vai acabar com a dinastia do jaburu. E a Folha anunciou que irá tentar desqualificar todas as informações da TV e do jornal dos Marinho. Isso é jornalismo ou é outra coisa? Pode ser outra coisa.

Primeiro, é preciso reconhecer que o Globo deu um furo ao anunciar o grampo aplicado pelo sujeito da JBS no homem do jaburu. Segundo, que se admita também, por óbvio, que a Folha acusou o golpe e passou a tentar desmontar a manchete do Globo.

Mas, apesar de muitos acharem que o centro disso tudo é um duelo do nosso melhor jornalismo, o que menos existe aqui é jornalismo de verdade, que remexa em suspeitas, provas e convicções de um jeito há muito tempo abandonado pela imprensa brasileira.

O furo não foi resultado de uma investigação do colunista Lauro Jardim. Alguém ligado a Joesley Batista ou o próprio Joesley repassou a informação ao jornalista, o que pode até ter forçado a divulgação do grampo pelo Supremo.

É mérito do colunista. Mas não há, em nenhum momento, investigação jornalística nesse caso. A Folha, quando reage, anuncia que manda ‘investigar’ a gravação e contrata um perito. Também não há nada que caracterize investigação na perícia de uma gravação.

Depois, a mesma Folha informa que um advogado da JBS teria sido treinado por uma delegada federal e por um procurador, para que Joesley soubesse o que fazer quando fosse delatar os comparsas.

Não há, até aqui, investigação de jornalistas. O jornalismo investigativo na Lava-Jato já era nulo. E agora, no caso da JBS, continuam produzindo informação como as cervejarias produzem cerveja sem álcool. É um jornalismo 0,0%.

A exaltação desse jornalismo, pelos que querem torná-lo protagonista da queda do jaburu-rei, é um truque de marketing. O jornalismo brasileiro da cobertura da corrupção vive há muito tempo da transcrição de delações e de vazamentos seletivos de gente de dentro da Lava-Jato.

O melhor repórter da Globo na guerra contra Lula foi o juiz Sergio Moro, que mandou para a TV a gravação com o grampo da conversa de Dilma-Lula.

Não há nem mesmo a investigação mais básica, ou a Folha considera que investigou alguma coisa ao descobrir que os pedalinhos do sítio de Atibaia tinham os nomes dos netos de Lula? E que havia um barco de lata mandado comprar por dona Marisa Letícia?

A briga da Globo com a Folha envolve outras vaidades e outros interésses. O jornalismo aqui é o de menos. O telespectador e o leitor não podem cair na armadilha de que estão sendo contemplados com o resultado de esforços de reportagem. Não estão.

O que a Globo, na TV e no jornal, e a Folha vêm tentando dizer é que continuam relevantes como repassadoras de informações que alguém deseja divulgar. E de fato continuam. Os dois grupos continuam informando o que recebem empacotado, sem grandes procuras.

Este é o jornalismo brasileiro, prestativo e preguiçoso, envolvido agora num duelo de posições pró e contra o jaburu-rei que um dia serão melhor decifradas.

A Globo tem apostas para mais adiante e por isso pisoteia a farsa que ajudou a erguer? E a Folha, sem nada na manga, tenta prolongar o golpe agarrada à direita dos velhos tucanos paulistas? Um dia saberemos, com a ajuda, quem sabe, do verdadeiro jornalismo investigativo.

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