A BENEVOLÊNCIA COM OS MORTOS

Dos mortos, que só se fale de bem. Ou no original em latim: “De mortuis nihil nisi bonum”.

A frase, sempre repetida nas tentativas de proteger algum morto exposto a controvérsias, seria de Quilão de Esparta, um dos sete sábios da Grécia.

Pois morreu Rubem Fonseca, um dos maiores escritores brasileiros, mas também um dos intelectuais formuladores da retórica que disseminou, por panfletagem disfarçada de reflexão, o terror anticomunista na ditadura.

Só vão falar coisas boas de Fonseca, porque foi de fato um dos grandes. Mas não dá pra esquecer a face sombria de quem ajudou os militares e os empresários a organizarem a propaganda do autoritarismo.

Como o momento é muito semelhante ao de um tempo sombrio que vivemos no século passado, republico abaixo um texto que publiquei dia 9 de fevereiro aqui no blog, quando a obra de Fonseca foi censurada pelo bolsonarismo em Rondônia.

RUBEM FONSECA E OLAVO DE CARVALHO
O escritor Rubem Fonseca, autor de 18 dos 43 livros considerados perigosos pelo governo de Rondônia, trabalhou para a ditadura. E trabalhou muito, em tempos analógicos, numa área muito cara hoje aos tempos virtuais da propaganda do bolsonarismo.

Fonseca fazia propaganda. Produzia textos para o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais, o IPES, uma organização mantida pelo alto empresariado. Ajudava a disseminar orientação ideológica misturada a informações que induziam a população ao terror e ao pânico.

Se os milicos não agissem, o comunismo tomaria conta do Estado, das propriedades e das vidas. Fonseca era muito ligado ao poderoso Golbery do Couto e Silva e respeitado pela capacidade de instigar e refletir como antiesquerdista. E já naquele tempo, como ficcionista, também foi censurado por seus antigos amigos de golpe.

Hoje, as estruturas do bolsonarismo dispensam essa sofisticação. Em substituição aos intelectuais reacionários requisitados pelos militares para produzir pregações com algum fundamento, hoje temos os amigos do Carluxo trabalhando na disseminação de fake news e besteiras.

Estão certos os que disserem que Fonseca foi um grande escritor, com texto cortante, talvez o mais afiado da literatura realista de exposição da violência dos anos 70. A escrita seca e a narrativa direta fizeram escola, principalmente em contos.

‘Feliz Ano Novo’ e ‘Lúcia McCartney’ são livros decisivos para a compreensão de um tempo em que a bandidagem, os bacanas e as ditas deformações sociais tinham outro perfil. É literatura de primeira. Em 1994, a Companhia das Letras reuniu suas histórias curtas na antologia Contos Reunidos.

Os milicos gostavam de Rubem Fonseca como colaborador anticomunista (também foi delegado), mas não como escritor, porque o consideravam um depravado interessado apenas em assassinatos, sangue, sexo e misérias humanas. O bolsonarismo o trata agora da mesma forma.

A extrema direita não faz concessões aos seus, quando se sente ameaçada por expressões que não controla, como a arte que contradiz ideologias. Fonseca era um funcionário prestativo pró-ditadura, mas transgressor como artista.

Uma grande diferença entre a turma que trabalhou com certa discrição para a extrema direita lá nos anos 60 e 70 é que os milicos e os empresários tinham um Rubem Fonseca, e Bolsonaro e seus milicianos têm um Olavo de Carvalho.

2 thoughts on “A BENEVOLÊNCIA COM OS MORTOS

  1. Sou a Luciana, amiga do carlão. Te conheço pessoalmente. estudei o rubem fonseca no mestrado e doutorado. lamento profundamente que na morte de um grande escritor se releve mais suas falhas e sua canalhice política do que a força contundente de seu texto, capaz inclusive de fazer ver a opressão da dituadura como nunca se tinha visto. a foto do olavo de carvalho junto é um acinte. não sei se foi escolha tua. horrrível. me sinto pessoalmente ofendida. um autor merece ser lido pelo legado da sua escrita. é mais fácil pegar as notícias da vida, são só informação. mergulhar no texto dá mais trabalho, exige entrega e muito tempo. é desse universo de rebeldia e transgressão, do cobrador e do assaltante de feliz ano novo, por ex, que se deveria falar. a morte exige um mínimo de cuidado. o walter benjamin já dizia que a narraçao tinha ficado comprtometida na era da informação. boa parte do que foi dito ontem confirma isso. textos apressados e tremendamente injustos com um gigante. me desculpa o tom, estou mesmo muito decepcionada com o jornalismo cultural que se faz nesse país de trevas. muito aquém da necessidade. abraço.

  2. Luciana, entendo seu sentimento, mas o texto é jornalístico, não uma tese onde se faz um recorte da história para estudo quase hermético.
    O jornalista Moises Mendes acertou a mão no texto.
    Inicia indicando qual “regra” estaria quebrando para passar aos leitores informações que NÃO poderiam nunca serem desconsideradas. Seria uma omissão imperdoável quando se propõe a fazer um perfil do personagem.
    Sem julgar, informou as atividades que Rubem Fonseca escolheu fazer nos tempos da ditadura militar.
    Destacou obras do autor, dando a elas o seu devido valor atribuído na literatura brasileira.
    A comparação com aquele outro sujeito serviu para evidenciar os tempos decadentes que vivemos, onde já tivemos um Rubem Fonseca como referência letrada de um governo ilegítimo, e hoje temos UM pseudo qualquer coisa como identidade intelectual desse esdrúxulo governo que ora nos atormenta.

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