A BRAVURA DAS ARGENTINAS CONTRA OS CRIMES SEXUAIS DOS MILITARES

Os argentinos nos ensinam a todo momento o que deve ser feito para que um país se livre da ameaça da volta ao poder de um grupo de militares amontoados na garupa de um Bolsonaro.

Eles remexem nas feridas da ditadura, para lidar com seus traumas e buscar a reparação e para que os criminosos não fiquem impunes.

A Argentina envolve-se agora com mais uma situação dolorosa. Chegou ao desfecho a decisão de três ex-presas políticas ligadas aos Montoneros de denunciar violências sexuais sofridas na prisão.

Os violentadores, os oficiais Jorge Tigre Acosta e Alberto González foram condenados esta semana pelo Tribunal Oral Federal de Buenos Aires a 24 e a 20 anos de prisão.

Nunca antes torturadores e assassinos argentinos haviam sido condenados por crimes sexuais. As denúncias foram feitas por Silvia Labayrú (foto), Mabel Lucrecia Luisa Zanta e María Rosa Paredes, que estiveram presas nas masmorras da Escola de Mecânica da Marinha (ESMA) entre 1977 e 1978.

A primeira pergunta, formulada principalmente pela extrema direita, é esta: mas só agora, mais de quatro décadas depois? Primeiro, o que aconteceu agora foi a condenação, porque as denúncias existiam desde 2014.

E por que então só em 2014? Porque são elas, as vítimas, que sabem o que as trouxe até ali em silêncio. Por medo de represálias, pelo temor da incompreensão moralista da sociedade, por vergonha, porque se sentiriam violadas pela segunda vez, agora publicamente, e pelo esforço para ser forte e lidar com o horror como segredo íntimo.

Só elas sabem por que só agora, e não é isso o que importa. O que interessa é: ainda bem que agora ficamos sabendo mais da violência dos militares argentinos contra as mulheres que eles mantinham na cadeia, enquanto também caçavam seus maridos, filhos, irmãos, mães, pais.

Perseguiram, calaram, prenderam, torturaram, mataram, promoveram desaparecimentos, apropriaram-se dos filhos das mulheres encarceradas que nasciam nas prisões e violentaram jovens submetidas a todo tipo de tortura.

A psicóloga Silvia Labayrú conta que, mais do que testemunhas (que dificilmente existem), o que elas tinham era a verossimilhança dos seus relatos.

Elas tiveram como provar com suas verdades que foram abusadas na prisão. Não foram violentadas, como disse Silvia ao jornal Página 12, com revólveres na cabeça, mas com a violência de quem tinha o domínio absoluto da vida da encarcerada.

González e Acosta eram criminosos famosos e já haviam sido condenados à prisão perpétua por crimes de lesa humanidade, como torturas e desaparecimentos.

É interessante que, no momento de revelar o que aconteceu, para que a vítima consiga lidar com a violência sofrida, e não só buscar a punição do abusador, apareçam personagens aparentemente surpreendentes.

Também são protagonistas do drama das mulheres alguns dos próprios camaradas de luta das encarceradas, que as reprimiam porque elas decidiram falar.

Foi o que aconteceu, bem antes dos três casos investigados agora, com denúncias públicas feitas por Sara Solarz de Osatinsky. Sara foi a primeira a relatar, nos anos 90, abusos sexuais cometidos pelos militares.

Mas para a Justiça machista a violência sexual era parte das torturas, e não um crime específico contra as mulheres e, possivelmente, também contra homens que decidiram não falar ou morreram antes de poder contar o que sofreram.

Silvia lembra que, quando Sara, a Quica, denunciou o sequestro de bebês de desaparecidos e as violências sexuais na prisão, muitos companheiros dos Montoneros disseram que ela deveria ter preservado a memória e a honra do seu homem.

Quica vivia com Marcos Osatinsky, líder guerrilheiro das Forças Armadas Revolucionárias. Ela teve dois filhos, de 18 e 15 anos, assassinados pela ditadura.

E Marcos foi morto a tiros em Córdoba, em 1975, depois de ser retirado da prisão, o Cárcere dos Encausados, atado ao para-choque de um carro e arrastado pelas ruas da cidade.

Quica morreu em novembro do ano passado, aos 85 anos, em Genebra. Silvia está com 65 anos. Contar o que sofreu foi doloroso, mas é o que está feito, e os dois abusadores foram condenados.

Foi a sua deliberação íntima que ajudou a levar ao desfecho inédito da condenação e da exposição pública das violências sexuais cometidas pelos ditadores e seus prepostos.

Os argentinos têm a defesa das suas memórias contra a repetição do terror, numa luta liderada sempre pelas mulheres. Há mais casos de abusos e estupros em investigação.

Não há a mínima chance de a Argentina ver os violentadores de Silvia Labayrú, Mabel Lucrecia Luisa Zanta e María Rosa Paredes fora da cadeia, onde os dois certamente irão morrer.

No Brasil, torturadores e assassinos da ditadura, que nunca foram presos, são promovidos ao posto de marechal, mesmo depois de mortos.

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