A PLATEIA E A CENSURA

Fiquei sabendo pelo site Coletiva.Net e pelo meu amigo Claudemir Pereira que o jornal A Plateia, de Livramento, deixa de circular todos os dias e vira semanário.

A Plateia foi o maior jornal do interior do Estado em tiragem nos 60 e 70. Nos anos 70, trabalhei na sua redação da Rivadávia, quase na fronteira com Rivera, e ali enfrentei, naquele mezanino mágico, os telefonemas anônimos da Polícia Federal com os comunicados de censura a determinados assuntos.

Eles ligavam, não davam o nome, e quem atendia assumia o compromisso de passar a ordem adiante, sem fazer perguntas. Eu mesmo fui chamado à PF para um depoimento porque havia escrito a palavra ‘porra’ numa coluna à la Pasquim que eu e João Newton Alvim escrevíamos no jornal. Tudo era motivo para censura e ameaças.

Vivi o drama do jornal quando prenderam o chefe de redação, Nelson Basile, que havia debochado de um delegado da PF que estava indo embora. O jornalista pegou um táxi e saiu a distribuir panfletos à noite. Foi dedurado por alguém, a PF foi buscá-lo em casa de madrugada e ele ficou dois dias em cana.

Prendiam e espalhavam o terror por qualquer motivo. Mas foi A Plateia dirigida por João Afonso Grisolia que enfrentou uma determinação da PF, vinda de Brasília, para que não se publicasse nada sobre a meningite, em 1974.

Num final de tarde, eu recebi na redação o telefonema de um agente determinando a censura. O surto havia sido acobertado pela imprensa na época por ordem da ditadura.

Me lembro de transmitir a informação a Grisola e Balise. Os dois se encerraram na sala da direção, e Grisolia saiu dizendo: vamos publicar, vamos publicar. Eu tinha 20 anos e estava assustado.

Grisolia e Basile enfrentaram os homens e publicaram na capa uma foto da fronteira com uma tarja: FECHADA. O governo havia fechado a fronteira, por causa da epidemia, mas não conseguira censurar o jornal. Eram tempos complicados.

Hoje, mo Brasil da febre amarela, enfrentamos um estado de exceção, diferente em muitos aspectos daquele tempo, mas também assustador. A estrutura militar foi substituída pelo Judiciário como lastro do golpe.

Desejo que A Plateia resista, com a edição impressa dos fins de semana, e faça uma boa transição para a versão online. Sorte, Kamal Badra e Duda Pinto.

(A censura da ditadura e a manipulação de dados fizeram com que nunca o Brasil ficasse sabendo quantos morreram de meningite em 1974. Só em São Paulo teriam morrido cerca de mil pessoas.)

No tempo da Gazapina

gazapina

Até os cães viviam sob suspeita na fronteira Livramento-Rivera em 1974. Brasil e Uruguai estavam sob ditaduras. Mas o mundo de sombras não era apenas dos assustados, mas também dos atrevidos.

Eu tinha 21 anos, era repórter da lendária A Plateia.Durante muitos meses, todas as noites, aí pelas 23h, fechávamos a edição e íamos beber em Livramento ou Rivera, eu e meu chefe, o Nelson Basile.

Basile era o que se chamava de secretário de redação, o chefe geral do jornal. O cara que datilografava, em no máximo três tentativas, um título de duas linhas com exatos 26 toques em cada linha.

Quando acertava na primeira tentativa, sem nenhuma palavra inútil no título, ele gritava da mesa, na entrada da redação, no mezanino de um prédio histórico da Rivadávia Correa:

– Mais um de primeira!!! E semmm subterfúgios!!!

No inverno de 1974, em crise de asma, não fui trabalhar por dois dias. Numa noite, Basile saiu do jornal sozinho, com um pacote sob o braço, e foi para um dos bares da cidade.

Bebeu Gazapina (a cerveja de Livramento, bem brabinha) até por volta da meia-noite, pegou um táxi e saiu pelas ruas a distribuir o que havia no pacote.

Eram panfletos que diziam: fulano, fulano, o povo todo arde, por que tu só vais hoje, por que tu te vais tão tarde?

Basile jogava os papeis pela janela do Fusca, no centro, nas periferias, na divisa com Rivera, e assim comemorava a transferência de um delegado da Polícia Federal para outra cidade.

Foi dormir alegre como um adolescente que fizera uma arte. De madrugada, os homens do delegado foram buscá-lo em casa.

Suspeito que ele tenha esperado a chance de sair sozinho aquela noite para não me comprometer ao espalhar os panfletos contra o delegado.

Ficou dois dias preso em um quartel. Era alegre, falante, com um humor fronteiriço permanente. Reapareceu na redação calado e ficou mudo por dias. Foi triste ver o Basile abatido.

Mas era do jogo. Ele desafiara a ditadura e perdera, aquele episódio pelo menos. Sei apenas que o inquérito não resultou em nada além do susto. O jornalista não tinha nenhuma ligação com qualquer militância de esquerda. Era apenas um atrevido.

Por que conto isso agora? Porque dia desses falei do meu chefe Nelson Basile, quando da morte do jornalista Danilo Ucha, e lembrei dessa história.

Convivi com Basile por um ano e meio. Aprendi naquela redação como se tivesse trabalhado em A Plateia por uma década.

Se Basile ainda estivesse vivo, com ele eu tomaria até Gazapina de novo, na Cueva ou no Palacinho. Com o Basile na mesa, a Gazapina virava a melhor cerveja do mundo.

Esses seis delegados da Polícia Federal de Curitiba, da equipe da Lava-Jato, que faziam militância descarada pelo Facebook para Aécio, na eleição de 2014, enquanto destratavam Lula e Dilma, precisavam mesmo é de um Nelson Basile.

Grande Ucha

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Me despedi ontem do jornalista Danilo Ucha sem conversar com ele. Ucha foi assunto na mesa de uma confraria que se reúne todo mês.
Estávamos Mario Marcos de Souza, Mauro Toralles, o Boró, Nilson Mariano e eu comendo costela no Bar do Beto da Sarmento, quando Ucha surgiu de repente como assunto principal na mesa. Falamos dele, e só de bem, por um bom tempo.
Ucha morreu na madrugada de hoje, aos 73 anos. Era da geração de ouro de Livramento, que produziu nos anos 70 um dos maiores times de jornalistas do Estado.
Ele, os irmãos Osmar e Riomar Trindade, Elmar Bones, Kenny Braga, Jorge Escosteguy, Nelson Basile, Arthur Borba, Waldoar Teixeira, o Rajá, Wolmer Jardim e João Newton Alvim (esses dois eram de Uruguaiana mas fizeram fama em Livramento). Claro que esqueci muitos outros.
Gosto de me exibir e dizer que, nos anos 70, fui repórter de A Plateia, o jornal que ajudou a formar esse pessoal e circula até hoje.
Também trabalhei com Danilo Ucha na Zero. Ele era daqueles jornalistas que podem dizer: não sei o que não fiz na vida.
Ucha está sendo velado no Cemitério São Miguel e Almas e será sepultado amanhã às 11h.