Humor reaça

Fico sabendo que o Pânico na TV vai acabar, quando achei que já tivesse acabado. Toda vez que tentei ver qualquer programa de humor na TV fiquei constrangido com o reacionarismo. Se fosse um reacionarismo com qualidade, mas…
O humor na TV brasileira é pré-Costinha. Um país que enfrenta um golpe e que tem personagens da direita que são caricaturas ambulantes e que mesmo assim não consegue fazer humor político tem mais é que entrar em pânico.
Os humoristas de estúdio no Brasil são mais patéticos do que a política. Ah, mas tem o Mister Brau do Jorge Furtado. Aí é outro humor, é outra conversa.
(Não venham com a história de que o poder não deixa fazer humor. O humor sobreviveu até à ditadura, inclusive na TV. O que aconteceu é que há muito tempo os humoristas brasileiros foram para a direita, o que deve ser inédito no mundo. O Brasil ainda ri de piada de índio, negro e pobre.)

A direita está em surto

Está correndo mundo mais uma história contra o Rio Grande do Sul, a da prisão do bailarino Igor Cavalcante Medina, em Caxias do Sul. Todos sabem que no sábado Igor foi preso pela guarda municipal e sedado, porque estaria em surto psicótico.
O bailarino apenas fazia uma performance na rua. Mas a Síndrome Punitiva de Sergio Moro está se disseminando. Denunciam, acusam e julgam quem for perigoso. Igor foi julgado na hora, sem provas, mas com muita convicção: é louco e está surtado. Peguem.
Foi sedado, levado à força para a ambulância e internado num hospital. E liberado somente oito (OITO) horas depois. O pior é que o bailarino só foi considerado apenas um bailarino, sem qualquer distúrbio, OITO horas depois.
Igor conta que tentava falar com seus algozes e estes diziam que nem ele sabia que aquilo não era arte, mas loucura. Os guardas (acionados por quem?) acabaram por contagiar o hospital. E todos queriam segurar o louco.
O golpe enlouqueceu o Brasil. A direita está surtada e está fazendo surtar quem estiver por perto. A possível volta de Lula transtornou a direita. A democracia precisa sedar a direita com mais uma derrota. Eleição neles. Goela abaixo.

Cada um com seu delírio

Está bem identificada, pela obviedade, a inspiração do procurador Deltan Dallagnol para as suas 100 medidas contra a corrupção. Dallagnol parece se apresentar, em versão enviesada, como o Martinho Luthero do século 21.

A Justiça poderá finalmente retomar, sem escamoteios, seus laços com a religião. Dallagnol vê a reparação justiceira como uma questão de fé. Claro que Luthero não merece.

 

O mundo subterrâneo do Judiciário

A Folha tem boas ideias executadas pela metade. Essa pauta ‘investigativa’ de hoje sobre as ligações partidárias da família do desembargador Rogério Favreto, por exemplo, deveria ser completa.
Favreto, que eu saiba, não tem obsessões justiceiras. Por que a Folha não faz a mesma pauta sobre as ligações subterrâneas de outros juízes dos mais variados tribunais, inclusive a nossa mais alta Corte, para que o leitor saiba bem em que lastro se sustentam os punitivistas seletivos que proliferam no Brasil? Inclusive no Ministério Público.
A Folha e todos os grandes jornais, com suas fabulosas equipes, poderiam descobrir, por exemplo, por que o ministro Luis Roberto Barroso disse esta frase, apontando o dedo em direção a Gilmar Mendes: “Vossa Excelência muda a jurisprudência de acordo com o réu. Isso não é Estado de Direito, é estado de compadrio. Juiz não pode ter correligionário”.
Que história é essa de compadrio? Mudar jurisprudência? Juiz pode ter correligionários? Só se forem de direita? A Folha precisa fazer esta pauta. Pode começar pelos nossos juízes mais ‘liberais’, esses que andam muito quietos.

Os amigos, os filhos, as mães…

A Folha mobilizou dois repórteres (e quantos editores?) para descobrir que a mãe e uma irmã do desembargador Rogério Favreto, do Tribunal Regional Federal da 4ª Região, em Porto Alegre, foram filiadas ao PT. E que o próprio Favreto também foi. Nada é informado sobre as ligações políticas dos outros desembargadores.
A longa reportagem é publicada hoje, em tom de devastadora descoberta macartista. Por que tanto esforço? Por que Favreto é voz dissonante no Tribunal em relação a desmandos do juiz Sergio Moro, que o ministro Teori Zavascki já havia apontado. Mas Zavascki morreu em acidente de avião no dia 19 de janeiro.

Verdade Tropical

Publico aqui um trecho do livro Verdade Tropical, de Caetano Veloso, porque o texto que publiquei no FaceBook rendeu muitos comentários e manifestações de curiosidade. O trecho aborda, no livro publicado em 1997, temas que finalmente eram tratados sem frescuras, como a sexualidade, o debate sobre gênero, os gays, a bissexualidade.

O mundo involuiu (e mais ainda no Brasil), e as questões tratadas por Caetano são as mesmas que acionam hoje o ódio e o fascismo pós-golpe.

O texto é longo, mas é impossível não querer mais ao final da leitura, porque é confessional e revelador da valentia de Caetano. Republico porque a Companhia das Letras vai reeditar o livro (que é uma mistura de memórias com ensaios), e eu acho que assim contribuo para que mais leitores comprem essa obra atrevida, quase ignorada há 20 anos.

E também porque esse texto está disponível na internet, ou seja, não cometo nenhuma pirataria. Sei que o livro não tem essa missão, mas espero que cumpra também a tarefa de responder com arte aos cretinos incomodados com as diferenças e em especial os que têm agredido Caetano.

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Trecho

“A causa da superação da hipocrisia sexual não podia deixar de ocupar posição privilegiada para mim entre os temas da onda libertária dos anos 60. E a instância da homossexualidade não pode deixar de desempenhar aí um papel central.

Oferecendo o modelo ideal do conflito entre autenticidade e dissimulação, sem poder ser enquadrada entre as perversões que implicam crime ou negação da liberdade alheia, desenhando com clareza a interrogação fundamental sobre a sexualidade humana, a homossexualidade provou ser o ponto crucial da questão referente à liberdade do indivíduo. Não por acaso ela está na mira de fogo dos Estados totalitários, mesmo dos esboços de futuros Estados totalitários – e das nostalgias de um passado de controle social absoluto. Mas não é por eu ter chegado à consciência disso que o tema da homossexualidade esteve, está e estará sempre comigo. Eu diria antes que é por ele ter estado sempre comigo que me foi tão luminosa a captação dessa consciência.

A dubiedade que já intrigava os garotos no ginásio e que eu próprio tematizei em minha figura pública a partir dos anos 60 expressa conteúdos profundos relativos tanto à natureza dos meus desejos quanto à escolha de papéis. Em Praticamente Normal, Andrew Sullivan narra como, aos dez anos, ao ouvir de uma menina a pergunta “Você tem certeza de que não é uma garota?”, ele se deu conta do significado de sua diferença. Assim como ele, muitos amigos que fiz desde a infância sentiam-se arrebatados pela presença de pessoas do seu sexo. De modo tão definido que, neles, a polaridade macho/fêmea mais se reafirma do que se esvanece. Não assim comigo.

Por um lado, apesar de ter tido desde a pré-adolescência paixões intensamente sexualizadas por meninas (e a princípio exclusivamente por meninas), sei que nem a mulher nem o homem são, em princípio, antieróticos para mim; por outro, estou seguro de que não me teria negado a entregar-me de corpo e alma a uma história de amor com um rapaz por quem também me apaixonei aos dezenove anos, caso ele estivesse igualmente aberto afetivamente para mim – e não tenho sombra de dúvida de que tal decisão, se tomada com limpidez, teria recebido apoio carinhoso de meus pais, velhos interioranos católicos de vida conjugai sem mácula que impuseram fundo senso de integridade mas nenhum papel obrigatório (de qualquer ordem: profissional, social, sexual) a seus filhos.

Sei que o impulso amoroso pode revelar-se orientado tanto para homens quanto para mulheres, mas não indiferentemente. Porque essas inclinações são, a rigor, excludentes. E não há como pôr na balança esses dois pesos.

Às vezes os homossexuais são acusados de não admitir a veracidade do desejo heterossexual. Mas no fundo todos sabem que há uma diferença abissal entre alguém sentir o que todos esperam que sinta e alguém não poder deixar de sentir o que lhe é em princípio vedado. Freud, único esboço de filósofo do sexo, usou a expressão de Stendhal para cunhar a frase-chave sobre o assunto: “A perversão é, aos olhos dos outros, uma promessa de felicidade”.

Nessa ótica, todos os homens que se gabam de desejar as mulheres que passam são suspeitos, enquanto aqueles que têm de sucumbir à força de um desejo que eles mesmos não aprovariam só podem causar fascinação e inveja. Antônio Cícero chamou minha atenção para o fato de que, quando, no filme Victor/Victoria, Julie Andrews e Robert Palmer (ela fazendo um falso travesti e ele, um homossexual autêntico) cantam os versos “We’re the kind of people other people would like to be”, eles, por meio da canção singela de Henry Mancini, tocam esse ponto com graça.

Uma mulher que para mim é uma deusa do amor disse, surpreendendo-me mais uma vez com seu estilo ligação-direta: “Sexo oposto é o que está na minha frente”, não querendo dizer com isso que ela traçava o que aparecesse diante de si, mas que quem quer que chegasse a estar com ela num frente-a-frente sexual genuíno quem quer que tivesse chegado a ser objeto do seu desejo e motor do seu prazer – era um exemplar do sexo oposto ao seu. Não se pode imaginar um modo mais vivido de se confirmar a frase de choque lacaniana que reza que “relação homossexual não existe”.

A ideia de bissexualidade é muito frequentemente usada para mascarar tanto homossexuais pouco corajosos quanto homófobos envergonhados. Tendo a rejeitar o conceito. Muitos conservadores censuram a ideia de “opção” sexual, como se os que têm de discutir o assunto (os “normais” não precisam) julgassem tratar-se de um problema simples de liberdade de escolha. Não conheço nenhum homossexual que diga que “escolheu” ser assim. Até aqui, todos tiveram que passar por uma profunda rejeição de sua própria inclinação. Quer se a explique pelo Édipo ou pelo hipotálamo, pela genética ou pela reencarnação, a homossexualidade se apresenta como um dado. Os chamados bissexuais, no entanto, parecem estar diante de uma situação que permite escolha livre.

Na verdade, não o estão mais do que ninguém. O que eles estão na posição de poder ver é que a heterossexualidade precisaria justificar-se tanto quanto o homoerotismo. Quando eu tinha 23 anos me aplicaram o teste Rorschach, e o resultado, quanto a isso, foi “homossexualismo latente; identificação feminina; idealização da figura da mulher”. O teste foi feito amadoristicamente por uma amiga estudante de psicologia. Ela própria era homossexual (não sem conflito), mas me disse que meu teste havia sido interpretado por uma sua professora que desconhecia a identidade do testando. Acreditei.

De todo modo, achei que o diagnóstico fazia sentido. Angustiou-me um pouco – e por pouco tempo – pensar que talvez isso significasse que minha vida amorosa se sustentava numa espécie de auto-engano. Esse pensamento não resistiu à força espontânea do meu laço sexual com Dedé. Mas o que realmente me surpreendeu no resultado desse teste foi a ênfase dada ao talento para a música.

Se eu não desconfiava da isenção de minha amiga psicóloga por causa do diagnóstico quanto à sexualidade, considerava francamente suspeito que o teste privilegiasse meu pendor musical. Desde pequeno tive certeza de que meus talentos plástico e verbal eram superiores à minha musicalidade: desanimei-me da pintura, mas sempre cri que daria um grande cineasta. Sem estar tão seguro quanto à minha inclinação sexual, penso igualmente que eu daria um grande veado. Convivo com pessoas que são fenômenos de musicalidade e que, no entanto, não conseguem extrair da música um quinto do que eu consigo; por outro lado, inúmeros heterossexuais indubitáveis têm muito menor rendimento com as mulheres do que eu. O teste Rorschach coincidiu com o destino no caso da música, embora os dois desmentissem minha intuição; no caso da sexualidade, o teste disse o oposto do destino – e minha intuição nunca chegou a decidir com qual concorda. Nos dois casos, considero-me mais bem-sucedido do que mereço.

Assim, aproximei-me, como figura pública, do que Andrew Sullivan chamou de clima “ubíquo, vagamente homoerótico” dos “grupos pop masculinos comuns naquele tempo”, e hoje pondero que as sugestões de androginia, polimorfismo, indefinição, que coloriam a atmosfera da música popular pós-Beatles (pós-Elvis?), seguem sendo uma ameaça à estabilidade das convenções que sustentam muitos atos opressivos. A nova compartimentalização que se seguiu a essa orgia dos sinais era inevitável. Todos os que eram “vagamente homoeróticos” e não se declararam homossexuais foram sendo assimilados como heterossexuais de uma nova era. Inclino-me a rejeitar tal simplificação.

Tendo tido uma frequência muitíssimo mais alta de práticas heterossexuais do que homossexuais (inclusive dois casamentos vividos com sincera tendência monogâmica), poderia dizer, a esta altura da vida, que me defini como heterossexual. Mas que nada. De todo modo, não há por que obstinar-se na busca de uma nitidez na orientação sexual se ela não se apresenta como evidência espontânea. O que importa é ter os caminhos para o sexo rico e intenso abertos dentro de si.

No final dos anos 60, era considerado mais progressista dificultar a definição do que dizer-se homossexual: Mick Jagger sobre o palco negava a pertinência daquilo que hoje se chama outing, pois sugeria a liberação do potencial homoerótico latente em todos e em cada um. Natural que, à medida que esse tipo de comportamento foi passando a ser interpretado socialmente como tranquilizador sinal de heterossexualidade, os que queriam dizer-se abertamente homossexuais adotassem sinais exteriores cada vez mais distantes dessa receita, não raro apelando para os modelos tradicionais de masculinidade.

É claro que muitos conteúdos essenciais a certos grupos e indivíduos (sadomasoquismo, culto narcísico do Macho – pelo lado dos homo; assimilação da afirmação social das mulheres, distensão dos limites do modelo viril, nostalgia do macho bárbaro europeu – por parte dos hetero) entraram em jogo como fatores relevantes. De todo modo, tornou-se possível – e apesar de David Bowie, com sua estilização calculada da androginia (e sua confissão de “bissexualismo”, logo negada), ter se tornado uma figura dominante por bom período – ouvir-se com naturalidade que alguém como Axl Rose, com esse nome, aqueles cabelos e aquela saia escocesa, tenha dito não sei que palavras agressivas contra os homossexuais (o que é simétrico à hostilidade aos negros exibida por garotos brancos que, no fim das contas, refazem indefinidamente o rhy thm&blues).

 

 

O populista da maconha

A Folha deu um espaço gigantesco para uma entrevista com Alexandre de Moraes. É de ler para se divertir com o que tem de pensamento básico, maneiroso, quase raso.
É uma entrevista com opiniões banais, com os clichês do equilíbrio entre os poderes e a politização da Justiça, que um primo do seu Mércio defenderia com mais brilho aqui na Aberta dos Morros em conversa de boteco.
Mas a parte mais interessante é a chamada de capa em que Moraes condena o populismo na Justiça.
Só que como ministro da Justiça ele fez o mais vexatório ato populista já cometido por um ocupante da pasta, ao pegar um facão e atacar pés de maconha no Paraguai, no final do ano passado.
Moraes anunciou ali um plano para erradicar a maconha de toda a América Latina. Esse populista da maconha é ministro do Supremo. O que faz um bom facão.

Tempo de medos

Verdade Tropical, que Caetano publicou há 20 anos, sempre foi subestimado, como livro de memórias e como ensaio. Não há nada igual da geração dele sobre o que se passou com aquela turma da Tropicália, no contexto da revolução dos costumes, da ditadura, da música, da literatura.
Pois o livro está sendo reeditado pela Companhia das Letras. Me lembro que Caetano aborda com valentia a controvérsia da época sobre sua orientação sexual. É quando conta que, diante das interrogações sobre o que ele seria (resumindo tudo aqui), preferia responder que essa era uma definição que não lhe interessava mais.
Em entrevista à Folha hoje, ele conta que eliminou do livro, lá na primeira edição, textos de um capítulo sobre sexos, no plural. A explicação dele: “Há razões pessoais para que eu evite mexer com coisas que podem cair mal sobre certas pessoas que, mesmo quando não nomeadas, se reconheceriam de um modo que me levaria a sentir-me mal”.
E o tal texto fica de fora da reedição. É uma pena. Será que Caetano está assustado mais do que se pensa com o novo macartismo? Ele tem seus motivos.

O GOLPE DOS JAGUNÇOS E DOS CORONÉIS

Quase sempre sou voto vencido em debates sobre os mecanismos de viabilização do golpe, dos estratégicos aos operacionais. Não tenho muita simpatia pelas velhas teorias que sempre buscam explicações nas conspirações internacionais. É uma conversa que tem evoluído nos últimos meses.

É claro que tudo contra governos ou projetos de esquerda tem apoio de fora, tem dinheiro (e muito dinheiro), com interferência em ações que interferem na política e na economia. E há o desejo permanente de impor ordens e interesses por meios não democráticos. Mas o golpe foi, na essência, resultado das aspirações e da mobilização do Brasil arcaico.

Sim, o pato da Fiesp e a imprensa foram protagonistas, mas o tocador do golpe foi o Congresso de Eduardo Cunha, do jaburu, do Caiado, do Zé Agripino, de Aécio, do Bolsonaro e do baixo clero, esse baixo clero do qual poucos sabem dizer os nomes.

O Brasil primitivo, esse Brasil do século 19 ainda vivo, fez a operação que derrubou Dilma. E faria com ou sem apoio internacional. E nada resolveria ter apoio internacional sem esse Congresso.

A bancada BBB é da bala, do boi e da Bíblia. Ainda não foi preciso acrescentar o B dos bancos, que estão presentes, até indiretamente, mas de forma insignificante, porque atuam nos bastidores. As bancadas que decidiram o golpe são as do Brasil do atraso, dos senhores apresentados ao país em maio do ano passado, quando o processo contra Dilma foi aberto pela Câmara, e depois em agosto, quando o Senado consumou o ataque ao governo.

Os porta-vozes da família, da ordem, de Deus e da moral derrubaram Dilma na câmara e no Senado e agora protegem Aécio e o jaburu. Por ação fisiológica, por recompensas diversas, em aliança com a parte ideológica da direita do Congresso. Eles foram e são os condutores do golpe.

Defendi esse ponto de vista nada original na sexta-feira, em debate do 1º Encontro Gaúcho pelo Direito à Comunicação, promovido pelo Comitê Gaúcho do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC), CUT-RS, Sindicato dos Jornalistas, Sindsepe-RS e Fabico da UFRGS.

Falo disso agora porque o jornalista e cientista político André Singer, ex-porta-voz de Lula, estudioso do lulismo, escreveu na mesma linha seu artigo de sábado na Folha. Dilma foi golpeada pelo que temos de mais reacionário no Congresso, pela parcela manobrável que ela mesma subestimou ao enfrentar o poder de Eduardo Cunha.

Dilma não perdeu para o sistema financeiro mundial, perdeu para a base do novo escravismo, para os destruidores das florestas, grileiros, coronéis, jagunços rurais e urbanos, para os que defendem a eliminação de pequenos bandidos (e a proteção dos grandes), dos que estimulam e financiam, em nome de Deus, a perseguição a negros, gays, exposições, professores, artistas. Singer prevê que estes mesmos deputados e senadores ou seus similares estarão de volta na eleição de 2018.

Por isso, colocar a culpa no sistema financeiro é tentar sofisticar o golpe. Fomos todos golpeados pela chinelagem. Claro que a evolução do golpismo se dará com eles e com todos os que sustentaram o teatro de maio e agosto, incluindo parte do Judiciário (e o que é mais alarmante agora, com o suporte policialesco que intensifica a perseguição aos movimentos sociais, ao lado das milícias fascistas).

Mas o golpe mesmo foi aplicado e é liderado pelo Brasil arcaico que não precisa se submeter às ordens de ninguém.