AS MISÉRIAS DOS OUTROS

Há jornalistas impressionados com a pobreza na Venezuela. Talvez porque nunca tenham entrado, como eu entrei, nos anos de miséria extrema criada pelo segundo governo Fernando Henrique, na Pedreira da Cruzeiro, na Mário Quintana, no Ruben Berta, nos becos da Vila Jardim, na Ilha das Flores, na vila Nova Guaíba.
Entrava, sentava, conversava com mães, professores, velhos, moços, crianças. Fazia o que mais gostava: ouvir gente comum.
Que eles pelo menos tentem entrar agora (mas não na pressa e ao lado de uma viatura da polícia), para ver como vivem as maiores vítimas do golpe de agosto de 2016.
Saiam da bolha, não para descobrir as carências da Venezuela, mas para conhecer as misérias das nossas vizinhanças. Não precisamos exportar piedade para as misérias dos outros.

A INFLAÇÃO MASCARADA

Para esclarecer o que escrevi antes sobre a inflação dos pobres.
1. Não acuso nenhum índice de manipulação, até porque todos, com algumas variações, indicam inflação baixa.
O que digo é que nenhum deles reflete a dramaticidade da realidade dos pobres e miseráveis (sim, porque o Brasil voltou a ter milhões de miseráveis).
O golpe se deu conta de que poderia usar a seu favor os indicadores de inflação, porque são medidas do custo de vida da classe média. O Quadrilhão joga com isso para tentar enganar todo mundo. É o que o Jornal Nacional faz.
Os índices, pelos mais variados métodos que usam, estão corretos. Mas, como diria Touro Sentado, estão cada vez mais corretos para os brancos e cada vez mais errados para os índios.
2. Dois amigos jornalistas me mandaram mensagens para dizer que os jornais fizeram matérias sobre os pobres que agora usam lenha para economizar gás, e que isso seria uma forma de abordar o drama das periferias pós-golpe.
Isso é jornalismo pela metade. Só ajuda a “folclorizar” a pobreza.