OS POBRES ARGENTINOS E OS NOSSOS POBRES

A direita argentina reage com fúria ao esforço de Alberto Fernández para tributar altos rendimentos, fazendeiros e patrimônios e assim poder socorrer aposentados e famílias em situação de miséria.
É a reportagem de capa do jornal Página 12. Lá tudo é feito no sentido inverso do que Bolsonaro faz no Brasil ao favorecer os ricos e tirar o Bolsa Família de mais de 1 milhão de mães, além de deixar mais de 2 milhões de pessoas na fila à espera de benefícios do INSS.
Só que na Argentina os ricos atacam o governo de esquerda, principalmente os latifundiários, que prosperavam enquanto Macri quebrava o país. E os pobres e os miseráveis aplaudem o governo de Fernández-Cristina.
No Brasil, Bolsonaro favorece os ricos e os latifundiários e ainda tem o apoio de boa parcela da classe média e dos pobres que se acham da turma dos fazendeiros, dos grileiros e do pessoal da pato da Fiesp.
Aqui, se um governo decidisse tributar os ricos, como o peronismo kirchnerista faz na Argentina, a classe média e os pobres bolsonaristas iriam para as ruas.
Alguém pode dizer que a maioria dos pobres não apoia Bolsonaro. Mas eles ainda são muitos, mais do que deveriam ser. E o pobre bolsonarista é mais ativo e militante do que o pobre não-bolsonarista.
O pobre bolsonarista é religiosamente bolsonarista. É um pobre de fé, que paga dízimo para ser bolsonarista.

AS MISÉRIAS DOS OUTROS

Há jornalistas impressionados com a pobreza na Venezuela. Talvez porque nunca tenham entrado, como eu entrei, nos anos de miséria extrema criada pelo segundo governo Fernando Henrique, na Pedreira da Cruzeiro, na Mário Quintana, no Ruben Berta, nos becos da Vila Jardim, na Ilha das Flores, na vila Nova Guaíba.
Entrava, sentava, conversava com mães, professores, velhos, moços, crianças. Fazia o que mais gostava: ouvir gente comum.
Que eles pelo menos tentem entrar agora (mas não na pressa e ao lado de uma viatura da polícia), para ver como vivem as maiores vítimas do golpe de agosto de 2016.
Saiam da bolha, não para descobrir as carências da Venezuela, mas para conhecer as misérias das nossas vizinhanças. Não precisamos exportar piedade para as misérias dos outros.

A INFLAÇÃO MASCARADA

Para esclarecer o que escrevi antes sobre a inflação dos pobres.
1. Não acuso nenhum índice de manipulação, até porque todos, com algumas variações, indicam inflação baixa.
O que digo é que nenhum deles reflete a dramaticidade da realidade dos pobres e miseráveis (sim, porque o Brasil voltou a ter milhões de miseráveis).
O golpe se deu conta de que poderia usar a seu favor os indicadores de inflação, porque são medidas do custo de vida da classe média. O Quadrilhão joga com isso para tentar enganar todo mundo. É o que o Jornal Nacional faz.
Os índices, pelos mais variados métodos que usam, estão corretos. Mas, como diria Touro Sentado, estão cada vez mais corretos para os brancos e cada vez mais errados para os índios.
2. Dois amigos jornalistas me mandaram mensagens para dizer que os jornais fizeram matérias sobre os pobres que agora usam lenha para economizar gás, e que isso seria uma forma de abordar o drama das periferias pós-golpe.
Isso é jornalismo pela metade. Só ajuda a “folclorizar” a pobreza.