OS ADVOGADOS E O FASCISMO

E se colar essa tentativa da polícia de pedalar os escritórios dos advogados, sob o argumento de que se beneficiam de eventuais delitos de seus clientes?
A invasão de escritórios de advogados poderá se disseminar pelo Brasil, como tentou ontem a Polícia Federal?
A nova OAB reagiu com vigor, como nos tempos da ditadura, ao fascismo da Lava-Jato moribunda contra um advogado de Lula. Mas quem mais vai reagir? Só a OAB?
(Sempre lembrando que Sergio Moro grampeou os telefones dos advogados de Lula.)

Abaixo, a nota da OAB, assinada pelo presidente, Felipe Santa Cruz:
“A propósito de notícias sobre a deflagração, nada data de hoje (dia 23), da cognominada “Operação Pentiti” pela Polícia Federal de Curitiba, em que há referência à banca do advogado José Roberto Batochio, o Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil vem a público manifestar o seu mais veemente repúdio à violência que se pretendeu exercer contra referido e modelar profissional da advocacia, numa execrável demonstração de que o abuso, nos dias que correm, não conhecem mesmo quaisquer limites.
O advogado jamais pode ser confundido com seu constituinte. Em boa hora o Ministério Público Federal se manifestou contrariamente ao pleito de busca e apreensão formulado pelo Delegado de Polícia Federal e, com acerto e justiça, o Poder Judiciário rechaçou prontamente essa ilegal e abusiva medida, reafirmando a inviolabilidade da advocacia e a preservação do direito de defesa.
É passada a hora de haver, para violências como estas, a necessária e devida repressão, mostrando-se necessária e urgente a sanção da lei de abuso de autoridade aprovada pelo Congresso Nacional.
Felipe Santa Cruz”

A MORAL DE SERGIO MORO

Sergio Moro pode ter cometido um erro estratégico, com mais uma barbeiragem política. Ao recorrer ao Ministério Público para que o presidente da OAB seja processado por ter dito que ele agia como “chefe de quadrilha”, o ex-juiz provoca uma reação imediata.

A reação é que mais vozes, em várias áreas, repetem que ele se comportava mesmo como chefe de quadrilha, quando passou a telefonar para autoridades e dizer que sabia das mensagens apreendidas com os hackers de Araraquara e que iria tratar de eliminá-las. Sumariamente.

Se processar Felipe Santa Cruz, Moro terá de abrir processos contra dezenas, talvez centenas ou milhares de pessoas. Quanto mais insistir no processo contra o líder dos advogados (o que é um direito do ex-juiz), mais irá provocar o jogral.

Lembremos que Moro era chefe de Dallagnol (pelo menos agia como chefe na Lava-Jato), quando Dallagnol acusou Lula de ser chefe de quadrilha, no famoso powerpoint infantil com as bolinhas azuis. Lula tentou processar o procurador por danos morais.

Um juiz de primeira instância decidiu que não houve dano, que Dallagnol podia chamar Lula de chefe de quadrilha. Era uma convicção, sem provas, tanto que a acusação não constou do processo do tríplex do Guarujá.

Mas o procurador que pretendia ficar rico com palestras podia dizer o que bem entendesse. E pronto.

É possível que aconteça o mesmo agora e o processo de Moro não resulte em nada? Ou o dano moral sofrido pelo pessoal da Lava-Jato é mais danoso do que a afronta contra um ex-presidente?

A moral da direita sempre tem a pretensão de ser mais moral do que a das esquerdas.

Pois muita gente acha que, fora a controvérsia jurídica, as mensagens trocadas entre Moro e Dallagnol são imorais. É o que eu também acho. Mas a moral deles tem privilégios e a imoralidade tem imunidade.

NÃO ESPEREM A EXPLICAÇÃO DE BOLSONARO

Bolsonaro terá de se submeter a dois questionamentos sobre a declaração de que sabe como mataram Fernando Santa Cruz, militante de esquerda e pai do presidente da OAB, Felipe Santa Cruz.
O próprio Felipe Santa Cruz, com o apoio de sete ex-presidentes da OAB, protocolou uma interpelação no Supremo para que Bolsonaro dê as explicações. Se sabe, que conte o que sabe.
A Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão, do Ministério Público Federal, também cobra que Bolsonaro informe sobre a morte do estudante, que desapareceu em 1974 depois de ser preso pela ditadura.
Os procuradores advertem para o seguinte: um desaparecimento forçado, como foi esse caso, é considerado crime permanente até que seja descoberto o paradeiro da vítima.
Qualquer pessoa que tenha conhecimento sobre o caso e não revele o que sabe à Justiça pode ser considerada participante do crime.
Vamos tentar prever o que vai acontecer com o sujeito que exalta torturadores e assassinos. Bolsonaro vai dar um drible, como sempre deu, e não vai responder nada. E daí?
E daí que ficará por isso mesmo. Até quando? Até o dia em que, sob pressão, o governo se sentir acossado por alguma forma de inquietação popular.
Quando isso acontecerá? Se fosse no Uruguai, no Chile, na Argentina ou em Porto Rico, já teria acontecido, com o povo nas ruas. Aqui, talvez não aconteça muito cedo, se é que vai acontecer.

A IRMÃ DE FERNANDO SANTA CRUZ

O Brasil atormentando pelo bolsonarismo merecia há muito tempo, em meio a tantas notícias ruins, conhecer Felipe Santa Cruz. A OAB, que se acovardou diante do golpe, tem hoje o comando de um bravo, herdeiro da bravura do pai.
Vi há pouco, no site Tutaméia, a entrevista da irmã de Fernando Augusto de Santa Cruz Oliveira, o pai de Felipe, preso e assassinado pela ditadura. A professora Rosalina Santa Cruz fala do irmão, da ditadura e dos ataques de Bolsonaro. Grande entrevista. O link está na área de comentários.

https://l.facebook.com/l.php?u=https%3A%2F%2Ftutameia.jor.br%2Frosalina-santa-cruz-pede-o-impeachment-de-bolsonaro%2F%3Ffbclid%3DIwAR0sweUauY-P2dI7-McZ9e5q4w7LYu_E_Qq7O9oRia7kC-5B1O_maxrLX0I&h=AT19FeJ1CC89o7ZjqvHWFoBO4fQyYVvUmiPupMUeW0xHz4DQiiB_ZGbTiSneO-RtAmpnBCy0tPM_lLZYyoKNeU8Jv6JPNM8f5nB8WtkImWjJlutc05HpcuveAtnMywY9QCA

Folha investiga furo do Globo

Muitos jornais já fizeram, mesmo que por linhas tortas, às vezes com um certo constrangimento, um editorial pedindo a renúncia do homem do Jaburu.

Até a OAB, que mantém uma postura apenas corporativa e reacionária nos últimos tempos, quer a saída do sujeito que diz que não renuncia.

Mas a Folha de S. Paulo não abre mão do esforço para desmontar todo o trabalho do Globo que empurrou, com as primeiras gravações divulgadas, o jaburu-rei para o penhasco.

O esforço da Folha para desmoralizar o furo do Globo (enquanto morde e assopra) é tanto que o jornal contratou um perito, que descobriu cortes nas edições das conversa de Temer com o delator da JBS.

Não seria nada de relevante para o contexto da conversa, mas a Folha já mancheteou: Áudio entregue à Procuradoria-Geral tem cortes.

Fica o impacto da manchete, mesmo que a informação não mude nada, porque uma das partes que mais importam (da conversa de Temer-Joesley sobre Cunha) não tem edições. E depois sugiram as novas revelações da delação de Joesley, que complementam a conversa com o jaburu-rei.

A Folha nunca fez reportagem investigativa na Lava-Jato. ‘Investigou’ apenas os pedalinhos de Atibaia. Agora, investiga as gravações, para tentar desmontar o que não pode ser desmontado.

Nem piar pia

A OAB não é contra golpes, mas decidiu que é contra a greve dos bancários. A OAB quer furar a greve porque se sente prejudicada. Eu também me sinto, mas respeito os bancários.
Mas sobre as grandes questões do país, nem um pio da OAB.
Como dizia o poeta, existir pra que, se nem piar pia mais? E quando tenta piar, ainda pia errado.
Os advogados se sentem representados por esta OAB que já foi liderada por Raymundo Faoro?

Faoro e a OAB

faoro

Conversei uma vez por telefone com Raymundo Faoro. Ele falava com dificuldade por causa de um enfisema que o mataria em 2003.

Lembro bem de uma queixa que fez, sem pedir segredo. Não podia lecionar, porque não tinha títulos acadêmicos. O autor de Os donos do poder, livro sempre citado entre as 10 mais importantes obras sobre o Brasil, não podia ser professor porque não era doutor.

Ninguém o convidava para dar aulas, mesmo que fossem eventuais, de extensão, ou enquadradas em algum projeto fora dos currículos formais das universidades, ou clandestinas.

Me lembrei de Faoro porque o que se questiona hoje, quando se fala das instituições silenciosas ou omissas diante dos desdobramentos do golpe, é a indiferença constrangedora da OAB em relação a desmandos variados.

A OAB é hoje uma entidade amorfa, sem vigor, resignada ao que está dado. A Ordem deveria rever as aulas de postura cívica do professor Raymundo Faoro, seu valente presidente nos momentos duros da etapa final da ditadura, para que não venha a ser reduzida a uma entidade meramente corporativa e, já dizem alguns advogados, recreativa.