MORO E A FUNDAÇÃO DE DALLAGNOL

O poder de Sergio Moro sobre Deltan Dallagnol era absoluto. As conversas vazadas que o Intercept vem publicando deixam o procurador na constrangedora condição de subalterno do ex-juiz.

Não há dúvidas quanto à hierarquia dessa relação. Dallagnol cumpria ordens do magistrado poderoso. Moro orientava a produção de provas contra Lula. Dizia como deveriam fazer notas para a imprensa e como mobilizar jornalistas amigos contra o ex-presidente. Moro determinava a Dallagnol quem deveria ou não ser ouvido como delator.

Qualquer outra discussão vencida sobre a legalidade ou não do que ele fazia não elimina uma certeza: o juiz era o chefe de fato não só de Dallagnol, mas de muitos outros procuradores da Lava-Jato em Curitiba.

Dallagnol demonstra euforia e satisfação em se submeter às ordens do chefe que não deveria chefiá-lo. Parece um estagiário prestativo preocupado em ganhar pontos para subir na carreira.
Mas que carreira? Como Moro poderia ajudá-lo, se um é procurador e outro é juiz?

Essa é uma das tantas interrogações acionadas pelas conversas em que tudo o que eles tentam fazer é incriminar Lula de forma articulada, com o MP subjugado por Moro.

Dallagnol não á apenas um procurador em busca da melhor performance para fortalecer seu currículo na Lava-Jato. Ele parece sempre querer ficar bem com Sergio Moro, ele presta contas ao juiz, é cerimonioso. Moro é seu guru.

E aí surge a grande questão. Se Dallagnol devia tanta submissão a Moro, se Moro tinha tanto poder, se ele era o chefe de fato da Lava-Jato no Ministério Público, é de se perguntar ainda mais agora: que influência teve o ex-juiz na ideia de Dallagnol de criar a tal fundação com R$ 2,5 bilhões da Petrobras?

Se Dallagnol era tão ligado ao juiz e agia como seu subalterno, o juiz não teve nenhuma interferência no projeto da fundação que acabou se transformando num grande rolo até hoje não desvendado?

É possível supor que a ideia talvez nem tenha sido de Dallagnol? A sequência de fatos agora desvendados sobre os delitos da Lava-Jato pode, quem sabe, conduzir a algumas respostas.

Se Dallagnol for de fato investigado pela corregedoria do Ministério Público, o assunto fundação não pode ficar de fora. Sergio Moro, tão influente, não poderia estar à margem do que vinha sendo decidido para ficar com os R$ 2,5 bilhões, numa operação abortada dentro do próprio MP por Raquel Dodge, com a ajuda de parte da imprensa.

O que Moro fez além de autorizar que Dallagnol seguisse em frente? O que sabia da fundação bilionária que todos nós, em nome da transparência, também precisamos saber? Ou dito de outra forma: o que a fundação teria das ideias e das iniciativas de Moro? MP e Judiciário sabem onde estão as respostas.

O SILÊNCIO DE DALLAGNOL

Lula abordou ontem um tema constrangedor para o Ministério Público Federal e que até agora não tem uma explicação convincente, se é que isso será possível.
É a tal fundação que Lula chamou de Criança Esperança de Deltan Dallagnol. Alguém está satisfeito com as explicações dadas pelo procurador para a ideia de criação de uma fundação com R$ 2,5 bilhões de uma multa paga pela Petrobras?
Alguém teve acesso a essas explicações? Se teve, por favor me encaminhe. Porque imagino que ninguém sabe nada até agora sobre o que seria feito dessa dinheirama.
Dallagnol se reuniu esses dias com a procuradora-geral Raque Dodge, e a imprensa contou que eles trataram do assunto. Mas não há uma linha, uma só, sobre a tal fundação e o destino que seria dado ao dinheiro.
Ficar calado diante da ideia abortada não significa que todos estejam satisfeitos com o desfecho do caso, até porque não se sabe se esse é mesmo o desfecho. Quem vai explicar, em nome da transparência, o que Dallagnol pretendia com a fundação?
Combater a corrupção? Profissionais das mais variadas áreas se dedicam ao combate à corrupção, na maioria das vezes sem nenhum apoio, apenas com a disposição e a coragem. Por que Dallagnol precisaria de tanto dinheiro da corrupção para combater a corrupção?
Qual era participação de Sergio Moro, como chefe da Lava-Jato, nessa história, já que ela era o juiz todo poderoso, ou ele não sabia de nada? O juiz nunca foi avisado sobre a fundação?
Deltan Dallagnol está quieto e encolhido, mas em algum momento terá de falar. É uma pauta que os jornais engavetaram. Que desengavetem, ou Dallagnol tem poderes que desconhecemos?

A TEIA LAVA-JATO-BOLSONAROS-MILICIANOS

Toda a família Bolsonaro se manifesta a todo momento, menos um dos filhos. O pai e os garotos Eduardo e Carlucho não saem do Twitter. Mas Flávio, o amigo e patrão de Fabrício Queiroz, sumiu.
O pai ainda tenta entender o que significa golden shower. Eduardo autoproclama-se todos os dias líder da direita latino-americana. Carlucho ataca a imprensa, também da manhã à noite.
Mas Flavio sumiu dos noticiários. Uma hora terá de reaparecer. Amanhã começa de fato a nova legislatura, e aí a ficha vai cair.
Flávio Bolsonaro vem sendo poupado pela imprensa pelo foco nos escândalos dos laranjas do PSL (que vai derrubar também o ministro do Turismo) e mais agora no caso dos R$ 2,5 bilhões das Organizações Tabajara da Lava-Jato de Deltan Dallagnol.
Esta semana, teremos essas três pautas: os laranjas de Flávio-Queiroz, os laranjas do homem do Turismo e a caixinha bilionária da Lava-Jato com o dinheiro da Petrobras.
Esta também é a semana em que se completa, dia 14, um ano da morte de Marielle. Todos os casos e os grupos têm relação.
A Lava-Jato encarcerou Lula e abriu caminho para os Bolsonaros. Os Bolsonaros são amigos e protegidos e protetores de Queiroz e dos milicianos. E os milicianos mataram Marielle.
Quando essa teia for desfeita, o Brasil poderá retomar a democracia. Antes, é importante que se evite que a Lava-Jato se aproprie de dinheiro de uma estatal que ainda é dos brasileiros, não é de Deltan Dallagnol nem dos americanos.
Sergio Moro num governo enredado com milicianos e Dallagnol com o dinheiro da Petrobras.
E eles dizem caçar mafiosos do crime organizado…

A PETROBRAS E A MISÉRIA 

Um posto da zona sul de Porto Alegre, com centenas de carros à espera de gasolina, tinha outra fila estranha agora à noite. Ao lado do posto, dobrando a esquina, um grupo de pelo menos 30 pessoas segurava bombonas de plástico.
Estavam ali, ao que parece, esperando a hora de abastecer os vasilhames. Um detalhe: todas com aparência de que não são donas de carros.
Por que estavam a pé? Por que os carros já não andam? Digo sem o temor de parecer preconceituoso. Eram evidentemente gente muito pobre atrás de gasolina.
Os pobres estão comprando gasolina a granel, para revender na redondeza?
Pode ser. O Brasil do golpe até isso pode produzir: gente sem carro, que entra na fila (à noite, para escapar de flagrantes) para ganhar uns trocados vendendo gasolina no mercado paralelo.
Certamente não é legal. Para mim, pouco importa fazer julgamentos morais. O que importa é que podemos estar diante de mais uma cena da miséria humana do Brasil destruído pelos golpistas.

A FOME DOS BANQUEIROS

Manchete da Folha agora, para ser comemorada pelos paneleiros que entraram na fila dos postos ontem, tentando encher o tanque antes de mais um aumento da gasolina.
“Petrobras antecipa o pagamento de US$ 900 milhões em dívidas com os bancos Safra e JP Morgan”.
Novecentos milhões de dólares!!!
Para os bancos tudo, para o consumidor, que é o verdadeiro dono da Petrobras, aumentos todas as semanas. 
Mas é assim que eles acalmam os amigos. Aqui e na Argentina. É preciso empanturrar os banqueiros com dólares.
(Uma coincidência: foi exatamente essa cifra de US$ 900 milhões que o Banco Central argentino entregou ao mercado hoje, para segurar o dólar abaixo de 25 pesos. A cotação fechou em 23,93 pesos, em mais um dia de alta.)

Minuto a minuto

A nova política de preços da Petrobras para a gasolina, que anuncia aumentos todos os dias, chegará à perfeição quando os reajustes forem a cada minuto.
Quando começar o abastecimento do carro, o preço será um, e quando o tanque estiver cheio, o preço será outro. O posto fará uma média entre o preço inicial e o preço final na bomba.
Ao final do mês, os postos da Petrobras farão um sorteio. O vencedor receberá uma panela e um diploma de consumidor otário daquele mês, assinado pelo alegre Pedro Parente.

Pedro Parente vem aí

Pedro Parente está se achando. Como alguém corneteou que o nome dele é agora o que corre por fora numa eleição indireta, o homem largou uma nota dirigida aos funcionários da Petrobras para lembrar, pela negação, que está mesmo na parada.
Diz a nota que seu mandato na presidência da estatal vai até abril de 2019 e que ele pretende cumprir o que foi determinado pelo conselho da empresa.
Parente afirma que “especulações sobre a minha saída para qualquer outro cargo não são por mim autorizadas”.
É assim que daqui a pouco ele vai parar nas manchetes. Parente está mandando dizer: falem de mim, enquanto eu digo por aqui e em notas para os jornais que estão falando de mim.
Quem conviveu com essa figura sabe bem de quem se trata.

A estranha aparição do grão-duque

Lula seria ouvido por Sergio Moro na quarta-feira, dia 3. O depoimento foi adiado porque era preciso reforçar a segurança em Curitiba.

Estava programado há muito tempo, mas de repente a Polícia Federal teria se dado conta de que a segurança estava insegura…

O depoimento foi então remarcado para o dia 10. E aí, cinco dias antes, aparece de repente, saído do nada, Renato Duque, ex-diretor da Petrobras, e se oferece para dizer a Sergio Moro que Lula sabia de tudo sobre as propinas.

E as provas? Duque não tem provas. Mas tem dois anos e dois meses de prisão preventiva na masmorra de Curitiba e a expectativa de uma pena que o condenaria a morrer até cinco vezes na cadeia. Se delatar Lula, poderá sobreviver.

Duque não precisa delatar Vaccari, Palocci, Mantega, João Santana, José Dirceu e as almas dos petistas mortos. Precisa delatar Lula. Sem provas. Apenas sob a proteção da nova teoria das convicções.

E ninguém havia entendido direito por que o depoimento de Lula foi transferido do dia 3 para o dia 10. Havia um grão-duque na manga.

Criaturas que a Lava-Jato esqueceu

Esta moça já foi famosa. Foi uma das primeiras delatoras da Petrobras, adotada pela Globo para que denunciasse tudo o que sabia das propinas na empresa, onde foi alta assessora da diretoria.

Mas de repente, depois de muitas entrevistas ao lado de samambaias, ela sumiu.

É a geóloga Venina Velosa da Fonseca, que sabe tudo, desde o começo dos roubos na Petrobras nos governos tucanos. Mas ninguém mais quis ouvir Venina, nem o Jornal Nacional.

A última notícia sobre ela é de setembro do ano passado, quando uma juíza do Trabalho rejeitou uma ação em que pedia R$ 2 milhões da Petrobras.

A juíza Cristina Almeida de Oliveira decidiu reunir toda a papelada do processo de Venina (a moça dizia ter sido prejudicada pela estatal, porque era delatora) e enviar ao juiz Sergio Moro. Porque achava que aquilo poderia ajudar na elucidação de alguma coisa na Lava-Jato.

Mas nunca ninguém ouviu falar que alguém tivesse algum interesse nas informações de Venina. Por que será?

Por que Francis foi abandonado

Paulo Francis morreu há 20 anos, no dia 4 de fevereiro de 1997. Teve um infarto quatro meses depois de denunciar que diretores da Petrobras haviam formado “a maior quadrilha que já existiu no Brasil”, para roubar da empresa “com superfaturamentos”. A denúncia foi feita no programa de TV Manhattan Connection.
Há dois anos, o comandante do programa, o jornalista Lucas Mendes, relembrou o episódio em detalhes em texto publicado no site da BBC Brasil.
Mendes conta que a repercussão da denúncia na imprensa foi quase zero. “Saíram notas em colunas. Ninguém cobrou da Petrobras. Não sei por que o Francis nunca levou a denúncia para os poderosos Globo, Estadão e Jornal da Globo, onde trabalhava, além do Manhattan Connection, que tinham calibre muito mais grosso do que o GNT”.
Mendes tem outra pergunta sobre a indiferença da imprensa: “Seria o poder da Petrobras de silenciar a mídia com sua publicidade? Ou sua reputação na época estava acima de qualquer suspeita?”
Em novembro, lembra Lucas Mendes, Francis anunciou no mesmo programa transmitido de Nova York que estava sendo processado por diretores da Petrobras.
Diz o artigo de Mendes: “Repercussão na imprensa sobre o processo? Mínima. Saíram notas sobre os assombrosos US$ 100 milhões (que estariam sendo cobrados de indenização pelos diretores)”.
Uma resposta curta explica há muito tempo por que Francis fez a denúncia e não obteve nenhum apoio da empresa para a qual trabalhava e dos colegas poderosos do jornalismo, que o abandonaram até quando estava sendo processado.
Esta é a resposta, óbvia demais: ninguém fez nada para levar a denúncia de Francis adiante, como fizeram agora com a Lava-Jato, porque o governo era tucano.
Paulo Francis, que se esforçava para ser cada vez mais um jornalista de direita, foi abandonado na sarjeta pelos colegas desta mesma direita que agora se empenha em atacar corruptos (apenas do PT) na Lava-Jato, sem nunca tocar no fato de que ele, Francis, foi quem deflagrou tudo.
A direita, em qualquer área, sempre abandona os parceiros feridos, inclusive no jornalismo. Paulo Francis foi jogado na sarjeta e morreu infartado, acuado pelo processo dos diretores da Petrobras, porque temia perder todas as reservas que guardara para velhice.
Os valentes do jornalismo investigativo e opinativo que estão aí defendendo a Petrobrás foram covardes em 1996, porque não lhes interessava contrariar o governo de Fernando Henrique Cardoso.
A origem da corrupção grossa na Petrobras é tucana. E o silêncio que a manteve intocada por muito tempo foi patrocinado pelo acobertamento do jornalismo tucano.