Quem manda no Supremo

sarney

Quem está lendo os diários de FH perde tempo com vaidades e inutilidades. Diários são escritos para que um dia o personagem se revele. Os do FH, gravados, foram feitos para esconder.
Larguem os diários e leiam o que interessa, as conversas do delator Sergio Machado com o Sarney.
É muito mais divertido, tem mais informação, mais franqueza, mais desprendimento. E ninguém está se pavoneando pra ninguém.
É a melhor obra do golpe até agora. Enquanto não publicam os inesquecíveis discursos do Michel, leiam os diálogos dos grampos desse dois.
A Folha traz hoje mais conversas. Os alvos de Sarney e Machado são ministros do Supremo. Num dos diálogos, Machado afirma que Sergio Moro manda no Supremo.
É só o que se fala há muito tempo, até nos botecos da Aberta dos Morros. Mas não dá pra acreditar que seja verdade.
Um juiz de primeira instância não pode mandar na mais alta Corte do país, nem na Coreia do Norte.
Enfim, leiam a transcrição das conversas. O melhor corrupto é sempre o bem humorado.

Poesia na masmorra (3)

fundoazul2

Continuemos imaginando a cena na masmorra de Curitiba. Sarney está de visita a Jucá, Calheiros e Cunha, com uma tornozeleira novinha na canela esquerda, porque foi liberado pelo Janot para ficar em casa.

Cunha quer saber se é desconfortável e pergunta por que não colocaram na canela direita. Sarney diz que só incomoda quando cruza as pernas, mas que ele não é homem de ficar cruzando as pernas a toda hora.

Calheiros, num canto, lê um poema que não é dele. Jucá presta atenção. É um soneto do Olavo de Carvalho, fala de dinheiro, de acumulação e de boleto bancário. É lindo o soneto calvinista.

Ei-lo:

 

Soneto calvinista

Quando eu for rico, ostentarei na pança
o emblema da fé bíblica, belíssimo, 
provando que não sou o que tu pensas,
e sim aquele a quem se chama “O Próximo”.

Como a mim mesmo me amarei, deixando
a ti o encargo do louvor devoto,
que há de me confirmar, a cada instante,
que politicamente sou correto.

Como um cão tu andarás por onde eu ande,
dizendo lá ao teu Deus que, não sei quando,
te fiz um bem do qual já não te lembras

mas que Ele bem conhece, pois nas sombras
onde crês abrigar-te, me esquecendo, 
há um boleto bancário te esperando.

 

Poesia na masmorra (2)

temer

Vamos continuar imaginando. Agora, imaginemos que Michel Temer vá visitar Sarney, Cunha, Calheiros e Jucá na cadeia. Sarney fala da vida na cela e reclama que os outros, que também são poetas, não param de recitar seus próprios versos.

Mas cada um tem apenas meia dúzia de poemas, e os colegas de masmorra se repetem muito.

Michel Temer diz que pode contribuir para a variedade. E recita esta obra-prima do simbolismo paulista, de sua autoria. Ei-la:

EXPOSIÇÃO

Escrever é expor-se.
Revelar sua capacidade
Ou incapacidade.
E sua intimidade.
Nas linhas e entrelinhas.
Não teria sido mais útil silenciar?
Deixar que saibam-te pelo que parece que és?
Que desejo é este que te leva a desnudar-te?
A desmascarar-te?
Que compulsão é esta?
O que buscas?
Será a incapacidade de fazer coisas úteis?
Mais objetivas?
É por isso que procuras o subjetivo?
Para quem a tua mensagem?
Para ti?
Para outrem?
Não sei.
Mais uma que faço sem saber por quê.

Poesia na masmorra

sarney2

Imagine que se cumpra o desejo do procurador Rodrigo Janot, e Cunha, Renan Calheiros, Jucá e Sarney fiquem na mesma cela e passem o dia entreolhando-se para saber quem será o primeiro a delatar o outro.

De repente, Sarney, articulado com o juiz Sergio Moro, que adora literatura, começa a declamar seus poemas.

Não há quem aguente o pau-de-arara dos poemas do Sarney na masmorra de Curitiba. A poesia sarneiseana pode ser usada na tática da delação.

Tente imaginar Sarney lendo este poema:

Uma noite

dormiu

dentro de mim.

Mil demônios

balançando-a para lá e para cá,

a rede de linha de seda.

Ela sorria

com o odor

do cio.

Não sei se devia andar

a dizer ou recitar

acalantos.

Não quero

mais o canto do adormecer.

Quero entregar-me

para ser visto e amado, num banquete

das saudades que fugiram

ou

morreram.

Pensar-te navio que se afogou

na Praia Grande.

Teus mares

são terras de França

para onde

Maria de Médicis

mandou caravelas

para os domínios destas paisagens

onde o nome de São Luís foi dado

para dizer Maranhão:

mar e paixão.

 

Por que o Sarney?

sarney

Rodrigo Janot mandou pegar o Cunha, o Jucá, o Calheiros e o Sarney. Qual a surpresa? Talvez o Sarney, velho e fora de combate, porque os outros são manjados demais.
Por que prender o Sarney? Ah, diz o procurador-geral, porque está tentando atrapalhar as investigações da Lava-Jato. E está no pacote do PMDB.
Sarney é mafioso vencido, não atrapalha mais nada nem no Maranhão. Por que Janot não manda prender um tucano? Um só. Quem tem medo do bico dos tucanos?
Quando vão começar a pegar tucanos? Mas pegar mesmo, e não ficar só na volta. Quando?
Era só o que faltava, com tanto corrupto novo por aí, pegarem o Sarney logo agora. Deixem o Sarney, peguem alguns dos chefes dos corruptos dos trens e das merendas de São Paulo. Vamos variar um pouco.