GUEDES USA AS DOMÉSTICAS PARA AVISAR OS AMIGOS

Paulo Guedes mandou dois recados ao fazer o comentário sobre o dólar e a história das viagens das empregadas domésticas para a Disney.
O primeiro recado não foi, como se pensa, para as domésticas, mas para os especuladores. Ao dizer que o dólar se manterá alto, Guedes deu uma senha: divirtam-se com o enfraquecimento da moeda nacional.
Tanto que ontem o dólar subiu depois da fala do sujeito e chegou a R$ 4,38 e só caiu porque o Banco Central entrou no mercado e ofereceu a moeda americana. Bolsonaro está queimando à vontade as reservas formadas nos governos Lula e Dilma.
É uma festa. E até as domésticas vão sendo usadas como pretexto. Como queria mandar o recado para os amigos, Guedes desqualificou as empregadas, porque ele não deseja mesmo ver pobre viajando de avião.
Guedes não estava falando das domésticas, mas dos pobres em geral. Pobres e negros. O bolsonarismo odeia pobre.
Ele não podia simplesmente dizer: prestem atenção, meus amigos, porque o dólar não vai cair, ao contrário, vai continuar subindo. Então, usou as domésticas.
Porque ele sabe que empregada doméstica só viaja para os Estados Unidos para acompanhar as patroas.
Ingênuos devem estar dizendo: mas quem manda na política monetária e faz a gestão da moeda é o Banco Central. E eu digo: então tá.

Respiração boca a boca

Por que o Banco Central reduziu mais uma vez a taxa básica de juro, agora para 4,25% ao ano?
Para que a prosperidade avance, dizem os economistas do mercado, que comemoram até a campanha da abstinência de Damares.
Ninguém acredita nessa história. Nem eles. O juro cai para tentar ressuscitar uma economia morta, assassinada pelo golpe de agosto de 2016 e enterrada agora por Bolsonaro.

O ASSUSTADOR BRASIL DO NETO DE BOB FIELDS

O avô de Roberto de Oliveira Campos Neto era tão americanista, vaidoso e egocêntrico que gostaria de ter sido presidente do FED, o Banco Central dos Estados Unidos. Foi ajudante dos generais na ditadura brasileira.

Consagrou-se como Bob Fields, o guru do liberalismo verde-amarelo, um economista que estudou filosofia, um sujeito literário, frasista e metido a engraçado.

Pois o neto de Roberto Campos preside o Banco Central que o avô ajudou a criar. O avô convivia na ditadura com Delfim Netto, Simonsen, Bulhões, Severo Gomes, Jarbas Passarinho, Leitão de Abreu, Reis Veloso, Andreazza.

O neto enfiou-se num pântano com Paulo Guedes, Damares Alves, Onyx Lorenzoni, Sergio Moro, Ernesto Araujo, Augusto Heleno, Abraham Weitraub, Ricardo Salles. É um confronto desigual.

O avô foi ministro do Planejamento de Castelo Branco e desfrutou da sabedoria de alguns gênios do conservadorismo. O neto, mesmo que se diga que o Banco Central é ‘autônomo’ e desgrudado do resto da estrutura de Estado, é parte de um poder sustentado pela extrema direita e com fortes vínculos com facções de milicianos.

Esses dias, talvez estimulado por Bolsonaro para que começasse a falar, o neto de Bob Fields, até então em silêncio, afirmou à repórter Andréia Sadi, na Globo News, que os fundamentos da economia são sólidos e que o país caminha em direção à estabilidade e à recuperação, tudo sob controle da autoridade monetária.

E disse o que o avô, sempre preocupado com a qualidade da fala e a estética da escrita (foi um bom memorialista da economia brasileira, integrou a Academia Brasileira de Letras), nunca diria. O neto disse que o Brasil estava preparado para sair do círculo vicioso e entrar no círculo virtuoso. É ruim, é pobre, é quase raso.

O avô de Roberto de Oliveira Campos, um homem fino, ficaria envergonhado ao ver o neto repetindo uma frase simplória,
gasta em discursos de prefeitos de cidadezinhas.

Mas esse é o momento brasileiro. O herdeiro de Bob Fields integra uma equipe de medíocres, que poderia até ser aceitável, se fosse de medianos esforçados e conectados com alguma racionalidade como figuras públicas.

O neto de Roberto Campos é colega de fundamentalistas que acreditam na Terra plana, que destroem a Amazônia, perseguem índios, desprezam o aquecimento global e que, como ‘liberais’, conspiram até contra própria a ideia de globalização.

Bob Fields debochava do atraso do Brasil e via no que seria uma esquerda iletrada a expressão de um país retardatário em relação às modas da economia mundial.

O que ele diria hoje do governo terraplanista que acolheu o neto como gestor da moeda e dos juros de uma economia morta?

O que o velho Bob diria ao saber que o neto é autor de um plano de socorro aos bancos que ameaçarem quebrar, uma rede de proteção com dinheiro público, algo impensável desde o escândalo do Proer no governo de Fernando Henrique?

Pobre Bob, se visse o neto liberal misturado a um ministro da Justiça que defende indulto de Natal para policiais condenados por assassinatos. No que virou o poder no Brasil do neto de Bob Fields.

Jurinho

O Banco Central tabelou o juro do cheque especial, que cai de 400% para no máximo 150% ao ano.
É como se uma lei determinasse que assassinatos poderiam continuar existindo, mas só com com facas de até 50cm e com revólveres com 38 de calibre máximo.
Juro de 150% é crime contra os pobres, os que mais usam cheque especial. Mas agora é um crime com um certo limite determinado pela autoridade monetária.

O Bolsa Banqueiro e o Bolsa Família

parente

Pedro Parente, presidente da Petrobras, discorre hoje em longa entrevista na Folha sobre os desmandos na empresa. Fala dos atos criminosos dos diretores agora processados e condenados e também das virtudes das ações e propostas dos atuais administradores.

Pedro Parente também poderia passar por avaliações de conduta, mesmo que inconclusivas, a partir da análise de dois processos pesados que correm em Brasília.

O Ministério Público está insistindo, depois de quase perder a batalha, na condenação de Parente e outros membros do governo FH por danos bilionários ao erário.

Parente (como ministro da Casa Civil e interino da Fazenda), Pedro Malan (como ministro da Fazenda) e José Serra (planejamento) são réus em dois processos que pedem reparação de prejuízos ao setor público por improbidade administrativa.

Os processos se referem ao socorro do governo federal, calculado em R$ 2,8 bilhões na época, aos bancos quebrados Bamerindus e Econômico. O Ministério Público quer a reposição do dinheiro (que seria hoje quatro ou cinco vezes esse valor), porque o socorro do governo foi considerado uma ação criminosa.

Não está em questão se alguém do governo ficou com parte do dinheiro. Mas o MP se convenceu de que a operação favoreceu ilegalmente os acionistas dos bancos quebrados com a dinheirama saída dos cofres públicos.

A operação do Banco Central foi feita sob o pretexto de pagar correntistas com o dinheiro que é meu, seu, nosso. Os salvos mesmo foram os donos dos bancos. Por quê?

O Supremo mandou que as ações, que correm nas 20ª e 22ª varas federais do Distrito Federal, fossem desengavetadas este ano. Estavam arquivadas por decisão tomada em 2008 pelo ministro Gilmar Mendes (eu disse ontem aqui que as ações correm no Supremo, mas tramitam mesmo em varas federais do DF; o Supremo apenas interferiu para desengavetar as ações este ano, em atenção a pedido do MP).

Também são réus de uma das ações os ex-presidentes do Banco Central Gustavo Loyola, Francisco Lopes e Gustavo Franco e mais ex-diretores do BC.

Como você imagina que possa ser o desfecho deste caso em que o MP federal pede reparação ao erário, ou seja, que os que liberaram o dinheiro para os banqueiros arranjem um jeito de devolvê-lo ao setor público?

Ninguém sabe mais nada dos processos e de seus desdobramentos, porque correm em segredo de Justiça. Por que segredo de Justiça? Porque algumas coisas no Brasil devem ser mantidas em segredo.

Sabemos de detalhes do andamento de muitos outros casos judiciais, também em segredo, por vazamentos seletivos.  Desse caso do Bolsa Banqueiro não se sabe nada, não se fala nada, não se comenta nada.

Saberemos do que aconteceu com esses processos quanto tiverem um desfecho (há muitos outros rolos envolvendo bancos e banqueiros no governo FH, quase todos transformados em fumaça).

A desenvoltura dos réus dos processos sobre o Econômico e o Bamerindus, todos por aí falando de ética e moral no setor público, já é um indicativo de suas expectativas.

Os donos dos bancos e seus herdeiros, pelo que se sabe, não ficaram pobres.

E o pessoal envolvido nisso tudo é da mesma turma do interino que pretende “moralizar” o Bolsa Família.

 

O governo que não existe

PLANALTO

É longo o período de calmaria, sem queda de ministro e sem qualquer outro movimento brusco, no governo Michel Temer. É muito tempo. É sinal de inércia, de acomodação. Este governo prometia mais emoção.

A única novidade dos últimos dias é a notícia de que agora sai, de qualquer jeito, o corte nas verbas para a área da saúde. Nessa área, o governo vai bem. Outra novidade, deu para perceber na última entrevista, é que o Henrique Meirelles começa a falar sem aquele ovo na boca. O resto é o resto.

Como me disse meu amigo Heitor Schmidt, tudo, até o presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, é uma caricatura que já vem pronta neste governo. Me mandaram um vídeo em que ele diz (lendo um texto) que a missão do Banco Central é assegurar a estabilidade do poder de compra da moeda.

Nem na prova do Enem se perguntaria qual é a missão do Banco Central. Todo mundo sabe. Mas o homem do BC fala como se estivesse dando uma lição de sabedoria. E lendo.

Termino este texto por aqui, porque tentei e não consegui escrever mais nada a respeito do governo interino. Nem os jornalistas embarcados, que se aliaram ao golpe, mas andam preocupados, conseguem contar qualquer coisa sobre este governo.

Nunca antes neste país um governo foi tão medíocre, a ponto de até os golpistas se sentirem inseguros sobre seu futuro (o futuro dos golpistas, não do governo). Este passou a ser um governo que ninguém consegue provar que existe.