DELATORES LEITORES

Os mafiosos da direita presos pela Lava-Jato só não leem mais rápido do que o relator do processo de Lula no Tribunal Regional Federal de Porto Alegre.
Sabe-se agora que o doleiro Lúcio Funaro, um dos leitores mais lentos, leu apenas 13 livros na cadeia e fez sete cursos.
Funaro leu as biografias de Tancredo, Mandela e Lincoln, entre outros. E depois fez resenhas do que leu, para provar que não estava mentindo.
Ele também teve de ler muito para fazer os cursos de atendimento ao público, vendedor, eletricista, inglês, direito do consumidor, biossegurança hospitalar e direito administrativo.
Funaro sai da cadeia como um profissional múltiplo do século 21 do mundo do trabalho intermitente.
Estava preso desde janeiro do ano passado e agora está solto e desfruta da natureza em um sítio com câmeras (que ele colocou), porque reduziu a pena lendo obsessivamente.
As câmeras substituem a tornozeleira. Falta tornozeleira para os bandidos da direita no Brasil.
A Lava-Jato vem formando leitores sofisticados, enquanto Sergio Moro cita provérbios, ditados de mesa de bar e frases do Batman sobre a imposição da ordem.
João Vaccari Neto, tesoureiro do PT preso na masmorra de Curitiba desde março de 2015, não deve estar lendo nada.

O NOME

O doleiro Lúcio Funaro faz uma denúncia por dia contra o jaburu-da-mala e o Quadrilhão. Propinas, encontros secretos, milhões, malas, dinheiro vivo.

A nova agora é esta: o jaburu ganhou dinheiro do grupo Bertin, como recompensa por uma ajuda que a empresa recebeu da Caixa.

Mas Funaro fala, fala e não acontece nada. Porque o doleiro não consegue dizer uma palavra, um nome mágico, para só assim sair da cadeia. Se disser, sua delação terá repercussão e efeito na Justiça. Se não falar, estará apenas se repetindo.

Eduardo Cunha já desistiu da delação porque não consegue dizer a palavra mágica. Se este nome não for citado, delação nenhuma tem valor. Por isso Cunha não consegue fechar o acordo de delação. Sem o nome esperado, nada feito.

Cunha vai apodrecer na cadeia, até o dia em que falar o nome que seus interrogadores querem ouvir. Palocci falou, para se candidatar a delator, mas assim mesmo pode levar chá de banco, porque cometeu um erro de amador.

Palocci falou antes de formalizar a delação, para conquistar a confiança do juiz Sergio Moro, e fez o estrago político esperado. Com o estrago feito, nem precisa delação formal.

Palocci já é delator, mas um delator amador, despreparado. Nunca será um Cerveró ou um Joesley. Palocci é forte candidato, ao lado de Eduardo Cunha e de Geddel das malas, ao título de grande bobão da Lava-Jato.

Falta algo

Eu sempre acho que ainda vai aparecer algo mais da delação do Lúcio Funaro, um grampo, uma mala (como os corruptos da turma do Aécio e do jaburu gostam de malas). Ainda falta algo mais teatral.
Mesmo assim, Funaro colocou a quadrilha na defensiva, porque deu detalhes de como eles agiam. O dano maior deve ter sido sentido pelo Geddel. Uma hora, Geddel vai querer falar, se não for liberado antes pelo Supremo, com direito ao resgate das malas com os R$ 51 milhões.
Joesley fez com que todo mundo esquecesse Marcelo Odebrecht (que pena deste homem). E Funaro está fazendo com que Joesley aos poucos seja esquecido. Quem virá depois de Lúcio Funaro?

Com tudo e com todos eles

A delação do doleiro Lucio Funaro finalmente mostra em detalhes como o Quadrilhão apenas aperfeiçoou a máquina de arrecadação de propinas quando o jaburu virou vice-presidente. Enquanto isso, a direita enrolava quem queria ser enrolado com a história das pedaladas.
Eles enchiam de malas o apartamento de Salvador, e Janaína Paschoal era possuída pelo demônio e hipnotizava a classe média das panelas. O exorcismo de Janaína e o debate sobre as pedaladas encobriam as ações do Quadrilhão e a compra de votos dos 300 picaretas, como revela agora o doleiro.
Funaro pede passagem como um dos grande personagem das máfias da direita. Em pouco tempo, poderá suplantar Joesley. Marcelo Odebrecht, com aquele jeitão de corrupto enjeitado, virou um contador de causos (saudade das histórias do pai dele, o seu Emílio, contando aos procuradores que Lula pediu um emprego para um sobrinho.)
Mas a máfia para quem Funaro trabalhava está no poder, contando com o Supremo e com tudo, enquanto destrói leis trabalhistas, Previdência, pré-sal, empresas estatais, educação, saúde, empregos e futuro. E Dilma Rousseff está em casa.

O banco que pagou o golpe

Durante anos, os analistas políticos tentaram nos engambelar. Diziam que o poder de líderes da direita vinha da capacidade de articulação, do charme e até do perfume que usavam.
O poder, sabe-se agora, veio sempre da capacidade de distribuir dinheiro. Esse era o poder de Eduardo Cunha, como mostra a delação do doleiro Lúcio Funaro.
Cunha era, segundo o doleiro, “um banco de corrupção de políticos”. Ele pagava por apoios e mutretas.
Cunha, disse o doleiro, era articulado com o jaburu-da-mala. E o jaburu era chefe de Geddel, de Moreira Franco e de Padilha, segundo o Ministério Público. Todos juntaram muito dinheiro no Quadrilhão.
Funaro deve saber por cima o que só Eduardo Cunha e seus parceiros sabem a fundo: como foi comprado o apoio para derrubar Dilma? Quantas malas de Geddel foram usadas no golpe?
Mas a quem interessa essa informação, se não contribui em nada para o cerco a Lula?

O fantástico mundo das coincidências

1 – Num dia, Gilmar Mendes leva uma goleada de 10 a 1 em votação no Supremo e no outro é sorteado para cuidar do pedido de libertação de Joesley Batista.
O homem tem sorte para o jogo mesmo. Dizem que Gilmar era o terror das quermesses no Mato Grosso. A J&F, controladora do grupo JBS de Joesley, deu R$ 2,1 milhões em patrocínios para o instituto de direito público de Gilmar Mendes.
Mas não há por que achar que o julgamento não será justo e imparcial. Casualidades acontecem.
2 – De repente, num lampejo, o advogado Antonio Claudio Mariz de Oliveira descobriu, não se sabe como (e só agora), que havia sido advogado do doleiro Lúcio Funaro antes de ser advogado do jaburu.
E assim acabou descobrindo que Funaro acusa o jaburu de ser chefe de quadrilha. E assim também, entre o jaburu e Funaro, decidiu não ficar com nenhum dos dois.
Como diria Sergio Chapelin no Globo Repórter, são estranhos e fantásticos os mundos das coincidências de Gilmar Mendes e do jaburu.

A mula

Essa história da mula do PMDB reafirma o caráter da direita. José Yunes, o amigo do homem do Jaburu, que diz ter sido usado como mula por Eliseu Padilha, está atirando em velhos parceiros. É o que eles fazem na hora do desespero.

Yunes é um dos melhores amigos do homem do Jaburu. Mas não poupa o amigo no poder para poder atirar em Padilha e vingar-se de algo que até agora ninguém entendeu direito.

A direita troca delações com facilidade. Agora, tem outro amigo do doleiro Lucio Funaro, o empresário Alexandre Nargotto, delatando o cúmplice.

Funaro é apontado pela mula Yunes como o sujeito que levou o envelope com dinheiro ao seu escritório, a pedido de Padilha. Mafiosos de direita entregam na boa. O roteiro quase sempre tem traição.

O que surpreende no caso do pacote do Padilha é a pressa da imprensa amiga em detonar o ministro. O que uma certa imprensa pediu e não levou do Jaburu?