Marina poupada

Fiquei até agora vendo a entrevista de Marina Silva a Roberto d’Avila, na GloboNews (não sei se é reprise), para ouvir frases como “é preciso passar o país a limpo” e “ninguém está acima da lei”.
Nenhuma pergunta, uma só que fosse, sobre questões essenciais, que estão acima dos temas meramente políticos, como as sempre controversas questões de gênero, relações homoafetivas e respeito à singularidade de cada um.
Parece que os jornalistas brasileiros perderam a capacidade de perguntar (e não de interrogar, mas de perguntar mesmo), para não incomodar seus entrevistados com assuntos delicados.
E essas questões são sempre delicadas para a titubeante e enrolante Marina, que parece ter perdido vigor na defesa de ideias resumidas em frases do senso comum.

O jogo sujo de Marina e Giannetti

 

Eduardo Giannetti da Fonseca é o liberal que a direita brasileira paparica por seu charme e lustro (e que até parte da esquerda corteja). É bem formado, aparentemente leve e suave, apresenta-se como economista e filósofo, escreve livros sobre temas variados e integra há muito tempo o grupo que faz a cabeça de Marina Silva.

E Marina Silva todo mundo sabe o que é. Uma figura da floresta, capaz de entender a diversidade e a importância de cada planta e cada bicho no mundo, mas incapaz de reconhecer de forma categórica o direito das pessoas às diferenças e à diversidade, principalmente as diferenças que dizem respeito a gêneros.

Marina sempre foi vaga em relação aos gays, depois de se calar sobre o direito das pessoas do mesmo sexo (ou que não levam em conta as definições de gênero) de se casarem e terem suas relações reconhecidas legalmente. Tudo porque a religião de Marina não permite.

Sob o foco ambientalista, Marina é uma pessoa progressista. Mas sob o ponto de vista humanista é retrógrada, atrasada, reacionária. Marina é uma dissimulada quanto a essas questões essenciais da humanidade, e por isso sua postura é mais perigosa, pelos negaceios, do que a abertamente fascista de Bolsonaro.

Pois esses dois estão juntos, Giannetti e Marina. E Giannetti diz na Folha hoje que a segunda instância deve julgar Lula logo, para que a campanha às eleições de 2018 não sejam tumultuadas.

Quem lê a entrevista vai vendo, espantado, a cada parágrafo, que Giannetti quer na verdade que o Tribunal Federal Regional diga logo que Lula está inelegível, que não se demore muito.

Porque isso, afirma ele, abriria o leque para outros candidatos. Uma eleição sem Lula, garante Giannetti, seria “muito mais arejada para o país”.

É uma entrevista vergonhosa para alguém que se diz um pensador liberal, mas está a serviço da pior direita golpista e homofóbica.

Mais um detalhe: Marina teve a cara de pau de se lançar candidata à presidência um dia depois da condenação de Lula. E Giannetti deu a entrevista um dia depois disso. São dois oportunistas da pior espécie.

ELES ERAM DE ESQUERDA. ERAM MESMO?

Toda vez que Fernando Henrique fala, geralmente para enrolar, penso nas grandes decepções recentes da política brasileira.

Quantos pretensos líderes de centro-esquerda ou genericamente progressistas se bandearam para a direita ou para perto dela, sem constrangimentos, nos últimos anos?

Além de Fernando Henrique, temos Roberto Freire, Marina Silva, Cesar Maia (sim, Maia era de esquerda), Cristovam Buarque, Fernando Gabeira…

Mas eis uma dúvida: eles nunca foram progressistas ou foram empurrados em algum momento para o reacionarismo militante só para fazer oposição aos governos do PT?

Marina

Li hoje uma entrevista de Marina Silva em que ela insinua que a saída para o homem do Jaburu é a renúncia. É brabo pensar que a alternativa do momento, para enfrentar os nomes da direita e da extrema direita, pode ser Marina Silva, pelo que dizem as pesquisas.

Com tanta desesperança, merecemos uma esperança que não passe por uma pessoa que apoiou o golpe e é tão vacilante em relação a questões fundamentais (como a homoafetividade) e tão cordial com parte da direita que a corteja.

Li a entrevista e me convenci ainda mais de que Marina Silva não é e nunca será minha alternativa. Marina é apenas uma conservadora com seu pretenso charme de ambientalista.

 

Rolim

João Doria Junior entrando na política, para que seja ainda mais privatizada, desqualificada e abagaceirada, e Marcos Rolim despedindo-se da Rede.

Rolim é um desperdício da política brasileira. Um parlamento tomado de pilantras avulsos e de máfias organizadas poderia ter pelo menos alguns Marcos Rolim como contraponto.

Sou um admirador da sua capacidade de ser incisivo sem ser gritão como jornalista de opinião. Mas Rolim deveria ser mesmo o que ainda se chama de homem público, nesse Brasil de homens públicos tão depreciados.

A adesão à Rede era uma esperança de ver o ex-deputado de volta à política, talvez em cargo executivo, apesar das tantas imperfeições do projeto de Marina Silva, que o próprio manifesto assinado por ele e outros nomes de peso acaba por reconhecer. E Marina esteve ao lado dos que fizeram o golpe.

Rolim é jovem e talvez ainda nos dê a chance de vê-lo no combate político mais direto pela democracia, depois desse purgatório pós-golpe que parece não ter fim.