FIDEL

Três amigos jornalistas decidem, ao saber da morte de Fidel, que precisam ir a Cuba. Foram e na volta publicaram o que viram em Yo Soy Fidel, um livro com fotos dos três, Gibran Mendes, Leandro Taques e Tadeu Vilani. Os textos são do Gibran.
A obra (com financiamento coletivo) é apresentada como um livro triste, porque eles captaram os sentimentos dos que não teriam mais Fidel. Mas nada sobre Cuba consegue ser triste. O livro é delicado.
Falo do livro agora porque ganhei de presente do Gibran pelas mãos da minha amiga jornalista Gladis Ybarra. Será minha leitura do fim de semana.

O guardião da memória de Che

Algumas considerações sobre a roda de conversa de ontem com o jornalista cubano Santiago Feliú, no encontro promovido pelo Sindicato dos Jornalistas, no Sindicato dos Bancários.

Santiago fez parte da imprensa de Fidel Castro, trabalha na Revista Tricontinental, da Organização de Solidariedade dos Povos da África, Ásia e América Latina (OSPAAAL), e está empenhado na preservação da memória de Che Guevara, que faria 90 anos no dia 14 de junho do ano que vem.

Ele deseja que se fortaleça nessas comemorações o “legado ético de Che”, porque o legado épico já está consagrado. Esse legado seria o da solidariedade, da correção de conduta e da dedicação ao socialismo.

Perguntei a ele quais eram as opções de informação em Cuba, se o governo controla quase tudo. Santiago admitiu que faz jornalismo de Estado, que se contrapõe às informações de quem se dedica a combater o governo (para que os nossos ‘liberais’ verde-amarelos não se espantem, ele faz assumidamente pelo socialismo o que muitos jornalistas brasileiros fazem, às vezes camufladamente, pelo golpismo e pelo falso liberalismo do pato da Fiesp).

Há em Cuba mais de 80 núcleos de jornalismo ligados a algum órgão de comunicação de fora (correspondentes, sucursais, etc). Além dos sites e blogueiros anti-regime, como o da mais conhecida jornalista de combate ao governo, Yoany Sánchez.

Algumas preocupações de hoje em Cuba. Há muita terra ociosa, porque os jovens querem ser urbanos, médicos, engenheiros e até cosmonautas, e áreas cedidas a muitas famílias não são exploradas.

A taxa de natalidade vem caindo e Cuba está se transformando rapidamente num país de muitos velhos e poucos jovens. E há o crescimento de ilhas de elites econômicas em várias áreas.

Uma distorção visível citada por ele: com o crescimento do turismo, uma pessoa deixou de ser dona de um carro de táxi e passou a explorar vários carros com motoristas.

Hoje, às 19h, Santiago lança o livro Canto Épico a la Ternura, em homenagem a Che Guevara, no Solar dos Câmara (Duque de Caxias), com apresentações de Ernesto Fagundes, Leonardo Ribeiro, Talo Pereyra, Liane Schuler, Demétrio Xavier, Marisa Rotemberg, Mário Falcão e Pablo Lanzoni. Este evento estava previsto para o Centro Cultural CEEE.

Vovô Che

O que Che Guevara poderia estar fazendo aos 90 anos nesse mundo cada vez mais esdrúxulo? É o que quero perguntar hoje, só pra puxar conversa, ao jornalista e professor cubano Santiago Feliú.
Santiago faz palestra a partir das 20h, no Sindicato dos Bancários (Rua General Câmara, 424), numa iniciativa do Sindicato dos Jornalistas do Rio Grande do Sul.
Ele vai falar de jornalismo, solidariedade, de Che Guevara e de Fidel (fez parte da equipe que cobria as atividades do presidente).
Santiago é especialista em Che e organizador do livro Canto Épico a la Ternura, com composições de 100 autores de 17 países em homenagem ao revolucionário assassinado há 50 anos na Bolívia. No dia 14 de junho do ano que vem, Che completaria 90 anos.
O jornalista trabalha na Revista Tricontinental, da Organização de Solidariedade dos Povos da África, Ásia e América Latina (OSPAAAL) e cumpre roteiro pelo Brasil. Participo da mediação da conversa ao lado do Celso Schröder. A palestra é aberta ao público.

Os três charutos cubanos

cuba

Estes três charutos cubanos estão no meu escritório há mais de 10 anos. Os anéis de papel de identificação estão esbranquiçados, já sem a marca, mas os três charutos têm nome: Fidel Castro, Che Guevara e Camilo Cienfuegos.

Os outros charutos que vieram de Havana junto com esses três foram consumidos enquanto fui fumante, antes de ganharem nomes. Os charutos foram um presente dos meus amigos Mário Marcos de Souza e Maria Helena, quando estiveram em Cuba.

Mário Marcos me entregou aquele monte de charutos, que eu pensei em socializar com o Kadão Chaves. Kadão entende até do tipo de fumaça que cada um produz. Depois, pensei bem e, por egoísmo, por ser um socialista bastante imperfeito, acabei ficando com todos.

Guardo os três charutos pela força afetiva que carregam e porque me levam a Havana. Já estive em Porto Rico, ali do lado, onde fui a trabalho, mas planejei e adiei viagens e nunca visitei Cuba, apesar de me acusarem de ser comunista.

Pois me lembrei dos presentes agora porque li na Folha que os turistas que foram a Cuba para os funerais de Fidel estranham que não há souvenirs à venda com a cara dele em Havana.

Não há chaveirinhos, canecas, camisetas. As lembrancinhas do comandante morto, que muita gente achou que encontraria em qualquer parte, não existem em Cuba.

Cuba não ganha dinheiro com a morte. A repórter Sylvia Colombo conta que as lojas podem vender apenas camisetas com a imagem do Che, porque Che é um mito. Mas nada de Fidel.

Quem sabe mais adiante? Quem sabe… Por enquanto, o comunismo trata bem da sua reputação e da imagem de seu chefe.

Penso nisso e olho para os meus três charutos e penso nas virtudes e nos defeitos de Cuba. Mas penso principalmente que a direita e suas assemelhadas, que tentam tirar proveito até de tragédias, nunca entenderão o que há de respeito e de dignidade numa atitude como essa de não ganhar dinheiro com a imagem do líder que morreu.

 

Cena de um funeral

Uma cena no funeral de Fidel. Imagine um grupo de velhinhos comunistas numa roda de conversa na praça de Santiago de Cuba.

Um deles interrompe a conversa e aponta com a mão para longe.

E ao longe se vê então José Serra e Roberto Freire se aproximando. São os representantes do governo do Jaburu. Os dois vão se chegando e o grupo vai se dispersando. E abre-se então uma clareira no meio da praça.

Serra e Freire entreolham-se, enquanto a turma se dispersa, e decidem sentar-se num banco da praça. O chanceler cruza as pernas, suspira e repete o que largou em uma nota oficial: Fidel foi de fato um sujeito importante para Cuba.

Freire concorda e os dois suspiram ao mesmo tempo. Uma pomba passa perto e não se dá conta, porque pomba não entende nada de diplomacia, que o Jaburu mandou a Cuba o que tinha de melhor.

Os velhinhos dobram a esquina, e um deles ainda olha pra trás em direção à praça, antes de sumir lentamente.

Tudo é possível em Santiago de Cuba, se Fidel está morto.

Perguntas sobre Cuba

Publiquei este texto em 27 de agosto de 2000 em Zero Hora. Me atrevo a republicá-lo, como curiosidade, porque me parece que as interrogações são praticamente as mesmas, 16 anos depois, no momento em que Fidel sai de cena.

O MUNDO SEM FIDEL E SEM A CUBA COMUNISTA

Quem participa de reuniões de cúpula diz que nada disso será preciso quando Fidel Castro morrer. Sem Fidel, os convescotes das cúpulas estariam entregues à chatice dos Blair, dos Schroeder, da turma da Terceira Via, esse arroz empapado enfeitado com passas, que se requentou antes de sair da panela.
Fidel diverte, elogia todo mundo e usa o mesmo truque nos discursos. Aos vinte minutos, anuncia que já está terminando. Quando param de rir, ele já falou por mais uma hora. O que será das cúpulas sem o comandante que desafia manuais e tempos cronometrados? A Cuba comunista imita Fidel, engana a plateia e espicha sua sobrevida, mesmo que a cada 20 minutos alguém anuncie que a ilha vai acabar, porque está escrito no cerimonial.
Se os cenaristas, videntes com doutorado, tivessem reputação, os cubanos teriam acabado com a de todos eles. O economista brasileiro Wilson Cano está pedindo respostas para a mesma interrogação que se renova. Até onde irá a coesão social de Cuba, que aprendeu a socializar suas migalhas, agora que é ameaçada pela emergência da nova classe de trabalhadores dolarizados?
Cano escreveu Soberania e Política Econômica na América Latina (Unesp, 582 páginas), uma análise da crise na região. Cuba ficou no fim do livro, como a esfinge. O balanço, desde antes da revolução de 1959, é essencialmente econômico e ajuda a montar a pergunta que excita torcedores pró e contra o Cuba FC.
A ilha é um milagre que deveria ter acabado junto com o muro, em 1989. Entre 1989 e 1993, a economia encolheu 35%, o comércio externo, 75%, os salários perderam 75% do valor. Os cubanos repartiam o que havia sobrado de comida, luz, sabonete, gasolina, pasta de dente.
Os países do Leste consumiam 83% das exportações de Cuba, e só a União Soviética ficava com 70%. O fim do mundo comunista deixou Fidel sem subsídios e sem compradores e expôs a incompetência do centralismo e da burocracia para preparar o país para o desenlace.
Fidel começa então a abrir a economia a investimentos externos e a desestatizar a produção. Em 1992, acaba com o monopólio público do comércio exterior. A Constituição, que proibia a propriedade privada, abre exceção para a propriedade mista (privada e do Estado).
Em 1993, permite a “posse de divisas” (dólares) pela população e até a abertura de contas em moeda norte-americana. O trabalho por conta própria, com preços liberados, e as cooperativas são estimulados.
Em 1995, Fidel cria o Ministério para o Investimento Estrangeiro, e a economia é aberta inclusive a bancos, deixando de fora apenas a área militar, saúde e educação. A abertura atraiu mais de 350 grupos.
Os dólares do turismo e os enviados pelos cubanos que fugiram para Miami fazem com que 70% da população tenha acesso à moeda norte-americana e aos mercados paralelos de alimentos, roupas, bens duráveis. O resto só tem pesos e se submete ao racionamento dos armazéns subsidiados das libretas.
Esta é a interrogação de Wilson Cano, um economista de esquerda: o que será do socialismo, que pode estar gerando na própria recuperação as desigualdades do capitalismo?
Fidel, agora engravatado e amigo de João Paulo II, virou mago do empreendedorismo? Fidel é o ditador que Fujimori, Stroessner, Pinochet, Yeltsin, Médici e alguns democratas gostariam de ter sido quando crescessem.
Estariam livres dos dissidentes, expostos como os mafiosos da Flórida, e teriam gente com dentes bonitos, crianças na escola, SUS que funciona, medalhas na Olimpíada e a cúmplice vitalidade daqueles velhinhos músicos do filme Buena Vista Social Club, de Wim Wenders.
O povo cubano seria um resignado que se realimenta do civismo contra o embargo americano e assim suporta a ditadura? Isso explica os milagres de uma ilha primitiva? O que será do mundo sem os discursos de Fidel? O que será de socialistas, anticomunistas, gremistas e colorados sem a Cuba com a cara que tem hoje?

As turmas de Fidel e FH

Há um estranhamento geral com a nota em que Fernando Henrique Cardoso reconhece as virtudes de Fidel Castro e escreve uma frase que muitos de esquerda assinariam:
“A luta simbolizada por Fidel dos “pequenos” contra os poderosos teve uma função dinamizadora na vida política no Continente”.
Mas estão batendo em FH porque é tucano, porque é da turma do Serra, do Aécio e do Alckmin, porque conspirou e ajudou a derrubar a Dilma etc.
Mas o que prevalece na carta é o antigo FH pré-politico que refletia sobre o Brasil e o mundo. FH, ao contrário de Serra (que nunca escreveu uma linha na vida e nunca foi ideologicamente bem definido), foi um pensador de lastro marxista. De Aécio e Alckmin nem vamos falar.
Foi com ferramentas marxistas que ele escreveu, aos 30 anos, Capitalismo e Escravidão no Brasil Meridional, sobre o escravismo e seus danos à economia e à alma do Rio Grande do Sul.
Se esse livro fosse lido ainda hoje nas escolas (é um crime que seja ignorado), poderíamos entender muito do que esse Estado vaidoso e quebrado é até hoje.
É esse FH jovem, do livro de 1962, que ele parece querer ressuscitar agora nessa nota em que pede que os cubanos preservem “o sentimento de igualdade que ampliou o acesso à educação e à saúde”.
Eu corro o risco de dizer que me comovo com uma nota em que um homem de 85 anos, que foi para a turma errada, tenta se reencontrar com o jovem que ainda o cutuca de vez em quando.

(Alguns vão dizer que já escrevi demais sobre este livro do Fernando Henrique. Sim, escrevi. E vou continuar escrevendo. É o mais importante livro sobre a paisagem sociológica do RS do século 19 e sobre a nossa herança escravista sempre camuflada. FH e Tau Golin, com a monumental série “A Fronteira”, escreveram, com temáticas e abordagens diferentes, é claro, as mais decisivas obras para compreensão do Rio Grande do Sul.)

O inferno

Se há consolo para um morto, um deles deve ser o de que morto não ouve comentários a seu respeito.

Imaginem se Fidel ouvisse o que andam dizendo dele. Perguntei a um jornalista amigo por que deram destaque ao vídeo em que Bolsonaro manda Fidel para o inferno, e o amigo me respondeu:Se há consolo para um morto, um deles deve ser o de que morto não ouve comentários a seu respeito.
Imaginem se Fidel ouvisse o que andam dizendo dele. Perguntei a um jornalista amigo por que deram destaque ao que Bolsonaro pensa de Fidel, e o amigo me respondeu:
– Porque ele pode ser o próximo presidente brasileiro.
– Pode?
– Hoje em dia, tudo faz sentido.