LICENÇA PARA ATIRAR

O que pode acontecer no Brasil já está liberado na Argentina. Desde ontem, um decreto do governo Macri permite que policiais façam disparos com armas de fogo nas mais variadas circunstâncias de “perigo iminente”.
O detalhe que começa a valer lá e que é defendido aqui pelos bolsonaristas (principalmente pelo governador eleito do Rio): o policial pode fazer disparos, antes mesmo de ser atacado, quando achar que o suspeito poderá usar arma letal. Sem esperar que seja feita uma constatação do que ele suspeita e sem aguardar qualquer enfrentamento. A ordem é: atire antes.
O decreto permite que policiais façam disparos em mobilizações populares. A ordem teria sido baixada com o argumento de que haveria a reunião do G20. Mas é permanente (o G20 foi apenas uma carona).
Já chamam a deliberação de Macri de Gatilho Fácil. Entidades de todas as áreas se mobilizam para derrubar a medida que consideram inconstitucional.
A repressão de direita tem um novo modelo na América Latina. A ordem é atirar. Se matar, terá sido um acidente. O faroeste virou lei. Preparem-se.

#PerseguiçãoNão

Agora não é mais boato. O próprio eleito já determinou que sejam identificados professores com ideias em desacordo com as posições da maioria dos que o elegeram.

O vídeo com o apelo à deduragem, que vem sendo divulgado, seria de julho. Não interessa. Hoje ou amanhã ele poderá até ser desmentido, porque o eleito desmente todo o dia o que afirmou no dia anterior.

O que importa é saber se as escolas brasileiras passarão a ser, como ocorreu na ditadura, o espaço da desconfiança, da traição e dos alcaguetes. Não serão.

Antes da deflagração do projeto das listas com os inimigos vermelhos, sabia-se que circulava pelos corredores de universidades a notícia de que a extrema direita pede ‘limpeza’.

Não eram boatos. Pois as direções de universidades e escolas, fragilizadas pela pressão da extrema direita, devem pedir socorro. Das comunidades, dos professores, dos pais, do Ministério Público, de quem estiver por perto. E também, e muito, dos alunos.

Que não cometam o erro de fazer expurgos em nome da obediência devida à repressão. Que pensem muito antes de cometer abusos. Que não se sintam à vontade para referendar perseguições.

Todos, todos, todos iremos denunciar perseguições e demissões estranhas. Como disse Haddad, essa é a hora da coragem. É a hora de buscar inspiração nos que resistiram a tempos de horror e nos asseguraram o direito à democracia.

Todos nós devemos obediência às liberdades.

 

VÃO RESISTIR?

Muitas universidades, comodamente silenciosas diante do avanço do fascismo, serão submetidas ao teste decisivo da democracia.
Terão de reagir às ações de repressão e censura às manifestações políticas, ou assumir a condição de subalternas obedientes dos prepostos do arbítrio e da extrema direita. Incluindo as que ainda não sofreram, mas podem sofrer a qualquer momento ações contra a liberdade de expressão.
Que as universidades ainda não atacadas se solidarizem com a instituições que já foram vítimas de invasões e se antecipem ao que pode acontecer em seus ambientes.
Quem preferir ficar à espera da investida da Polícia e de uma certa justiça seletiva estará nas mãos dos algozes da democracia.
Tudo o que o Brasil não precisa hoje é de uma universidade acovardada. Sem essa conversa de que ainda não foram atingidas pelos repressores. Todas serão.
Estudantes, professores, servidores, comunidades e pais de alunos devem exigir do comando das universidades que a resistência comece por suas lideranças com as prerrogativas e o dever da reação.
Ninguém espera demonstrações pessoais de valentia, mas sim a afirmação de coragem institucional. Vamos lá, ou entreguem os postos a quem se dispõe a resistir.

Bombas seletivas

Fico sabendo que bombas de gás poupadas contra os fascistas anti-Lula estavam guardadas para reprimir moradores do condomínio Princesa Isabel, em Porto Alegre.
Os moradores, tudo gente pobre, não jogaram pedras nem deram relhaços em ninguém. Nem jogaram cavalos em cima de mulheres.
Apenas queimaram pneus no meio da rua no sábado à noite em protesto contra a morte a tiros, dentro do condomínio, de um jovem suspeito de envolvimento em um assalto.
Os moradores reagiram fazendo o protesto. Várias pessoas ouvidas por jornalistas acusam a Brigada de execução do rapaz, que não teria reagido à perseguição até o pátio do Princesa Isabel.
A repressão a queimadores de pneus sabe usar os recursos que tem. E há condomínios e condomínios. O rapaz seria morto se morasse em outros lugares mais ‘nobres’?
E os moradores? Os moradores que se protejam como puderem do Estado que deveria protegê-los da mesma forma como protege mandaletes de arremedos de fazendeiros e assemelhados.

Algo maior vai acontecer

24/10/2016 - PORTO ALEGRE, RS - Ato contra a PEC 241, que corta investimentos na Saúde e Educação, e contra o governo de Michel Temer / golpe. Foto: Guilherme Santos/Sul21

O confronto entre manifestantes antiPEC 241 e a Brigada, ontem à noite, aconteceu na Avenida Osvaldo Aranha, perto do Auditório Araújo Vianna. Lá dentro, realizava-se o Fronteiras do Pensamento com o escritor britânico Ian McEwan.

Li no Jornal do Comércio online uma boa matéria sobre a conferência. McEwan contou que uma de suas preocupações como romancista é assegurar o máximo de realismo ao que narra.

Pensamento, fronteiras, realismo… e os gases da repressão empestando os ares da Osvaldo Aranha.

Aí pelas 21h40, eu saía do Salão de Atos da UFRGS. Tentava lidar com alguns ventos metafísicos, depois de ver a bela peça A Partícula de Deus, quando os participantes da manifestação, dispersados pela Brigada, ocupavam o pátio.

A excitação da gurizada, as faixas, as frases soltas, como as frases que os personagens da peça tentam pegar um do outro e devolver com seus significados possíveis, tudo isso me ofereceu a sensação de que algo ainda vai acontecer.

Foi uma segunda-feira interessante ali naquele triângulo de eventos no entorno da Redenção, com o Fronteiras defendendo os pensamentos, a peça do Julio Conte lidando com os dilemas da ciência, da arte e dos deuses de cada um e a gurizada se rebelando com força contra a PEC 241 e as crueldades do golpe.

Foi bom passar pelo meio dos que voltavam de mais uma batalha e sentir os restos do cheiro de fumaça e repressão. Dependemos da coragem, do vigor físico, da vitalidade deles para o enfrentamento.

O golpe não acaba se não tiver gente jovem nas ruas. Essa é a grande missão dos estudantes.

Fui embora tentando proteger uma sensação boa de que algo maior contra os golpistas ainda está por acontecer.

Mãos amarradas

rafael

Mais uma obra de um grande repórter que fez a opção certa pelo jornalismo de memória. Rafael Guimaraens lança quinta-feira, dia 11, O Sargento, o Marechal e o Faquir (Libretos), com a história do sargento Manoel Raymundo Soares, morto pela ditadura em 1966 depois de preso e torturado.

É a contribuição decisiva para a total compreensão do caso das mãos amarradas. Antes da sessão de autógrafos, Rafael participa de uma conversa com Carlos Frederico Guazzelli, ex-coordenador da Comissão Estadual da Verdade no Estado, e Suzana Lisboa, integrante da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos.

É grandioso o que o Rafael e a Clô Barcellos (que artista) vêm fazendo na Libretos pelo jornalismo, pela História, pela literatura e pela arte.

O lançamento será a partir das 19h, na Fundação Ecarta, na Avenida João Pessoa, 943. Eu vou.

Repressão legal?

fora

Os juristas brasileiros, ou seja, metade da população, estão a mil no debate sobre a repressão às manifestações da campanha do Fora Temer nos espaços da Olimpíada. Ontem, um juiz federal do Rio liberou as manifestações por liminar que pode ser cassada a qualquer momento pelo Gilmar Mendes.

Primeiramente, não há o que questionar em relação a algo fundamental: eu, tu, nós temos o direito de expressar pacificamente o que pensamos em ambientes públicos. Por que os lugares de uma Olimpíada seriam diferentes?

Ah, dizem, seria diferente por causa da tal lei 13.284, interpretada ao gosto de cada um. O objetivo claro da lei é o de tentar evitar manifestações de discriminação, racismo e xenofobia. Não tem nada a ver com faixas dirigidas a Michel Temer, Dilma ou Lula.

Mas continuamos ouvindo juristas (juristas mesmo) que chegam a considerar a tal repressão legal. Vamos imaginar que proibições semelhantes se disseminem por eventos variados, sob quaisquer pretextos, e as pessoas passem a ser reprimidas em praças, estádios, feiras e nas ruas porque ninguém aguenta mais o interino?

O ex-presidente do Supremo Carlos Ayres Britto já esclareceu: “Levar uma placa ou cartaz dizendo fora quem quer que seja, pacificamente, é uma legítima manifestação da liberdade de expressão e, logo, não cabe este tipo de cerceamento”.

É engraçado ouvir gente de “formação liberal” (ah, os nossos liberais!!) dizendo que o ambiente de uma Olimpíada não é o lugar adequado para manifestações políticas pacíficas. Pois espaços como esses são exatamente os mais adequados.

O público reprimido até aqui deve preparar a grande manifestação de Fora Temer para a festa de encerramento.

(Um detalhe: essa lei em debate já foi analisada pelo Supremo, e um ministro deliberou que as restrições às manifestações políticas eram constitucionais. Sim, o ministro em questão era esse mesmo, o Gilmar Mendes.)

Ainda falta gente

bicudo

A PUC/Famecos fez a sua parte na defesa do jornalismo ameaçado por ações do tempo da ditadura. Elmar Bones e Matheus Chaparini (na foto) participaram de um evento no saguão da faculdade, ontem à noite.
Matheus é o repórter do jornal Já que a Brigada prendeu e a polícia enquadrou como invasor, quando da desocupação da Secretaria da Fazenda, dia 15. Elmar é o diretor do jornal.
Já tive relatos de que foi um belo acontecimento. Que venham outros. Ainda há muita gente encaramujada. Dá tempo de sair da toca e ajudar a denunciar a repressão e a violência contra o jornalismo. .
Antes que outros fatos se repitam e passem a fazer parte da nossa normalidade.
Vamos lá. Autores de notas, ensaios e platitudes sobre atentados à imprensa longe daqui devem acionar suas penas – ou, por coerência, nunca mais escrever sobre liberdade de expressão.
Que escrevam sobre o frio em Cambará.

Os estudantes, os jornalistas e os repressores

guernica

Conversei essa semana com Elmar Bones, diretor do jornal Já. Elmar é o chefe de Matheus Chaparini, o repórter preso pela Brigada com o documentarista Kevin D’Arc e um grupo de estudantes, quando da desocupação da Secretaria da Fazenda, na semana passada.

O que aconteceu ali, naquele dia 15, não pode ficar atirado em algum canto da memória gaúcha, para ser resgatado daqui a alguns anos como um episódio vergonhoso. Deve ser tratado agora como é – um fato até então inimaginável em tempos de democracia.

Não é normal que um grupo de estudantes, a maioria adolescentes, tenha o tratamento dado a delinquentes, com métodos de repressão da ditadura.

Mas até agora a indignação com o que aconteceu está restrita às vozes de exceção de sempre. É como se a repressão a um fato político e seus desdobramentos estivesse dentro de uma normalidade que não deve ser incomodada.

Elmar me disse que no tempo dos militares (e ele foi preso pelo regime) até a interlocução formal da imprensa e das redes de proteção das liberdades com as autoridades civis, em momentos de tensão, por surpreendente que pareça, era menos errática do que hoje.

Não, não é um elogio à exceção. É a constatação de que os governantes gaúchos temiam a reação, geralmente barulhenta, dos que estavam na vigilância pela democracia.

Hoje, tudo está consumado pela imposição de uma estranha resignação. Muitos dos que deveriam reagir são cúmplices do silêncio obsequioso aos repressores.

Adolescentes são presos e enquadrados como criminosos e um jornalista é levado junto para a cadeia sem que aconteça uma reação proporcional à violência cometida.

Se há um consolo, este é um dos que temos à mão: a ocupação das escolas em todo o país é o mais relevante fato político dos jovens brasileiros neste século, como expressão de inconformidade com a degradação de um serviço público essencial. E assim será lembrado.

A repressão aos estudantes e ao jornalismo ficará como marca de um período em que, num ambiente de democracia, tudo era possível – para vergonha das instituições, das entidades que dizem defender direitos fundamentais e liberdade de expressão (e que continuam caladas) e da própria imprensa.

Os piores momentos da história foram os que tiveram uma imprensa amordaçada, ou acovardada e seletiva nas suas manifestações de indignação.

O 37º Congresso dos Jornalistas do Rio Grande do Sul, sexta e sábado em Caxias, saberá dar conta desse constrangimento. Que o Sindicato da categoria tenha o reconhecimento e o respaldo que merece diante de omissões que um dia serão cobradas pelos que foram reprimidos e presos naquele dia.

Os mandantes e os cumpridores de ordens do 15 de junho tentaram humilhar estudantes, jornalistas e a democracia. E tiveram a cumplicidade de muitos dos que deveriam estar do outro lado desse embate e só se manifestam quando da repressão a jornalistas em lugares bem distantes.

(Na arte, detalhe de Guernica, de Picasso)