Liberal? Onde?

Quantos brasileiros que ainda se consideram liberais (mas são incapazes de enfrentar o golpismo, o reacionarismo e o regime de exceção que vivemos) poderão ler sem conflitos o novo livro de Vargas Llosa, A Chamada da Tribo, com textos de exaltação do liberalismo?
Uma resenha da Folha de S. Paulo diz que o peruano tenta distanciar o “verdadeiro liberalismo” do conservadorismo.
Onde estaria o verdadeiro liberal brasileiro, e não o ultraconservador que se jogou nos braços do bolsonarismo e que agora se aproxima do barbosismo?
Quem é liberal hoje no Brasil, no sentido político amplo? Ou a pergunta deveria ser esta: quem são os reacionários que se apresentam como liberais no Brasil?
Vargas Llosa deve conhecer muitos deles, pois anda sempre por aqui.

A vingança

Velhos comunistas do leste europeu podem estar pensando no drama dos ultraliberais globalizantes que acabaram por produzir aberrações como Donald Trump e seus seguidores e assemelhados no mundo todo.

Se desse para ouvir o que esses comunistas pensam, talvez escutássemos algo como:

– Sempre esperei pelo momento em que aconteceria com eles o que um dia aconteceu com a gente.

Cada um com o muro e o Trump que merece.

A história não terminou

O texto é comovente, mas falta um detalhe no artigo de Francis Fukuyama hoje na Folha sobre a vitória de Trump. Fukuyama é o mais frustrado dos pensadores do nosso tempo.
Ele previu, em artigo em 1989 (depois transformado em livro), que os valores ocidentais da democracia, do liberalismo, enfim, do que seria o conjunto da civilização, tudo isso seria um dia vitorioso. Com a queda do muro de Berlim, o mundo começaria a andar só pra frente. Estávamos caminhando em direção ao fim da história.
Hoje na Folha ele escreve:
“A classe social, hoje definida pelo nível educacional da pessoa, parece ter se tornado a fratura social mais importante em incontáveis países industrializados e de mercado emergente. Isso é propelido diretamente pela globalização e pela marcha da tecnologia, que foram facilitadas pela ordem mundial liberal criada em larga medida por influência dos EUA, de 1945 em diante”.
Mais adiante, diz:
“Mas todo mundo está dolorosamente consciente agora de que os benefícios desse sistema não se estenderam a toda a população”.
E encerra o texto afundado na melancolia de quem sabe que errou:
“Hoje, o grande desafio para a democracia liberal não vem de regimes abertamente autoritários, como a China, mas de dentro”, ou seja, dos Estados Unidos e da Europa. O que prosperou foi o ultranacionalismo
Só faltou um detalhe: Fukuyama precisa finalmente admitir que falhou. Porque parece que ele trata hoje de um assunto abordado apenas pelos outros.
O liberalismo defeituoso (as esquerdas também levam pau no texto), por ele idealizado como a receita para o mundo, é um fracasso. A democracia, como já se sabe, está nas mãos de Trump e seus seguidores e assemelhados em todo o mundo.
É o melhor texto sobre a vitória de Trump e seus desdobramentos que li até aqui. Publico o link, mesmo sabendo que os não-assinantes da Folha talvez não tenham acesso.

http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2016/11/1831920-nova-era-nacionalista-pode-estar-a-caminho-com-vitoria-de-trump.shtml

 

Liberal, sim… Idiota, não

Leia esse trecho, é muito bom:

“Que ele se desculpe e admita seu erro ou que seja punido exemplarmente por aquilo que praticou: apologia do estupro – mas não de todas as mulheres, claro! Só das boas, bonitas e que fazem seu gênero”.

É de um texto da lavra do Reinaldo Azevedo. Reinaldo sugere que Bolsonaro peça desculpas à deputada Maria do Rosário. Se não pedir, que se ferre no Supremo.

Mas Reinaldo não é da direita? É, mas, como ele mesmo diz no artigo que está na Folha de hoje, não é um liberal idiota. Reinaldo acha que Bolsonaro cometeu crime.

Vocês devem se perguntar: ué, mas até tu lendo o Reinaldo? Sim, leio. Ele é o cara (até por causa do humor) em meio à mediocridade generalizada dos escribas de direita. Nunca antes neste país o reacionarismo esteve tão mal de texto.

Leio Reinaldo uma vez por semana, que é o máximo recomendado por um neurologista amigo meu.