DALLAGNOL DELIRAVA

Cada um com seus delírios e sua mania de grandeza. Deltan Dallagnol planejou a construção de um monumento grandioso que simbolizasse a Lava-Jato, numa praça de Curitiba.
Está em mensagens que a Folha divulga hoje. O procurador imaginava o seu monumento aos deuses justiceiros como um lugar que atrairia milhares de turistas do mundo todo.
Isso foi o que ele escreveu em maio de 2016, no pico de um surto como imperador, imaginando o que seria o seu Fórum de Cesar:
“Minha primeira ideia é esta: algo como dois pilares derrubados e um de pé, que deveriam sustentar uma base do país que está inclinada, derrubada. O pilar de pé simbolizando as instituições da justiça. Os dois derrubados simbolizando sistema político e sistema de justiça…”
Se fosse hoje, o pilar que cabe a Dallagnol estaria virado num caco.
O interessante é que Sergio Moro não gostou da ideia. Moro queria mesmo o cargo prometido por Bolsonaro, ou quem sabe uma estátua só pra ele.
Eu tenho uma ideia de monumento para a Lava-Jato. É simples, tem por toda parte em lojas de louças sanitárias e está de acordo com a obsessão bolsonarista.

O JORNALISMO AUSENTE

A grande imagem da dignidade e da resistência, depois do encarceramento de Lula, é aquela de Leonardo Boff sentado na guarita da Polícia Federal em Curitiba. A foto de Eduardo Matysiak correu mundo porque saiu nas redes sociais.

Só alguns dias depois de circular no FaceBook é que a imagem foi ‘descoberta’ pela grande imprensa.

A foto do homem do relho, que ataca um militante pró-Lula, em Santa Maria, é de Guilherme Santos e foi publicada no site Sul21. Depois, todo mundo copiou.

Imagens de conflitos nas ruas, de cenas reais e simbólicas dos efeitos do golpe, não são captadas pelos grandes jornais ou pelas grandes TVs. A Globo e outras emissoras só fazem jornalismo beija-flor, com drones e helicópteros, por vários motivos.

A Globo não faz jornalismo em terra porque a cobertura que realiza desde antes do golpe comprometeu o trabalho de seus repórteres. Jornalistas que nada têm a ver com o reacionarismo da empresa não conseguem trabalhar, porque provocam reações em terra.

Em nenhum lugar, os jornalistas deveriam ser impedidos de realizar seu trabalho. Mas em nenhum lugar a imprensa pode ser golpista impunemente. A Globo que persegue Lula pôs em risco suas próprias equipes.

Eu critico, condeno e considero repulsivos os ataques a jornalistas, não só porque eu também já fui atacado. Mas a realidade é esta: a Globo, a Bandeirantes, a Record e outras similares deixaram de fazer jornalismo para fazer campanha contra Dilma, contra Lula e contra o PT. Os jornalistas acabam pagando pelo golpismo que as empresas apoiam.

É triste. Por isso e por outros motivos que abordo mais adiante não há jornalismo da grande imprensa em Curitiba. Nós só sabemos do ataque a tiros na madrugada porque mídias independentes e jornalistas avulsos ou que representam seus sindicatos (como meu amigo Jorge Correa) podem circular entre os acampados e recolher depoimentos. E pessoas que não são jornalistas também fazem o trabalho que repórteres da grande imprensa deveriam estar fazendo.

Faço um depoimento pessoal. Eu cobri para a Folha da Manhã, em 1977, a primeira ocupação da Annoni por agricultores sem terra. Cobri também, logo depois, o histórico acampamento da Encruzilhada Natalino.

Mesmo em tempos de ditadura, os jornalistas não eram hostilizados. A imprensa, no auge da repressão militar, continuava fazendo seu trabalho, em especial depois de 68, às vezes claudicante, mas na maioria dos casos levada adiante pela resistência das redações.

Desde o golpe de agosto de 2016, tudo mudou. Se a TV não pode estar em Curitiba, os grandes jornais poderiam estar. Mas não estão. As empresas do negócio da comunicação desistiram de fazer jornalismo. Porque agora o golpe é outro.

A imprensa, que em algum momento abandonou o apoio incondicional aos militares, nos anos 70, agora se rende aos civis comandados pelo Judiciário. Porque a imprensa é protagonista do golpe.

Não há repórteres da grande imprensa em Curitiba porque a imprensa decidiu, quando for preciso, comer pela mão de blogs, de TVs e sites alternativos e de pessoas que estão por lá. É essa mesma grande imprensa que vive de imagens de câmeras de segurança (como no caso de Marielle) e do que sai na internet.

A imprensa decidiu que só cobre as decisões e as falas de Sergio Moro em Harvard e as sessões do Supremo. O acampamento de Curitiba está longe demais dos planos e dos interesses da grande imprensa.

SONHOS

Sonhei esta noite que Lula havia sido absolvido. E que o Banco Mundial estava financiando a construção de masmorras em Curitiba (que seria melhor do que investir em universidades, segundo o banco), para que conseguissem encarcerar todos os tucanos condenados.
Mas o sonho começou a falhar, a imagem começou a ficar ruim e tremida quando os tucanos, mantidos em contêineres, estavam indo em fila fazer delações ao juiz Sergio Moro.
Quando os tucanos entravam na sala do juiz (eram dezenas, de todos os tipos, alguns disfarçados de papagaio), a imagem foi cortada. O meu sonho era analógico, e a partir de agora o mundo só aceita sonhos com imagens digitais.
E aí então apareceu um anúncio (foi meu primeiro sonho com comerciais) dizendo que condenação de tucanos só será possível em sonhos virtuais.
Foi quando acordei suando muito e ouvi meu vizinho paneleiro cantando junto a mesma música que ele ouve 26 vezes por dia.
Quero tomar um remédio que me impeça de ter esse tipo de sonho. É um desperdício de tempo de sono e de sonho.

Cheguei atrasado

Fui conferir, como fazia no tempo de repórter, o que diz mesmo a página da juíza Diele Denardin Zydek no Facebook.
Alguns sites informam que Diele, que proibiu acampamentos de simpatizantes de Lula em Curitiba, no dia 10, quando do depoimento do ex-presidente a Sergio Moro (se não for adiado), reproduz em sua página notas e comentários de sites e blogueiros da extrema direita, entre os quais o Movimento Brasil Livre.
Fui pesquisar hoje à tarde, mas não há página com o nome da juíza, não há perfil, não há nada no Facebook. Se alguém souber que a página está de volta, que me avise.
Não considero estranho que uma juíza tenha posições políticas, muito menos de direita, ou que seja fã do Diogo Mainardi. O Judiciário no Brasil está sendo tomado pela direita extremada.
Acharei estranho se a juíza de fato compartilha opiniões disseminadoras de ódio e preconceitos da extrema direita assumidamente fascista, como andaram informando.
E mais estranho fica se ela de fato apagou a página. Em nome de uma transparência tão citada e tão retórica, nesses tempos de delações sobre eliminação de provas, eu gostaria de saber o que aconteceu com as anotações da juíza.

Curitiba é logo ali

A pergunta do domingo, que me persegue desde ontem: se o juiz Sergio Moro tem o hábito de fazer vídeos caseiros para se dirigir ao seu povo, por que resiste em aparecer nas filmagens do dia 10, quando do depoimento de Lula?

A melhor parte do seu vídeo divulgado ontem (sobre a audiência com Lula) está neste trecho: “É um ato normal do processo, nada de diferente acontecerá nessa data”.

Se nada de diferente vai acontecer, por que gravar o vídeo e contribuir para a expectativa de que algo de diferente vai mesmo ocorrer?

Um depoimento de Lula, caçado pela Lava-Jato há dois anos, nunca seria um ato normal.

Moro foi esperto como mensageiro de um alerta: se algo der errado, eu avisei. O juiz também parece querer avisar que não vai mandar prender Lula.

A impressão passada pelo vídeo é de que Moro está bem tensionado.

Minha conclusão, depois de tomar 12 mates ouvindo o alvoroço dos bem-te-vis da Aberta dos Morros: ninguém, nem a turma dele, vai dar bola para o conselho do juiz.

Todos os caminhos levam a Curitiba.

Quem quiser que acredite

Muita gente deve ter acreditado que o juiz Sergio Moro está mesmo se dirigindo aos seus fãs, quando pede em vídeo que eles não apareçam em Curitiba no dia da audiência de Lula.

Cada um acredita no que quiser. Tem gente que acredita até que em algum momento a Lava-Jato vai pegar tucanos.

Eu tenho o direito de concluir que ele se dirige, na verdade, aos apoiadores de Lula. Imagino que Sergio Moro ainda não pode (um dia vai poder?) determinar o que eu penso.

Moro deu este recado: só eu posso politizar a Lava-Jato, com meus apelos e minhas atitudes dirigidas ao meu povo.

O resto que se recolha à sua insignificância e se submeta ao que ele pensa. E ele pensa que Curitiba não deve ser contaminada politicamente pelas ações da sua Lava-Jato no dia 10.

Moro quer que o Brasil imbecilizado entenda a Lava-Jato como uma questão estritamente jurídica.

Eu não preciso ler mais nenhum dos juristas nacionais e internacionais que dizem o contrário. A Lava-Jato é, na essência, uma implacável caçada política.

Não pretendo ir a Curitiba dia 10. Se tivesse decidido ir, não desistiria da viagem por causa do conselho aparentemente ‘neutro’ de um juiz que se sente no direito de orientar as atitudes políticas dos cidadãos.

Quem vai baixar a cabeça para Sergio Moro

Sergio Moro pode submeter cidadãos em geral a conselhos restritivos e autoritários, como este para que, numa indireta, os apoiadores de Lula não apareçam em Curitiba no dia 10, quando do depoimento do ex-presidente?

Em vídeo, Moro diz se dirigir, espertamente, aos apoiadores da Lava-Jato. Mas é óbvio, para quem entende meia frase, que ele está mandando um recado, nas entrelinhas, aos apoiadores de Lula. Ou será que fomos todos imbecilizados?

Moro politizou a Lava-Jato, a partir do momento em que grampeou ilegalmente Dilma e Lula e enviou a gravação para que a Globo a divulgasse, e agora se assusta com o que pode acontecer.

Era só o que faltava um juiz de primeira instância virar conselheiro e tentar estabelecer limites para a liberdade de expressão e o direito de ir e vir em tempos de democracia.

Ninguém, entre os que pretendem ir a Curitiba, a favor de Lula ou da Lava-Jato, deve se submeter às ordens de Sergio Moro. O juiz não pode ter a pretensão de ser também o censor de consciências e vontades do Brasil.

Tudo que Lula não pode é deixar de ser político. E um juiz não deveria nunca deixar de ser juiz.

 

O Judiciário aguenta os excessos da Lava-Jato?

Ontem, Lula virou réu no terceiro processo que se abre contra ele. Desta vez, é por corrupção e lavagem de dinheiro envolvendo a contratação, pela Odebrecht, de uma empresa de Taiguara Rodrigues, parente do ex-presidente.

Prevê-se que Lula terá cinco processos contra ele. Em dois ele já é réu. No primeiro, é acusado de obstrução de Justiça. No segundo, de favorecimento pela OAS no caso do apartamento no Guarujá.

Ainda faltam os processos por participação em lobby em favor de empreiteiras e o do famoso caso do sítio de Atibaia e seus pedalinhos. Se não surgirem outros.

Lula, a mulher dele, os filhos, os cunhados, os vizinhos, todos serão investigados e processados. Como diz Zé Simão, humorista da Folha, no fim Lula será processado por formação de família.

Não há saída para Lula. Serão cinco processos. Não haverá como escapar de todos. Se for condenado em um deles e a condenação for confirmada em segunda instância, poderá ser preso.

Como as investigações contra Lula andam a jato, enquanto as investigações e processos contra tucanos não andam, é provável que Lula seja condenado antes das eleições de 2018.

E aí vem a grande dúvida. Quem ganhará o que com a prisão de Lula, ou quem poderá perder o que talvez esteja contabilizando hoje como ganho?

A direita seria mesmo beneficiada com a exclusão de Lula da disputa de 2018 e, quem sabe, da própria política?

Também não está claro, por exemplo, se Ministério Público e Judiciário de Curitiba, em especial, têm condições de avaliar o impacto político da caçada a Lula, se nem os próprios políticos sabem direito o que irá se passar.

Em síntese, será que os integrantes da força-tarefa traçam mesmo uma estratégia pensada de destruição de Lula, avaliando todas as suas consequências, ou são apenas justiceiros impulsivos que em algum momento irão se enredar nas próprias teias?

Estou com os que consideram que MP e Judiciário da força-tarefa (e suas extensões e franquias) foram tomados pela soberba e podem ser apenas quadros medianos anestesiados pela sensação de que cumprem uma missão bíblica. A racionalidade não parece ser a virtude desse pessoal imerso em convicções.

Se Lula for condenado em tantos processos, enquanto a direita tucana corrupta e impune debocha de todos nós, algo muito grave terá acontecido, na sequência do golpe.

Que o Judiciário saiba se proteger antes de um desastre desmoralizador provocado pelos excessos que poucos do meio jurídico estão denunciando. O Judiciário seletivo pode desqualificar o próprio Judiciário, mas a Lava-Jato talvez não esteja preocupada com isso.

Poesia na masmorra

sarney2

Imagine que se cumpra o desejo do procurador Rodrigo Janot, e Cunha, Renan Calheiros, Jucá e Sarney fiquem na mesma cela e passem o dia entreolhando-se para saber quem será o primeiro a delatar o outro.

De repente, Sarney, articulado com o juiz Sergio Moro, que adora literatura, começa a declamar seus poemas.

Não há quem aguente o pau-de-arara dos poemas do Sarney na masmorra de Curitiba. A poesia sarneiseana pode ser usada na tática da delação.

Tente imaginar Sarney lendo este poema:

Uma noite

dormiu

dentro de mim.

Mil demônios

balançando-a para lá e para cá,

a rede de linha de seda.

Ela sorria

com o odor

do cio.

Não sei se devia andar

a dizer ou recitar

acalantos.

Não quero

mais o canto do adormecer.

Quero entregar-me

para ser visto e amado, num banquete

das saudades que fugiram

ou

morreram.

Pensar-te navio que se afogou

na Praia Grande.

Teus mares

são terras de França

para onde

Maria de Médicis

mandou caravelas

para os domínios destas paisagens

onde o nome de São Luís foi dado

para dizer Maranhão:

mar e paixão.