A RESPOSTA AO CONDENADO

Bolsonaro desrespeitou a Justiça e publicou hoje uma nota com pedido de desculpa esfarrapado à deputada Maria do Rosário.

A Justiça condenou Bolsonaro por danos morais por conhecidas agressões verbais à Maria do Rosário em 2014, quando fez inclusive incitação ao estupro. Uma juíza determinou que ele publicasse uma nota de retratação. Não publicou nada.

Bolsonaro mandou que publicassem hoje um texto em que volta a atacar a deputada e que me nego a reproduzir aqui.

Recebi agora uma nota dos advogados de Maria do Rosário, em que eles e posicionam sobre o deboche de Bolsonaro, anunciando que irão recorrer mais uma vez à Justiça.

“Nota da Assessoria Jurídica da Deputada Maria do Rosário

Na tarde de hoje (13 de junho) foi publicada “Nota de retratação” de Jair Messias Bolsonaro – presidente da República – em decorrência de condenação judicial nos autos da ação de indenização por danos materiais e morais movida pela deputada Maria do Rosário (Processo 2014.01.1.197.596-2).

Após a primeira frase da nota em que consta a palavra “desculpas”, todos os demais trechos se dedicam, em contrariedade à determinação judicial, a tentar justificar a conduta do réu no ano de 2014. Ademais, a nota veicula informações inverídicas, como o fato de que a ofensa dirigida à parlamentar teria sido uma resposta a suposta ofensa proferida pela deputada.

O processo atestou a falsidade desse fato e comprovou que as ofensas disparadas por Jair Bolsonaro contra a deputada Maria do Rosário não guardavam qualquer relação com sua atividade legislativa, razão pela qual não se encontravam protegidas pela imunidade parlamentar.

Portanto, não é razoável que, no momento de dar efetivo cumprimento à decisão transitada em julgado, com reparação à pessoa ofendida, o réu se valha dessa oportunidade para renovar os debates sobre os fatos já superados ao longo do processo e subverter aquilo que foi reconhecido pela Justiça. Tampouco é razoável que o réu aproveite essa oportunidade para tentar, uma última vez, justificar sua injustificável e inaceitável conduta.

O processo judicial que resultou em sua condenação se debruçou cuidadosamente sobre os fatos e, diferente do que afirma a nota, entendeu que a conduta de Jair Bolsonaro no episódio, longe de ser justificável, foi ilícita, resultado em ofensa à honra e à dignidade da deputada.

A postura do réu na referida nota, ao tentar justificar conduta considerada ilícita pelo Poder Judiciário, não é compatível com a afirmação de defesa e respeito às mulheres brasileiras.

Diante do exposto, a assessoria jurídica da deputada entende que a “Nota de Retratação” tal como redigida não atende à determinação da Justiça. E por este motivo, essas questões serão levadas ao conhecimento da Exma. Magistrada responsável pelo cumprimento da decisão judicial.
Dr. Cezar Britto
Dra. Camila Gomes
Dra. Yasmin Yogo
Dr. Rodrigo Camargo”.

A SEDUÇÃO E A CRUELDADE

Eu pretendia escrever sobre o caso de Neymar, mas vacilei, achei que não teria muito a dizer além de obviedades e platitudes e vi então ao acaso esse artigo.
É o texto mais poderoso que li sobre o assunto, da antropóloga Debora Diniz. Vi agora no perfil da Patrícia Duarte e compartilho. Saiu na revista Marie Claire.

“Não sabemos a verdade do estupro, mas da crueldade com que Neymar expôs a mulher”
Debora Diniz
Neymar foi acusado de estupro e nega o crime. Ao invés de aguardar a investigação policial ou mesmo se pronunciar com amparo de advogados, optou por expor-se ao mais vulgar tribunal de justiça do planeta, as mídias sociais. Sua conta no Instagram, que está entre as 10 com mais seguidores na história, fez com que 120 milhões de pessoas fossem alcançadas com seus seis minutos de explicações. Em instantes, de algoz passou a vítima.
A narrativa de Neymar pode ser espontânea ou parte de uma estratégia calculada de defesa. Para um crime de difícil comprovação, como é o estupro em relações que se estabelecem consensuais, Neymar fez uso de uma tática moral que ressoa no imaginário de gênero – os homens seriam seres vulneráveis à artimanha erótica de mulheres sedutoras. Ouvimos sua voz como narrador, enquanto a vítima é exposta em diferentes níveis da breve intimidade vivida: vemos partes de seu corpo erotizado, lemos frases soltas de um jogo de sedução. Quem o assiste passa a ser voyeur da vida sexual de homens famosos, porém ingênuos.
Como recuso o papel de participante no tribunal global, me interessa acompanhar os efeitos de sua narrativa para a composição de quem seria a “vítima” do escândalo ou da violência: se ele ou a mulher.
Os julgadores do tribunal atuam ainda como detetives de datas e textos, passam a discutir evidências sobre quem estaria falando a verdade. Se à mulher coube a voz inicial de acusação, em resposta, Neymar fez uso de um poder inalcançável a quase qualquer outra pessoa no planeta: um palanque exclusivo de autodefesa.
Em sua versão dos fatos, ela foi lançada ao papel de sedutora interesseira, e ele de vítima da natureza masculina para o sexo e do poder traiçoeiro.
Os juízes do tribunal virtual ignoram que a intimidade exposta para milhões de pessoas nada prova sobre a alegação do crime de estupro. O que circula é a versão de um homem poderoso com mais audiência que qualquer veículo de comunicação no planeta. Sua narrativa se ancora em elementos do fascínio pelo sexo e na fácil desqualificação das mulheres vítimas de violência sexual. A mim, não interessa vasculhar o corpo dessa mulher anônima, mas protegê-la.
Não sabemos a verdade do estupro, mas sabemos a crueldade com que Neymar expôs a intimidade vivida com esta mulher e com que a lançou à cena da pornografia global no intuito de atiçar o voyeurismo sexual.
Como uma isca ao machismo latente, a adesão foi rápida: o papel do menino pobre foi colorido com a ingenuidade erótica comum aos homens quando se veem seduzidos por mulheres bonitas. Neymar seria só mais um “menino” que caiu nas artimanhas do sexo, e como prova, dizem os julgadores virtuais, basta ver as imagens enviadas pela mulher. [
O contraponto do “menino ingênuo” de 27 anos é a mulher interesseira ou prostituta. O enredo da defesa parece perfeito para silenciá-la: ela é duplamente culpada – pelo sexo indevido e pela exposição da intimidade de um menino.

A face do Brasil sinistro

Se o Supremo absolver Bolsonaro da acusação de que incentiva estupros, os adoradores do macho-mito se acharão autorizados a ameaçar e violentar mulheres. Este é o meu texto postado ontem no Extra Classe online.

http://www.extraclasse.org.br/exclusivoweb/2017/08/a-face-do-brasil-sinistro/

A Justiça e os estupradores

Monica Iozzi foi processada por Gilmar Mendes porque o criticou por ter libertado o médico estuprador Roger Abdelmassih, depois de sua condenação a 278 anos de prisão por 58 estupros.

A atriz escreveu na internet que, ao mandar libertar o médico tarado, que acabou fugindo do país, Mendes tornara-se cúmplice de um violentador. Teve que pagar R$ 30 mil por danos morais, por decisão da 4ª Vara Cível de Brasília.

Até hoje, o violentador de pacientes anda de um lado para outro, da cadeia para casa, de casa para algum hospital para ricos e impunes.

O outro caso é o de Jair Bolsonaro, que disse em entrevista que só não iria estuprar a deputada Maria do Rosário porque ela não merece. Mesmo reincidente com suas agressões covardes à deputada, foi condenado agora pelo Superior Tribunal de Justiça a pagar apenas R$ 10 mil de indenização.

Bolsonaro foi condenado e terá de se retratar na internet, o que já é um consolo (alguém esperava que ele fosse absolvido?).

Mas o custo da declaração criminosa do estuprador assumido, que agride uma colega deputada e assim ataca todas as mulheres, é R$ 20 mil mais baixo do que o preço pago por Monica por ter criticado o ministro do Supremo que mandou soltar um estuprador.

Os personagens são emblemáticos. Um juiz sempre envolvido em controvérsias pró-direita e sorteios estranhos, um deputado que se autoproclama violentador e já foi denunciado como racista e homofóbico e um médico estuprador. Do outro, uma atriz e uma deputada, as duas determinadas e valentes. Três homens, duas mulheres, além das dezenas de vítimas do médico tarado.

No Brasil, há estupradores e estupradores, juízes e juízes. E há ofendidos e ofendidas. E mais as vítimas.

O Judiciário brasileiro agora é desmoralizado até pelos estupradores.

Bolsonaro manda e desmanda

Ainda não surgiu o deputado macho capaz de enfrentar a fúria e os blefes de Jair Bolsonaro. Os homens da Câmara continuam temendo Bolsonaro.

Hoje, ele ficou por um minuto com o dedo em riste quase tocando o rosto da deputada Maria do Rosário, a quem costuma agredir com frequência.

Durante todo esse tempo, ele ficou ao lado de Maria do Rosário, na mesa da Câmara, gritando e gesticulando de forma agressiva, como se fosse jogar-se sobre a deputada.

Um grupo de mulheres protestava e alguns homens da segurança faziam cena, como se fossem tirá-lo dali. Bolsonaro saiu depois porque quis. Ainda falta um macho que enfrente Bolsonaro no Congresso.

Talvez Bolsonaro esteja mesmo à espera do novo Supremo, sob o comando da ministra Cármen Lúcia. Ele é réu no Supremo por incitação ao estupro.

Pode ser que uma mulher leve adiante no Supremo uma missão que fará com Bolsonaro o que os homens do Congresso não são capazes de fazer.

Não há homem no Congresso com coragem para conter Jair Bolsonaro, nem quando ele ergue o dedo em direção ao rosto de uma mulher e colega de parlamento.

……

Veja aqui o vídeo.

http://www1.folha.uol.com.br/poder/2016/09/1813237-acusado-de-incitar-estupro-bolsonaro-se-exalta-em-sessao-sobre-o-tema.shtml

O bom momento dos covardes

Temos dois exemplos de pregação de retaliações com extrema violência no Estado, disseminados por quem deveria fazer exatamente o contrário. A questão é: o que faremos desses casos, para que não se acomodem em indignações barulhentas mas inconsequentes?

No primeiro, um promotor de Júlio de Castilhos disse a uma adolescente (na frente de uma juíza) que ela deveria ser estuprada por menores da Fase, porque teria mentido que havia sido violentada pelo próprio pai.

Mesmo que o caso seja de 2014, a repercussão acontece agora, porque o episódio chegou ao Tribunal de Justiça do Estado e foi divulgado em detalhes assombrosos pela repórter Adriana Irion, de Zero Hora.

O promotor que ofendeu a adolescente em audiência sabia ou deveria saber que a menina estava tentando se proteger de represálias, pois era sistematicamente estuprada.

Mesmo assim, a autoridade “desinformada” pregou a crueldade como vingança para a menina que considerava mentirosa. Uma mentira mereceria mais estupros. E a juíza que tudo ouvia ficou quieta.

O outro caso é este. Um comunicador de rádio de Porto Alegre disse no ar, há duas semanas, que jornalistas defensores de direitos humanos e seus filhos deveriam ser assassinados por delinquentes. Para que parassem de dizer bobagem e de proteger assaltantes.

Os dois, o promotor que agrediu e humilhou uma adolescente, desejando-lhe mais estupros, e o radialista que estimulou a chacina das famílias de colegas, deram a entender que os bandidos ouviriam seus apelos, ou estavam apenas blefando.

Eles são muito semelhantes, mas a diferença básica entre um e outro é esta. O promotor vai ser julgado pela própria categoria e pode até ser condenado e excluído do Ministério Público.

Já a pregação pública do radialista, lida de um texto que ele definiu como “editorialzinho”, foi completa e vergonhosamente ignorada pela própria categoria e também pelo Ministério Público. E dizem que ele pode até ser promovido.

O momento está muito propício aos covardes.

 

Estupradores nacionais e estrangeiros

Leio agora que prenderam mais um denunciado por tentativa de estupro na Vila Olímpica. Já são dois. O que vai acontecer com eles, um dos Marrocos e outra da Namíbia?
Se o padrão for o que acontece no cotidiano das brasileiras atacadas, é provável que os dois voltem para casa como se nada tivesse ocorrido.
Ontem, a Zero publicou uma grande reportagem da Débora Ely, que todos os que ainda se divertem (inclusive colegas jornalistas) com a “inofensividade” de brincadeiras e violências sexuais dissimuladas deveriam ler.
A Débora expõe a impunidade dos estupradores, a partir do desfecho de casos que resultaram em inquéritos. Estuprador no Brasil talvez somente seja preso se for estrangeiro e estiver na Vila Olímpica.

Liberal, sim… Idiota, não

Leia esse trecho, é muito bom:

“Que ele se desculpe e admita seu erro ou que seja punido exemplarmente por aquilo que praticou: apologia do estupro – mas não de todas as mulheres, claro! Só das boas, bonitas e que fazem seu gênero”.

É de um texto da lavra do Reinaldo Azevedo. Reinaldo sugere que Bolsonaro peça desculpas à deputada Maria do Rosário. Se não pedir, que se ferre no Supremo.

Mas Reinaldo não é da direita? É, mas, como ele mesmo diz no artigo que está na Folha de hoje, não é um liberal idiota. Reinaldo acha que Bolsonaro cometeu crime.

Vocês devem se perguntar: ué, mas até tu lendo o Reinaldo? Sim, leio. Ele é o cara (até por causa do humor) em meio à mediocridade generalizada dos escribas de direita. Nunca antes neste país o reacionarismo esteve tão mal de texto.

Leio Reinaldo uma vez por semana, que é o máximo recomendado por um neurologista amigo meu.

O jornalista e o piadista

Juca Kfouri entrou no melhor debate sobre opinião, liberdade de expressão, jornalismo, entretenimento e calhordices do momento no Brasil. E entrou para ficar ao lado do cara que acionou o debate com valentia, o jornalista e comentarista de futebol José Trajano.

A notícia é velha, mas se renova com manifestações como a de Juca, colega de Trajano na ESPN. Um resumo: Trajano se queixou da participação do humorista Danilo Gentili na bancada de um programa da ESPN, exatamente quando o Brasil debatia o estupro coletivo no Rio.

Gentili, o mais aplaudido engraçadinho de direita do país, havia feito uma piada sobre… estupro.

Pode? O humorista reacionário acha que pode. Trajano e Juca acham que não. Eu também acho que não. Gentili é uma das aberrações do dito entretenimento de direita. É o grande ídolo dos tucanos e dos golpistas.

Ah, dirão, mas o seu Gentili está apenas exercendo o direito de opinião. Que exerça e que assuma as consequências. Essas figuras nunca fazem piadas com poderosos, só com índios, negros, pobres e gays.

Gentili é a expressão do Brasil calhorda que prospera a reboque do golpe. É um covarde (que depois negou a piada) à espera de um Trajano. Não é o único. Há outros na volta.