MORO, REBAIXADO, É APENAS O ADVOGADO DE BOLSONARO

É devastadora a resposta de Felipe Santa Cruz, presidente da OAB, à acusação de Sergio Moro de que o líder dos advogados faz militância político-partidária e que por isso o ex-juiz se recusa a recebê-lo. Essa é a resposta, encaminhada à jornalista Monica Bergamo, da Folha:

“Tenho dificuldade em acreditar que o ministro Moro tenha dito que só recebe quem concorda com ele. Aliás, política partidária ele faz desde que era juiz em Curitiba como demonstram as reuniões realizadas antes do segundo turno com a equipe do presidente.
Ele reduziu a função de ministro da Justiça à de advogado pessoal do presidente. Isso sim é política partidária. Ele não age como ministro de Estado, mas apenas como ministro de governo”.

Falta a Sergio Moro a capacidade de calibrar suas declarações, para que não cometa gafes primárias. Essa de dizer que não recebe o presidente de uma entidade do porte da OAB por causa de suas posições políticas e partidárias é uma barbeiragem de amador.

Mais do que autoritarismo, a declaração passa despreparo e ingenuidade. Moro reafirma-se como um simplório. Santa Cruz acabou por enquadrar o ex-juiz que pretendeu um dia ser ministro do Supremo.

Moro, na definição do presidente da OAB, foi rebaixado à condição de tarefeiro das demandas jurídicas de Bolsonaro, sempre enredado nos problemas dos milicianos, dos filhos, do ex-partido, do novo partido e dos ex-aliados. É o que cabe hoje ao ex-juiz no latifúndio do bolsonarismo.

EVO E O POBRE QUE VIROU REAÇA

Evo Morales na entrevista a Monica Bergamo na Folha:

“As novas gerações não conheceram como viviam as pessoas na ditadura militar ou nas ditaduras do modelo neoliberal. Tem crianças, jovens, que acham que se vivia em boas condições, com telefonia celular, crescimento, universalização dos benefícios sociais. Eles nasceram e viveram isso e, imagino, querem outras conquistas. Nós fizemos essa nova classe média e ela tem outras demandas.
Foi crescendo a mentalidade de luxo, lucro. E ela tem preconceitos. O papel das redes sociais nisso também ficou claro. Me dói ter que enfrentar grupos violentos. Não entendo como, depois de tantos anos, nasce o fascismo e o golpismo.
Não sei se, depois da eleição de Trump nos EUA, essa onda não começou a crescer. Fortaleceram-se grupos fascistas no mundo e agora isso chegou à Bolívia”.

O que Evo diz da Bolívia vale, claro, para o Brasil que foi às ruas e derrubou Dilma e depois elegeu Bolsonaro e as aberrações que tomaram os legislativos.
É uma realidade que Evo encara publicamente, mas que certas esquerdas no Brasil ainda tratam com certo cuidado.

NECROJORNALISMO

Augusto Nunes, que ataca até os mortos ligados aos seus inimigos políticos, levou um no queixo, desferido pela colunista da Folha Monica Bergamo.
O necrojornalista atacou os parentes mortos de, para cutucar Monica, e teve de ler essa:
“Deixe de usar crianças e pessoas mortas para atingir quem você não gosta, Augusto Nunes. Não percebe que isso é asqueroso?”
Nunes queria que Lula saísse da masmorra de Curitiba e fosse visitar os túmulos dos seus mortos (de dona Maria Letícia, do neto, do irmão). Nunes pretendia determinar o roteiro de Lula em liberdade.
Augusto Nunes ataca mortos, ataca Maria do Rosário, ataca Glenn Greenwald, para fazer média com os Bolsonaros. Mas os Bolsonaros ignoram a bajulação.
Nenhum Bolsonaro dá bola para os túmulos de notas maldosas de Nunes, o mais rococó dos jornalistas brasileiros.

Novo julgamento, mas para pacificar o país…

Esta notícia da Mônica Bergamo, na Folha, é sensacional.
“De acordo com um dos integrantes do MPF que participou diretamente da Operação Lava Jato na equipe do ex-procurador Rodrigo Janot, um novo julgamento de Lula seria a única forma de pacificar o país e afastar as inúmeras suspeitas que passaram a pesar sobre os procuradores e o ex-juiz Sergio Moro”.
É para afastar suspeitas e pacificar o país. Não é para que o réu tenha um julgamento justo.

O cerco a Maduro

A entrevista de Nicolás Maduro à Mônica Bergamo na Folha merece ser lida, não para que se caia na armadilha do debate se ele é ou não um ditador, mas para que se compreenda a situação de um país historicamente cercado pela direita mundial.
“Por que buscar erros de um país torturado, perseguido? Quem sabe nosso único erro é não fazer mais para superar os efeitos do bloqueio.
A Venezuela está torturada. Todas as nossas contas no exterior, para importarmos um grão de trigo, de milho — se eu quisesse trazer milho do Brasil, não poderia.
A Venezuela é submetida a uma perseguição financeira, comercial, que não se permite a ela trazer alimentos, remédios. Como você pode levar um país se o Fundo Monetário e o Banco Mundial são cúmplices disso? Mentem sobre a Venezuela”.
Ah, dirão, mas há miséria e fome na Venezuela. Ainda bem que aqui não há. E que Bolsonaro, defensor da democracia na Venezuela, seja, como disse Maduro, admirador de Pinochet.

A CRONISTA SOCIAL TEMIDA PELO EX-JUIZ

A imprensa internacional vai fechar o cerco a Sergio Moro. A tática do ex-juiz de intimidar Glenn Greenwald, de depreciar jornalistas brasileiros e de atacar veículos como a Folha de S. Paulo tornarão sua vida mais complicada a partir de agora.

Moro cometeu ontem um erro sempre repetido pela direita e com exemplos também à esquerda. O chefe de Dallagnol desafiou a ira do jornalismo. A resposta não será corporativa, como fizeram os juízes amigos de Moro e os procuradores amigos de Dallagnol, mas virá da reação natural de quem se sente desafiado.

Moro tentou jogar para a plateia bolsonarista e, ao atacar o Intercept e a Folha, acabou por atacar toda a imprensa, e não só a dita alternativa e tampouco só o veículo que, segundo ele, faz denúncias a partir da sua colunista social. A jornalista Monica Bergamo, um dos grandes nomes da imprensa brasileira, seria a cronista social.

Vai pesar contra Moro outra denúncia grave, que já repercute em todo mundo: a de que ele está usando o Ministério da Justiça como aparelho para perseguir Greenwald.

O ex-juiz terá a partir de agora a imprensa mundial, e não só o Intercept e a Folha, mobilizados para provar que ele está errado e que agia em conluio com Dallagnol.

Os jornais tradicionais e o novo jornalismo online vão preparar a revanche com informações. Em algum momento, Moro terá de esclarecer, entre outras, a informação de que o jornalista que o denunciou com a divulgação das mensagens da Lava-Jato está sendo vigiado por agentes do governo, que bisbilhotam até suas movimentações financeiras.

Essa informação foi divulgada pelo site que mais bajula a Lava-Jato, O Antagonista, de Diogo Mainardi, que faz assessoria de imprensa para a direita desde antes do golpe de agosto de 2016. Por que Moro mobilizou a Polícia Federal e o Coaf para investigar as contas de Greenwald? Em algum momento, o ex-juiz terá de responder.

Sergio Moro não deveria ter apostado no ataque à imprensa como estratégia no depoimento de ontem, quando várias vezes foi advertido pelos deputados, entre os quais a gaúcha Fernanda Melchionna, para que olhasse os deputados na cara, que não olhasse para baixo, como Bolsonaro fez diante de Putin.

O ex-chefe do Dallagnol (será que é ex mesmo?) passa a correr o risco de ser derrubado por denúncias divulgadas por uma colunista social.

ENTREVISTEM OS MILICIANOS

Essa da Polícia Federal querer transformar num Roda Viva a entrevista do Lula para a Folha deve ter sido ideia do Sergio Moro.
Monica Bergamo tenta desde a prisão de Lula uma entrevista com o ex-presidente. Finalmente a censura imposta por Luiz Fux foi suspensa. E o que se noticia hoje é que a PF quer enfiar na cela de Lula um monte de gente da direita.
Jornalistas que trabalharam pelo golpe e agora trabalham pelo bolsonarismo tentam pegar carona só para esculhambar com a entrevista, ou alguém imagina que um sujeito como Alexandre Garcia pode entrevistar Lula?
A PF quer uma inquisição. É uma armadilha de quinta categoria. Lula concede entrevista a quem bem entende.
Alexandre Garcia, Diogo Mainardi, William Waack e seus parceiros blogueiros do golpe e do ódio que entrevistem Aécio, Bolsonaro, Queiroz ou os chefes da milícia no Rio.

OS JUÍZES RÁPIDOS FICARAM LENTOS

Leiam este texto sobre a estranha (nem tão estranha) postura do TRF4 de Porto Alegre, que foi rápido para analisar o processo do tríplex e agora adota a tática da lentidão.
Este é o texto:
“Os advogados de Lula questionam, no STF (Supremo Tribunal Federal) e no STJ (Superior Tribunal de Justiça), o ritmo agora implantado pelo TRF-4 (Tribunal Regional Federal da 4ª Região) para apreciar o recurso que permitiria levar a discussão sobre a condenação do ex-presidente às instâncias superiores.
O TRF-4 foi célere ao apreciar a condenação imposta pelo juiz Sergio Moro a Lula. O relator do processo, desembargador João Pedro Gebran Neto, levou 36 dias para concluir sua análise. O revisor, Leandro Paulsen, liberou o seu parecer em seis dias. No total, os dois demoraram 42 dias para analisar todas as acusações e as peças de defesa.
A intimação eletrônica para que o Ministério Público Federal apresentasse resposta aos recursos de Lula demorou, apenas para ser efetivada, o mesmo tempo que os desembargadores levaram para ler todo o processo: 42 dias”.
Este texto não está em nenhum blog de esquerda, ou blog sujo, como a direita define quem não se aliou ao golpe. Está na página de Monica Bergamo na Folha.
É mais uma prova de que a rapidez para condenar Lula foi uma tática de exceção, revelada pela própria grande imprensa.

Lula fala à Folha

A entrevista de Lula a Mônica Bergamo, publicada hoje pela Folha. A direita e o Judiciário seletivo (o que é a mesma coisa) talvez não esperassem essa vitalidade de Lula.

‘Não vou me matar nem fugir do Brasil. Vou brigar até o fim’, diz Lula

Ex-presidente diz à Folha que está preparado para ser preso, mas acredita que será inocentado

Mônica Bergamo

SÃO PAULO

O ex-presidente Lula recebeu a Folha em sua sala no Instituto Lula, na terça-feira (27), para uma rara entrevista exclusiva.

Com a Justiça prestes a decidir se ele vai ou não preso por causa da condenação no processo do tríplex, o ex-presidente afirma que é “um homem muito tranquilo, que sabe o que está sendo traçado para ele”.

Ainda assim, Lula rechaça abrir qualquer discussão sobre uma candidatura alternativa à dele no PT. “Se eu fizer isso, minha filha, eu tô dando o fato como consumado.”

Antes de começar a entrevista, o petista passou os olhos por um sumário que a assessoria havia feito para ele sobre a entrevistadora.

“Busca esta entrevista faz anos, cercando amigos e conhecidos do presidente para isso. Ela tentará: interromper, questionar o discurso, apontar contradições, tentar que assuma erros e investir muito em plano B”, dizia o resumo.

Com o gravador já ligado, Lula disse: “A senhora pode perguntar tudo o que vossa excelência quer perguntar. Tá? Não tem pergunta sem resposta. A não ser que eu não saiba. Se eu não souber eu vou dizer ‘não sei’ e você vai perguntar para um candidato que sabe”.

A seguir, um resumo da conversa.

Folha – O ex-ministro Ciro Gomes (PDT-CE) fala em voz alta o que muita gente murmura e pensa: ninguém no Brasil acredita que o senhor poderá ser candidato a presidente. Quando chegará a hora de discutir o lançamento ou o apoio a um outro nome?

Lula – Se eu não acreditasse na possibilidade de a Justiça rever o crime cometido contra mim pelo [juiz Sergio] Moro, [que o condenou à prisão] e pelo TRF-4 [Tribunal Regional Federal da 4ª Região, que confirmou a sentença], eu não precisaria fazer política.

Quem sabe eu virasse um moleque de 16 anos e fosse dizer que só tem solução na luta armada. Não. Eu acredito na democracia, eu acredito na Justiça. E acredito que essas pessoas [Moro e desembargadores] mereciam ser exoneradas a bem do serviço público.

Porque houve mentira na denúncia [feita pela] imprensa [que revelou a existência do tríplex], no inquérito da Polícia Federal, na acusação do Ministério Público Federal, na sentença do Moro e na confirmação do TRF-4.

Então o que eu espero? Que o Supremo Tribunal Federal [que deve julgar habeas corpus em que Lula pede para não ser preso] analise o processo, veja os depoimentos, as provas e tome uma decisão. Por isso tenho a crença de que vou ser candidato.

O STF não entrará no mérito da sentença. E não haveria nem tempo, caso isso ocorresse, para garantir a candidatura.

Eu vou dizer uma coisa: eu só posso confiar no julgamento se ele entrar no mérito.

A Justiça não é uma coisa que você dá 24 horas, 24 dias ou 24 meses. Ela tem o tempo necessário para fazer a investigação correta e punir quem está errado. E quem deveria ser punido era o Moro, o MPF, a PF e os três juízes que fizeram a sentença lá.

A segunda questão: não acho que ninguém acredita na possibilidade de eu ser candidato. Era mais fácil o Ciro dizer “tem gente que não quer que Lula seja candidato”. E ele quem sabe se inclui nisso.

Só tem unanimidade hoje no meio político: as pessoas não querem que o Lula seja candidato. O Temer não quer, o Alckmin não quer, o Ciro não quer. Eles pensam: “ele [Lula] vai para o segundo turno e pode até ganhar no primeiro. Se ele não for candidato, em vez de uma vaga no segundo turno, podemos disputar duas”. Aumenta a chance de todo mundo.

Eu respeito que todo mundo seja candidato. Até o Temer resolveu ser! Qual é a aposta dele? É a de defender os seus três anos de mandato.

E é importante ter em conta que o Temer teve uma vitória quando derrubou o golpe que a TV Globo, o [ex-procurador-geral Rodrigo] Janot e o [empresário] Joesley [Batista] tentaram dar nele.

Aquele golpe tinha como pressuposto básico o Temer cair, o Rodrigo Maia [presidente da Câmara dos Deputados] assumir a presidência e o Janot ter um terceiro mandato [na PGR].

O senhor acha que a Globo tentou dar um golpe?

Acho. Eu acho.

E por que isso ocorreria?

Porque era importante manter o Janot. Era importante tirar o Temer. E era importante colocar o Rodrigo Maia. Isso para mim tá claro.

Mas por que Rodrigo Maia se o Temer tem uma plataforma…

[Interrompendo] O Temer se prestou a fazer o serviço do golpe. Mas não era uma figura palatável, e houve uma tentativa de golpe. Senão, me explica o que aconteceu.

Não pode ser jornalismo simplesmente?

Jornalismo de quem?

Da Rede Globo.

Você acha que na Globo [que publicou a primeira reportagem sobre a delação da J&F] alguém faz jornalismo livre? O jornalista decide e faz uma denúncia como aquela que foi feita contra o Temer?

No mesmo dia já tinha jornalista apostando na renúncia do Temer. E já tava se discutindo quem ia assumir e o que ia acontecer.

Ora, o Temer resolveu enfrentar. Teve a coragem de desmascarar o Janot, o Joesley e ficou presidente. E ainda ganhou duas paradas no Congresso Nacional [para impedir que o processo contra ele no STF seguisse], não se sabe a que preço. A imprensa dizia que R$ 30 bilhões foram gastos, não sei quantos bilhões. Mas ganhou.

E o senhor o admira por isso?

Não. Eu continuo pensando o mesmo do Temer. Eu estou contando o fato. E o fato histórico não tem sentimentalismo. Tem uma fotografia.

O senhor hoje faz críticas à TV Globo mas, no governo, teve uma boa relação com a emissora.

Para não ser ingrato com os outros meios, eu vou olhar bem nos seus olhos e dizer: duvido que em algum momento da história desse país um presidente tenha tratado os meios de comunicação com a deferência e a “republicanidade” que eu tratei.

Eu tinha uma relação maravilhosa com o velho [Octavio] Frias [de Oliveira, publisher da Folha morto em 2007]. Eu tratei bem o Estadão. Eu tratei bem o Jornal do Brasil, a Globo, a Bandeirantes, o SBT, a Record. Você há de convir que tenho comportamento exemplar no meu tratamento com a imprensa brasileira.

Mas acho que eles não são honestos na cobertura.

A Folha, mesmo nos bons tempos, nos anos 70, 75, quando começou a ser um jornal mais progressista, quando o pessoal de esquerda começou a ler, mesmo assim a gente sentia [no jornal] uma espécie de ojeriza de falar bem de uma coisa boa.

É uma necessidade maluca de não parecer chapa branca. Ah, se fez uma matéria boa hoje, amanhã tem que fazer outra dando um cacete.

O senhor fala “eles não me aceitam”. Quem são eles?

Ah, não sei. São eles. Eu não vou ficar nominando.

Nesse sistema em que “eles” mandariam, o senhor foi eleito, reeleito, fez uma sucessora e a reelegeu. Tinha uma convivência boa com construtoras e bancos. Como dizer que a elite é contra o senhor?

Eu não tive uma relação boa só com esse setor que você falou. Eu tive uma relação boa com todos os segmentos sociais desse país.

Eu tenho orgulho de dizer que o meu governo foi o período em que os empresários mais ganharam dinheiro, os trabalhadores mais ganharam aumento de salário, em que geramos mais empregos, em que houve menos ocupação no campo, na cidade, e menos greve. Eu trago comigo essa honraria de saber conviver com a sociedade brasileira.

E de repente eu vejo o tal do mercado assustado com o Lula. E eu fico pensando, quem é esse mercado?

Não pode ser os donos do Itaú. Não pode ser os donos do Bradesco, do Santander.

Uma coisa são os donos do banco. Outra coisa é um bando de yuppies, jovens bem aquinhoados que vivem ganhando dinheiro através de bônus, de não sei das quantas, para vender papel sem vender um produto.

Essa gente esteve no FMI durante a crise na América do Sul. Falaram o tempo todo mal dos países pobres. Quando a crise foi nos EUA parece que fizeram cirurgia de amígdalas e não falavam nunca. Eles sabem que, se eu voltar, o FMI não dará palpite na nossa economia.

Então, querida, quando eu digo eles…

…fica parecendo as famosas “forças ocultas” do ex-presidente Jânio Quadros [quando se referia a quem o tinha levado a renunciar, em 1961].

Quando eu falo “eles” e “nós”, é porque você tem lado na política brasileira. Quando ganhei as eleições, fiz questão de conquistar muita gente. Criei o Conselho Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social [com representantes de empresários, trabalhadores e setores sociais]. Tinha gente que achava que eu queria criar uma fissura na relação entre Senado e Câmara com a sociedade. Eu falei “não, eu quero é estabelecer uma política de convivência verdadeira com a sociedade”.

Empreiteiras fizeram uma reforma no sítio de Atibaia porque o senhor o frequentava. Independentemente de a Justiça concluir se houve ou não crime, não foi no mínimo indevido, uma relação promíscua entre um político e uma empreiteira?

Não. Esse é um outro tipo de processo. Não é o processo do qual estou sendo vítima.

É uma pergunta que estou fazendo ao senhor.

Essa pergunta eu espero que seja feita em juízo, pelo Moro. Porque primeiro disseram que o sítio era meu. Aí descobriram que ele tem dono. Então mudaram [para dizer que] me fizeram favor. Se fizeram, não me pediram. Eu fiquei sabendo desse sítio no dia 15 de janeiro de 2011.

Por que empreiteiras tinham que bancar a manutenção do acervo formado na presidência, por que tinham que reformar o sítio? Essa relação não passou do ponto?

Quando eu for prestar depoimento, eu espero que essas sejam as perguntas que eles me façam.

Mas eu estou fazendo agora.

Não, você não é juíza. Eu vou esperar o juiz. Porque se eu responder para você, o Moro vai fazer outras. Aí, quer discutir a questão da ética, vamos discutir. É um outro processo.

Eu quero saber onde eles vão chegar. Eu quero saber o limite da mentira.

Segundo uma pesquisa do Datafolha, 83% acham que o senhor sabia que tinha corrupção no governo. Era possível não saber?

É possível não saber até hoje. Você tem filho? Sabe o que ele está esta fazendo agora? Quando você esta na cozinha e ele no quarto, você sabe?

Outro dia vi o caso de venda de sentenças em gabinetes de juízes. E eles foram inocentados porque não eram obrigados a saber o que estavam fazendo do lado de sua sala. Deixa eu te falar uma coisa: ninguém é colocado no governo pra roubar. Ninguém traz na testa “eu sou ladrão”. Há um critério rigoroso de escolha [de diretores de estatais].

Muita gente pensa que eu sou contra a Operação Lava Jato. Eu tenho orgulho de pertencer a um partido e a um governo que criou os mecanismos mais eficientes de combate à lavagem de dinheiro e à corrupção nesse país.

Não foi ninguém de direita, não. Fomos nós.

O senhor manteria hoje o sistema de indicação dos procuradores-gerais, sempre o mais votado pela categoria?

Esse critério é herança minha do movimento sindical. Eu achava que era o mais acertado. Hoje eu analisaria o histórico da pessoa.

Veja, o que ocorreu com a Lava Jato? Ela virou refém da imprensa e vice-versa.

E hoje eu estou convencido de que os americanos estão por trás de tudo o que está acontecendo na Petrobras. Porque interessa para eles o fim da lei que regula o petróleo, o fim da lei que regula a partilha. O Brasil descobriu a maior reserva de petróleo do mundo do século 21. E não se sabe se tem outra.

Não sei se você já tem uma compreensão sociológica de junho de 2013 [mês de grandes manifestações no país].

O Brasil virou protagonista demais. E ali eu acho que começava o processo de tentar dar um jeito no Brasil.

Como diria meu amigo [e ex-chanceler] Celso Amorim, eu não acredito muito em conspiração. Mas também não desacredito.

O senhor faz uma conexão entre tudo isso e o que acontece com o senhor agora?

Faço. E se estiver errado, vou viver para pedir desculpas.

Mas o senhor acha, por exemplo, que os procuradores da Lava Jato vão aos EUA e se reúnem com um mentor?

Eu acho. Agora mesmo o Moro está lá [no exterior] para receber um prêmio dessa Câmara de Comércio Brasil-EUA. Ele foi lá para ficar 14 dias. Eu já recebi prêmios. Você vai num dia e volta no mesmo dia.

Ô, querida, não me peça provas de uma coisa que eu não tenho. Eu estou apenas insinuando que pode ser, tal é a proximidade do Ministério Público com a Secretaria de Justiça dos EUA.

O senhor já deu muitas voltas por cima na vida. Enxerga agora um caminho de saída, depois de duas condenações?

É muito simplista essa pergunta. Você deveria estar perguntando é se eles vão conseguir juntar uma prova de cinco centavos contra mim. Esse é o dilema.

Mas, presidente, eles já condenaram o senhor.

Eu não tenho que encontrar saída. O que vocês da imprensa têm que pedir são provas. Vocês não podem retratar “ipsis litteris” [como está escrito] a mentira da Polícia Federal.

Essa gente está me acusando há cinco anos. Essa gente não sabe o mal que causou à minha família. Eu tenho todos os meus filhos desempregados. Todos. E ninguém consegue arrumar emprego.

Essa gente já foi na minha casa. Ficaram três horas, levantaram o colchão da minha cama, revistaram tudo e não encontraram nada.

Poderiam ter chamado a imprensa e falado “queríamos pedir desculpas”. Eles saíram com o rabinho no meio das pernas e não falaram nada.

Quando o Moro leva um Pedro Corrêa [ex-deputado do PP] para prestar depoimento contra mim, se ele entendesse um milímetro de política, ele não deixaria o Pedro Corrêa entrar naquele salão.

E o Palocci?

É uma pena. A história dele se esvaiu com isso. O Palocci demonstrou gostar de dinheiro. Quem faz delação quer ficar com uma parte daquilo de que se apoderou. Não vejo outra explicação.

Ou quer a liberdade.

Se fosse só por liberdade o [ex-tesoureiro do PT João] Vaccari não tinha feito a carta que fez nesta semana [inocentando Lula no caso do tríplex]. Porque é o cara que está preso há mais tempo. E está demonstrando que caráter e dignidade não são compráveis.

Deixa eu te falar: você está lidando com um homem muito tranquilo, que sabe o que está sendo traçado para ele. Desde o impeachment eu dizia: eles não vão tirar a Dilma e dois anos depois deixar o Lula voltar gloriosamente nos braços do povo. Era preciso impedir o Lula.

E isso está perto de ocorrer.

Vamos aguardar, querida. Se eu acreditar que o jogo está definido, o que eu estou fazendo nesse país? Eu quero saber o seguinte: eu, proibido de ser candidato, na rua fazendo campanha, como eles vão ficar? Eles estão me transformando numa vítima desnecessária.

O senhor diz que sabe o que está sendo traçado. Mesmo assim, não abre brecha para a discussão de uma outra candidatura?

Não abro. Não abro. Se eu fizer isso, minha filha, eu tô dando o fato como consumado. Eu vou brigar até ganhar. E só vou aventar a possibilidade de outra candidatura quando for confirmado definitivamente que não sou candidato.

Algumas correntes do PT já pensam em uma outra candidatura e alguns defendem o boicote das eleições.

Quando chegar o momento certo, o PT pode discutir todas as alternativas. Eu sou contra boicotar as eleições.

O ex-prefeito Fernando Haddad já falou que, mesmo sendo o maior partido, o PT não terá mais a hegemonia da esquerda.

Eu sou contra a tese da hegemonização. Em algum momento pode ter candidato de outro partido e o PT apoiar. Se o Eduardo Campos tivesse aceitado a proposta que eu fiz para ele e para a Renata em Bogotá, em julho de 2011, de ele ser o vice da Dilma [em 2014] e ser nosso candidato em 2018, a gente agora estaria gostosamente discutindo a campanha dele à Presidência da República. E não a minha.

O PT poderia apoiar Ciro Gomes? Ele tem feito críticas ao senhor e ao partido.

Eu não ando vendo o que o Ciro tá falando porque ele anda falando demais.

O Ciro ou vai para a direita ou não pode brigar com o PT.

Eu fico fascinado de ver como uma pessoa inteligente como o Ciro fala tão mal do PT. Não consigo entender.

Vamos ser francos: pela direita, ninguém será presidente sem o apoio dos tucanos. Pela esquerda, ninguém será presidente sem o PT.

Quem o senhor acha que tem chance de chegar ao segundo turno na eleição presidencial?

Eu, se entendo um pouco de política, vou dizer uma coisa: a disputa deverá ser outra vez entre tucanos e PT.

O senhor pode ser preso em breve, caso não obtenha um habeas corpus nos tribunais superiores. Não tem medo?

Sabe por que não tenho medo? Porque eu tenho a consciência tão tranquila. Sabe do que eu tenho medo de verdade? É se esses caras pudessem mostrar à minha bisneta que fez um ano no domingo que o bisavô dela roubou um real. Isso realmente me mataria.

O senhor está preparado?

Eu estou preparado. Estou tranquilo. E tenho certeza de que vou ser absolvido e de que não vou ser preso.

Há quem defenda que o senhor faça uma greve de fome caso vá para a prisão.

Eu já fiz greve de fome. Eu sou contra, do ponto de vista religioso. Eu não acho correto você judiar do próprio corpo. Quando eu fiz greve de fome [em 1980], dom Claudio Hummes foi à cadeia pedir para pararmos a greve.

O senhor já afirmou que se 10% dos que foram às ruas quando o presidente Getúlio Vargas morreu tivessem ido antes ele não teria se suicidado. O senhor teme que isso ocorra com o senhor? Eu não digo morte, mas…

Até porque não vou me matar. Eu gosto da vida pra cacete. E quero viver muito. Tô achando que eu sou o cara que nasceu para viver 120 anos. Dizem que ele já nasceu, quem sabe seja eu?

Tô me preparando. Levanto todos os dias às 5h da manhã, faço duas horas e meia de ginastica, tomo whey [complexo de proteínas] todo dia para ficar bem forte. E vou levando a vida assim. Eu não tenho essa perspectiva nem de me matar nem de fugir do Brasil. E vou ficar aqui. Aqui eu nasci, aqui é o meu lugar. Eu não tenho medo de nada. Só de trair o povo desse país. É por isso que eu estou aqui, fazendo a minha guerra.

E o povo na rua?

Você não leva o povo na rua para qualquer coisa. Mas também não duvidem do povo na rua porque ele pode vir.

Mas o senhor não esperava que ele já viesse, no seu caso?

Ele nunca foi chamado! Eu sou um homem tão civilizado, acredito tanto nas instituições que estou apostando nelas. Eu ando no Brasil, mas eu não ando chamando o povo numa pregação contra ninguém. Eu ando chamando o povo para ele acreditar que é possível esse país ser diferente.

Eu não imaginei viver esse período. Eu me lembro do [ex-presidente da França Nicolas] Sarkozy querendo discutir a minha ida para a secretaria-geral da ONU. Eu lembro dele conversando com o [ex-primeiro-ministro espanhol] José Luís Zapatero, em 2008, e eu falava “para com isso, você não pode politizar a ONU, colocar um ex-presidente lá”.

O senhor imaginava outra coisa para a sua vida nessa fase.

Eu imaginei tranquilidade, querida. Eu imaginei viver meu fim de vida com a dona Marisa, cuidar dos filhos que eu não tive tempo de cuidar e viver. Não me deixaram ou não estão me deixando. Eu poderia abaixar a cabeça e ficar pedindo favor, ajuda. Não vou, querida. Não vou porque estou certo.

A minha educação é a de uma mulher [a mãe, dona Lindu] que viveu e morreu analfabeta. E ela dizia “não baixe a cabeça nunca a ninguém. Nunca roube uma laranja mas não baixe a cabeça”. E é isso o que vai me fazer seguir em frente.

 

Eles adoram diárias

Mais um furo esclarecedor de Monica Bergamo, o grande nome do jornalismo brasileiro há muito tempo. O advogado Carlos Zucolotto Junior não é mais o representante do procurador da Lava-Jato Carlos Fernando dos Santos Lima em uma ação trabalhista.
Zucolotto é o amigo de Sergio Moro (e seu padrinho de casamento) acusado pelo também advogado Rodrigo Tacla Duran de tentar fazer acordos de delação no mercado paralelo. Saltou fora da ação do procurador ao ser denunciado publicamente pelo colega que está foragido na Espanha.
E sabem o que o procurador reclama na ação trabalhista? Correção no valor de diárias, o que lhe garantiria mais R$ 26 mil.
Santos Lima foi o procurador que recebeu em média por mês R$ 9 mil em diárias em dois anos e meio. Embolsou R$ 286 mil e achou pouco.
Os procuradores gostam de diárias. Desde 2015, gastaram R$ 2,2 milhões em diárias. A Lava-Jato está bem de dinheiro. E se vê que é lucrativa para muita gente.