JORNALISMOS E ADESISMOS

Essa cena que se repete, com o William Waack carregando nas costas o peso da sua ‘piada’ racista, me empurra para mais um comentário sobre jornalistas fofos e liberais e para o livro Notícias do Planalto, de Mario Sergio Conti.

Esses dias escrevi sobre o artigo em que Conti arrasa com Carlos Heitor Cony na Folha. Muita gente disse aqui no Face que o próprio Conti não é flor que se cheire, porque teria poupado os donos dos jornais no livro sobre o conluio da imprensa com Fernando Collor, no final dos anos 80.

Agora, William Waack diz, para se defender da acusação de que é racista, que as redes sociais ameaçam o velho jornalismo consagrado pela grande imprensa. Eu acho que essa é a melhor ameaça desde o surgimento da imprensa nanica nos anos 70.

Considero Notícias do Planalto o livro mais constrangedor para o jornalismo defendido por William Waack, esse jornalismo político hegemônico e ‘inquestionável’, como ele mesmo afirma. Porque, ao contrário do que muita gente esperava, Conti mostrou que, além dos donos dos jornais, também os jornalistas são protagonistas de todo tipo de conchavo (inclusive ele, Conti).

Ah, dirão os mais puros, mas os patrões são danados. São. Todo mundo sabe disso, desde o primeiro contato dos tupiniquins com o assessor de imprensa de Cabral.

É antiga e autoindulgente essa conversa de que conluios com a direita, como aconteceu com Collor e acontece agora com o jaburu-da-mala, são apenas coisa de patrão. São também coisa de jornalista.

Jornalista não gosta que colegas sejam acusados de adesismo e de manipular informações, porque o corporativismo é forte. O problema seria sempre o patrão.

Vou repetir: Notícias do Planalto é um grande livro porque desmascara jornalistas. Inclusive os fofos que estavam com Eduardo Cunha, estiveram com Aécio e o abandonaram e agora ameaçam abandonar também o jaburu e o Quadrilhão.

WILLIAM WAACK É A PIADA

É fraco o artigo em que William Waack se defende na Folha da acusação de que é racista. O jornalista que definiu as buzinadas de um motorista em Washington como “coisa de preto” acha que os militantes de redes sociais estão tentando manchar a imagem da grande imprensa.
Um profissional que passou anos atacando as esquerdas, o PT e Lula, com a fala dissimulada de um dos tantos falsos liberais brasileiros, diz ser vítima dos que não entenderam “uma piada”. Ele é a piada. Waack é do time de Donald Trump.
(O vídeo da “piada” vazou no início de novembro. Waack fez a piada em poucos segundos. E levou dois meses para escrever um texto ruim com as explicações da piada. Essa é a agilidade do bom jornalismo. Coisa de jornalista fofo liberal.)

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O artigo publicado hoje na Folha:

NÃO SOU RACISTA, MINHA OBRA PROVA

William Waack

“Se os rapazes que roubaram a imagem da Globo e a vazaram na internet tivessem me abordado, naquela noite de 8 de novembro de 2016, eu teria dito a eles a mesma coisa que direi agora: “Aquilo foi uma piada —idiota, como disse meu amigo Gil Moura—, sem a menor intenção racista, dita em tom de brincadeira, num momento particular. Desculpem-me pela ofensa; não era minha intenção ofender qualquer pessoa, e aqui estendo sinceramente minha mão. 
Sim, existe racismo no Brasil, ao contrário do que alguns pretendem. Sim, em razão da cor da pele, pessoas sofrem discriminações, têm menos oportunidades, são maltratadas e têm de suportar humilhações e perseguições.
Durante toda a minha vida, combati intolerância de qualquer tipo —racial, inclusive—, e minha vida profissional e pessoal é prova eloquente disso. Autorizado por ela, faço aqui uso das palavras da jornalista Glória Maria, que foi bastante perseguida por intolerantes em redes sociais por ter dito em público: “Convivi com o William a vida inteira, e ele não é racista. Aquilo foi piada de português.”
Não digo quais são meus amigos negros, pois não separo amigos segundo a cor da pele. Assim como não vou dizer quais são meus amigos judeus, ou católicos, ou muçulmanos. Igualmente não os distingo segundo a religião —ou pelo que dizem sobre política.
O episódio que me envolve é a expressão de um fenômeno mais abrangente. Em todo o mundo, na era da revolução digital, as empresas da chamada “mídia tradicional” são permanentemente desafiadas por grupos organizados no interior das redes sociais.
Estes se mobilizam para contestar o papel até então inquestionável dos grupos de comunicação: guardiães dos “fatos objetivos”, da “verdade dos fatos” (a expressão vem do termo em inglês “gatekeepers”). 
Na verdade, é a credibilidade desses guardiães que está sob crescente suspeita.
Entender esse fenômeno parece estar além da capacidade de empresas da dita “mídia tradicional”. Julgam que ceder à gritaria dos grupos organizados ajuda a proteger a própria Imagem institucional, ignorando que obtêm o resultado inverso (o interesse comercial inerente a essa preocupação me parece legítimo).Por falta de visão estratégica ou covardia, ou ambas, tornam-se reféns das redes mobilizadas, parte delas alinhada com o que “donos” de outras agendas políticas definem como “correto”.
Perversamente, acabam contribuindo para a consolidação da percepção de que atores importantes da “mídia tradicional” se tornaram perpetuadores da miséria e da ignorância no país, pois, assim, obteriam vantagens empresariais.
Abraçados a seu deplorável equívoco, esquecem ainda que a imensa maioria dos brasileiros está cansada do radicalismo obtuso e primitivo que hoje é característica inegável do ambiente virtual.
Por ter vivido e trabalhado durante 21 anos fora do Brasil, gosto de afirmar que não conheço outro povo tão irreverente e brincalhão como o brasileiro. É essa parte do nosso caráter nacional que os canalhas do linchamento —nas palavras, nesta Folha, do filósofo Luiz Felipe Pondé— querem nos tirar.
Prostrar-se diante deles significa não só desperdiçar uma oportunidade de elevar o nível de educação política e do debate, mas, pior ainda, contribui para exacerbar o clima de intolerância e cerceamento às liberdades –nas palavras, a quem tanto agradeço, da ministra Cármen Lúcia, em aula na PUC de Belo Horizonte, ao se referir ao episódio.
Aproveito para agradecer o imenso apoio que recebi de muitas pessoas que, mesmo bravas com a piada que fiz, entenderam que disso apenas se tratava, não de uma manifestação racista.
Admito, sim, que piadas podem ser a manifestação irrefletida de um histórico de discriminação e exclusão. Mas constitui um erro grave tomar um gracejo circunstanciado, ainda que infeliz, como expressão de um pensamento.
Até porque não se poderia tomar um pensamento verdadeiramente racista como uma piada.
Termino com um saber consagrado: um homem se conhece por sua obra, assim como se conhece a árvore por seu fruto. Tenho 48 anos de profissão. Não haverá gritaria organizada e oportunismo covarde capazes de mudar essa história: não sou racista. Tenho como prova a minha obra, os meus frutos. Eles são a minha verdade e a verdade do que produzi até aqui.

 

Intocáveis?

William Waack é apenas uma das excrescências que a Globo mantém no ar. O jornalismo se autoprotege há muito tempo, principalmente nos redutos da direita, porque os tais ‘formadores de opinião’ se acham intocáveis.
Quem comentar qualquer atitude de jornalista, centrado nas suas atividades, corre o risco de ser acusado de atentar contra a liberdade de opinião. Não é nada disso.
Jornalista é tão criticável como qualquer outro profissional de qualquer área. Jornalista que critica o Papa, os políticos, os jogadores de futebol, os professores (alguns adoram atacar professores em greve), os servidores públicos e os sindicalistas e ainda faz fofoca de celebridade tem que se submeter às críticas também dos colegas.
Jornalista não tem foro privilegiado. Jornalista que protege colega para livrá-lo de críticas age em nome do corporativismo, só isso. E pior ainda se o corporativismo é acionado para proteger racistas.

https://f5.folha.uol.com.br/televisao/2017/11/william-waack-e-acusado-de-racismo-apos-video-vazado-na-internet.shtml

Desculpas

Essa história da propaganda da Dove, denunciada por passar uma mensagem racista, não pode ser explicada apenas pela falta de controles. Hoje, a Dove pediu desculpas pela ‘falha’.
As grandes corporações têm muitos controles para só depois disseminar informações e fazer seu marketing bilionário. Não há falha de controles nesse e em outros casos semelhantes. O que há é conivência dos controles.
Os controles são parte do ‘erro’. Todos os processos, até o final, afiançam a mensagem passada pela Dove na propaganda de três segundos que associa sabão e limpeza a uma transformação que conduz da pele negra à pele branca (por que o ‘erro’ não foi o contrário?).
Repita-se: os controles não liberaram o anúncio porque falharam, mas porque fizeram o que achavam ser o certo. Os controles também são portadores do mesmo racismo dos autores da ideia e dos que a executaram e estavam apenas à espera de uma oportunidade para que pudessem se manifestar.

As cotas e os brancos que ficaram negros

O sistema de cotas não pode mesmo dar certo. Muitos brancos honestos continuam se apresentando como negros para entrar na universidade. Culpa de quem? Dos negros, claro. A culpa sempre é dos negros.

Se não houvesse sistema de cotas, não teríamos brancos honestos tentando usufruir do sistema. Os brancos (muitos contrários ao sistema de cotas) só agem assim porque foram induzidos pelos negros a se passarem como negros. Os brancos são vítimas.

Eles sempre foram vítimas. Se forem brancos de direita, golpistas e eleitores do Bolsonaro, então são mais vítimas ainda. O sistema de cotas é uma armadilha para brancos justos e honestos.

Nunca os brancos foram tão explorados em sua boa-fé. Nem quando da escravidão, quando os brancos tentavam substituir os escravos no trabalho forçado e na tortura e os negros escravos não deixavam.

O sistema de cotas é cruel com os brancos que não conseguem ser reconhecidos como negros. Principalmente os brancos racistas, os que condenam o sistema, mas querem usar o sistema. Assim o Brasil não terá mais médicos brancos que desejam ser negros.

Os brancos só se passam por negros para assim entrar na universidade e resolver nosso problema de falta de médicos. Mas o Brasil nunca entendeu os brancos.

O Brasil precisa entender melhor a bela meritocracia criada pelos brancos em quase quatro séculos de escravidão. Com essa meritocracia produzida pelo escravismo, não precisamos de cotas. Mas o Brasil não entende. Pobres brancos.

A direita gaúcha

Aos que estão impressionados com o que aconteceu em Charlottesville, na Virgínia, onde racistas americanos atropelaram manifestantes contrários às suas ideias (repetindo o que condenam nos atos terroristas): não pensem que estamos totalmente livres disso tudo.
A ascensão de tipos como Bolsonaro vai favorecer o recrudescimento das ações dessa gente também no Brasil. Porto Alegre está na rota desse pessoal e há pouco tempo teve um ensaio, no Largo da Prefeitura, do que pode acontecer.
O núcleo gaúcho de extremistas de direita é forte, inclusive com representação parlamentar e apoio de boa parte da classe-média-bem-nascida-das-panelas e de certas autoridades.

Racistas e machistas

Que categoria da Alice Bastos Neves, no Jornal do Almoço da RBS, ao defender, ao lado de um machista (o técnico do Inter, Guto Ferreira), a presença de mais mulheres na cobertura do futebol e de todos os esportes.

O cara ouviu o sermão de Alice calado, depois de admitir que errou com a repórter Kelly Costa, que ele tentou desqualificar, ao vivo na TV, por ser mulher.

O Inter teve, exatamente antes do machista, um treinador (Antonio Carlos Zago) flagrado como racista quando jogador, que depois também se retratou. O agressor, nesses casos, geralmente é um bom pedidor de desculpas.

É impossível reunir tanta gente num estúdio, mas seria bom ver Alice dizendo coisa parecida na cara da parte racista da torcida do Grêmio, que decidiu vaiar a vítima, o goleiro Aranha, no recente jogo com a Ponte Preta (Aranha havia sido chamado de macaco, em 2014, por uma torcedora no estádio).

Aranha havia sido chamado de macaco, em 2014, por uma torcedora no estádio. Os racistas não se conformam que Aranha tenha reclamado.
Mais Alices e diversidade no futebol. E menos intolerantes e grosseiros metidos a engraçadinhos.

 

Veja aqui o vídeo com Alice e o arrependido.

http://globoesporte.globo.com/rs/videos/v/depois-de-resposta-em-coletiva-guto-se-desculpa-com-reporter/6018107/

 

Que fase

Quer dizer que o afamado roqueiro gaúcho Wander Wildner vai a São Paulo para falar do “nego do bar” e da “vadia” que não leva a cerveja, tem o microfone desligado, é mandado embora do lugar onde cantava (Fatiado Discos e Cervejas Especiais) e ainda diz na internet que foi mal interpretado?
Os gaúchos estão decadentes até como falsos transgressores. Agora temos um roqueiro desligado e metido a engraçadinho.
A era Trump-Bolsonaro chega ao punk gaudério.

Falta algo

punho

Ainda falta o grande gesto desta Olimpíada, aquele gesto que arrebata e será lembrado para sempre. Não uma atitude política qualquer, um Fora Temer (não precisa), mas um gesto forte, surpreendente, que abrace alguma das tantas causas que o mundo oferece hoje aos que têm visibilidade, fama e reputação.

O esporte ainda deve ao mundo maior engajamento às grandes causas. Sei que muitos acham que esporte e política não podem se misturar.

A política miúda, não. Mas a política graúda, a que me mexe fundo com as pessoas e cobra posições de nomes mundiais, essa pode e deve interferir nos grandes eventos.

Até a Coca-Cola sabe que uma Olimpíada não é uma bolha à margem da realidade. Não se espera um novo punho fechado erguido no pódium, como os atletas negros americanos fizeram em 1968, porque aquele foi um gesto único para que possa se repetir.

Mas algo parecido, em nome dos refugiados, das mulheres atacadas pelo machismo sem pátria e dos perseguidos pela homofobia impune, faria bem ao mundo que não se conforma com as vítimas do novo reacionarismo.

O gesto de um segundo de um atleta pode valer mais do que mil palavras de um político. Um evento mundial não pode ficar resignado com as crueldades do mundo hoje.

O humanismo depende também de uma Olimpíada, ou teremos apenas um certame de caras, grifes, choros e recordes.

Ah, sei, dirão que há muito tempo uma Olimpíada não se presta para manifestações de atletas porque o Comitê Olímpico pune quem cometer gestos políticos. O Comitê Olímpico que fique com suas regras.

Normas existem para serem afrontadas por grandes causas, ou o mundo não anda. O problema é que hoje sobram normas e falta quem as afronte. Os atletas mundiais estão muito parecidos.

Adiós, Bolsonaro

bolsonaro (2)

Estava murcho ontem à noite, na aparição no Jornal Nacional, o homem que geralmente aparece com os olhos arregalados para defender posições racistas, homofóbicas e machistas com determinação.

Não era o eloquente Jair Bolsonaro que conhecemos, adorado por moradores de bairros nobres de Porto Alegre, ídolo do Parcão e da Avenida Paulista, o mito das passeatas golpistas que se vangloria por dirigir ofensas a mulheres, gays e negros.

Outro valentão terá de se entender com o STF porque disse, e repetiu mais de uma vez, que não estupraria a deputada Maria do Rosário porque ela é feia.

Mas ontem no JN Jair Bolsonaro estava assustado. Tanto que se dirigiu, “com humildade”, aos ministros do Supremo, para que examinem seus desatinos como acidentes de confrontos ideológicos.

Ele e Maria do Rosário estão em extremos, é óbvio. Mas as agressões dele não têm nada da natureza do confronto político civilizado e da representação parlamentar.

Bolsonaro não é um ideológico, é um primitivo. Foi turbinado como herói de uma elite reacionária, como mostram as pesquisas, e seria o candidato a presidente de muita gente dita ‘esclarecida’. Sem esse pessoal que o endeusou, ele não seria o que ainda pretende ser.

Seus seguidores bem nascidos nunca imaginaram que o Supremo chamaria o ídolo para prestar contas de uma postura desrespeitosa, violenta e criminosa.

Bolsonaro sempre achou que com ele nada aconteceria. Mas desde ontem  será cada vez menos Bolsonaro. Duvido que os filhos – também políticos e imitadores do pai – mantenham a mesma desenvoltura.

Os fãs ardorosos, os órfãos do Parcão, o pessoal da camiseta da Seleção – todos devem procurar outro mito, porque esse, mesmo que não venha a ser condenado, está irremediavelmente avariado.