A direita gaúcha

Aos que estão impressionados com o que aconteceu em Charlottesville, na Virgínia, onde racistas americanos atropelaram manifestantes contrários às suas ideias (repetindo o que condenam nos atos terroristas): não pensem que estamos totalmente livres disso tudo.
A ascensão de tipos como Bolsonaro vai favorecer o recrudescimento das ações dessa gente também no Brasil. Porto Alegre está na rota desse pessoal e há pouco tempo teve um ensaio, no Largo da Prefeitura, do que pode acontecer.
O núcleo gaúcho de extremistas de direita é forte, inclusive com representação parlamentar e apoio de boa parte da classe-média-bem-nascida-das-panelas e de certas autoridades.

Racistas e machistas

Que categoria da Alice Bastos Neves, no Jornal do Almoço da RBS, ao defender, ao lado de um machista (o técnico do Inter, Guto Ferreira), a presença de mais mulheres na cobertura do futebol e de todos os esportes.

O cara ouviu o sermão de Alice calado, depois de admitir que errou com a repórter Kelly Costa, que ele tentou desqualificar, ao vivo na TV, por ser mulher.

O Inter teve, exatamente antes do machista, um treinador (Antonio Carlos Zago) flagrado como racista quando jogador, que depois também se retratou. O agressor, nesses casos, geralmente é um bom pedidor de desculpas.

É impossível reunir tanta gente num estúdio, mas seria bom ver Alice dizendo coisa parecida na cara da parte racista da torcida do Grêmio, que decidiu vaiar a vítima, o goleiro Aranha, no recente jogo com a Ponte Preta (Aranha havia sido chamado de macaco, em 2014, por uma torcedora no estádio).

Aranha havia sido chamado de macaco, em 2014, por uma torcedora no estádio. Os racistas não se conformam que Aranha tenha reclamado.
Mais Alices e diversidade no futebol. E menos intolerantes e grosseiros metidos a engraçadinhos.

 

Veja aqui o vídeo com Alice e o arrependido.

http://globoesporte.globo.com/rs/videos/v/depois-de-resposta-em-coletiva-guto-se-desculpa-com-reporter/6018107/

 

Que fase

Quer dizer que o afamado roqueiro gaúcho Wander Wildner vai a São Paulo para falar do “nego do bar” e da “vadia” que não leva a cerveja, tem o microfone desligado, é mandado embora do lugar onde cantava (Fatiado Discos e Cervejas Especiais) e ainda diz na internet que foi mal interpretado?
Os gaúchos estão decadentes até como falsos transgressores. Agora temos um roqueiro desligado e metido a engraçadinho.
A era Trump-Bolsonaro chega ao punk gaudério.

Falta algo

punho

Ainda falta o grande gesto desta Olimpíada, aquele gesto que arrebata e será lembrado para sempre. Não uma atitude política qualquer, um Fora Temer (não precisa), mas um gesto forte, surpreendente, que abrace alguma das tantas causas que o mundo oferece hoje aos que têm visibilidade, fama e reputação.

O esporte ainda deve ao mundo maior engajamento às grandes causas. Sei que muitos acham que esporte e política não podem se misturar.

A política miúda, não. Mas a política graúda, a que me mexe fundo com as pessoas e cobra posições de nomes mundiais, essa pode e deve interferir nos grandes eventos.

Até a Coca-Cola sabe que uma Olimpíada não é uma bolha à margem da realidade. Não se espera um novo punho fechado erguido no pódium, como os atletas negros americanos fizeram em 1968, porque aquele foi um gesto único para que possa se repetir.

Mas algo parecido, em nome dos refugiados, das mulheres atacadas pelo machismo sem pátria e dos perseguidos pela homofobia impune, faria bem ao mundo que não se conforma com as vítimas do novo reacionarismo.

O gesto de um segundo de um atleta pode valer mais do que mil palavras de um político. Um evento mundial não pode ficar resignado com as crueldades do mundo hoje.

O humanismo depende também de uma Olimpíada, ou teremos apenas um certame de caras, grifes, choros e recordes.

Ah, sei, dirão que há muito tempo uma Olimpíada não se presta para manifestações de atletas porque o Comitê Olímpico pune quem cometer gestos políticos. O Comitê Olímpico que fique com suas regras.

Normas existem para serem afrontadas por grandes causas, ou o mundo não anda. O problema é que hoje sobram normas e falta quem as afronte. Os atletas mundiais estão muito parecidos.

Adiós, Bolsonaro

bolsonaro (2)

Estava murcho ontem à noite, na aparição no Jornal Nacional, o homem que geralmente aparece com os olhos arregalados para defender posições racistas, homofóbicas e machistas com determinação.

Não era o eloquente Jair Bolsonaro que conhecemos, adorado por moradores de bairros nobres de Porto Alegre, ídolo do Parcão e da Avenida Paulista, o mito das passeatas golpistas que se vangloria por dirigir ofensas a mulheres, gays e negros.

Outro valentão terá de se entender com o STF porque disse, e repetiu mais de uma vez, que não estupraria a deputada Maria do Rosário porque ela é feia.

Mas ontem no JN Jair Bolsonaro estava assustado. Tanto que se dirigiu, “com humildade”, aos ministros do Supremo, para que examinem seus desatinos como acidentes de confrontos ideológicos.

Ele e Maria do Rosário estão em extremos, é óbvio. Mas as agressões dele não têm nada da natureza do confronto político civilizado e da representação parlamentar.

Bolsonaro não é um ideológico, é um primitivo. Foi turbinado como herói de uma elite reacionária, como mostram as pesquisas, e seria o candidato a presidente de muita gente dita ‘esclarecida’. Sem esse pessoal que o endeusou, ele não seria o que ainda pretende ser.

Seus seguidores bem nascidos nunca imaginaram que o Supremo chamaria o ídolo para prestar contas de uma postura desrespeitosa, violenta e criminosa.

Bolsonaro sempre achou que com ele nada aconteceria. Mas desde ontem  será cada vez menos Bolsonaro. Duvido que os filhos – também políticos e imitadores do pai – mantenham a mesma desenvoltura.

Os fãs ardorosos, os órfãos do Parcão, o pessoal da camiseta da Seleção – todos devem procurar outro mito, porque esse, mesmo que não venha a ser condenado, está irremediavelmente avariado.

A hora do Bolsonaro

Bolsonaro agora é réu no Supremo pelas frases machistas e fascistas que disse a respeito da deputada Maria do Rosário (para relembrar: que ela não merecia ser estuprada porque é ruim e feia).
São duas ações por apologia ao crime e injúria. Talvez, ao final, não dê em nada. Mas é um movimento importante do Supremo para que os seguidores do sujeito pensem bem antes de repetir o que ele diz sem o menor temor.
Bolsonaro ainda está à espera de quem o enfrente como deve. No Congresso ninguém é capaz de confrontá-lo com suas atitudes machistas, racistas e homofóbicas. O corporativismo (com boa dose de covardia do homerio da casa) o protege.
Talvez tenha chegado a hora do Supremo, tão fragilizado pelas decisões e declarações de Gilmar Mendes e tão vulnerável às desconfianças de todos, fazer o que ninguém conseguiu até agora.