O capanga

Um capanga de Sérgio Camargo Nascimento, o jornalista racista nomeado para a Fundação Palmares, ameaçou meio mundo de processo por dano moral.
O capanga dizia aqui na internet que Nascimento, descendente de escravos, não podia ser chamado de racista por defender o fim do movimento negro e dizer que a escravidão foi boa para os negros.
Imaginem ser processado por um racista. Pois a Justiça determinou que a nomeação dele seja suspensa. O juiz Emanuel José Matias Guerra, da 18ª Vara Federal do Ceará, acatou ação popular para que um racista não ocupe o cargo de uma fundação criada para defender o negro, a diversidade e as liberdades.
Mais adiante, um juiz bolsonarista irá derrubar a liminar, se é que já não derrubaram. O que importa é que um juiz já reconheceu que um racista não pode ocupar esse cargo.
Que Nascimento vá defender suas posições com os amigos do governo de Bolsonaro, e não dentro de uma fundação pública. Negros, pardos, brancos, amarelos, todos rejeitam sua presença na Palmares. Os que o aceitam, que criem uma fundação pra ele, ou o abriguem num aparelho do bolsonarismo.

O PRIMEIRO BAILE E O MASSACRE DE PARAISÓPOLIS

O primeiro grande baile funk de Porto Alegre aconteceu em abril de 2001, no Gigantinho. Pode ter sido o maior baile funk de todos os tempos no Estado.

Eram mais de 4 mil pessoas na quadra e nas arquibancadas. O funk apresentava-se como novidade para os gaúchos. Veio gente do Rio para organizar a festa. Eu vi, eu estava lá.

Os bailes, já naquela época, ainda longe do bolsonarismo, atraíam todo tipo de preconceito da direita moralista e dos que odeiam negros e pobres.

Eu queria saber o que era um baile funk. Com meu amigo Júlio Cordeiro, que fez as fotos, ficamos até o dia clarear e apresentamos um relato de duas páginas em Zero Hora.

Podemos dizer que ajudamos a divulgar o funk e reforçar o combate às tentativas de estigmatização da arte e das festas dos funkeiros. Ronaldinho Gaúcho apareceu no ginásio do Inter, protegido por um capuz, para não mostrar a cara na casa dos colorados.

Me lembro do estudante Mário Roberto Gomes de Lima, 18 anos, morador da Restinga, com uma camiseta preta e a inscrição no peito: 100% negro. O guri era o que o IBGE cadastra como pardo. Mas ele queria ser reconhecido como 100% negro. Nunca tinha visto uma camiseta como aquela, que depois se popularizou.

Mário tem 36 anos hoje. Faz o quê? Mora onde? Me lembrei dele e do baile por causa do massacre de Paraisópolis. A maioria dos 10 mortos tinha idade semelhante à do adolescente de 2001.

De lá até aqui, o preconceito ficou ainda mais cruel e foi politizado pela direita, e os massacres ganharam suporte “jurídico”. Matavam muitos negros em 2001, sempre mataram, por qualquer motivo. Agora matam com a proteção do discurso oficial e das iniciativas bolsonaristas de Sergio Moro.

Matam porque, na Era Bolsonaro, assassinos fardados não temem mais nada. Um ex-juiz diz que podem matar se sentirem medo, se apresentarem desculpas sobre alguma surpresa ou se estiverem sob forte emoção. Ainda não é lei, mas está na fala de um ministro da Justiça.

Matam porque muitos ficam impunes e mais adiante, com a lei de Moro, todos ficarão. O bolsonarismo se sente desconfortável com a festa das comunidades. O racismo bolsonarista odeia a alegria dos negros.

AS ABERRAÇÕES NOS GOVERNAM

Não basta que o presidente da Fundação Palmares seja um racista. Para o bolsonarismo, era preciso encontrar um racista negro. Aberrações humanas, que convivem com todos nós, muitas vezes quase caladas, agora têm poder político e falam em voz alta, em todos os escalões.

Um negro que defende a escravidão não é apenas alguém exercendo o direito de se expressar. É um descendente de povos escravizados falando em liberdade de opinião e defendendo a supressão de todas as liberdades. Na escravidão, ele não diria nada do que diz hoje, nem a favor dos seus algozes.

Mas no Brasil de Bolsonaro já não basta ser uma aberração, como as que circulam por aí, algumas tão próximas que não há como mantê-las à distância, porque são da família. Assim é a nossa vida torta, diversa e imperfeita. Mas agora as aberrações avançam e chegam à gestão de políticas públicas.

O negro racista, agora em cargo público de comando, é um problema e provoca indignações entre brancos do grupo de apoio do bolsonarismo, mas é um problema pequeno, um dos custos a serem pagos pelo antilulismo e pelo antiesquerdismo. O que importa é o projeto macro de Bolsonaro e esse projeto é “liberal”.

A elite brasileira aceita Bolsonaro em nome das reformas e do trabalho sujo que é preciso ser feito para destruir a educação pública, o SUS, os direitos sociais, as leis trabalhistas, a indústria nacional, a Amazônia.

Aberrações como a do negro que odeia negro só reafirmam que a aberração maior, a que sustenta o bolsonarismo, é isso que ainda definem com certa pompa como “a sociedade brasileira”. Bolsonaro é uma invenção das nossas patologias sociais e morais.

Sem a aberração coletiva que o elegeu, Bolsonaro não existiria, seria apenas um reacionário amigo do Queiroz e vizinho do Ronnie Lessa, ou continuaria sendo um deputado sem expressão e sem turma.

Bolsonaro é a aberração institucionalizada. Não é resultado de uma ditadura, nem uma imposição dos militares, não é um monarca. Bolsonaro é um déspota eleito.

A direita atrofiada descobriu que pode produzir figuras públicas repulsivas no atacado explorando medos, mentiras, desalentos e ignorâncias.

Às vezes, é preciso aplicar um golpe, como aplicaram na Bolívia. Mas são acidentes. A extrema direita foi mais competente, na manipulação da democracia, do que a direita clássica dita conservadora liberal. Perdemos o direito à normalidade.

As pessoas em cargos públicos que condenam tudo o que deveriam defender (o negro, o meio ambiente, a Justiça, o patrimônio público, a educação) são o Brasil representado nesses altos escalões.

Sim, o negro racista é uma exceção. Mas uma exceção com potência máxima. O negro racista está lá por ter poder político, e que poder. Ele é mais uma expressão dos descaminhos da democracia. As aberrações nos governam.

ELE NUNCA VIU RACISMO

Esta é uma das fotos de capa do Globo online, com este texto.
“Novo presidente da Fundação Palmares nega que exista racismo e pede fim do movimento negro.
Militante de direita já defendeu o fim do feriado da Consciência Negra e atacou personalidades como Taís Araújo e Marielle Franco”.
Agora escrevo eu. Chama-se Sergio Nascimento Camargo, é jornalista. A Fundação Palmares é um órgão do Ministério da Cultura.
Na lei que instituiu a fundação, em 1992, está escrito que a Palmares irá “promover a preservação dos valores culturais, sociais e econômicos decorrentes da influência negra na formação da sociedade brasileira”.
Camargo diz e escreve coisas assustadoras (afirma que a escravidão foi “benéfica” para os negros) e tem admiradores brancos, negros e pardos. Mais do que vocês pensam.
Esse caso e o de Diego Hypólito mostram que o bolsonarismo é um algoz sedutor.

Taison

Tinga, Roger e agora Taison. Que a memória de Zumbi inspire e proteja esses caras valentes nascidos e criados no Estado mais racista do Brasil, segundo o próprio Tinga.
E que outros até agora calados comecem a falar e a erguer o punho junto com Taison, o guri de Pelotas, a terra das charqueadas e do escravismo.
(O Rio Grande do Sul foi exportador de escravos. Hoje é o segundo Estado mais branco, atrás apenas de Santa Catarina.)

A resposta do médico

Um caso exemplar de resposta aos racistas, com a letra do médico, o nome e o carimbo. Compartilho do perfil do historiador e professor Tau Golin.

“DOENÇA DE ÍNDIO”
Diretora da escola mandou aluna ao posto de saúde porque, segundo ela, a menina tinha “doença de índio”.
O médico respondeu maravilhosamente, comunicando à diretora:
“Venho através deste, informar que a doença que minha paciente […] apresenta não possui etiologia relacionada à sua etnia/raça.
“Sua aluna não apresenta nenhuma condição infecto contagiosa.
“A CONDIÇÃO DA PSICOPATIA FASCISTA, ESSA SIM, POSSUI ETIOLOGIA DE ORIGEM BRANCA EUROPEIA.
Atenciosamente.
Henrique S. Passo, médico…”
Vocabulário:
Etiologia – estudo das causas das doenças.
Psicopatia – 1 distúrbio mental grave em que o enfermo apresenta comportamentos antissociais e amorais sem demonstração de arrependimento ou remorso, incapacidade para amar e se relacionar com outras pessoas com laços afetivos profundos, egocentrismo extremo e incapacidade de aprender com a experiência.
2 qualquer doença mental.
(Dicionário Houaiss)

ELES NÃO QUEREM NEGROS

Por que muitos locais de atendimento ao público em Porto Alegre (balcões, caixas, guichês, portarias etc) não têm negros?
Falo de lugares de empresas privadas. A sensação é de em alguns locais nunca há negros. Há lojas e restaurantes em que não se percebe a presença de negros.
Em outros lugares, ao contrário, nota-se na chegada a presença numericamente relevante de funcionários negros. Como percebi esses dias em um sushi do Bourbon Shopping Country. De cinco funcionários que vi, quatro eram negros.
Pensei nisso agora lendo uma notícia do jornal Extra Classe sobre outra forma tristemente (e criminosamente) consagrada de discriminação.
A Comercial Zaffari, de Passo Fundo, teve de ser obrigada pela Justiça, por interferência do Ministério Público, a preencher 5% das vagas com pessoas com deficiências.
É lei, mas a empresa não queria saber de pessoas com deficiências. E a Comercial Zaffari (que não é a mesma rede de supermercados de Porto Alegre) emprega 1.600 pessoas. Só vai contratar à força, para não ter que pagar multas…
Mas a minha pergunta lá do começo se mantém: por que algumas empresas gaúchas se negam a ter negros no atendimento ao público em pleno século 21?
Os racistas não precisam responder. Fiquem quietos.
(O link para a reportagem do Extra Classe está na área de comentários.)

RACISTA SEM COMENDAS

Se a moda pega no Brasil, haverá uma devolução em massa de medalhas, comendas, diplomas e outros adereços e boa parte do governo bolsonarista ficaria sem honrarias.
Esta é a notícia do momento no mundo:
Um dos maiores laboratórios de Nova York cortou relações com um cientista americano que ajudou a descobrir o DNA — e por isso venceu o Prêmio Nobel —, James Watson, de 90 anos, após comentários racistas.
Em um documentário recém-divulgado pela emissora americana PBS, ele afirmou que “raça e inteligência estão conectadas”. Mesmo que suas posições sejam conhecidas há muito tempo.
O Laboratório Cold Spring Harbor (CSHL, na sigla em inglês) informou que revogou todos os títulos e honrarias de Watson, que liderou o laboratório por muitos anos.
O laboratório “rejeita inequivocamente as opiniões pessoais improcedentes e imprudentes que o Dr. James D. Watson expressou sobre o tema de etnia e genética”, disse, em comunicado, o atual presidente do CSHL, Bruce Stillman.
“As declarações do Dr. Watson são repreensíveis, não têm base na ciência e de modo algum representam os pontos de vista do CSHL, de seus curadores, professores, funcionários ou estudantes. O laboratório condena o mau uso da ciência para justificar o preconceito”, acrescenta o comunicado.
E no Brasil? No Brasil, muitos racistas oferecem honrarias aos amigos racistas.

Tite

Tite nos deu de presente de Natal uma entrevista única no programa Grande Círculo, hoje à noite no SportTV. Não só pela inteligência, mas pelo profundo humanismo.
Agora, entende-se porque ele e um famoso técnico adorador de ídolos da extrema direita não se entendem.
Tite fala de qualquer coisa com autenticidade. Das negociatas no futebol, da discriminação contra os negros até hoje e do forte racismo presente na Serra gaúcha, mesmo correndo o risco de fazer uma crítica à sua terra. Grande Tite.