RAQUEL & DELTAN

Raquel Dodge deixa a Procuradoria-Geral da República neste mês. Diga rápido: qual foi a sua contribuição para que a PGR limpasse um pouco a imagem de conivência com a direita e de omissão diante dos desmandos de seus subalternos na Lava-Jato?
Raquel é a chefe de Deltan Dallagnol, o procurador sem escrúpulos que pretendia ficar com os R$ 2,5 bilhões da Petrobras para criar uma fundação, além de enriquecer com palestras.
A última de Dallagnol é esta mensagem de 29 de janeiro de 2018, agora vazada, em que ele escreve para ele mesmo, como se fosse um enviado de Deus, refletindo sobre a possibilidade de ser candidato ao Senado:
“Tenho apenas 37 anos. A terceira tentação de Jesus no deserto foi um atalho para o reinado. Apesar de em 2022 ter renovação de só 1 vaga e de ser Álvaro Dias, se for para ser, será. Posso traçar plano focado em fazer mudanças e que pode acabar tendo como efeito manter essa porta aberta”.

FALE, RAQUEL DODGE

Deltan Dallagnol, o procurador sem escrúpulos, oferece mais argumentos para que sua chefia saia do silêncio. As mensagens que o site do El País divulgou hoje, com ataques e comentários depreciativos de Dallagnol à procuradora, tirariam qualquer liderança do sério e do imobilismo.

Saberemos logo se irão abalar o silêncio obsequioso de Raquel Dodge, a procuradora que até hoje nada comenta sobre nada, que aguarda um sinal de que Bolsonaro pode passar a cortejá-la para a recondução à Procuradoria-Geral da República e que se mostra incapaz de arbitrar, por prerrogativa, por liderança, por imposição hierárquica, as ações da sua turma em Curitiba.

Dallagnol diz nas mensagens que não confia na chefe, porque ela atrasa acordos de delação. Sente saudade de Rodrigo Janot. Planeja (talvez tenha feito) usar a tática de plantar notícias na imprensa contra a procuradora. E estimula os colegas a debocharem da autoridade que deveria chefiá-los.

Dallagnol sempre teve pressa para agir contra Lula, e Raquel parecia não acompanhar o ritmo da força-tarefa. A procuradora não irá gostar de ler o que El País publica.

Raquel Dodge teve um encontro recente com Dallagnol e mandou recados à imprensa, dizendo que ainda confia no subalterno. Com as mensagens divulgadas agora, pode continuar afirmando a mesma coisa, o que não causaria nenhuma surpresa.

Curitiba era e talvez ainda seja um ninho de cobras. Está claro nas mensagens anteriores, também divulgadas, pelo El País, que Dallagnol não tinha a confiança de muitos procuradores.

Alguns deles demonstravam constrangimento com as atitudes de quem deveria ser o chefe da força-tarefa (sabemos agora que o chefe de fato era Sergio Moro), principalmente pela avidez com que Dallagnol tratava as conversas sobre palestras pagas.

Os procuradores desconfiavam de Dallagnol, que desconfiava de Raquel, envolvida, segundo ele, numa aproximação demasiada com Gilmar Mendes, para quem sabe virar ministra do Supremo.

Lembremos que Dallagnol não teve o apoio de Raquel para abocanhar os R$ 2,5 bilhões da Petrobras que seriam destinados à fundação que, dizia ele, iria ajudar no combate à corrupção. Até hoje essa história não foi bem contada.

Com as novas mensagens, Raquel Dodge terá de falar, ou prolongará um silêncio que retumba em Brasília e poderá consumir o que resta da sua autoridade.

UMA GUERRA DE FACÇÕES

As instituições da estrutura de justiça do Brasil chegaram ao momento em que nem as aparências interessam mais.

Supremo e Ministério Público Federal, divididos e atordoados pelos delitos do golpismo e do lavajatismo, brigam agora para saber quem tem mais poder para exibir ou mais podres para esconder.

A mais alta Corte tenta enfrentar a turma de procuradores que a desafia há muito tempo. Sabe-se agora, pelas mensagens vazadas do esquema da Lava-Jato, que o STF investiga gente que não só o ofendeu, mas que pretendia investigar clandestinamente alguns de seus membros.

O último movimento é o de Raquel Dodge, a chefe dos rapazes de Curitiba, que passou a tratar o Supremo como um “tribunal de exceção”. Chegamos ao momento em que ao MP Federal e ao Judiciário já não basta a farsa do combate aos corruptos para perseguir Lula e as esquerdas.

Agora, MP e Judiciário, que atuavam em conluio ou pelo menos se toleravam, duelam entre si porque um desafiou o poder e as imundícies do outro.

O MP de Raquel Dodge tratou o STF, durante toda a Lava-Jato, como um aliado resignado com sua posição de observador do que acontecia em Curitiba.

O Supremo nunca questionou as anomalias da força-tarefa que deveria ser comandada por Deltan Dallagnol e era na verdade liderada por Sergio Moro.

O único ministro que tentou impor alguma ordem e hierarquia ao grupo de Curitiba foi o relator da Lava-Jato, Teori Zavascki, que está morto.

Dos vivos, todos disseram amém a Sergio Moro e ao MP, como se o juiz de primeira instância fosse um deles. O que se vê hoje é o Supremo tentando enquadrar os moços de Raquel Dodge como disseminadores de inverdades contra a Corte, e a procuradora defendendo ferozmente seus rapazes.

É uma briga corporativa, muito mais do que a defesa das instituições. Raquel é chefe de um MP vilipendiado por seus próprios integrantes. E Dias Toffoli, que determinou a abertura do inquérito para investigar os procuradores de Dodge, é líder de um Supremo desmoralizado desde antes do golpe de agosto de 2016.

Não há nada de elevado nesse duelo. Ministério Público e Supremo são cúmplices em situação de conflito. O desfecho da briga poderá fortalecer um ou outro, mas o Brasil dominado pelo lavajatismo e pelo bolsonarismo não irá ganhar nada com isso.

Essa não é uma guerra do sistema de justiça, mas de membros de facções do MP e do Judiciário que apenas estão em desacordo sobre o andamento do projeto que golpeou Dilma e encarcerou Lula. Não procurem mocinhos nesse entrevero.

Como decretou certa vez, em manchete, o jornal argentino Olé sobre o jogo do Brasil contra a Inglaterra numa Copa do Mundo: que percam os dois.

A PROCURADORA E A TRANSPARÊNCIA NOTURNA

A procuradora-geral Raquel Dodge, que exige transparência do desembargador Rogério Favreto, fez uma famosa visita noturna ao jaburu, uma visita secreta, fora da agenda, no dia 8 de agosto do ano passado.

Foi ao Palácio do Jaburu tarde da noite (na foto com a reprodução do vídeo), sem avisar ninguém, e não ao Palácio do Planalto e durante o dia. Teve o azar de ter sido flagrada pelo cinegrafista Wilson de Souza, da Globo, e ficou quieta.

Cinco dias depois (CINCO DIAS!!!), no dia 13, com a pressa característica de alguns que se dedicam a fazer justiça no Brasil, sejam eles do Judiciário ou do Ministério Público, emitiu uma nota dizendo que havia tratado de questões “institucionais”.

Registre-se que Raquel Dodge ainda não havia assumido o cargo em substituição a Rodrigo Janot.

Leiam a explicação que ela deu. Que foi alertar o jaburu de que deveria tomar posse no dia 18 de setembro, porque no dia 19 o jaburu viajaria aos Estados Unidos e o cargo na PGR, com a saída de Janot dia 17, poderia ficar vago.

Imaginem a cena. A futura procuradora-geral da República vai ao encontro de um denunciado por formação de quadrilha (pela Procuradoria que ela iria comandar), para alertá-lo, com um mês de antecedência, para um detalhe de agenda.

Quantos assessores devem cuidar da agenda do jaburu? Alguém pode acreditar que Raquel Dodge deveria mesmo sair de casa à noite, para alertar o jaburu de que sua posse deveria ser em tal data?

E assim ela teria sido recebida, fora da agenda, para alertar o jaburu sobre um detalhe de agenda. Por que à noite? Por que no Palácio do Jaburu? Por que não avisou ninguém?

Ela, e não por ordem dele, teria então tomado a iniciativa de ir ao encontro do jaburu? Por que às 22h?

No dia seguinte, depois deter sido flagrada, e não antes do encontro, Raquel informou Rodrigo Janot de que havia feito uma visita fora de hora ao jaburu.

Por que a transparência que ela pede agora ao desembargador Favreto não esteve presente naquele encontro secreto que repercutiu até na mídia aliada do golpe?

Todo mundo sabe, até as emas do Palácio do Jaburu, que Raquel Dodge caiu numa armadilha que só os afoitos não percebem.

O jaburu a chamou tarde da noite para tentar mostrar que encontros como aquele eram comuns. Se ele se encontrava com a futura procuradora-geral quase à meia-noite, poderia se encontrar também com Gilmar Mendes ou com Joesley Batista, o pagador da mesada de Eduardo Cunha.

Mas Raquel Dodge estava mesmo preocupada porque o cargo poderia ficar vago por dois dias. O que aconteceria se a PGR ficasse sem titular por dois dias?

Que deliberação relevante saiu da caneta de Raquel Dodge, durante quase um ano, desde que ela assumiu o comando da PGR, no dia 18 de setembro? A tentativa de enquadrar Rogério Favreto?

Quem souber, que informe aqui.

AS MULHERES QUE VOTAM EM BOLSONARO

Bolsonaro é réu em duas ações no Supremo, por injúria e apologia ao crime de estupro, em consequência dos ataques à deputada Maria do Rosário. Não vou repetir aqui o que ele disse e todo mundo sabe, porque é nojento e covarde.
Hoje, Bolsonaro levou mais um tombo. A procuradora-geral Raquel Dodge o denunciou ao Supremo pelo crime de racismo. Em palestra há um ano na Hebraica do Rio (sim, Bolsonaro fala para judeus e prega racismo), o deputado atacou quilombolas, indígenas, refugiados, mulheres e LGBTs.
Também não vou repetir aqui o que ele disse nessa palestra em que foi aplaudido por muita gente que, pela história trágica dos seus ancestrais, deveria repudiá-lo.
Um dos filhos dele, o deputado Eduardo Bolsonaro, também foi denunciado pela procuradora por ameaçar uma jornalista.
Mesmo assim, há mulheres, e muitas e muitas mulheres, que adoram Bolsonaro. Não são pessoas sem acesso à informação. Nem pobres. São, na maioria, como mostram as pesquisas, de uma classe média com curso superior e bons empregos.
Bolsonaro (que hoje passou mal e foi levado às pressas para um hospital no Rio) sabe que, para ser eleito, depende dos votos das mulheres. E muita mulher que se considera esperta vota em Bolsonaro.

Godot

O Brasil confuso, acomodado e omisso tem inveja de Raquel Dodge. O Brasil desistiu de derrubar o jaburu. Mas a procuradora o enfrenta como pode.
Seus críticos ficam comentando o que ela faz, para que assim não tenham que fazer nada mesmo. Seus críticos estão satisfeitos com o papel de comentaristas espertos.
Enquanto a procuradora faz a sua parte, o Brasil ‘indignado’ (isso significa o quê?) espera Godot.

Os limites de Raquel

O jornalista e cientista político André Singer, que foi porta-voz do governo Lula e hoje é professor da USP, levanta a grande questão depois da prisão dos amigos do jaburu-da-mala.
Em seu artigo dos sábados na Folha ele indaga se a procuradora Raquel Dodge terá fôlego para denunciar o jaburu (como o antecessor Rodrigo Janot fez duas vezes) e livrar-se totalmente da suspeita de que não enfrentaria o sujeito e seu Quadrilhão.
Aguardemos. Raquel fez o que poucos esperavam que ela fizesse, ao pedir a prisão dos grandes amigos de quadrilha. Agora, os que duvidavam estão assustados.
Tem gente da esquerda querendo o jaburu de imperador da estabilidade. Jaburu-da-mala primeiro e único.

O JABURU E A FELICIDADE

As esquerdas gritam Fora Temer há dois anos. E há pelo menos um ano as esquerdas pedem uma prova de que Raquel Dodge é mesmo a xerife do Ministério Público, porque a maioria desconfia dela.
Pois a procuradora-geral fechou o cerco sobre o jaburu. Mandou os grandes amigos dele para a cadeia. Na véspera da Páscoa. Os amigos do jaburu, parceiros do Quadrilhão, não comerão ovinhos este ano.
E parte das esquerdas se assusta com a ideia de que estamos diante de uma nova conspiração. Diziam: prendem todo mundo, mas nunca pegam a direita golpista. Pois pegaram.
Cercaram o jaburu e prenderam os amigões do jaburu. Destruíram o jaburu. Ah, mas não deveria ser agora, porque Lula pode ser preso na semana que vem e o golpe pode recrudescer. Até meu coelhinho está espantado.
Se quiser, a direita cumprirá a nova etapa do golpe com ou sem o jaburu. Deixem Raquel Dodge cuidar dos chefes do Quadrilhão, ou fica tudo como está.
Só falta a esquerda levar um susto se prenderem Aécio. A esquerda está assustada com a possibilidade do fim do jaburu e de um novo golpe.
Para muitos, o jaburu seria o fiador da ‘democracia’ até a eleição. Fazendo o que vinha fazendo. Estaríamos viciados nos maus tratos do jaburu.
A esquerda está de novo com medo dos estragos da felicidade.

E agora, Raquel Dodge?

Perguntas que todos se fazem numa hora dessas. Raquel Dodge poderia ter dito ao jaburu, antes de assumir a Procuradoria-Geral, que não iria ao palácio das reuniões secretas naquela famosa noite de 8 de agosto?
E agora, na semana passada, a procuradora poderia ter esclarecido melhor a história de que Geddel, e não o jaburu, é o chefe do Quadrilhão do PMDB?
E Raquel poderia ter dito ao jaburu que não aceitaria a medalha do Mérito Aeronáutico? Alguns imaginam que ele poderia ter dito: assumi há pouco tempo e não mereço essa condecoração.
Poderia? Não poderia? Não havia o que fazer? O jaburu é mesmo poderoso a ponto a enredar uma procuradora em situações tão constrangedoras?

Qual é a da doutora Raquel?

E vamos começar a semana com essa dúvida provocada pela procuradora-geral. Geddel era mesmo chefe da quadrilha? Seria da quadrilha do jaburu? Mas a quadrilha do jaburu era chefiada pelo próprio jaburu, segundo Janot.
Todo mundo sabe que Geddel era apenas um prestativo, sem condições de ser subgerente da gangue do jaburu. Um sujeito que guarda R$ 51 milhões em um apartamento, na beira da janela, para pegar sol, não pode ser chefe de nada.
Vão dizer que Geddel foi ministro, por ser da cota do jaburu no governo do PT. Mas Mendonça Filho é ministro da Educação. Jucá foi ministro. Padilha é ministro. E ninguém sabe quem é o ministro do Trabalho. E o da Saúde, da Indústria, dos Esportes? Tiririca só não é ministro porque não quer. Ser ministro é uma barbada. Mas ser chefe do Quadrilhão é outra coisa.
Raquel Dodge pode ter indicado Geddel como chefe numa manobra para livrar o jaburu? Geddel, como capo, não poderia ser delator e não iria dedurar ninguém. E o jaburu, com proteção garantida pelos 300 picaretas, deixa de ser o líder. É uma teoria que corre por aí.
Geddel chefe de Padilha, de Moreira Franco, de Jucá, de Rocha Loures? É brabo acreditar. Geddel, o gordinho engraçado, amigo dos jornalistas (inclusive alguns gaúchos), o palhaço do jaburu, era o chefe do almoxarifado.
Geddel só chefiava as malas. Por que a procuradora nos deixa com essa dúvida? O que pretende a doutora Raquel?