Começou?

A melhor notícia dos últimos dias é esta ação da Polícia Federal pegando os amigos do jaburu-da-mala, o advogado José Yunes e o coronel João Baptista Lima Filho, conhecidos (e até agora impunes) como operadores do esquema do Quadrilhão.
Pode não dar em nada, por enquanto, mas mostra o que mais interessa: que há setores das instituições resistindo à tentativa de aparelhamento pelo golpe.
Se a PF resistir, se o Ministério Público for menos omisso e seletivo e se setores do Judiciário fortalecerem trincheiras como a Associação Juízes para a Democracia, o golpe poderá cambalear.
Se não houver essa reação, a próxima etapa, já preparada com notinhas plantadas pelos jornalistas embarcados (alguns deles fofos, outros ogros, outros ainda tímidos), será cumprida. Será a suspensão das eleições.
Vou pegar carona no ensaio de otimismo do ex-procurador-geral Rodrigo Janot. Foi isso o que ele escreveu no Twitter: “Começou? Acho que sim.”
Tomara que tenha começado.

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Esta é a notícia das prisões na Folha de S. Paulo:

Planalto vê cerco político e teme investigações mais amplas contra Temer

BRASÍLIA

O Palácio do Planalto avalia que a operação da Polícia Federal desta quinta-feira (26), que prendeu amigos e assessores de longa data do presidente, representa a escalada do cerco político que asfixia o governo e uma ampliação das investigações contra Michel Temer.

Nas primeiras horas da manhã, a PF prendeu o ex-assessor e amigo há mais de 50 anos de Temer, o advogado José Yunes, além do ex-ministro da Agricultura Wagner Rossi (MDB-SP) e do coronel João Baptista Lima Filho, muito próximo ao presidente.

Apesar das notícias, Temer decidiu manter em sua agenda uma viagem a Vitória (ES) para a inauguração do novo aeroporto da cidade. A previsão é de que ele retorne a Brasília no início da tarde e se reúna com assessores para definir se é possível traçar uma nova estratégia política e jurídica diante dos acontecimentos.

O empresário Antônio Celso Grecco, dono da Rodrimar, empresa que atua no Porto de Santos e é investigada por supostos benefícios concedidos pelo governo Temer, também foi detido nesta quinta.

As prisões foram autorizadas pelo ministro Luís Roberto Barroso, do STF (Supremo Tribunal Federal), relator do inquérito que investiga o presidente por suposto recebimento de propina em troca de benefícios ao setor portuário.

PRIMEIRA REAÇÃO

A primeira reação dos auxiliares de Temer foi classificar a operação de “absurda” e analisá-la como uma forma de criar obstáculos para a possível campanha à reeleição do presidente.

Nos últimos dois meses, ele tem demonstrado disposição de disputar as eleições de outubro, porém, pontua com apenas 1% das intenções de voto, segundo o Datafolha.

Em um segundo momento, conforme as confirmações dos nomes dos detidos chegavam ao Planalto, ministros e assessores avaliaram que as investigações podem ultrapassar o âmbito do decreto dos Portos, editado no ano passado pelo governo, e alvo das apurações.

Yunes é citado no inquérito sobre o decreto que investiga Temer, assim como o ex-deputado e ex-assessor presidencial Rodrigo Rocha Loures (MDB-PR) e um sócio e um diretor da empresa Rodrimar.

O coronel João Baptista Lima Filho também está citado, mas Wagner Rossi, por exemplo, aparecia somente na primeira investigação sobre o caso.

O inquérito apura se Temer praticou os crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Editado em maio do ano passado, o decreto suspeito ampliou de 25 para 35 anos os prazos dos contratos de concessão e arrendamento de empresas que atuam em portos e permitiu que eles possam ser prorrogados até o limite de 70 anos.

Por que Janot poupou o jaburu-da-mala?

É grave o que diz o procurador Celso Três em entrevista a Daniel Haidar para o jornal El País. Segundo ele, o procurador Rodrigo Janot teria como abrir investigação contra o jaburu-da-mala, quando era vice de Dilma.
Janot preferiu esperar, porque acreditava que teria um terceiro mandato na Procuradoria-Geral.
Conheço Celso Três, com quem conversei várias vezes no tempo do caso Banestado. O procurador fala o que acha que deve falar. Espera-se que Janot ofereça alguma explicação.
Vejam o que Três afirmou:
“Está provado hoje que Janot sabia, sim, da gravação da JBS. O ex-procurador Marcello Miller deu a entender que o procurador-geral da República sabia disso. Mas, ainda assim, o que é a segunda denúncia? Janot imputou a Temer obstrução de Justiça e (chefia de) organização criminosa. Mas ele cita atos de corrupção que são anteriores ao mandato presidencial. Isso que é grave contra Janot. Enquanto a ex-presidente Dilma Rousseff estava no poder, Janot sequer abriu investigação contra Temer. Tinha gente processada e até presa com elementos que Temer já apresentava, como o caso da Engevix. Isso é inexplicável. Aí quando ele vai fazer? Quando ele se convence que não conseguiria um terceiro mandato”.

https://brasil.elpais.com/brasil/2017/11/10/politica/1510338596_866594.html

 

Vocês querem bacalhau?

A última flecha-denúncia de Rodrigo Janot demonstrou, pela primeira vez e em detalhes, como funciona a máfia da direita no governo e no Congresso para a venda de decisões a empresários das mais diversas áreas.

A denúncia expõe os crimes cometidos por gângsteres da livre iniciativa brasileira, sempre encobertos pelos ataques aos políticos. São eles que sustentam o Quadrilhão do PMDB chefiado pelo jaburu.

A flecha de Janot atingiu o jaburu e seus principais ministros. Ninguém esperava e não aconteceu mesmo nenhuma reação dita popular, nenhum protesto, nenhuma manifestação de sindicatos, de entidades corporativas, de nada. Nada, nada e nada.

Se Janot tivesse mostrado 20 malas cheias de dinheiro, num apartamento que seria do jaburu, como aquele apartamento de Geddel, também não aconteceria nada.

Se revelasse que o jaburu tem um contêiner de dinheiro ao lado do palácio, nada aconteceria. Se mostrasse o jaburu fugindo com uma mala ao lado de Rocha Loures, todos continuariam sua lida à espera apenas do fim do mundo com a bomba do gordinho da Coreia.

O povo continuaria contando o dinheirinho do FGTS e esperando que a alta da bolsa recupere seu emprego. O povo acredita que a bolsa vai reconduzir o trem da economia aos trilhos da prosperidade.

O jaburu e seus cúmplices no Quadrilhão podem dormir tranquilos. Essa denúncia de Janot é mais uma informação para quem já desconfiava de tudo e inexiste como informação para quem não quer saber nada. A maioria não quer saber nada.

Os gângsteres

O Quadrilhão não era apenas o esquema criminoso do PMDB. O que o procurador Rodrigo Janot denuncia é mais do que uma gangue política.
A denúncia mostra pela primeira vez, em detalhes, com provas, como grandes empresários brasileiros atuam como gângsteres (mesmo que seus nomes e seus rostos fiquem para sempre encobertos).
Fica claro que Eduardo Cunha e seus cúmplices foram apenas prepostos dos empresários e, depois, do esquema do pato da Fiesp que levou ao golpe. O golpe foi aplicado pela máfia de empresários articulados em torno do jaburu-da-mala, de tucanos e demais atores da direita.
O Quadrilhão trabalhava para os empresários, negociando decisões de governo e do Congresso.
O Quadrilhão, com empresários, o PMDB, os picaretas do Congresso e suas ramificações, é o verdadeiro mensalão. Os governos do PT limitavam a ampliação e a desenvoltura dos seus interesses.
O baixo clero da Câmara e do Senado, que assegurou maioria ao golpe, foi parte do esquema de compra de apoios, na hora de derrubar Dilma.
Os tucanos, que almejaram o lugar do jaburu e são protagonistas do golpe (mas estão livres da Justiça até agora), participaram da queda de Dilma, com a mesma hierarquia, ao lado desta gente. Mas os corruptos do PSDB continuam e continuarão impunes e intocáveis.
A classe média das panelas, agora quieta e constrangida, apoiou essas máfias. Em qualquer outro país, as denúncias empurrariam todo o governo para o penhasco e para a cadeia. Aqui, estaremos amanhã falando da alta da bolsa e da queda do dólar, com a maior naturalidade.
Quem acredita que a Justiça amiga de Romero Jucá irá acabar com o Quadrilhão e com a máquina empresarial que o sustenta e o movimenta?

 

Mentes omissas

Gilmar Mendes ficou quieto por dois dias, depois que Rodrigo Janot o atacou como alguém que tem a “mente ociosa” (sem citar seu nome, claro), mas reagiu hoje. Voltou a pedir que os vazamentos dentro da Lava-Jato sejam investigados.
Os autores dos vazamentos foram denunciados pela ombudsman da Folha de S. Paulo, Paula Cesarino Costa. Ela sabe que os vazamentos são produzidos por procuradores, todos subalternos de Janot. É preciso identificá-los.
O problema é que o procurador-geral, que tudo investiga, se nega a admitir que existam vazamentos.
E o juiz Sergio Moro, que investiga com afinco o vazamento de informações a um blogueiro, até agora não parece muito entusiasmado com a ideia de que deve investigar vazamentos cometidos por gente de dentro da Lava-Jato para a grande imprensa.
Se o nome de Lula não aparece, o interesse cai bastante.

Janot e o conluio dos vazadores

Espera-se a resposta da ombudsman da Folha ao agressivo ataque do procurador-geral da República. Rodrigo Janot desqualificou a informação da jornalista, publicada no domingo, segundo a qual um conluio entre procuradores e jornalistas provocou o vazamento da lista com os novos nomes dos investigados da Lava-Jato.

Paula Cesarino Costa foi categórica. Todos os jornais publicaram as mesmas informações, com os mesmos nomes, porque seus repórteres foram abastecidos ao mesmo tempo por procuradores, que passaram as mesmas informações aos mesmos amiguinhos.

Janot disse hoje que as notícias sobre vazamentos são produzidas por “difamadores com mentes ociosas”.

Ele ataca Gilmar Mendes, que criticou os vazamentos, e a jornalista da Folha. A resposta de Gilmar Mendes não me interessa. Quero saber o que a ombudsman tem a dizer ao procurador-geral, cujos subordinados foram denunciados por conluio com a imprensa que sustenta o golpe.

A Lava-Jato só gosta de quem aplaude seus feitos. O Ministério Público está muito inseguro.

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Moisés Mendes é autor de Todos Querem Ser Mujica (livro de crônicas editado pela Diadorim)

Até os mafiosos amam a Lava-Jato

Reportagem de Clóvis Rossi na Follha de S. Paulo descreve o sucesso do nosso procurador-geral em Davos. Tudo por causa da Lava-Jato. Diz Rossi que os líderes mundiais querem conversar com Janot, saber mais sobre a caçada aos corruptos e até tirar fotos com o nosso xerife.
E quem Rossi cita, logo no começa da matéria, como um dos líderes do mundo que foram paparicar Janot depois de uma palestra? O presidente do Paraguai, Horácio Cartes, que fez um selfie sorridente com Janot e disse que ama a Lava-Jato.
Só que o veterano Rossi sabe com quem está lidando. Cartes é um milionário investigado ou já processado (mas muitos processos sumiram no Paraguai) por contrabando de cigarro, tráfico de drogas, lavagem de dinheiro, evasão de divisas, fraudes financeiras e estelionato, entre outros crimes.
Cartes também é um dos mais reacionários líderes da direita latino-americana. Tão reacionário que já chegou a dizer que daria um tiro nos próprios testículos se tivesse um filho gay.
Só que a Justiça paraguaia (assim como faz a Justiça brasileira em relação a muitos corruptos) poupa o mafioso que virou presidente.
Rodrigo Janot está bem de admiradores em Davos. Até os mafiosos impunes do Paraguai dão vivas a nossa seletiva Lava-Jato.

A ameaça dos procuradores

Faz pensar a lição de falta de persistência que os procuradores da República deram ao país, e que foi divulgada com destaque no Jornal Nacional, ao dizerem que abandonarão a Lava-Jato se o pacote que encaminharam ao Congresso não for aprovado.

Procuradores da Lava-Jato e outros integrantes do Ministério Público terão cinco processos contra Lula para ajudar a Justiça a tocar adiante. Lula já é réu em três.

Mas não há nenhum processo contra tucanos. Por isso os procuradores da Lava-Jato devem corresponder às expectativas que criaram.

O país que paga seus salários deve ser contemplado com mais compromissos republicanos (e o primeiro seria o de pegar também os tucanos corruptos), e não com ameaças.

Os procuradores devem ficar até o fim. E ficar até o fim significa pegar todos os corruptos que roubaram na Petrobras, desde a época em que Pedro Barusco, o famoso ladrão avulso, era o operador da propina nos governos tucanos.

Esse deve ser o compromisso do MP. É estranho que um grupo de servidores convoque uma entrevista para dizer que se autodetermina. Vamos imaginar o que seria do país se funcionários subalternos do MP, da Justiça ou de qualquer outra área do setor público passassem a ameaçar e a deliberar sobre o que fazem e o que acham que não devem fazer.

O chefe dos procuradores, o senhor Rodrigo Janot, criador da força-tarefa, deve chamá-los e impor seu comando: vocês ficarão até o fim, não em nome da hierarquia, mas do interesse da instituição. Que o chefe dê a ordem. E pronto.