TARCISO

Todo mundo falou de Tarciso e eu também vou falar. Tarciso só não foi maior do que Alcindo.
Me lembro que quando ele chegou ao Olímpico (depois de dar uma surra no Grêmio pelo América) usava calções largos, até os joelhos, quando a moda eram calções apertadinhos. Como ralou o Tarciso.
E me lembro que há muito tempo eu saía do Mercado Público quando vi um baixinho vestindo uma placa-sanduíche com a propaganda de Tarciso para vereador de Porto Alegre.
Era Jurandir (aquele que anulou Falcão num Gre-Nal). Conversamos e ele me contou do que eu já sabia, que Tarciso fazia um trabalho bonito com crianças em escolinhas de futebol na zona sul. Gostei de ouvir aquilo.
Jurandir me disse: então vota nele, porque ele quer fazer mais. Eu votei. Eram tempos em que um cara como Tarciso não se elegia apenas por ser ídolo, mas porque seu trabalho depois do futebol era também um claro exercício de cidadania vinculado às populações mais pobres.
Votei em Tarciso pelo que havia sido e pelo que continuava sendo. Ele foi um dos últimos com nome vinculado ao futebol que não era apenas um ex-jogador que fazia política (e muito menos de direita, que é para onde quase todos eles caminham). Obrigado, craque e cidadão Tarciso.

A MANOBRA DE ABU DHABI

Esta final do Mundial em Abu Dhabi foi uma manobra diversionista bem armada pela direita para desviar o debate.
Ninguém mais fala do Tacla Duran, do Sergio Moro, do Gilmar Mendes, do jaburu-da-mala, do Quadrilhão impune, do crescimento de 0,001% do Meireles, da extinção da Previdência ou do julgamento do Lula dia 24 de janeiro.
Esqueceram os aumentos do gás e da gasolina. Só falam do Renato e de como o Grêmio poderia ter vencido o Real Madrid se tivesse no time um centroavante como Jonas. Lembram do Jonas? Pois é, tem gente que acha que faltou um Jonas no Grêmio.
Por isso não falo mais de futebol, apesar de também ter caído na armadilha dos que inventaram o jogo de ontem como algo excepcional. Foi apenas um jogo comum, sem grandes lances e com um resultado minguado.
O Mundial mesmo, com Lula de centroavante, acontece em 2018 no Brasil, e não na Rússia.

Racistas e machistas

Que categoria da Alice Bastos Neves, no Jornal do Almoço da RBS, ao defender, ao lado de um machista (o técnico do Inter, Guto Ferreira), a presença de mais mulheres na cobertura do futebol e de todos os esportes.

O cara ouviu o sermão de Alice calado, depois de admitir que errou com a repórter Kelly Costa, que ele tentou desqualificar, ao vivo na TV, por ser mulher.

O Inter teve, exatamente antes do machista, um treinador (Antonio Carlos Zago) flagrado como racista quando jogador, que depois também se retratou. O agressor, nesses casos, geralmente é um bom pedidor de desculpas.

É impossível reunir tanta gente num estúdio, mas seria bom ver Alice dizendo coisa parecida na cara da parte racista da torcida do Grêmio, que decidiu vaiar a vítima, o goleiro Aranha, no recente jogo com a Ponte Preta (Aranha havia sido chamado de macaco, em 2014, por uma torcedora no estádio).

Aranha havia sido chamado de macaco, em 2014, por uma torcedora no estádio. Os racistas não se conformam que Aranha tenha reclamado.
Mais Alices e diversidade no futebol. E menos intolerantes e grosseiros metidos a engraçadinhos.

 

Veja aqui o vídeo com Alice e o arrependido.

http://globoesporte.globo.com/rs/videos/v/depois-de-resposta-em-coletiva-guto-se-desculpa-com-reporter/6018107/

 

Cacalo

Meu dia, até agora, foi de telefonemas que me deixaram 10 anos mais novo, o que nem seria preciso. Luiz Carlos Silveira Martins está bem demais. Conversamos agora sobre a primavera.

Cacalo está fazendo fisioterapia para se recuperar totalmente do AVC que sofreu no dia 22 de julho.

Lembramos do caso do técnico Ricardo Gomes, que teve um acidente bem mais grave e está à beira do campo comandando o São Paulo, o que significa que Cacalo também estará de volta ao Sala de Redação, mas sem pressa.

Ele ainda tem alguma dificuldade de movimentos em uma perna, mas não teve nenhuma sequela na fala. É a melhor notícia.

Não tratamos do assunto, mas Cacalo está tão otimista com a recuperação que me pareceu ser capaz até de torcer para que o Inter não caia para a Segundona.

Meu único ídolo

alcindoEm janeiro de 2014, eu, o Luís Henrique Benfica e o Félix Zucco levamos Alcindo Martha de Freitas para que se despedisse do Olímpico. Diziam que iriam demolir o estádio alguns meses depois.
O Olímpico continua de pé, mas é torturado todos os dias pelos que lhe arrancam pedaços.
E Alcindo morreu hoje, aos 71 anos. O Bugre Xucro foi o maior goleador do Olímpico. Fez 129 gols em 186 jogos. No total, ali e em outros campos, em 11 anos de Grêmio, fez 231 gols em 377 partidas.
O Olímpico foi o templo do centroavante Alcindo. No dia em que o encontrei, naquele janeiro de 2014, para a primeira entrevista na casa do Campo Novo, eu disse: tu foste o único ídolo do futebol que eu tive.
Com 11 anos, eu passei a gostar de futebol e do Grêmio, a paixão da minha vizinha tricolor dona Senhorinha. Dona Senhorinha, eu contei a ele, me ensinou a ser gremista só por causa do Bugre. Ela gostava mais de Alcindo do que do Grêmio.
Educado, com sua voz baixa, ele me disse: obrigado.
Como se fosse preciso agradecer. E me contou que entendia o fim do Olímpico, com a construção da Arena, mas que não iria ver, nem pela TV, sua demolição. E, falando da saúde precária, como diabético, com meio rim, me assegurou que não temia morrer.
Foi-se meu único ídolo.

Este é o link da reportagem que fizemos em 2014.

http://zh.clicrbs.com.br/rs/esportes/gremio/noticia/2014/01/o-olimpico-e-seu-maior-goleador-a-ultima-visita-de-alcindo-ao-monumental-4399940.html