Param lá e aqui

Os franceses paralisaram Paris ontem e se preparam para a mobilização do século, marcada para terça-feira, dia 10. Vão parar toda a França contra as reformas de Macron.
Os brasileiros querem parar todo o Brasil no dia 21 de dezembro, quando o Flamengo enfrentará o Liverpool na final do Mundial de Clubes.
Será mais fácil, porque acontecerá num sábado.

Eles resistem

O governo chileno já matou 25 pessoas nos protestos de rua. Mais de 240, a maioria jovens, têm lesões irreversíveis num dos olhos e dois ficaram cegos.
Mesmo assim, o povo não sai das ruas. O chileno não deve entender como a liberação do FGTS e a inauguração das lojas do véio da Havan seguram o povo no Brasil.

Os outros

Protestar nas ruas do Irã é como caminhar para a morte. Eles protestam e morrem e protestam.
Protestam no Irã, no Peru, no Equador, em Hong Kong, no Líbano, na Itália. No Chile, onde a polícia atira nos olhos.
Na Bolívia, onde as milícias da extrema direita matam índios mais do que o Exército.
O mundo dos outros ainda vai além da indignação.

A IMPRENSA E O GOLPE

Dos grandes jornais brasileiros, apenas a Folha enviou um profissional à Bolívia. Mas o texto que a Folha publica como sendo de Sylvia Colombo na sua página online é frio e burocrático como se ela estivesse em Buenos Aires.
O que fica claro é que a jornalista não deve ter chegado a La Paz (ou chegou há pouco), e a Folha requenta informações dos jornais bolivianos.
O relato de Sylvia não tem detalhes do que se passa na Bolívia, onde a população explodiu em fúria, marchando de El Alto (na região metropolitana) para La Paz.
O que a Folha faz, com textos requentados, é uma saída clássica do jornalismo apressado.
A enviada não está onde acontece a explosão de fúria do povo em defesa de Morales, mas a Folha quer dizer que ela já está lá.
É ruim, porque a jornalista fica mal, por parecer incapaz de captar e narrar o cenário devastado do país golpeado pela extrema direita.

Três segundos

A Globo, que fala todos os dias de protestos de meia dúzia de golpistas contra Morales na Bolívia, finalmente falou no Jornal Nacional dos protestos de milhões no Chile.
Mas só porque a final da Libertadores foi transferida de Santiago para Lima.
Para ilustrar a notícia, apareceu uma imagem de manifestações nas ruas. Por três segundos. Três segundos.

AS FARSAS DO HOMEM MAIS RICO DO CHILE

Ele é chamado de ‘o croata’ pelos chilenos. Andrónico Luksic, o homem mais rico do país, é um dos personagens da crise política chilena.

Seu nome está quase todos os dias em todos os jornais, porque ele diz uma coisa e faz outra. Mas a novidade nesse episódio é que inverte os papeis clássicos de um bilionário direitista.

Luksic tem uma fortuna de US$ 14 bilhões em indústrias de todas as áreas, bancos, financeiras, fazendas, cervejarias, construção civil, um canal de TV, o canal 13, shoppings. Comanda os grupos Luksic e Quiñenco e emprega 30 mil pessoas no Chile e outras 30 mil em outros países.

Quando as manifestações de rua assustaram a direita, Luksic anunciou que nenhum funcionário dos seus grupos receberá menos de 500 mil pesos a partir de janeiro do ano que vem.

Era a sua parte nas respostas que o governo e o empresariado do Chile deveriam dar ao povo. O salário mínimo chileno havia passado de 300 para 350 pesos, por decisão do presidente Piñera, e ficaria valendo o equivalente a R$ 1.900. O piso de Luksic foi bem além, para algo em torno de R$ 2.700.

Outros empresários aderiram à ideia e anunciaram que também corrigiriam os salários.

Na sexta-feira, Luksic publicou nos jornais um texto com mais um lance espetacular: se o governo e o Congresso decidissem criar, ele apoiaria já um imposto de 1% sobre patrimônios, “que ajude a pagar a dívida com o país”. E acrescentou: “Se queremos soluções de verdade, não podemos continuar fazendo o mesmo”.

Mas, entre um gesto e outro, vazou um áudio em que Luksic faz afirmações em outra direção. É quando subverte a postura do demagogo. É aparentemente progressista no que faz e reaça no que diz.

No áudio, em tom de ameaça e de desabafo, ele defende a repressão e o toque de recolher, ataca a imprensa e chama os manifestantes de vândalos e comunistas de merda que estão incendiando o país. O Luksic que se diz sensibilizado com a revolta revela-se o mesmo de sempre, um sujeito ultraconservador.

O pai dele, o croata Andrónico Luksic Abaroa, fugiu para Londres e mais tarde para Buenos Aires, depois do golpe de Pinochet, em 1973, porque teria ligações com as forças que haviam garantido a eleição de Allende.

Quando a família retornou ao Chile, nos anos 90, o filho virou direitista e multiplicou a fortuna que o pai já havia construído.

A diferença entre Luksic e os empresários brasileiros é que aqui eles não precisam fazer média com ninguém. Aqui está tudo sob controle.

Os empresários brasileiros estão seguros de que nada de mais grave irá acontecer, apesar do crescimento do desemprego, da miséria e do fascismo.

Luksic deveria comprar uma camisa da seleção e expandir seu império em terras brasileiras. É só falar com o véio da Havan.

(O áudio vazado, em que o empresário chama os manifestantes de vândalos, mas não se sabe em que circunstâncias foi gravado, está no link abaixo).

https://soundcloud.com/user-981421096/audio-de-andronico-luksic?fbclid=IwAR0R4_Q2vbEWP3uhCgg2rYS6eaVvVvC469KqXtrDIL3FNuM_qh-MsGU8iGE

O desafio de Medel

Que inveja desses chilenos e seus jogadores engajados às causas do país. Mais uma manifestação, agora de Gary Medel, um dos atletas mais politizados do Chile.

https://www.lacuarta.com/sin-categoria/noticia/agenda-social-gary-medel-gobierno/424301/?fbclid=IwAR3CwIhP_pgRVXNVKj7AvvNls7-PhisQjCuO36I5EG3AjDXVzMW0QEyvjdQ

O grito de guerra

Muitos dos que foram às ruas de Santiago ontem não haviam nascido quando a música que cantavam na Plaza Italia foi lançada, na segunda metade dos anos 80, pelo grupo Los Prisioneros. El Baile de los que sobran (A dança dos que ficam) é o grito de guerra dos estudantes chilenos em revolta.

(Nos links abaixo, a música com a letra e uma reportagem do site português Sábado sobre a banda.)

https://www.letras.mus.br/los-prisioneros/23567/?fbclid=IwAR16B4cSNW9Kq5R6dTbTXZslgKC4mjmeIu-FvZUZtVKyRtwk2ANA1_P0GU4

https://www.sabado.pt/mundo/detalhe/los-prisioneros-a-banda-rock-que-inspira-os-protestos-no-chile?fbclid=IwAR2E6n9cyt9PhKpugDBfsww0h-OteSrqGOgzeZAo5fspJuvyP30WsGdSPjU

35 segundos para um milhão

Meia dúzia de manifestantes bloquearam uma esquina de La Paz, por suspeitarem dos resultados da eleição que assegura mais um mandato a Evo Morales.
A Globo mostrou a meia dúzia no Jornal Nacional e dedicou 41 segundos ao assunto.
Em Santiago, mais de um milhão saíram hoje às ruas contra o governo de direita de Piñera, na maior manifestação popular desde o final da ditadura.
O Jornal Nacional dedicou 35 segundos à gigantesca marcha dos chilenos.

A CORAGEM DE ESTEBAN PAREDES

Esteban Efraín Paredes Quintanilla. É o nome desse moço. Quem gosta de futebol o conhece. Paredes foi jogador da seleção chilena e atua hoje no Colo-Colo.

O atacante lidera os atletas do time no apoio declarado, público, explícito, às manifestações que ocorrem há uma semana no Chile.

Os jogadores do Colo-Colo estão politicamente engajados aos protestos. Além deles, também jogadores da Católica e da La U, os outros dois grandes clubes chilenos, fizeram apelos ao governo, para que Piñera ofereça respostas concretas aos apelos do povo nas ruas.

Mas foi o Colo-Colo, sob o comando de Paredes, que disse aos chilenos que estavam com eles. Esse é o compromisso: os jogadores não irão apenas expressar apoio, mas sairão às ruas com os manifestantes.

A militância dos jogadores do mais popular time do Chile é contada hoje pelo jornal La Cuarta, que publicou essa bela foto de Paredes.

É como se todo o time do Flamengo decidisse apoiar manifestações de rua no Brasil, para denunciar o empobrecimento da população, a perda de direitos e o crescimento do fascismo.

Na Argentina, o goleiro Nahuel Guzmán, El Patón, que também atuou na seleção do seu país, lidera uma lista de 600 jogadores que assinaram um manifesto de apoio à Frente de Todos, de Alberto Fernández e Cristina Kirchner, nas eleições de domingo.

É emocionante que figuras públicas, que poderiam se manter “neutras”, para agradar suas torcidas e a direita, assumam engajamento às lutas populares.

Mas é também constrangedor para os brasileiros que os jogadores daqui, quando se manifestam, só expressam apoio, com uma certa empáfia, ao reacionarismo e ao bolsonarismo.

As posições dos atletas de Argentina e Chile ajudam a entender a apatia geral que nos imobiliza e o acovardamento de figuras que poderiam fazer aqui o que outros atletas famosos fazem em seus países.