O metrô e a fome

A direita argentina ofereceu aos moradores de Buenos Aires uma experiência única.
O governo da província suspendeu uma linha do metrô, para impedir que as pessoas se mobilizassem em direção ao centro, para um protesto de denúncia da miséria e da fome.
Mas o protesto aconteceu, com repressão e tudo. A foto é do Página 12.

A TERRA DA KU KLUX KLAN ENRUSTIDA

Esse pessoal que atirou gelo e restos de filé nos artistas em Gramado estava ali, mas poderia estar em Sorocaba ou Itaqui.
Nem estavam fingindo um verniz no ambiente do Festival de Cinema. Estavam comendo, bebendo e sentindo um friozinho.
É a chinelagem de classe média da direita branca e fascista. É gente de toda parte. Gramado, no centro de uma região tomada por direitistas, atrai esse tipo de reaça.
O Rio Grande do Sul todo atrai essas figuras como Estado bolsonarista. As zonas turísticas potencializam essa atração.
E eles continuam jogando gelo e filé porque ainda não jogamos o filé de volta na cara deles. O Brasil trata bem o bolsonarismo, até com certa delicadeza.
Os turistas chinelões do bolsonarismo ostentação se sentem impunes porque na cabeça deles aqui fica a terra da Ku Klux Klan enrustida.
Não estão muito errados.

O QUE ELES TEMEM

Esses caras arrancaram a faixa de um prédio da Universidade Federal do Paraná porque odeiam a educação, certo? Mais ou menos.

O que eles odeiam mesmo é a universidade pública que ampliou os acessos à educação superior a pobres, negros, índios. O que eles gostariam mesmo de arrancar são cartazes como esse que publico aqui, dos institutos federais criados e ampliados por Lula e Dilma.

As universidades públicas, as mais antigas, como a UFRGS e a UFPR, ganharam o reforço de institutos por todo o Brasil, para democratizar ainda mais o ensino superior. Eu já estive em dois deles, a convite de professores e alunos, em Erechim e Livramento. A direita odeia os institutos.

Um cartaz como esse pode ser visto em muitos lugares públicos e em lotações de Porto Alegre. Esse cartaz que oferece vagas ameaça mais os bolsonaristas do que as faixas em defesa da educação pública das velhas universidades federais.

Dia desses li num cartaz, numa lotação, que oito campi ofereciam 1.400 vagas no Estado. E o chamado destaca: tudo gratuito. Os institutos têm cursos técnicos, cursos superiores regulares, pós-graduação, extensão, pesquisa.

O professor Eliézer Oliveira, que leciona filosofia no campus do IFSul em Livramento, lembra que ali alguns cursos – eletroeletrônica, sistema de energia renovável, informática para internet e agropecuária – são binacionais, para brasileiros e uruguaios. É demais para a direita.

A classe média dita tradicional não quer saber dos institutos, os IFs. São 42 IFs só no Rio Grande do Sul. A extrema direita que destruiu a faixa em Curitiba não odeia a educação. O que ela quer é que a educação superior seja apenas para seus filhos.

A direita acredita que, quanto mais universidade pública, quanto mais institutos federais, mais balbúrdia, mais gente pelada pelos corredores, mais filosofia e mais pobres com diplomas.

A guerra contra os cursos das chamadas humanas está nesse contexto. É preciso destruir pensamentos, ideias, reflexão, mas o que importa mesmo é destruir a universidade pública e o que ela representa. A direita ataca a universidade e mistura esperteza e crueldade com a manipulação das ignorâncias.

Os institutos criados por Lula e Dilma estão formando engenheiros, professores, designers, administradores, físicos, químicos e alguns se prepararam para formar médicos. Imagine. Médicos.

Os institutos, com mais de 1 milhão de alunos, amplificaram o pavor provocado pelas cotas entre a classe média e os ricos brancos. Mas essa classe média não ataca a educação de escolas privadas.

A guerra é contra a escola pública e inclui a tentativa de destruição também da Uergs, a universidade estadual gaúcha.

A classe média não suporta ver os cartazes dos institutos com essas caras boas. Os estudantes dessa universidade popular, principalmente os negros, atormentam muito mais os brancos bolsonaristas e racistas do que a velha universidade pública.

Mas esse é um caminho sem volta, e os brancos vão ter que aguentar.

SÓ PODE DAR ERRADO

Vamos ver o que vai acontecer hoje. Eu tenho essa previsão: um público apenas razoável na Avenida Paulista, que não poderá ser visto como fracasso, mas também não poderá ser comemorado.
No resto do país, algumas aglomerações. Em Porto Alegre, cerca de 46 pessoas ali naquela região da ponte de pedestres do Parcão, não mais do que isso, com camisetas da Seleção e bandeiras do Brasil e da monarquia.
Essas gritarias no Parcão servem apenas para incomodar as tartarugas e outros bichos, porque não agregam nada ao barulho que os paulistas fazem desde o golpe.
O certo é que os protestos de hoje (contra o que mesmo?) ficarão naquela zona de sombra em que os ‘analistas’ da GloboNews dirão assim: não foi o que os bolsonaristas esperavam, mas também não foi o que as esquerdas torciam que fosse.
O que isso muda para Bolsonaro? Nada, porque Bolsonaro não irá ganhar nunca. Se as aglomerações forem fortes, agrava-se o desconforto com parte da direita, e a oposição terá de preparar uma resposta ainda mais forte para o dia 30. Se forem fracas, a mesma coisa.
Ao programar as manifestações de hoje, o bolsonarismo mais desatinado armou a maior arapuca contra Bolsonaro.

Pobre metido a rico

Os reacionários de Bagé e arredores, que se organizaram para atacar a caravana de Lula, conseguiram produzir efeito contrário.
O pior, pelo que fiquei sabendo, é que teve muito pobretão do campo manipulado pelos arremedos de latifundiários decadentes, como se fizessem parte do mesmo grupo. O golpe contagiou um monte de pobre reaça.
Sou fronteiriço e sei que sempre teve pobre da zona de campo que se acha rico, mas nunca como agora. É assim em toda parte e em todas as atividades, inclusive entre jornalistas fofos que se consideram parte da elite.
Enquanto isso, a caravana de Lula segue em frente. Vou esperá-lo sexta-feira em São Leopoldo.

Cuspes e ovos

O Brasil ficou tão estranho que há um andaço de profundas reflexões de cientistas políticos sobre a conveniência ou não de jogar ovos em corruptos impunes como forma de protesto.
Li a entrevista de um cientista dizendo, em tom sério, que isso é inadequado e perigoso para a democracia…
Claro que não vou defender que se institucionalize o arremesso de ovos como política de combate aos pilantras que a Justiça não pega.
Mas vamos parar com as pregações moralistas sobre o belicismo dos ovos num país em que a população é ofendida todos os dias pela imoralidade de gente de todas instituições (agora, com mais essa das diárias de viagem cinco estrelas dos procuradores da Lava-Jato).
Já vi até gente comparando a guerra dos ovos à incitação de um radialista pilantra de Porto Alegre que pedia que cuspissem em Lula (e ainda desrespeitava os colegas e citava o código de ética da firma).
Por favor, não comparem os ovos com os cuspes dos golpistas. Vamos respeitar os ovos.

Perguntas

Conversei agora há pouco pelo whatsapp com dois jornalistas meus amigos sobre o tempo, a segunda florada das pitangueiras e as passeatas de ontem.
Eles me disseram que não entendem direito qual é a mensagem das passeatas. Contra a corrupção, mas contra só alguns corruptos?
E aí então, de brincadeira, eu perguntei aos dois, que são homens de Redação de jornal:
– Vocês estão com todos os equipamentos em dia para enfrentar o que pode estar vindo aí?
Como a linha do whatsapp aqui na Aberta dos Morros é muito ruim, perdi contato com os dois e fiquei sem resposta.

Passeata virou atividade de lazer

Sobre essas manifestações do domingo na Avenida Paulista e no Parcão, há uma conclusão possível, entre tantas outras. Hoje, a direita gosta mais de passeatas do que a esquerda. A direita está viciada em passeatas.
Porque a manifestação foi contra a corrupção do Renan Calheiros e de outros menos votados da direita, mas não contra os envolvidos no caso do cheque de R$ 1 milhão que a Andrade Gutierrez deu para o homem do Jaburu ou os R$ 23 milhões que a Odebrecht mandou para José Serra na Suíça.
Os organizadores avisaram que ninguém poderia vaiar o governo nas manifestações. Essa passeata não pega nem o Jucá, o Moreira Franco ou o Geddel. Muito menos o Aécio, o Padilha, o Mendoncinha.
Na verdade, foi uma festa. A direita, entediada com os mesmos programas de domingo, decidiu que de vez em quando faz uma passeata na Paulista e no Parcão.
Sai de chinelo de dedo de casa, desfila e volta pra ver se vai aparecer no Fantástico. A política vai ficando cada vez mais engraçada depois do golpe. Para a direita, passeata virou atividade de lazer. A direita sabe se divertir.

Peraí

ocupação

Esta foto de Alicia Esteves, do site Vaidapé, é para aqueles cursos em que alguém diz e prova que uma imagem vale por mil palavras.

É do momento da chegada da polícia a uma escola de São Paulo – uma das centenas ocupadas por estudantes em protesto contra o desmonte da educação e as crueldades da PEC 241.

A foto não mostra o rosto da estudante. Nem precisa. O que mais se vê nesta imagem, sem ser mostrado, é o rosto da menina diante do jovem policial com cara de assustado-constrangido.

Vale a pena dar uma olhada no site:

www.vaidape.com.br/

A reportagem sobre as ocupações das escolas está nesta chamada, no centro da página:

“Alckmin faz de tudo para evitar nova

onda de ocupações nas escolas”

 

Todos nós dependemos deles (de novo)

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A geração de adolescentes dos protestos do inverno de 2013 chega agora à idade adulta em um ambiente político que somente seus avós e seus pais experimentaram em algum momento da vida.

Esta geração pode se preparar para viver sob o poder da direita, desta vez em uma democracia fragilizada pelos sofisticados mecanismos de dominação das instituições, incluindo o Ministério Público e o Judiciário.

A direita da ditadura do século 20, que lastreou suas ações em bases jurídicas de exceção, deve olhar para a direita do século 21 e pensar: eles conseguiram o que nunca imaginávamos que fosse possível, apoderando-se das leis e de suas interpretações e promovendo atos que os transformam em justiceiros quase inquestionáveis.

A direita que ocupou as estruturas do MP e do Judiciário e atua só aparentemente à margem da política formal – mas é parte quase orgânica dessa política – conseguiu se legitimar como caçadora de corruptos (alguns corruptos) e se tornou intocável.

A missão de enfrentá-la, para que seja desmascarada, é menos dos que peitaram a ditadura até 1985 e muito mais da geração dos protestos de 2013 e dos que vieram depois.

É o momento, de novo, dos jovens combatentes pelo estado de direito. Eles precisam se reafirmar no Brasil, como ocorre a cada golpe, como o grande terror da direita.

Os estudantes estão diante de uma chance histórica de viver a juventude na plenitude. Não se trata mais de perseguir utopias, mas de brigar pela restauração de alguma ordem na desordem pós-golpe.

Assumindo a linha de frente, os jovens podem desfazer, pela democracia, o que os golpistas do Congresso e seus satélites nas instituições fizeram e continuam fazendo contra o Brasil.

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A foto é dos protestos de estudantes contra a ditadura em 1970 em Porto Alegre. Foi feita pelo Kadão Chaves e está no livro dele, A Força do Tempo (Libretos)