Abandonado

É compreensível que alguns jornalistas ainda teimem em defender o jaburu, sempre fazendo uma aposta que tem dado certo: resiste agora, nosso líder, porque a direita sempre consegue dar a volta e se segurar.

Esta é a tática do grampeado. Vai ficando, porque foi assim com o Padilha, o Moreira Franco e outros.

Se quiserem, diz ele à Folha, que tentem me derrubar. Ele sabe que as ruas tiveram um espasmo de reação, na quinta-feira, e depois o entusiasmo refluiu.

Mas enquanto o jaburu tem apoios fortes (o da Folha é vergonhoso), é quase comovente o abandono de Aécio. O mineiro foi largado na sarjeta por Globo, Folha, Estadão. E Aécio tem grandes serviços prestados à imprensa embarcada.

Este é um que teria muito a contar se caísse na masmorra de Curitiba. Mas a masmorra de Curitiba não é para foros privilegiados, não só no sentido previsto em lei.
A masmorra é para foros desprivilegiados.

Jantar inexplicado

Perdi meu tempo vendo Manhattan Connection ontem à noite, por acreditar numa informação falsa. Me avisaram que Diogo Mainardi iria finalmente explicar o tal jantar em que foi flagrado no restaurante Gero, no Rio, com Aécio Neves e o empresário Alexandre Accioly.

Accioly é apontado nas delações como o laranja do tucano para receber as propinas das empreiteiras.

Mainardi foi visto como participante de um jantar da confraria pelo delator e ex-vice-presidente da Odebrecht Henrique Valladares. O dedo-duro o flagrou alegremente no restaurante com os tucanos.

Fui ver o Manhattan porque gosto das explicações da direita. Mas Diogo Mainardi falou de Lula, de Dilma, do PT, do Vaccari, de Palocci e não falou nada do jantar com os amigos denunciados como propineiros.

Mas deu pra perceber que a cara, os olhos e as sobrancelhas arqueadas de Diogo Mainardi são de uma pessoa atormentada por algum jantar não explicado.

Mainardi parece um sujeito em mutação, prestes a se transformar em outra coisa, um homem-mosca, ou algo assim.

A dupla

Aécio escapou de novo. E mais uma vez com a ajuda de Gilmar Mendes.

O mais delatado dos tucanos deveria, finalmente, depor hoje à Polícia Federal no inquérito sobre as propinas de Furnas.

Aécio pediu e Gilmar Mendes suspendeu o depoimento porque antes o mineiro quer saber o que outros disseram no inquérito sobre as suas propinas.

Alguma surpresa? Alguma vergonha nova?

Teremos um dia um tucano delator?

O juiz Sergio Moro pode estar perto da chance de prender tucanos e, quem sabe, ouvir as primeiras delações desse pessoal que é muito delatado, mas nada delata, porque nunca pega cadeia.

Aécio Neves e José Serra poderiam ser hóspedes de Moro em Curitiba, informa a Mônica Bergamo na Folha de hoje. É só o Supremo decidir, como pretende o ministro Luís Roberto Barroso, reduzir o alcance do foro privilegiado de deputados, senadores e ministros.

Barroso entende que o foro deve ser apenas para crimes cometidos durante e em razão do exercício do cargo. Quem cometeu crime antes de assumir como senador, por exemplo, que é o caso de Serra e Aécio, seria julgado pela primeira instância.

Os dois foram denunciados na lista Janot-Fachin pelo recebimento de propina, que o PSDB chama apenas de caixa 2.

Os outros ministros do Supremo ainda devem se manifestar sobre a tese de Barroso. Se a ideia prosperar, Aécio e Serra (hoje com o foro do Supremo) cairiam nas mãos de Moro.

Já dá para imaginar Serra e Aécio delatando os parceiros, se é que um dia eles serão presos. Moro costuma justificar prisões preventivas sempre com o argumento da preservação das provas. Tem gente presa há mais de ano, até que uma hora sai delatando.

Como os atuais delatores se repetem, sempre apontando na direção de Lula, Dilma e outros do PT, seria bom diversificar um pouco.

Eu imagino um tucano dizendo o que sabe sobre as falcatruas que cometeram e cometem (metrô, merenda, Furnas etc), sem que nunca sejam punidos.

Seria coisa de circo. Mas sei que às vezes fico imaginando situações sem fundamento.

Quem jantaria com Aécio hoje?

Tem todo jeito de bobagem esta história de que o Diogo Mainardi participou de um jantar em que Aécio e o empresário Alexandre Accioly negociaram propinas da Odebrecht.

Vi o vídeo com o depoimento de Henrique Valladares, ex-vice-presidente da empreiteira. Ele diz que chegou ao restaurante Gero, no Rio, acompanhado da mulher, e viu uma mesa com Aécio, Mainardi e Accioly (mas não diz quando foi).

Accioly é apontado pela Odebrecht como o laranja de Aécio, o sujeito que recebia as propinas em contas diversas no exterior. Valladares viu os três juntos e concluiu: estavam tratando das mutretas.

Mainardi talvez estivesse apenas tratando com Aécio do futuro do Brasil. Mainardi janta, é claro, com a sua turma, apesar de ter desmentido o encontro (diz que apenas cumprimentou Aécio ao acaso no restaurante).

Mas duvido que hoje, mesmo na Semana Santa, alguém queira jantar com Aécio, depois das delações que o deixaram sem fome.

Mainardi não jantaria de novo com o amigo mineirinho nem em Veneza. Acho que nem o Leandro Karnal toparia jantar com o Aécio hoje.

Por que Aécio poupa a Veja?

Aécio Neves foi à tribuna do Senado hoje para se defender da acusação de um delator de Odebrecht de que recebia propinas em uma conta em Nova York.

Atacou o delator e atacou até Dilma Rousseff, dizendo que ela explora sua dor pessoal (imagine um acusador juramentado da estirpe de Aécio se queixando de dores pessoais).

Mas não atacou a revista Veja, que o colocou na capa como propineiro. Se a denúncia é uma mentira, se Veja inventou a história, como ele já disse, por que não anuncia que vai processar a revista?

Por que Aécio não encara Veja? O que mais Veja sabe de Aécio, com quem trocava afagos públicos até o tucano cair em desgraça?

O veneno da direita pega a família de Aécio

Poucos políticos comemoram tanto a caçada a Lula e aos parentes de Lula quanto Aécio Neves. No dia 4 de março, quando Lula foi surpreendido em casa pela Polícia Federal, no famoso episódio da condução coercitiva, também Fábio Luiz da Silva, filho de Lula, foi alvo das batidas da PF.

A partir dali fechou-se o cerco à família de Lula. Aécio comemorou pelo twitter: “Os graves indícios de irregularidades e crimes cometidos à sombra do projeto de poder do PT finalmente estão vindo à luz”. E disse que o caso da família Lula não era da política, “mas de polícia”.

Não houve, por parte de Aécio e de nenhum tucano, nenhuma restrição ao cerco aos filhos de Lula e à mulher dele, Marisa Letícia, depois tornada ré pelo juiz Sergio Moro. O que houve foi uma permanente comemoração.

Depois, alguns tucanos foram chorar no velório de Marisa Letícia. Mas a maioria só está chorando agora, quando a irmã de Aécio aparece de novo como receptora das propinas do neto de Tancredo Neves.

Andréa Neves experimenta o que os parentes de Lula enfrentam (inclusive um irmão), desde o momento em que a direita decidiu, com a ajuda de parte do Ministério Público e do Judiciário, que pegar o ex-presidente não bastava. Era preciso destruí-lo com a destruição também de seus familiares.

Aécio acha que delatores, a revista Veja (sua antiga aliada) e as instituições estão desrespeitando sua família.

Aécio não está sendo comido pela Justiça, que sempre poupou os tucanos em todos os escândalos em que se envolveram. Está sendo devorado pelos próprios parceiros, com a mesma tática usada contra Lula.