A JUSTIÇA ACOVARDADA

A ministra Rosa Weber, presidente do Tribunal Superior Eleitoral, havia marcado uma entrevista para esta tarde para falar sobre a produção de mentiras por empresários que usam o WhatsApp e seus milhões para difamar o PT, Haddad e Manuela.
Pois a entrevista foi adiada, talvez porque ela não tenha o que dizer. Será dada no domingo.
Uma entrevista sobre providências contra um fato grave, que deve ser encarado com urgência, é adiada para um domingo, a uma semana da eleição. Um domingo… Por que um domingo?
É preciso enfatizar mais uma vez que esse caso, denunciado pela Folha de S. Paulo, é mais do que caixa 2. É a disseminação em massa de fake news e calúnias por empresários criminosos.
Quem continuar com essa conversinha de caixa 2 apenas contribui para que o fascismo seja anistiado. Caixa 2 é conversa fiada, mesmo que possa ser a melhor forma de enquadrar a direita por crime eleitoral, até porque o TSE não moverá um dedo contra caixa 2. O eleitor não quer saber de moralismos de caixa 2.
Temos que dizer o nome do escândalo: formação de grupos mafiosos para burlar a eleição e espalhar mentiras às custas de milhões e milhões de reais.
É disso que a Justiça deve tratar, e não só a Justiça eleitoral. O caso a ser investigado é de formação de quadrilhas de empresários para agir contra a democracia. O resto é o resto.

O FILÓSOFO E A MINISTRA QUE VOTA CONTRA ELA MESMA

O filósofo Roberto Romano, professor da Unicamp (que eu tive a honra de entrevistar várias vezes), é o autor da mais sintética, mais clara e mais precisa definição da contradição da ministra Rosa Weber, que se declarou contra a prisão depois de condenação em segunda instância, mas mesmo assim seguiu a minoria que dela discordava:
“Como ela pode ser contra a prisão em segunda instância e vota a favor da prisão em um caso concreto? Imagine a seguinte situação: ela é juíza na Alemanha nazista e acredita que a cassação dos direitos civis dos judeus seja errado. Ela votaria a favor só para ir com a maioria que nem ela fez?”
Pronto. Romano acabou com a conversa de mais de uma hora da ministra que vota com uma minoria discordante e que assim derrota, com seu voto, a possibilidade de a sua tese ser maioria.
Romano não deixa dúvidas. Os judeus, nas mãos da juíza que segue a tese da minoria (e contra suas convicções), na hora de decidir concretamente, estariam todos condenados.
(O bom do raciocínio de Romano é que temos um filósofo apontando a farsa da ‘hermenêutica’ dos juristas de Escolinha do Professor Raimundo do Supremo de Romero Jucá.)

O ‘coletivo’ que interessa à direita

Posições coletivas (ou tecnicamente decisões colegiadas) do Supremo devem se sobrepor sempre às posições individuais, mesmo que controversas e consideradas provisórias.
É a tese da ministra Rosa Weber, que atenta contra um princípio básico do egoísmo neoliberal em favor do individualismo.
Mas hoje, neste momento, os princípios jurídicos e coletivos da ministra são aplaudidos pela direita neoliberal.
A torcida da direita passou a aclamar o ‘coletivo’, porque é o que a favorece hoje, e o golpe deve seguir em frente.
Quando eles pensarão o contrário da situação de hoje, ou seja, como sempre pensaram? Quando o pedido de habeas for apresentado não por um petista, mas por um fascista.

O ESTAGIÁRIO

Sergio Moro é o estagiário que prospera, fica mais importante e poderoso do que os antigos chefes e passa a mandar recados a quem o ajudou a ser alguma coisa na vida.
Ontem, no Roda Viva, seu grande lance foi a bajulação da ministra Rosa Weber e seu recadinho ao vivo.
Quando começaram a falar de presunção de inocência e de prisão depois de condenação em segunda instância (para que Lula entrasse na conversa), logo Moro buscou Rosa Weber para se apoiar.
Disse que trabalhou com a ministra no Supremo e que confia na sua “seriedade e qualidade técnica”. Revisar o que o Supremo decidiu em 2016 (que um condenado pode ser preso depois de sentença reafirmada em segunda instância) seria, segundo o juiz, “dar um passo atrás”.
Rosa Weber, a chefe de Moro quando do mensalão, é decisiva para a decisão do dia 4 de abril do habeas em favor de Lula, se é que o Supremo vai decidir mesmo alguma coisa. No dia 4 ficaremos sabendo se o ex-estagiário vai vencer mais uma.