A ministra usada pela Lava-Jato

A ministra Rosa Weber foi manipulada por Deltan Dallagnol e sua turma, com a ajuda de Sergio Moro, às vésperas da condução coercitiva de Lula em 2016.
É a manchete da Folha, que detalha como o grupo escondia informações da ministra.
Eles queriam, e conseguiram, apoio de Rosa Weber para ferrar Lula.
Mas, antes mesmo da divulgação das mensagens pelo Intercept e pela Folha, expondo a armação para enganar a ministra, Rosa Weber já usou a Constituição para ferrar a Lava-Jato no caso da prisão em segunda instância.
Celso de Mello vai completar o serviço com seu voto sobre a suspeição de Sergio Moro.

O DELEGADO E A MINISTRA

Não está fácil nem para delegado da Polícia Federal. Essa nota saiu na coluna Painel da Folha:
“O delegado que coordena as investigações sobre candidaturas laranjas do PSL em Minas informou à PF que deseja deixar todas as apurações derivadas da denúncia inicial, inclusive a que trata da suspeita de caixa dois na campanha do hoje ministro Marcelo Álvaro Antônio (Turismo).
O policial teria solicitado transferência para a área administrativa da PF. Durante as investigações, ele chegou a ser gravado de forma oculta por advogados. Os áudios depois foram usados num vídeo que circulou nas redes acusando-o de ser comunista”.
Os mais assustados com o fascismo poderiam falar com a ministra Rosa Weber, que ontem decidiu enfrentar as ameaças dos lavajatistas, dos fascistas, dos milicianos, dos golpistas e dos atiçadores de caminhoneiros.
Rosa Weber livrou-se do fardo do lavajatismo. É um exemplo de bravura a inspirar outras autoridades.

OS SUSPIROS DE ROSA WEBER

Uma confissão muito pessoal, mesmo que submetida a possíveis vaias. Confesso que me emocionei com o voto de Rosa Weber. O voto que a ministra lia, tropeçando em sílabas e citações, induzia a várias saídas, mesmo que parecesse indicar o que acabou acontecendo.
Perto do final, o texto em defesa da presunção de inocência e contra a prisão em segunda instância tomou um rumo iluminado por muitas clareiras e clarezas.
O que me emocionou foi que, quanto mais se aproximava do desfecho, mais Rosa Weber espichava os suspiros e mais parecia se livrar de um peso.
Livrava-se dos fardos da Lava-Jato, da sombra disforme do ex-assessor Sergio Moro, da tutela dos lavajatistas do Ministério Público de Curitiba, da imposição dos juízes de segunda instância, das ameaças do cabo no jipe, dos caminhoneiros, dos Bolsonaros, dos militares e das milícias.
Rosa Weber encaminhava-se para o final e, enquanto ia clareando seu voto, mais suspirava e mais se libertava-se do que a oprimiu todo esse tempo.
Os ministros que não temem ameaças estão se livrando dos que atiçam fascistas contra o Supremo e dos que ainda debatem (como diz o jurista Amilton Bueno de Carvalho) se trânsito em julgado quer mesmo dizer trânsito em julgado.
Rosa Weber defendeu a Constituição e o Supremo até porque é o que seu trabalho determina. Há pelo menos meia década o STF é espectador das ações da Lava-Jato, e mais ainda depois da morte de Teori Zavascki.
Finalmente, perdem força o juiz que virou ministro do bolsonarismo, o procurador que pretendia ficar rico e todos os que os bajularam até aqui, incluindo alguns dos mais cretinos dessa história toda, que são os jornalistas fofos e isentões.
Ah, dirão, mas metade do STF continua encolhido e submetido às vontades da Lava-Jato e dos golpistas de agosto de 2016. Pense que a outra metade está reagindo e que Sergio Moro não irá dormir essa noite.

O VOTO DE ROSA WEBER

Rosa Weber fez volteios, manteve o Brasil em suspense, engoliu sílabas e palavras, citou Dom Quixote, suspirou fundo, mas finalmente surpreendeu. O Supremo é o guardião da Constituição.
E isso é o que está escrito na Constituição: Ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado da sentença penal condenatória.
Deu seu voto pela presunção de inocência e pela obediência ao que está escrito e que deve ser respeitado. Foi-se para o brejo a prisão arbitrária e lavajatista da segunda instância.
Rosa Weber ajuda a finalmente livrar o Supremo da submissão à Lava-Jato. O lavajatismo, Sergio Moro, o soldado, o cabo, o jipe, os Bolsonaros, as milícias e os caminhoneiros atiçados pelos fascistas foram derrotados.
Agora, é só esperar os votos dos outros ministros e aguardar (mesmo que restem muitas controvérsias) a libertação de Lula.

Andando em círculos

Rosa Weber começa a leitura do seu voto. Parece que vai condenar a prisão a partir da segunda instância.
Já repetiu dezenas de vezes uma frase e suas muitas versões, citando autores, circunstâncias, propostas de emendas constitucionais, sempre nessa linha: considera-se inocente todo o cidadão até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória.
Até chegar ao texto final da Constituição: Ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado da sentença penal condenatória.
Até agora, parece caminhar na mesma linha do ministro Marco Aurélio. Parece. Mas nunca se sabe. Pode ser apenas o novo drible de Rosa Weber.

A hora da verdade

Hoje é o dia de Rosa Weber, a Garrincha do Supremo, a ministra que ameaça ir para um lado, faz uma volta, atalha pelo meio e retorna por um caminho que todos sabiam qual seria mas fingiam que era o imprevisto e o improvável.
Hoje, Rosa Weber não terá como driblar suas próprias indecisões. Esgotaram-se os dribles da atormentada Rosa Weber.
Que finalmente enfrente seus dilemas e conflitos sem volteios e esqueça que um dia Sergio Moro foi seu subalterno.

A JUSTIÇA ACOVARDADA

A ministra Rosa Weber, presidente do Tribunal Superior Eleitoral, havia marcado uma entrevista para esta tarde para falar sobre a produção de mentiras por empresários que usam o WhatsApp e seus milhões para difamar o PT, Haddad e Manuela.
Pois a entrevista foi adiada, talvez porque ela não tenha o que dizer. Será dada no domingo.
Uma entrevista sobre providências contra um fato grave, que deve ser encarado com urgência, é adiada para um domingo, a uma semana da eleição. Um domingo… Por que um domingo?
É preciso enfatizar mais uma vez que esse caso, denunciado pela Folha de S. Paulo, é mais do que caixa 2. É a disseminação em massa de fake news e calúnias por empresários criminosos.
Quem continuar com essa conversinha de caixa 2 apenas contribui para que o fascismo seja anistiado. Caixa 2 é conversa fiada, mesmo que possa ser a melhor forma de enquadrar a direita por crime eleitoral, até porque o TSE não moverá um dedo contra caixa 2. O eleitor não quer saber de moralismos de caixa 2.
Temos que dizer o nome do escândalo: formação de grupos mafiosos para burlar a eleição e espalhar mentiras às custas de milhões e milhões de reais.
É disso que a Justiça deve tratar, e não só a Justiça eleitoral. O caso a ser investigado é de formação de quadrilhas de empresários para agir contra a democracia. O resto é o resto.

O FILÓSOFO E A MINISTRA QUE VOTA CONTRA ELA MESMA

O filósofo Roberto Romano, professor da Unicamp (que eu tive a honra de entrevistar várias vezes), é o autor da mais sintética, mais clara e mais precisa definição da contradição da ministra Rosa Weber, que se declarou contra a prisão depois de condenação em segunda instância, mas mesmo assim seguiu a minoria que dela discordava:
“Como ela pode ser contra a prisão em segunda instância e vota a favor da prisão em um caso concreto? Imagine a seguinte situação: ela é juíza na Alemanha nazista e acredita que a cassação dos direitos civis dos judeus seja errado. Ela votaria a favor só para ir com a maioria que nem ela fez?”
Pronto. Romano acabou com a conversa de mais de uma hora da ministra que vota com uma minoria discordante e que assim derrota, com seu voto, a possibilidade de a sua tese ser maioria.
Romano não deixa dúvidas. Os judeus, nas mãos da juíza que segue a tese da minoria (e contra suas convicções), na hora de decidir concretamente, estariam todos condenados.
(O bom do raciocínio de Romano é que temos um filósofo apontando a farsa da ‘hermenêutica’ dos juristas de Escolinha do Professor Raimundo do Supremo de Romero Jucá.)

O ‘coletivo’ que interessa à direita

Posições coletivas (ou tecnicamente decisões colegiadas) do Supremo devem se sobrepor sempre às posições individuais, mesmo que controversas e consideradas provisórias.
É a tese da ministra Rosa Weber, que atenta contra um princípio básico do egoísmo neoliberal em favor do individualismo.
Mas hoje, neste momento, os princípios jurídicos e coletivos da ministra são aplaudidos pela direita neoliberal.
A torcida da direita passou a aclamar o ‘coletivo’, porque é o que a favorece hoje, e o golpe deve seguir em frente.
Quando eles pensarão o contrário da situação de hoje, ou seja, como sempre pensaram? Quando o pedido de habeas for apresentado não por um petista, mas por um fascista.

O ESTAGIÁRIO

Sergio Moro é o estagiário que prospera, fica mais importante e poderoso do que os antigos chefes e passa a mandar recados a quem o ajudou a ser alguma coisa na vida.
Ontem, no Roda Viva, seu grande lance foi a bajulação da ministra Rosa Weber e seu recadinho ao vivo.
Quando começaram a falar de presunção de inocência e de prisão depois de condenação em segunda instância (para que Lula entrasse na conversa), logo Moro buscou Rosa Weber para se apoiar.
Disse que trabalhou com a ministra no Supremo e que confia na sua “seriedade e qualidade técnica”. Revisar o que o Supremo decidiu em 2016 (que um condenado pode ser preso depois de sentença reafirmada em segunda instância) seria, segundo o juiz, “dar um passo atrás”.
Rosa Weber, a chefe de Moro quando do mensalão, é decisiva para a decisão do dia 4 de abril do habeas em favor de Lula, se é que o Supremo vai decidir mesmo alguma coisa. No dia 4 ficaremos sabendo se o ex-estagiário vai vencer mais uma.