BOM SENSO?

Leio alguns jornalistas pedindo sensatez aos vereadores de Porto Alegre no exame da abertura de processo de impeachment contra o gestor da cidade.
Dizem os jornalistas que uma cassação de mandato é coisa muita séria, que não pode ser levada adiante por motivações políticas.
Procurem em algum lugar um texto, um só, desses mesmos jornalistas com as mesmas posições categóricas quando do processo contra Dilma em 2016.
Vocês lerão artigos com posições circulares e volteios, mas nunca a defesa exaltada do que eles chamam agora de bom senso. O que mais eles escreveram é que o Congresso tinha a prerrogativa de decidir o que bem entendia como correto, porque uma cassação de mandato é também um ato político.
Outro argumento foi o de que Dilma seria derrubada não só pelas tais pedaladas, mas pelo ‘conjunto da obra’ e que isso fazia sentido. Mesmo que não dissessem que ‘obra’ seria essa, ficava claro que a motivação era política.
Nenhum dos que agora pedem sensatez viam golpe no ato contra Dilma. Mas veem motivações ideológicas e partidárias no processo que pode ser aberto contra o gestor.
Falta bom senso a esses jornalistas. Um jornalista não pode subestimar seus leitores ao tentar defender o mais atrapalhado gestor que Porto Alegre já teve.

Crateras

O calçadão da Rua da Praia está caindo aos pedaços, como se tentasse imitar as ruas de Porto Alegre. Não são buracos, são crateras por toda a extensão, da Borges até a Rua da Ladeira.
Só que a culpa pelo relaxamento é dos donos, e que donos, dos ricos edifícios. Ou alguém vai dizer que eu tenho que pagar a reforma da calçada dos donos dos prédios gigantescos da Andradas, só porque é um calçadão?
Porto Alegre foi tão abandonada que os gestores de prédios de uma área nobre não cuidam mais nem das próprias calçadas, como se aquele não fosse um problema deles.
As calçadas esburacadas também são uma expressão da nossa elite desleixada.
E a prefeitura faz o quê? A prefeitura só quer vender o DMAE, o Mercado Público, a Carris, o estaleiro, o cais e o pôr do sol.

O FIM DO MILAGRE DO HOMEM QUE ANDAVA

Ainda sobre a tragédia que Porto Alegre enfrenta com a gestão que briga com todo mundo e não consegue articular nem mesmo seus próprios projetos com a ‘base aliada’.
Vejam alguns números que talvez expliquem os descaminhos e o rebaixamento da política municipal e estadual.
Em 2008, quando concorreu a prefeito contra Fogaça, Onyx, Maria do Rosário, Luciana Genro, Manuela, Vera Guasso e Carlos Gomes, o atual gestor de Porto Alegre obteve 22.365 votos, de um total de 790 mil votos válidos.
Só ganhou de Vera Guasso e Carlos Gomes. O atual gestor teve 2,83% dos votos. Somados, dois vereadores, Maurício Dziedricki e Pedro Ruas, fizeram 6 mil votos a mais do que ele.
Aquela eleição foi vencida por Fogaça no segundo turno contra Maria do Rosário.
Como foi que em 2016, oito anos depois, o mesmo candidato, apresentando-se como o novo, o antipolítico, como gestor saído ninguém sabe de onde, elegeu-se como o homem que andava sem parar?
Que milagre foi esse? O golpe desnorteou o povo? Como foi que o eleitor (um terço pelo menos) acreditou que ele era o novo, se é deputado desde 2006?
Deve ser porque o cara fará 47 anos em novembro e até hoje parte da própria esquerda o chama de guri. Deve ser.

AJUDEM A SALVAR PORTO ALEGRE

Porto Alegre teve 12 administrações, de Guilherme Socias Vilella pra cá, incluindo o atual gestor.

Foram prefeitos: Vilella, João Dib, Alceu Collares, Olívio Dutra, Tarso Genro, Raul Pont, Tarso Genro de novo (com um segundo mandato interrompido para concorrer ao governo do Estado), João Verle, José Fogaça (por duas vezes, também com mandato interrompido para concorrer ao governo) e José Fortunati.

Faço a lista a partir de Vilella, prefeito de 1975 a 1983, porque os anteriores a ele já faleceram. Também faleceu o ex-prefeito João Verle, que sucedeu Tarso como seu vice.

Temos então oito ex-prefeitos vivos. São oito cabeças privilegiadas, que geriram a cidade com dedicação, em meio às controvérsias naturais da função pública.

Pode-se discordar de alguma coisa de um ou de outro, mas nunca se ouviu dizer que tenham deixado a cidade passar pelo que está passando.

Nunca, pelo que sei, nenhum deles enfrentou adversários políticos como se fossem inimigos desprezíveis. Nem mesmo os interventores.

Ao contrário, Socias Vilella e João Dib são reconhecidos como pessoas gentis. São flexíveis e bons negociadores.

Chego até aqui para sugerir o seguinte. Que os oito ex-prefeitos sejam convocados para um conselho de sábios, como muitos governos já fizeram, no Brasil e no Exterior, em tempos difíceis.

Que os oito ex-prefeitos sejam convocados, e não convidados, a participar de um mutirão de inteligências e de afetos para salvar Porto Alegre. Todos eles sabem que estamos sob emergência.

Porto Alegre é uma cidade condenada, como se as suas ruas fossem a versão gaúcha dos piores momentos de Bagdá. Há indícios claros de que a cidade caminha para a total degradação e a posterior transformação num espaço de negócios, e não de convivências.

Já venderam o estaleiro e o cais e irão vender a água, o esgoto, o Mercado Público, o viaduto da Borges, a Carris e quem sabe até o pôr do sol.

Por isso é preciso salvar Porto Alegre. A cidade não pertence a quem foi eleito. Quem chegou ao cargo de prefeito para administrá-la não tem, como alguns pretendem, total autonomia para tratá-la com tanto desprezo.

Porto Alegre é a capital de todos, e não de uma facção política. Salvar a cidade é tarefa também de ex-prefeitos. Alguns já se manifestaram a respeito do abandono a que está sendo condenada.

Outros, por serem reservados e por respeito ao eleito, não se manifestam. Deveriam se manifestar. A atividade pública é feita de discordâncias e de confrontos, mas muito mais de entendimentos e convergências.

O embate desta semana com a Câmara, com o uso da repressão policial (e a derrota do gestor no pacote de maldades contra o funcionalismo), mostra que a cidade está ingovernável.

Que um ex-prefeito chame outro e mais outro, até que se forme o grupo. Se possível com os oito ex-administradores.

Salvem Porto Alegre antes que seja esquartejada e que grupos de amigos se apropriem das suas sobras como bem privado.

A INVASÃO DA REDENÇÃO

Uma informação aos que se espantaram com a notícia de que parte da Redenção será privatizada para a construção de um centro comercial. Nos anos 70 da ditadura, a prefeitura dos interventores lançou a ideia de privatizar a Redenção para projetos de prédios residenciais.
As construtoras iriam fazer a festa. Houve reação e a ideia não prosperou. Mas outros projetos recentes, de tempos de democracia, continuam indo adiante, o que significa que, se quiser, a prefeitura faz o que bem entende para fortalecer a ideia de que Porto Alegre é um negócio, e não uma cidade.
Não duvidem da privatização da Redenção, por brechas legais hoje consideradas inviáveis. Nada é inviável para a direita no poder na Capital e no Estado.
Não duvidem nem mesmo da transformação do Jardim Botânico, por concessão do Estado, num imenso condomínio de luxo.
O único bem público que poderá restar em Porto Alegre será a estrutura de carregadores de celular nas paradas de ônibus.

AGORA, UM TRIBUNAL SEM PRESSA

Perguntei aqui, há alguns dias, o que todo mundo perguntava: o Tribunal Regional Federal da 4ª Região estaria mantendo o mesmo ritmo do julgamento recorde de Lula, depois da reafirmação da condenação do ex-presidente por Sergio Moro?
Pois se confirma agora, por reportagem da Folha, o que todos suspeitavam, inclusive os que torceram pela condenação. Quatro meses depois de sentenciarem Lula a 12 anos e um mês de prisão, os desembargadores julgaram apenas um recurso de outros processos.
Apenas um. UM recurso. Em quatro meses. O Tribunal não conseguiu manter a pressa com que julgou Lula. Uma pena. Por quê? Não vou dizer o que todos sabem.

Esta é a reportagem:

Após ação de Lula, TRF-4 reduz ritmo de julgamento de processos da Lava Jato

José Marques

SÃO PAULO

O ritmo das ações da Lava Jato no TRF-4 (Tribunal Regional Federal da 4ª Região) não é mais o mesmo que precedeu o julgamento do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em janeiro.

A oitava turma do tribunal, que chegou a julgar quatro processos da operação em novembro, só concluiu decisão sobre um caso desde que aumentou a pena de Lula para 12 anos e um mês de prisão.

Em parte, isso se deve a três pedidos de vista do juiz federal Victor Luiz dos Santos Laus em casos que chegaram a ser pautados e colocados em votação em sessões.

Os outros dois membros da turma, o relator da Lava Jato João Pedro Gebran Neto e o revisor Leandro Paulsen deram os seus votos, mas Laus pediu mais tempo para analisar melhor os casos.

Não há data para que os processos sejam devolvidos.

Desde que saiu da primeira instância, o processo contra Lula tramitou com uma velocidade acima da média no TRF-4, o que provocou reclamações da defesa e de apoiadores.

Depois dele, foi concluído apenas o julgamento de recurso do ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares, acusado pelo Ministério Público de lavagem de R$ 6 milhões.

A defesa nega que ele tenha cometido irregularidades. Delúbio teve a pena aumentada de cinco para seis anos de prisão. Outros réus no processo também foram julgados.

O primeiro pedido de vista aconteceu no mesmo dia, 27 de março, no processo que envolve o pecuarista José Carlos Bumlai, amigo de Lula.

Na ocasião, Laus afirmou que não estava convencido das acusações contra Bumlai.

No último dia 9, o magistrado pediu vista de mais dois processos após a votação dos colegas: o de Cláudia Cruz, mulher do ex-deputado Eduardo Cunha, e o do ex-deputado André Vargas.

Procurado, o TRF-4 informa que o pedido de vista “é ato personalíssimo do desembargador que quer analisar melhor o processo e não precisa justificar o pedido”.

O regimento do tribunal diz que em qualquer fase do julgamento o magistrado pode pedir vista dos autos, suspendendo o julgamento.

O tribunal ainda reafirma que os três julgamentos em que houve pedido de vista já foram iniciados.

Para a sessão do próximo dia 30, estão previstos o julgamento de outros dois casos que chegaram ao TRF-4 no ano passado. Um deles é o recurso do ex-ministro José Dirceu à sua segunda condenação pelo juiz Sergio Moro, de 11 anos e três meses por corrupção e lavagem de dinheiro, em março do ano passado.

Também entrou em pauta o julgamento do recurso do ex-governador do Rio Sérgio Cabral, condenado por corrupção e lavagem de dinheiro.

A oitava turma começou a apertar o passo e julgar a maioria dos processos da Lava Jato no ano passado. De maio a junho, foram quatro julgamentos concluídos.

Depois, de agosto a novembro, outras 11 ações foram decididas pela turma de Porto Alegre, que revisa as decisões que Moro toma na primeira instância. Houve uma pausa para o recesso do judiciário até o julgamento do ex-presidente Lula, em 24 de janeiro.

Em fevereiro e abril deste ano —e, em maio, até a próxima sessão, marcada para a quarta (23)— não houve decisões conclusivas sobre o mérito dos processos da operação.

Além das apelações, o TRF-4 também decide sobre outros recursos da Lava Jato, como embargos de declaração e pedidos de desbloqueio de bens.

 

SALVEM PORTO ALEGRE

Circulei por ruas da zona norte de Porto Alegre, por onde raramente ando, pois sou morador do sul profundo.
A cidade precisa de uma junta médica. Que se reúnam ex-prefeitos de todos os partidos, incluindo interventores do tempo da ditadura e que amavam a cidade, lideranças de todas as áreas e entendidos em respiração boca a boca.
Porto Alegre ainda pode ser salva. Mas precisa ser devolvida às pessoas, e não aos empresários.
Só o que não pode é todo mundo ficar parado vendo a destruição da cidade. Porto Alegre não pode ser um negócio.

O homem sem bateria

Não se vê mais ninguém sentado. Apresentadores de TV falam andando. Políticos passam mensagens caminhando. Reuniões de empresas são realizadas sem cadeiras. O mundo não senta, porque a moda é ter pressa.

Os políticos que andam tiveram um clássico na última eleição em Porto Alegre. O candidato a gestor, que depois iria virar o prefeito Despacito, não parava de andar na propaganda de TV.

O eleitor ficou impressionado. Este homem não senta porque é dinâmico, é ágil, é realizador.

As pessoas sentadas passam uma ideia antiga, associado aos líderes reflexivos do século 20. Estes estão fora de moda. Nada mais fora de moda do que aquela imagem do pensador.

Os homens do século 21, os gênios do mercado financeiro, do Estado mínimo, do Quadrilhão, do Trump, do Macron, do Macri não param.

Mas aí descobre-se que quase tudo é marketing e enrolação. Porto Alegre nunca teve um prefeito tão alheio às demandas mais elementares da cidade. Nunca Porto Alegre esteve tão imunda, tão esburacada, tão mal cuidada. Porto Alegre é uma cidade peluda, escabelada.

O sujeito que andava sem parar na propaganda eleitoral é hoje um homem estacionado que agride a população, por não corresponder a nada do que prometeu, agride adversários e ataca até aliados políticos.

Porto Alegre não sabia que o gestor era, na verdade, um velho deputado medíocre apenas com aparência de jovem. Tão medíocre que muitos não sabiam que ele era político.

Nada é mais antigo do que o gestor de Porto Alegre. A cidade nunca teve um prefeito tão lento, tão devagar e tão refratário a conversar e a ceder.

Porto Alegre foi engambelada pelo sujeito que andava sem parar porque, se parasse, teria que se submeter ao sofrimento de pensar em alguma coisa.

E, quando para e pensa, em Paris, ele tem a ideia de instalar carregadores de celular nas paradas de ônibus. Porto Alegre elegeu um prefeito sem bateria e sem carregador.