SALVEM PORTO ALEGRE

Circulei por ruas da zona norte de Porto Alegre, por onde raramente ando, pois sou morador do sul profundo.
A cidade precisa de uma junta médica. Que se reúnam ex-prefeitos de todos os partidos, incluindo interventores do tempo da ditadura e que amavam a cidade, lideranças de todas as áreas e entendidos em respiração boca a boca.
Porto Alegre ainda pode ser salva. Mas precisa ser devolvida às pessoas, e não aos empresários.
Só o que não pode é todo mundo ficar parado vendo a destruição da cidade. Porto Alegre não pode ser um negócio.

O homem sem bateria

Não se vê mais ninguém sentado. Apresentadores de TV falam andando. Políticos passam mensagens caminhando. Reuniões de empresas são realizadas sem cadeiras. O mundo não senta, porque a moda é ter pressa.

Os políticos que andam tiveram um clássico na última eleição em Porto Alegre. O candidato a gestor, que depois iria virar o prefeito Despacito, não parava de andar na propaganda de TV.

O eleitor ficou impressionado. Este homem não senta porque é dinâmico, é ágil, é realizador.

As pessoas sentadas passam uma ideia antiga, associado aos líderes reflexivos do século 20. Estes estão fora de moda. Nada mais fora de moda do que aquela imagem do pensador.

Os homens do século 21, os gênios do mercado financeiro, do Estado mínimo, do Quadrilhão, do Trump, do Macron, do Macri não param.

Mas aí descobre-se que quase tudo é marketing e enrolação. Porto Alegre nunca teve um prefeito tão alheio às demandas mais elementares da cidade. Nunca Porto Alegre esteve tão imunda, tão esburacada, tão mal cuidada. Porto Alegre é uma cidade peluda, escabelada.

O sujeito que andava sem parar na propaganda eleitoral é hoje um homem estacionado que agride a população, por não corresponder a nada do que prometeu, agride adversários e ataca até aliados políticos.

Porto Alegre não sabia que o gestor era, na verdade, um velho deputado medíocre apenas com aparência de jovem. Tão medíocre que muitos não sabiam que ele era político.

Nada é mais antigo do que o gestor de Porto Alegre. A cidade nunca teve um prefeito tão lento, tão devagar e tão refratário a conversar e a ceder.

Porto Alegre foi engambelada pelo sujeito que andava sem parar porque, se parasse, teria que se submeter ao sofrimento de pensar em alguma coisa.

E, quando para e pensa, em Paris, ele tem a ideia de instalar carregadores de celular nas paradas de ônibus. Porto Alegre elegeu um prefeito sem bateria e sem carregador.

Bom Fim

Finalmente retornei ao Bom Fim sem pressa, depois de muito tempo. Morei ali por 14 anos. Hoje à tarde, caminhei bastante e fui reencontrando gente, árvores e calçadas, andando e parando.
No Bom Fim, amigos e conhecidos, dali e de toda parte, parecem estar sempre de tocaia nas esquinas, às vezes só para dizer um oi.
O bairro preserva seus espaços históricos e vive um novo momento de renovação. Almocei com Virgínia no Clube de Cultura, na Ramiro (sábado é dia do banquete do Oriente Médio), e depois fomos tomar sorvete e café na Cronks, na Felipe Camarão. Reencontrei ao acaso meu amigo Bernardo Arenzon e dona Sara. Seu Bernardo faz o melhor sorvete do mundo.
Há um cheiro de primavera e de revitalização no bairro, com novos e belos lugares. Gostamos da surpresa da ‘Nossa Cara’, a butique que é também café e ponto cultural, recém aberta na Felipe (sorte, Leila), e de finalmente conhecer a Chica Parrilla, na São Manoel, que seria do bairro Rio Branco, mas que pra mim ainda é da borda do Bom Fim (avante, Bárbara, Hélio e Mauro).
A marca de todos esses lugares: são aconchegantes demais. A vontade é de sentar, ficar e ir ficando, até que alguém avise que é segunda-feira. Viva o Bom Fim de Moacyr Scliar.

Vamos retomar Porto Alegre

O pretexto moralista, usado para censurar a exposição no Santander Cultural, é apenas a parte mais visível da ação predatória que a direita exerce em Porto Alegre.

Porto Alegre não é mais uma cidade, é um negócio. Essa apropriação, muitas vezes subterrânea, acontece há muito tempo na esfera econômica, espalha-se a outras áreas e chega ao ambiente cultural.

O que se passa agora é que a extrema direita, que também dá suporte às ações políticas dos governos, tanto no Estado quanto na Capital, passou a ser mais performática e teatral. Mas isso não é pontual ou casual. A direita tenta monopolizar Porto Alegre.

A única reação possível, sem saudosismos, é a que recupere a capacidade da população de debater e orientar seus destinos, como faziam urbanistas, arquitetos, artistas, estudantes, professores, sindicatos, políticos e gente de todas as áreas durante a ditadura.

Se a cidade enfrentou até a repressão militar e seus grandes interesses, por que não pode agora reagir aos que agridem a arte e tentam se impor politicamente em nome de um moralismo fajuto?

Porto Alegre não pode ser monopolizada por gestores medíocres e seus cúmplices. Porto Alegre não é deles. Vamos retomar Porto Alegre.

A direita manda na cidade e na arte?

Fui ao centro na sexta-feira à tarde para compras no Mercado Público e para ver a exposição Queermuseu – Cartografias da Diferença na Arte Brasileira, no Santander Cultural.
Perdi o celular para um gurizão veloz na saída do Mercado, me desconcentrei com o furto e perdi a exposição agora cancelada por imposição dos reacionários da cidade.
Mas perdi mesmo e perdemos todos para a extrema direita, que agora também faz curadoria de arte. A direita pretende gerir Porto Alegre em todas as áreas. E a cidade vai se submetendo às ordens dos gestores da extrema direita.

UM LUGAR

Um espaço mágico, o Canto de Antiguidades, no Lageado (com g), bairro da zona sul profunda de Porto Alegre. Fica na Avenida Edgar Pires de Castro, 9996 (vai pela Cavalhada, depois Juca Batista e pega a Edgar. É o caminho para o Lami). Não há o que não tenha ali. Adão Santos da Rosa, o simpático Mococa, é o dono do antiquário. Amanhã, ao invés de ir de novo ao Brique, vá passear na Zona Sul e conhecer o lugar. Dê uma espiada.

O melhor negócio do mundo

Meu amigo Vitor Nechi tem uma mania que eu também tenho. Ele é um curioso pelos números que envolvem coisas, negócios, pessoas.

Ontem ele contou aqui no FaceBook que o Ildo, da Lancheria do Parque, disse que chega a vender 500 pastéis num dia. Vitor ficou impressionado com a informação do Ildo.

Na quinta-feira, passeando na Redenção, eu, Virgínia e nossa neta Martina comemos quatro pacotes de pipocas. Comeríamos cinco, se a Martina, aos dois anos, não fosse uma pessoa sensata. Foi ela quem me disse: chega, vô.

Perguntei para o pipoqueiro quantos saquinhos de pipocas ele vende. De 30 a 40 nos dias de semana e o dobro ou o triplo aos sábados e domingos. O saquinho pequeno sai por R$ 4, e o grande por R$ 5.

Um restaurante aqui perto de casa serve, porque já perguntei ao seu Sérgio, o dono, até 500 refeições num domingo. Eu tinha calculado umas 300.

Um senhor me disse que vende no centro de 60 a 80 churros por dia. Vendedores de balões prateados com gás, desses com corações ou a cara do Mickey, vendem menos. Um me informou que às vezes vende apenas 20 balões num domingo. Algodão doce é quase a mesma coisa. Vende-se pouco algodão doce hoje em dia.

Mas eu nunca tinha imaginado que a Lancheria do Parque poderia vender até 500 pastéis.

Sempre faço as contas para saber que tipo de negócio é aquele que me chama a atenção e aí então multiplico, divido, subtraio e chego ao que uma carrocinha de churros pode render por mês. Uma carrocinha é melhor do que um emprego fixo? Gosto de admirar esses bravos na luta de tempos sombrios como o de agora.

Mas a conta que mais me impressiona é de outra área, é aquela feita pelo Lula há muitos anos e nunca contestada. Lula descobriu que uma eleição, a cada quatro anos, pode render até 300 picaretas à Câmara. E quem compra 300 picaretas? Uma pessoa sozinha, se tiver dinheiro, pode comprar todos.

Corta verba da educação, da saúde, das estradas e compra os picaretas. Paga à vista. E sem tirar um real dos R$ 500 mil que tem numa mala. Só com dinheiro do povo e o apoio dos seus cúmplices. Compra pra ele, mas em nome dos outros que o cercam.

É vasto o mercado para picaretas-golpistas no Congresso. Produzir, apoiar e comprar picaretas. Este é o melhor negócio do mundo.

(A foto do Ildo foi feita pela minha amiga Lara Ely)

Um rosto

Um desses rostos que se instalam no alto dos prédios em toda parte e que quase ninguém vê.
Este aí me olhava dia desses de uma parede detonada da João Manoel quase com Andradas, no centro de Porto Alegre.
Teria vindo de onde com tanta serenidade? É de um prédio com fachada estranha, com jeito de que logo poderá ser demolido.
Se demolirem, o que farão com ela?