Os fabricantes de mentira

Se o jornalismo da grande imprensa estivesse vivo, sairia agora atrás da pauta mais óbvia dessa eleição.
É obrigação do bom jornalismo infiltrar repórteres em grupos de WhatsApp para ver como se disseminam as informações mentirosas na eleição. Infelizmente, não é tarefa para pequenos, é para jornais grandes, com estruturas e muita gente, para que a amostragem seja abrangente.
Mas como posso querer que o jornalismo da grande imprensa investigue algo que acontece contra o PT e a democracia, mesmo que isso seja criminoso, tenha a participação da máfia empresarial e a omissão da Justiça Eleitoral?
Como posso querer que a imprensa denuncie seus parceiros de golpe e que agora são também cúmplices na adesão (às vezes dissimulada) ao bolsonarismo?

A camiseta

A família é a grande personagem da extrema direita nessa eleição. Perde até para Deus. Pois a faxineira de uma amiga contou a seguinte história.
A família estava na mesa para o almoço, quando o chefe da casa chegou. Saudou a mulher e os dois filhos e sentou-se à cabeceira.
Foi quando todos notaram algo diferente. O homem vestia uma camiseta preta com a figura de Bolsonaro no peito.
O filho exclamou: 
– Não acredito, pai.
A mulher também demonstrou surpresa:
– Mas de onde você tirou isso?
E a filha acompanhou as reações de espanto:
– O que te deu na cabeça, pai?
O homem reagiu com calma:
– Sei que vocês nunca me viram assim.
A mulher concordou:
– Nunca ninguém te viu de camiseta preta.
O homem explicou:
– De fato, nunca gostei de roupa preta, mas decidi inovar.
A faxineira contou para a minha amiga que o homem confessou ter comprado cinco camisetas pretas com a cara do sujeito.
Refeita do espanto com a cor da camiseta, e antes de começar a comer, a família rezou um Pai Nosso e uma Ave Maria.
Rezaram e a mulher recomendou:
– Agora, compra uma verde, tu sabe que adoro verde.

A IMPRENSA ADESISTA 

Marcos Nobre, professor de filosofia da Unicamp, sempre ouvido em momentos graves, diz em entrevista à Folha hoje o que vem sendo percebido nas últimas semanas. O que ele diz é apavorante.
A grande imprensa e o mercado, afirma Nobre, foram os primeiros a “normalizar” o candidato da extrema direita. Mesmo que até mesmo seus eleitores saibam que ele não é normal.
Mas para os grandes grupos de comunicação e o pessoal do dinheiro ele passa a ser um candidato como qualquer outro. A adesão está consolidada, talvez com algum esperneio apenas da Globo.
Cumpre-se agora o que não se cumpriu nem mesmo no golpe de 64. Marcos Nobre adverte:
“Imagine um presidente autoritário no Brasil, com instituições em colapso, como são as nossas? Não há instituição democrática que aguente Jair Bolsonaro”.
E lembra à própria imprensa que o apoio ao ogro pode se voltar contra ela mesma:
“Como sabemos, a mídia tradicional está em crise profunda. Caso ele ganhe, teremos um presidente com tendências claramente autoritárias num momento em que a imprensa está com dificuldades enormes. Então é a receita para ter restrição, para o governo ir para cima da imprensa. Você (Bolsonaro no caso) elege seus próprios canais oficiais, segue com campanha em redes sociais, em que não há nenhum controle, e diz : “Não acredite em nada que a mídia tradicional diga”.
As conclusões. A imprensa está diante de um dilema: gruda-se ao sujeito e tenta fazer um pacto de não-agressão, ou não apoia e é engolida logo adiante por represálias. Há salvação? Não há. Nem se entregarem tudo, das calças à alma.

Estamos juntos

Meu amigo Juremir Machado da Silva, conta comigo e vamos enfrentar juntos os que tentam nos meter medo. Que os jornalistas que estiverem sesteando acordem logo e se aliem aos que resistem contra o fascismo.
Jornalista que se considera ‘de opinião’ tem que assumir posição clara em momentos graves, ou abandonar tudo e vender moranguinho.
Este é o texto que Juremir publicou no Facebook e que teve grande repercussão.

Eu tenho medo

JUREMIR MACHADO DA SILVA

Ando de um lado para outro ao amanhecer olhando a cidade pela janela. Sim, confesso, eu tenho medo de Jair Bolsonaro, do bolsonarismo e de bolsonaristas. Tenho medo do que podem representar: preconceito, raiva, simplificação e culto à violência. Tenho medo de quem anda armado e de quem prega a liberação das armas como solução para questões sociais profundas ligadas à desigualdade. Tenho medo de quem vê comunismo em políticas sociais praticadas em qualquer democracia. Tenho medo de quem diz que não amaria um filho gay e depois relativiza suas declarações como piadas ou falas infelizes.
Contemplo o cinza e a rua deserta e sinto o corpo moído. Deixo meus temores aflorarem. Não há mais como segurá-los. Tenho medo de quem diz ter fraquejado ao conceber uma filha. Tenho medo de generais que veem nos índios a origem da indolência, em negros a fonte da malandragem e classificam a beleza do neto como branqueamento da raça. Tenho medo dessa fúria conservadora e desse salto para o passado. Tenho medo de quem chama colega de vagabunda e pesa negro em arroubas. Eu tenho medo de adeptos fanáticos que espalham toneladas de notícias falsas em redes sociais em defesa da verdade e dos bons costumes.
Tenho medo de militares que defendem autogolpe e constituição sem constituintes eleitos. Tenho medo de candidato que fala em aumentar o número de ministros do STF para aparelhar a suprema corte como foi feito na Venezuela. Tenho muito medo de quem diz querer a paz, mas tem seguidores que espalham a violência pelo país, agridem e até matam como na Bahia. Tenho medo de quem vê símbolo budista em suástica talhada com canivete em barriga da mulher. Tenho medo de quem sustenta que o nazismo era de esquerda, pois quem faz isso se coloca à direita de Hitler. Eu tenho medo do bolsonarismo por saber que se trata de uma ideologia de extrema-direita capaz de causar asco, pelo machismo e pela homofobia, até em Marine Le Pen, a odiosa líder da racista e xenófoba extrema-direita francesa. Eu tenho medo de quem prega a censura e até a prisão de uma estrela internacional como Roger Waters por ele ter ousado criticar Messias. Eu tenho muito medo.
Eu tenho medo do que Bolsonaro, se eleito, fará com as terras indígenas, com a educação, com a cultura, com a economia, a Previdência e a legislação trabalhista já combalida. Tenho medo de que voltemos às aulas de Moral e Cívica. Eu tenho vergonha da direita brasileira, do MDB ao PSDB, que se aliou a Bolsonaro por ideologia ou por busca de votos no segundo turno. Eu tenho vergonha desses velhos caciques que passaram a vida contando para os netos e eleitores o quanto foram valentes na luta consentida contra a ditadura e agora, no ocaso, apoiam o candidato que louva o regime militar e tem como ídolo o torturador. Eu tenho medo de generais que defendem a eliminação de livros que contrariam a sua visão de mundo. Eu tenho medo da censura, da truculência e do moralismo hipócrita. Eu tenho medo de quem diz que ditadura matou pouco ou que deveria ter matado em vez de torturar.
Eu tenho medo dos tantos colunistas da velha mídia que têm ajudado a empurrar o Brasil para os braços de Bolsonaro. Se o capitão ganhar, poderá dedicar o seu triunfo às redes sociais e a um exército de jornalistas encastelados nos jornalões, no rádio e na televisão. Eu tenho medo de ser abatido, tenho medo da caça às bruxas, tenho medo do macarthismo, tenho mais medo que sonhos, mais temores que esperanças, mais pavores que ilusões, mais inquietações do que indicativos de melhoria. Eu sinto cada vez mais pavor do cinismo dos políticos, esses seres capazes de tudo, de qualquer aliança, por cálculo eleitoral.
Eu me sinto perplexo ao ver os velhos emedebistas Pedro Simon e Ibsen Pinheiro darem aval ao apoio a Bolsonaro. Eu me vejo estupefato com a adesão do jovem tucano gaúcho Eduardo Leite ao candidato do PSL. Eu sinto medo dessa falta de parâmetro, de limite, de fronteira. Eu sinto muito medo desta época pautada por uma única lei: vale tudo.

 

Dilema

O antipetismo mais infantil enfrenta o mesmo dilema da Globo: ou aceita que só Haddad pode derrotar o fascismo, ou todos serão devorados pela extrema direita no poder.
Uma extrema direita que não estará apenas em Brasília, mas empoderada ao redor de todos nós, nas ruas, nas escolas, na vizinhança, nos restaurantes, nas igrejas, no comando dos serviços públicos, nos almoços de domingo.
O avanço das trevas conta com a cumplicidade desse antipetismo mais infantil. Que é tão doente quanto os doentes que idolatram o candidato da extrema direita.

OS PÓS-DOUTORES DA DIREITA

A imprensa está mobilizando gente de peso para bater no PT e em Haddad. É algo que as pessoas de mais de 60 anos só viram quando da véspera do golpe de 64.

Os jornais arregimentam ‘formadores de opinião’ de todas as áreas, incluindo as universidades, para que escrevam alertas sobre o perigo vermelho. Está de volta a mais rasa tática do medo.

Recrutam gente que possa dar um ar de ‘seriedade’ aos ataques. Se são professores, alguns com altos cursos de pós-doutorado nos Estados Unidos, devem saber o que falam.

A Folha de S. Paulo, O Globo e o O Estadão estão bem articulados. Além dos jornalistas de direita que têm em estoque para emitir opiniões, chamam convidados para que ocupem suas páginas. É um esquema antigo, agora aperfeiçoado e intensificado.

Faz parte da esperteza de uma certa elite que se considera detentora de todos os saberes. Agora, não são apenas os golpistas do PSDB, mas os ‘cientistas’ que advertem para a necessidade de se buscar o centro, mesmo que todo mundo saiba que esse centro político não existe mais.

O golpe matou os golpistas, e os sobreviventes foram empurrados para a extrema direita. O que esses professores não dizem, para manter a fleuma liberal, é que muitos deles são bolsonaristas enrustidos.

A direita começa a sair do armário inclusive na academia. Há mais reacionários nas faculdades do que se pensava, inclusive nas universidades públicas.

Os estudantes estão nas mãos de uma direita cínica, voltada não só para o mercado, com seus pragmatismos utilitaristas, mas para as demandas do golpe.

Imagine-se o tormento de quem frequenta ambientes acadêmicos sequestrados por golpistas. É aceitar ou reagir, como os estudantes fizeram durante a ditadura.

Desta vez, a esperança de todos nós são as mulheres. Elas vão derrotar o fascismo que agora se apresenta com os carteiraços dos pós-doutorados.

DOENTES

Altas autoridades das altas cortes, altos políticos, altíssimos empresários, altos palpiteiros, altos jornalistas fofos, altos ‘pacifistas’ poderiam parar de tratar o ataque a Bolsonaro como um atentado político à democracia.
Foi um atentado a um político, mas parem de discursar como se condenassem a ação articulada de alguém que se expressa politicamente.
Bolsonaro foi vítima de uma pessoa doente. A imprensa estrangeira já deu ao caso o tratamento que merece.
Bolsonaro acionou a ira de um indivíduo que desejou sua morte, inspirado talvez na retórica fascista do próprio Bolsonaro.
O agressor, a cena, as reações e os ódios potencializados podem ser a expressão de um país doente do ponto de vista social e político.
O doente não é só o homem da faca. Por isso, parem com essa história de atentado à democracia.
Bolsonaro nunca foi guardião da democracia. Usem seus latins para outras pregações.

A DOLÊNCIA DE BOLSONARO

O vice de Bolsonaro, general Hamilton Mourão, disse que o brasileiro é malandro porque herdou a indolência do índio.
Como Bolsonaro foi salvar o parceiro e fez confusão sobre o significado de indolência (achou que era a capacidade de perdoar), meu amigo Carlos André Moreira esclareceu aqui no Facebook. Li agora há pouco:
Indolência
Substantivo feminino. 
1. Insensibilidade, apatia.
2. Negligência; desleixo.
3. Ociosidade, inércia, preguiça:
Aí fiquei curioso e fui ver o que é então dolência. E descobri isso aqui:
Dolência
Substantivo feminino; característica, particularidade ou estado de dolente; que se encontra em sofrimento; dor, aflição, mágoa ou lástima.
Concluí que dolência é o estado em que se encontram Bolsonaro, seus seguidores e seus eleitores.
Eu prefiro uma boa indolência.

O DILEMA DA DIREITA

Preciso ler os jornalistas assumidamente da direita para entender suas reações. Há entre a maioria deles um dilema que pode empurrá-los para um erro sem volta.
É a tentação da destruição de Bolsonaro, para que assim, na cabecinha deles, seja possível o crescimento de Alckmin.
Bolsonaro já cumpriu seu papel de anti-Lula, para a direita mais esperta, e só continua hipnotizando a classe média amadora.
Essa classe média sabe quem é Bolsonaro, mas acredita que ele possa ser levado até o fim como alternativa de poder. Porque assim, segundo essas cabecinhas, o PT não volta ao governo.
Mas para os profissionais, os que enxergam mais adiante, é preciso destruir Bolsonaro agora. Alckmin voltaria a ser a opção para a classe média medrosa, conservadora e golpista.
E aqui está a armadilha. A direita tucana, mais cheirosa, pode destruir Bolsonaro e ficar sem alternativa. Matam o ogro da extrema direita e Alckmin continua empacado.
Eu estou entre os que apostam nesse desfecho. Anotem o que vou prever. Bolsonaro será esfarelado pela Globo, pela Folha e pelo pato da Fiesp em pouco tempo, e Alckmin continuará empacado.
A direita está perdida, enquanto Lula cresce, e o PT cresce junto. A direita pode se preparar para, somando os dois turnos, perder 10 eleições para presidente na sequência.
Mais um pouco e a direita terá de derrotas, em eleições, o tempo que teve para exercer a ditadura a partir de 64, sem eleições.