Especialistas

A Folha ouve ‘especialistas’ para saber se Morales sofreu mesmo um golpe.
Especialistas de direita quase dizem que Morales foi passear no México.
O jornalismo da grande imprensa merece Bolsonaro, os filhos do Bolsonaro e o Sergio Moro.

(A charge, que acaba sendo um deboche involuntário com a pauta da Folha, é do Laerte na edição de hoje)

Ainda existe

Admito minha ignorância. Quando Bolsonaro disse que Lula poderia ser enquadrado na Lei de Segurança Nacional, pensei: o sujeito cometeu mais uma gafe, porque é claro que esse troço não existe mais.
E corri então ao Google, que me levou à Wikipédia. E não é que existe!!! A Lei de Segurança Nacional ainda vigora.
A tortura também, mas só para pobres, negros, negras e índios e índias.

GOLPE NA BOLÍVIA REAPROXIMA BOLSONARO E A GLOBO

Gustavo Maia é o repórter que conseguiu uma estranha proeza, a entrevista exclusiva de Bolsonaro, por telefone, para O Globo.
“A palavra golpe é usada quando a esquerda perde”, disse Bolsonaro na entrevista que virou manchete do Globo online na noite de domingo.
Se Bolsonaro quer destruir a Globo e nunca mais concedeu entrevistas a veículos do grupo desde a declaração de guerra aos Marinho (e ataca todos os dias os comentaristas da GloboNews), por que dar entrevista agora? E entrevista exclusiva.
Que história é essa de Bolsonaro atender telefonema da Globo, domingo à noite, para comentar a situação na Bolívia?
Bolsonaro se esqueceu de que seu projeto prioritário é a destruição da Globo?
Será que a Globo e Bolsonaro finalmente se entenderam e decidiram que o inimigo comum é Lula? Ou um golpe sempre restitui afinidades eventualmente abaladas entre golpistas?

MORO E OS MILICIANOS

Dá para ouvir daqui as gargalhadas do Queiroz ao ler o comentário de Sergio Moro no Twitter:
“Aos que me pedem respostas a ofensas, esclareço: não respondo a criminosos, presos ou soltos. Algumas pessoas só merecem ser ignoradas”.
Sergio Moro tem ignorado todos os criminosos ligados às milícias. Moro trabalha para um sujeito que, como disse Lula, governa para milicianos.
A milícia impune ofende o ex-juiz como parte da estrutura de poder dos Bolsonaros. Mas o chefe de Dallagnol não se sente ofendido.

O DRAMA DA GLOBO E DO JORNALISMO FOFO

O jornalismo fofo está mais apavorado do que o jornalismo da extrema direita. A turma da extrema direita agarra-se a Bolsonaro, a Sergio Moro e aos milicianos e está tudo resolvido.
É a guerra deles, na Record, na Band e similares, contra Lula em liberdade.
Mas os jornalistas fofos estão num dilema. Precisam bater em Bolsonaro e bater em Lula.
Os fofos estão com dois inimigos. É a situação de muita gente da direita moderada da Globo e de suas afiliadas.
A Globo não sabe qual batalha é prioritária e se tem armas para atuar em duas frentes.
Bate em Bolsonaro, mas com cuidado, para não bater em Guedes e nas reformas. E ao mesmo tempo precisa bater em Lula.
É complicada a situação dessa gente, que muitas vezes acaba fazendo o mesmo jogo das facções ligadas aos milicianos.
O jornalismo fofo cobra seu preço. Lula em liberdade é um problemão.

A MENTIRA DE BOLSONARO E A AJUDA DO HOMEM-MOSCA

A disseminação da notícia falsa de Bolsonaro sobre as três empresas que fugiriam da Argentina para o Brasil só foi possível com a ajuda de propagandistas do bolsonarismo, como o homem-mosca.
O site de Diogo Mainardi, o homem-mosca (está aí a reprodução), acordou cedo para noticiar a mentira, às 7h57min.
Só que Bolsonaro postou o texto no Twitter com a bobagem à 1h05min e o eliminou uma hora depois. Alguém estava acordado àquela hora para escrever a mentira.
Quem postou, Bolsonaro ou Carluxo? Talvez tenha sido mais uma obra de Carluxo, com a tática de espalhar uma fake news e depois apagá-la ou desmenti-la, quando o estrago está feito. Ou o presidente do Brasil fica acordado até à 1h para postar mentiras que uma hora depois serão apagadas?
O interessante é que o homem-mosca deve ter sido alertado por alguém do governo para a “notícia”. Por que, se o tuíte foi à 1h05min e logo depois foi apagado, o site do homem mosca vai compartilhá-lo quase sete horas depois?
O homem-mosca apresenta a mentira como “a revanche de Bolsonaro contra a Argentina”. Revanche contra a Argentina? O que a Argentina fez contra Bolsonaro?
O homem-mosca está a serviço do bolsonarismo, mesmo que às vezes bata no pai e nos filhos para fazer uma onda. O homem mosca é o polinizador da direita.

MAIA, MORO E O PORTEIRO

A campanha mais consistente para 2022 não é a de Doria e muito menos a de Huck. Tampouco é a do justiceiro Sergio Moro com seus painéis gigantes ao lado de um encapuzado que aponta a arma para quem passa nas ruas de Porto Alegre.

A campanha pra valer é a de Rodrigo Maia, que corre pelo centro, entra em diagonal na direita e às vezes aparece também na esquerda.

Maia foi o único até agora a dizer que o general Augusto Heleno atua como linha auxiliar de Olavo de Carvalho.

Não é pouca coisa. Maia é o fofo que, quando precisa, bate com firmeza até em general. O gordinho põe a Globo num dilema. Os Marinho vão ter que se definir em algum momento e escolher o cara que vai enfrentar Bolsonaro.

Maia vai consolidar o parlamentarismo, enquanto ele e Alcolumbre fazem, com a ajuda de Guedes, tudo para que Bolsonaro não atrapalhe os projetos do governo.

Quem governa há muito tempo, em questões decisivas que dependem de articulação política, é Rodrigo Maia. Bolsonaro cuida dos filhos.

E os outros? Doria não prospera. Huck pode ser demolido quando ficar marcado como candidato saído de dentro da Globo. E Moro já perdeu boa parte do apoio da classe média. A Folha bate no ex-juiz quase todos os dias, e a Globo parece ter desistido do ex-chefe de Dallagnol.

Se não for o candidato da direita que era tucana e hoje está dispersa e desorientada, Moro será empurrado para a área já lotada da extrema direita.

O ex-juiz pode ser obrigado a disputar espaço no campo ocupado por Bolsonaro. O problema é saber se os milicianos vão deixar. Moro terá de falar com o porteiro e talvez até com o Queiroz.

Sempre os especialistas

A Folha ouviu “especialistas” para concluir que foi normal a atitude Bolsonaro ao mandar que alguém (quem?) pegasse a memória das gravações da portaria.
Um caso de repercussão internacional, com um assassino morando no condomínio, e o presidente da República manda alguém acessar um equipamento que deveria estar sob investigação. Normal.
Os especialistas acham que é assim mesmo. Que qualquer um, nessas circunstâncias, pode acessar objetos e lugares que tenham rastros de criminosos.
Inclusive os suspeitos de cumplicidade com os criminosos.