A DOLÊNCIA DE BOLSONARO

O vice de Bolsonaro, general Hamilton Mourão, disse que o brasileiro é malandro porque herdou a indolência do índio.
Como Bolsonaro foi salvar o parceiro e fez confusão sobre o significado de indolência (achou que era a capacidade de perdoar), meu amigo Carlos André Moreira esclareceu aqui no Facebook. Li agora há pouco:
Indolência
Substantivo feminino. 
1. Insensibilidade, apatia.
2. Negligência; desleixo.
3. Ociosidade, inércia, preguiça:
Aí fiquei curioso e fui ver o que é então dolência. E descobri isso aqui:
Dolência
Substantivo feminino; característica, particularidade ou estado de dolente; que se encontra em sofrimento; dor, aflição, mágoa ou lástima.
Concluí que dolência é o estado em que se encontram Bolsonaro, seus seguidores e seus eleitores.
Eu prefiro uma boa indolência.

O DILEMA DA DIREITA

Preciso ler os jornalistas assumidamente da direita para entender suas reações. Há entre a maioria deles um dilema que pode empurrá-los para um erro sem volta.
É a tentação da destruição de Bolsonaro, para que assim, na cabecinha deles, seja possível o crescimento de Alckmin.
Bolsonaro já cumpriu seu papel de anti-Lula, para a direita mais esperta, e só continua hipnotizando a classe média amadora.
Essa classe média sabe quem é Bolsonaro, mas acredita que ele possa ser levado até o fim como alternativa de poder. Porque assim, segundo essas cabecinhas, o PT não volta ao governo.
Mas para os profissionais, os que enxergam mais adiante, é preciso destruir Bolsonaro agora. Alckmin voltaria a ser a opção para a classe média medrosa, conservadora e golpista.
E aqui está a armadilha. A direita tucana, mais cheirosa, pode destruir Bolsonaro e ficar sem alternativa. Matam o ogro da extrema direita e Alckmin continua empacado.
Eu estou entre os que apostam nesse desfecho. Anotem o que vou prever. Bolsonaro será esfarelado pela Globo, pela Folha e pelo pato da Fiesp em pouco tempo, e Alckmin continuará empacado.
A direita está perdida, enquanto Lula cresce, e o PT cresce junto. A direita pode se preparar para, somando os dois turnos, perder 10 eleições para presidente na sequência.
Mais um pouco e a direita terá de derrotas, em eleições, o tempo que teve para exercer a ditadura a partir de 64, sem eleições.

DONA TALIA DIZ EM QUEM NÃO VAI VOTAR

Conversei hoje por telefone com essa senhora. Dona Talia Christaldo é minha leitora desde o tempo de Zero Hora.
E dona Talia foi então me falando das suas impressões sobre o momento político com a sabedoria dos seus 85 anos.
Fomos comentando a conjuntura, citando nomes, listando certezas e dúvidas, e ela mesma se referiu à grande ameaça dessa eleição. Foi quando disse, depois de informar que não acredita na libertação de Lula e de falar das dúvidas sobre em quem votar:
“Eu não votaria de jeito nenhum em Bolsonaro”.
Assim, de forma categórica: de jeito nenhum.
Dona Talia é a expressão da lucidez que vai derrotar as pretensões da extrema direita. É a valentia das mulheres.
Já falei aqui que, apesar de muitas delas votarem em Bolsonaro, a grande maioria (é o que mostram as pesquisas) o rejeita por tudo que ele representa.
A voz das mulheres é a que se expressa por brasileiras com a grandeza dessa senhora. Obrigado, dona Talia.

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O vice

Muita gente esperava que Bolsonaro anunciaria uma mulher como vice, como estratégia ou como provocação mesmo.
Pois se sabe agora que ele irá anunciar um oficial reformado do Exército, o general Augusto Heleno, ex-comandante de missões no Haiti.
Tudo para que o seu eleitor não tenha dúvida sobre suas escolhas. Um presidente e um vice coerentes com o que representam e para que fique claro que Bolsonaro tem o apoio das Forças Armadas. Será?
Quem vai encarar?

O ALMOÇO

Um pai e um filho discutem sobre as virtudes e os defeitos de Bolsonaro. Os dois com diploma de curso superior. Com boa renda, boas leituras, boas amizades importantes.

É o filho quem alerta o pai para os perigos da sua adesão apaixonada ao candidato da extrema direita. E o pai diz ao filho que se frustra porque percebe agora que ele não aprendeu com seus ensinamentos.

O avô entra então na conversa. Não para ficar ao lado do neto, como vocês acham que seria, mas ao lado do filho.

E chega a mãe do filho. E a mãe do filho fica ao lado do filho. E argumenta que é inacreditável que alguma mulher possa votar em Bolsonaro.

E chega a avó do neto com um prato de maionese. E a avó também fica ao lado do neto. E sai do quarto a irmã do filho do pai que vota no Bolsonaro.

E a irmã também diz que votar em Bolsonaro seria admitir que as mulheres devem se submeter aos machos mais primitivos e mais cruéis e retornar à Idade Média. E a família vai para o almoço de domingo dividida.

Esta cena, que se repete por aí a toda hora, é pior do que as cenas do tempo da ditadura.

Porque no tempo da ditadura as famílias se dividiam, mas a perspectiva e o sonho da democracia eram um aceno de que tudo logo adiante se resolveria.

Que a luta contra o arbítrio fazia algum sentido e que no fim a vitória seria da civilização. Como acabou sendo, pelo menos até agosto de 2016.

Hoje, no pós-golpe de 2016, não se sabe mais nada, porque o eleitor de Bolsonaro não é o que a direita chamaria de ignorante, é o cara aparentemente bem formado, bem informado e bem endinheirado. E esse cara defende Bolsonaro porque defendeu o golpe.

E assim a humanidade caminha para o almoço do domingo. Quando chegam o irmão do pai que vai votar no Bolsonaro e mais a mulher dele carregando uma sacola plástica com um frango assado de TV de cachorro.

E a tia larga o frango sobre a mesa e inventa de dizer que vai torcer para a Croácia. E o pai que vai votar no Bolsonaro diz que não acredita, porque a Croácia é um país com forte presença de neonazistas.

E o tio, casado com a tia que vai torcer para a Croácia, diz que torcerá pela França, porque o que importa é a liberdade, a igualdade e a fraternidade. E que exatamente por isso também vota em Bolsonaro.

O tio começa a esquartejar o frango. A Croácia faz um gol.

OS TUCANOS E BOLSONARO

A pesquisa DataFolha que mostra Lula liderando cada vez mais (e por isso foi encarcerado) e Alckmin com apenas 7% reafirma o que todos já sabem. O golpe destruiu com o PSDB.
Eles acharam que iriam desmontar o PT. E o PT se fortalece, Lula é líder em todas as pesquisas e os tucanos caem aos pedaços. O golpe acabou com o partido da direita golpista, com Alckmin, com Aécio, com Serra.
O que sobrou para eles é Bolsonaro. A direita cheirosa caiu nos braços do que existe de pior na política brasileira desde a ditadura.
A direita que deu o golpe criou Bolsonaro, enquanto destruía o próprio partido. Eles merecem Bolsonaro. Eles se merecem.

AS MULHERES QUE VOTAM EM BOLSONARO

Bolsonaro é réu em duas ações no Supremo, por injúria e apologia ao crime de estupro, em consequência dos ataques à deputada Maria do Rosário. Não vou repetir aqui o que ele disse e todo mundo sabe, porque é nojento e covarde.
Hoje, Bolsonaro levou mais um tombo. A procuradora-geral Raquel Dodge o denunciou ao Supremo pelo crime de racismo. Em palestra há um ano na Hebraica do Rio (sim, Bolsonaro fala para judeus e prega racismo), o deputado atacou quilombolas, indígenas, refugiados, mulheres e LGBTs.
Também não vou repetir aqui o que ele disse nessa palestra em que foi aplaudido por muita gente que, pela história trágica dos seus ancestrais, deveria repudiá-lo.
Um dos filhos dele, o deputado Eduardo Bolsonaro, também foi denunciado pela procuradora por ameaçar uma jornalista.
Mesmo assim, há mulheres, e muitas e muitas mulheres, que adoram Bolsonaro. Não são pessoas sem acesso à informação. Nem pobres. São, na maioria, como mostram as pesquisas, de uma classe média com curso superior e bons empregos.
Bolsonaro (que hoje passou mal e foi levado às pressas para um hospital no Rio) sabe que, para ser eleito, depende dos votos das mulheres. E muita mulher que se considera esperta vota em Bolsonaro.

Fracasso

Um filho de Bolsonaro ameaçou fazer um comício-gigante ontem em Curitiba como contraponto ao encontro com Lula.
Todos os jornais noticiaram. Mas depois informaram que nenhum dos Bolsonaros iria aparecer.
Claro que sentiram que iriam pagar o mico de participar de uma megamanifestação de meia dúzia.
Foi o que aconteceu. Não apareceu nem meia dúzia e o comício inexistiu. Prejuízos para os vendedores de pipoca que levaram a ameaça a sério.
O seguidor de Bolsonaro só é fiel mesmo no Parcão. No Parcão, eles teriam reunido uma multidão de 30 bacanas com a camiseta da Seleção.

A criatura

A armadilha posta para a direita é diabólica: Bolsonaro poderá ser a única opção num segundo turno para a classe média que bateu panelas.
A classe média que derrubou Dilma para ter o jaburu terá a chance de chegar ao cume elegendo Bolsonaro. Mesmo os habitantes dos Jardins e do entorno do Parcão, que ainda desejavam ter um tucano cheiroso e golpista como opção.
O serviço iniciado em 64 por avós, pais, tios, amigos e parentes da classe média de direita pode se completar com Bolsonaro.
A direita tem a oportunidade de chegar ao êxtase elegendo alguém que em outros tempos somente chegaria ao poder por golpe militar.
Bolsonaro é a grande obra da classe média que estudou, conquistou um diploma e bons empregos e agora tem o representante que finalmente é aceito na mesa do almoço de domingo. Tapem o nariz e aceitem Bolsonaro como porta-voz dos projetos e dos sonhos das duas famílias.
As direitas argentina, uruguaia, chilena, boliviana, colombiana, paraguaia tiveram e têm gente de todo tipo, mas nunca desfrutaram da chance de eleger alguém como um Bolsonaro.
Bolsonaro é produto nacional, é a criatura perfeita, é a jabuticaba da classe média que derrubou Dilma e atiçou a caçada a Lula com seus cúmplices do Judiciário.