O DRAMA DE BOLSONARO

Por que Bolsonaro corre o risco da exposição da fragilidade física e grava um vídeo no hospital com a sonda no nariz? Bolsonaro se expõe porque precisa dizer, sem força na voz, que está vivo e no comando.

Bolsonaro não consegue ficar um dia, um só, sem dizer algo, sem mandar um recado que expresse seu controle do poder. Não governa, não detém o poder por completo, mas precisa dizer que governa.

A exposição pública da lenta convalescença, num vídeo em que não tem nada a dizer, é o grito do sujeito fragilizado: eu estou aqui, mas estou me comunicando com vocês.

O drama de Bolsonaro é o de qualquer político inseguro: a sensação de que não tem o amor que merece. Não o apoio, mas o amor mesmo.

Bolsonaro é rejeitado pelos líderes mundiais da direita. É considerado pela imprensa conservadora como a figura pública mais repulsiva em todo mundo.

Sua base de apoio é calculada em menos de 20%. Tem ricos, tem classe média decadente, tem uma minoria de jovens e tem até pobre que se acha rico. Mas não tem massa.

Se tivesse, todas as manifestações pró-direita, desde a sua posse, estampariam seu nome e sua imagem em faixas de cartazes. Não há fotos com a imagem do seu rosto nas aglomerações da Paulista da turma vestida com a camiseta da Seleção.

O nome levado para as ruas, mesmo pelo bolsonarista de raiz, é o de Sergio Moro. O bolsonarista tem vergonha de ser publicamente bolsonarista.

Bolsonaro disse que, se erguer a borduna, será seguido. Por quem? Pelos homens racistas e homofóbicos de meia idade? Pelos militares? Bolsonaro confia nos militares?

Bolsonaro acha que pode formar grupos de milicianos, mas não tem povo ao seu lado, não tem fidelidade em número e entusiasmo. Falta massa crítica a Bolsonaro.

Mas o que ele sente mesmo é falta de adoração. O bolsonarista branco e rico é um oportunista que no fundo rejeita Bolsonaro. E Bolsonaro sabe que é assim e sofre muito.

O porto dos milicianos

A Globo cutucou Bolsonaro no JN com a pauta das máfias do contrabando do Porto de Itaguaí, no Rio.
As máfias derrubaram o comando dos auditores fiscais e o superintendente da Polícia Federal, que vinham reprimindo os contrabandistas.
A bandidagem do contrabando trabalha articulada com os milicianos amigos da família Bolsonaro, que controlam a região.
O que Sergio Moro pensa disso tudo? Moro é muito cuidadoso e não comenta nada que envolva as milícias.

Os bolsos dos Bolsonaros

É ingênua ou deliberadamente enganosa a interpretação de certos “analistas”, segundo a qual o secretário da Receita foi empurrado para a armadilha de defender a nova CPMF, quando Paulo Guedes é na verdade o pai da ideia.
O jornalismo da direita dá a entender que Marcos Cintra foi demitido por defender o que Bolsonaro não quer, quando Bolsonaro nem sabe direito o que quer.
A nova CPMF foi apenas o pretexto para que Bolsonaro conseguisse mandar Cintra embora. O homem da Receita caiu mesmo porque não tinha a confiança de Bolsonaro.
A Receita, assim como o Coaf e a Polícia Federal, precisa ser aparelhada para que o pai defenda o filho amigo dos milicianos. Cintra andava na direção contrária.
Tudo o que Bolsonaro faz se baseia nos interesses da família. Bolsonaro nem sabe direito o que é CPFM, para que serve e que impacto tem no bolso nas pessoas.
Bolsonaro só cuida dos bolsos da família.

MORO É O ALIEN DE BOLSONARO

O discípulo bolsonarista mais indeciso pode estar se afastando desesperadamente do seu criador. A direita correu para o lado de Sergio Moro, diante da crescente brutalização do governo.

Acordo cedo para saber se Moro caiu, e a notícia do DataFolha é a de que ele está ainda mais forte. Podemos estar vendo o morismo crescer dentro do bolsonarismo que agora o combate.

Isto é o que diz a Folha: “Sergio Moro continua como o ministro mais bem avaliado do governo Bolsonaro, com um patamar de apoio da população que supera o do próprio presidente.
Segundo o levantamento, Moro é conhecido por 94% dos entrevistados, a taxa mais alta na Esplanada.

Dentre os que afirmam conhecê-lo, 54% avaliam sua gestão à frente do Ministério da Justiça e Segurança Pública como ótima ou boa. Outros 24% a consideram regular, e 20%, ruim ou péssima —2% não responderam.

Em comparação, são 29% os entrevistados pelo Datafolha que aprovam o governo Bolsonaro, 30% os que o consideram regular e 38% os que avaliam como ruim ou péssimo (2% não responderam)”.

A pesquisa do DataFolha só amplia o drama de Bolsonaro, que vem tentando desmoralizar o juiz em várias frentes. A situação mais tensa agora é a que envolve o comando da Polícia Federal.

O DataFolha mostra que Moro tem apoio dos ricos, dos brancos, evangélicos, aposentados e moradores do Sul. O ex-juiz avança nos redutos de Bolsonaro e também é rejeitado por nordestinos, estudantes e pobres.

Moro é mais do que uma armadilha que Bolsonaro não conseguirá desarmar tão facilmente. O ex-juiz passa a usar Bolsonaro como hospedeiro.

Moro é o Alien que Bolsonaro atraiu para a sua nave, onde cabem militares, milicianos, incendiários, terraplanistas e, claro, justiceiros.

O terror tem muitas faces, e a que se revela agora para Bolsonaro tem a cara de alguém que parecia acossado, derrotado e, depois de descoberto, pronto para saltar fora sem conseguir engolir ninguém.

Se decidir saltar do ventre que o abriga, quem ficará mal será o hospedeiro. O Alien irá se acomodar em algum compartimento de alguma outra nave.

O amplo espaço da direita, incluindo a nova direita extremada paulista, dissimulada como bacana e tucana, está aberto para Moro.

QUEM TEM MEDO DA BORDUNA DE BOLSONARO?

Bolsonaro começa a deixar claro o que acha que é ou pretende ser com sua aposta na radicalização do discurso de extrema direita:

“Se eu levantar a borduna, todo mundo vai atrás de mim e eu não fiz isso ainda”.

Foi o que disse em café da manhã com os jornalistas Sergio Dávila e Leandro Colon, da Folha. É uma ameaça com arma de índio, logo ele que deprecia tanto os povos da Amazônia e pretende tomar suas terras.

Mas a situação de Bolsonaro não está fácil. O DataFolha assegura hoje que o contingente que olha para a borduna dele é muito menor do que aquele um terço que aparece nas pesquisas.

O núcleo duro do bolsonarismo, a turma que o apoia de forma incondicional, seria de apenas 12% do eleitorado. Quantos desses seguiriam a borduna? E o que, afinal, significa hoje essa borduna meio mole?

A turma do Queiroz sabe? Os militares sabem? Sergio Moro conhece a borduna? Dávila, diretor de redação da Folha, e Colon não perguntaram a Bolsonaro o que a ameaça significa.

Faltou um Glenn Greenwald para fazer a pergunta.

BOLSONARO AFUNDA

Manchete da Folha segue no mesmo ritmo de ontem, enquanto Bolsonaro caminha para o desastre.
“Brasileiros pobres e entre 35 e 59 anos puxam alta na reprovação a Bolsonaro, aponta Datafolha.
Rejeição ao governo cresce mesmo em segmentos bolsonaristas, como moradores do Sul, e entre os mais ricos e escolarizados, aponta Datafolha”.
O único segmento em que o apoio ao governo cresceu foi o do neopentecostais. Cai entre jovens, ricos, brancos, mulheres, negros, idosos, pobres.
Bolsonaro já é há muito tempo um pregador ‘religioso’ que diz governar o país em nome de uma minoria.
O Brasil tem finalmente uma seita no poder, comandada pela família que desafia toda a estrutura política e institucional, as leis e as normas elementares de costumes e convivência.
Quando tudo isso irá acabar, se tem apoio até dos militares, antes de piorar mais um pouco?
Feita de outra forma, a pergunta que atormenta a todos hoje, inclusive os britânicos, é essa: como a democracia dará conta dos dilemas e das aberrações que ajudou a criar?

O BOLSONARO DO FUTEBOL

Felipão foi mandado embora pelo Palmeiras. Sempre foi a expressão do bolsonarismo no futebol, antes mesmo da existência do bolsonarismo.
É direitoso, esquemático, previsível, quadrado. Desde o 7 a 1 contra a Alemanha, Felipão só maltrata e brutaliza o futebol. É o que Bolsonaro faz na política.
Marcos Rocha, aquele lateral que lança bolas na área com as mãos, durante todo o jogo, é a cara das soluções pensadas por Felipão. Rocha é induzido pelo técnico ao atalho simplista e medíocre.
Felipão, o amigo de Bolsonaro e adorador de Pinochet, vinha fazendo no Palmeiras o que Bolsonaro faz no governo. Uma hora Bolsonaro também irá tomar 7 a 1.

BOLSONARO TERÁ PESADELOS COM HADDAD

O drama de Bolsonaro a partir de agora passa e ser este: os brasileiros queriam que Haddad, e não ele, estivesse governando hoje.
Em oito meses, como mostra o DataFolha, o eleitor se arrependeu, e Haddad venceria com 42% a 36%.
Esse é o trauma que Bolsonaro carregará para o resto do mandato, que talvez nem seja tão longo. Bolsonaro terá pesadelos com Haddad.
O eleitor quer o petista porque se sente enganado e rejeita, como as pesquisas mostram, tudo o eleito da extrema direita diz e faz.
Bolsonaro governa para uma fração de um terço da fração que o apoia, satisfeito com o que lhe sobrou: o homem branco rico, os reaças do centro-oeste, do sudeste e do sul, mais os ressentidos em geral da classe média, os homofóbicos, os armamentistas e uma minoria de pobres que se acha parte dessa turma.
Mulheres e jovens não querem saber de Bolsonaro. Entre eleitores de 16 a 24 anos, o petista venceria por 51% a 31%.
Também ganharia entre aqueles com ensino fundamental (45% a 33%) e médio (42% a 37%), enquanto há empate na margem de erro entre os eleitores com ensino superior (38% para Haddad contra 40% de Bolsonaro).
A direita pode dizer que Bolsonaro venceria em todas as regiões, tirando o Nordeste, onde Haddad daria de goleada: 57% a 23%. Não importa. O Brasil da resistência hoje é o Nordeste.