AS MULHERES QUE VOTAM EM BOLSONARO

Bolsonaro é réu em duas ações no Supremo, por injúria e apologia ao crime de estupro, em consequência dos ataques à deputada Maria do Rosário. Não vou repetir aqui o que ele disse e todo mundo sabe, porque é nojento e covarde.
Hoje, Bolsonaro levou mais um tombo. A procuradora-geral Raquel Dodge o denunciou ao Supremo pelo crime de racismo. Em palestra há um ano na Hebraica do Rio (sim, Bolsonaro fala para judeus e prega racismo), o deputado atacou quilombolas, indígenas, refugiados, mulheres e LGBTs.
Também não vou repetir aqui o que ele disse nessa palestra em que foi aplaudido por muita gente que, pela história trágica dos seus ancestrais, deveria repudiá-lo.
Um dos filhos dele, o deputado Eduardo Bolsonaro, também foi denunciado pela procuradora por ameaçar uma jornalista.
Mesmo assim, há mulheres, e muitas e muitas mulheres, que adoram Bolsonaro. Não são pessoas sem acesso à informação. Nem pobres. São, na maioria, como mostram as pesquisas, de uma classe média com curso superior e bons empregos.
Bolsonaro (que hoje passou mal e foi levado às pressas para um hospital no Rio) sabe que, para ser eleito, depende dos votos das mulheres. E muita mulher que se considera esperta vota em Bolsonaro.

Fracasso

Um filho de Bolsonaro ameaçou fazer um comício-gigante ontem em Curitiba como contraponto ao encontro com Lula.
Todos os jornais noticiaram. Mas depois informaram que nenhum dos Bolsonaros iria aparecer.
Claro que sentiram que iriam pagar o mico de participar de uma megamanifestação de meia dúzia.
Foi o que aconteceu. Não apareceu nem meia dúzia e o comício inexistiu. Prejuízos para os vendedores de pipoca que levaram a ameaça a sério.
O seguidor de Bolsonaro só é fiel mesmo no Parcão. No Parcão, eles teriam reunido uma multidão de 30 bacanas com a camiseta da Seleção.

A criatura

A armadilha posta para a direita é diabólica: Bolsonaro poderá ser a única opção num segundo turno para a classe média que bateu panelas.
A classe média que derrubou Dilma para ter o jaburu terá a chance de chegar ao cume elegendo Bolsonaro. Mesmo os habitantes dos Jardins e do entorno do Parcão, que ainda desejavam ter um tucano cheiroso e golpista como opção.
O serviço iniciado em 64 por avós, pais, tios, amigos e parentes da classe média de direita pode se completar com Bolsonaro.
A direita tem a oportunidade de chegar ao êxtase elegendo alguém que em outros tempos somente chegaria ao poder por golpe militar.
Bolsonaro é a grande obra da classe média que estudou, conquistou um diploma e bons empregos e agora tem o representante que finalmente é aceito na mesa do almoço de domingo. Tapem o nariz e aceitem Bolsonaro como porta-voz dos projetos e dos sonhos das duas famílias.
As direitas argentina, uruguaia, chilena, boliviana, colombiana, paraguaia tiveram e têm gente de todo tipo, mas nunca desfrutaram da chance de eleger alguém como um Bolsonaro.
Bolsonaro é produto nacional, é a criatura perfeita, é a jabuticaba da classe média que derrubou Dilma e atiçou a caçada a Lula com seus cúmplices do Judiciário.

Os jovens

Encontro seu Mércio numa esquina da Avenida Cavalhada. Ele desce da bicicleta e puxa conversa.
Digo que os eleitores de Bolsonaro terão de prestar contas não aos amigos e colegas, mas aos próprios filhos.
Um dia eles terão de dizer aos filhos, hoje adolescentes ou iniciando a faculdade, o que os levou a votar no Bolsonaro.
E aí seu Mércio me interrompe:
– Quanta ingenuidade. A realidade é dura, meu cumpadi. Tem muito filho dizendo aos pais que devem votar no Bolsonaro.
E monta na bicicleta se vai.

Os judeus e Bolsonaro

É decidida e corajosa a declaração de Henry Chmelnitsky à revista Piauí sobre as especulações em torno de um possível e esdrúxulo apoio dos judeus a Bolsonaro.
Disse o gaúcho (presidente do Conselho Geral das entidades ligadas à Federação Israelita do Rio Grande do Sul, ex-vice da Confederação Israelita do Brasil e ex-presidente da Federação Israelita gaúcha): “A comunidade judaica nunca pode apoiar quem segrega. Por princípio, porque pagou com a carne a segregação”.
Chmelnitsky disse mais, em resposta às opiniões públicas do empresário Meyer Nigri, pró-Bolsonaro, que repercutiram mal na comunidade judaica: “Em toda minha vida, nunca vi uma reunião com mais de dez judeus, em que nove fossem a favor da direita. Ele (Nigri) não representa a média da comunidade, que sempre transitou pela diversidade e nunca teve lideranças ligadas aos extremos”.
Outros líderes da comunidade têm rebatido as declarações de Nigri, segundo o qual apenas 10% dos judeus seriam contra a candidatura de Bolsonaro e formariam uma “minoria barulhenta”.
Parece inacreditável. Mas ainda bem que a comunidade judaica tem líderes capazes de responder sem medo aos pregadores do bolsonarismo.
Outros líderes, de tantas outras áreas e entidades, poderiam fazer o mesmo, se é que têm a mesma coragem.
(Já informo aqui que irei deletar sumariamente qualquer comentário ofensivo de cunho étnico ou religioso.)

Guru

O economista Paulo Guedes, guru de Bolsonaro, diz em entrevista à Folha que empresários não se corrompem entre si. Eles só se corrompem porque há políticos, há Estado, setor público.
Se privatizar tudo, chegaremos ao fim da corrupção. Porque um empresário não engana e não tenta comprar o outro.
É o que ele diz na Folha. Guedes é cotado para ser ministro da Fazenda de Bolsonaro.
Poucas vezes um sujeito metido a liberal disse tantas besteiras como ele diz nesta entrevista.
Há desprezo pela capacidade de discernimento de leitores e eleitores (o que é moda entre a direita).
É vergonhoso até para outros que se dizem liberais.

Huck não aguenta o tranco

Jair Bolsonaro já era. A Folha deu a primeira grande bordoada, ao mostrar que a família é dona de 13 imóveis avaliados em R$ 15 milhões, e acabou com a imagem de pureza que o sujeito vendeu para a classe média sem rumo.

Com os 8% de Luciano Huck no DataFolha, a aposta volta a ser o moço da Globo. Mas a Globo estaria disposta a enfrentar o massacre das redes sociais, a partir do momento em que Huck admitir que é candidato?

O que a Globo ganha com isso, se nunca precisou de preposto da própria empresa para desfrutar do poder?

A pergunta pode ser outra: Huck estaria mesmo preocupado com o que a Globo acha ou deixa de achar da sua candidatura, enquanto se joga à tentação de ser presidente?

Huck salta fora do caldeirão da Globo, candidata-se, a Globo larga um comunicado dizendo que não tem nada mais com o cara e que nem gostava mesmo dele, a direita lança a maior campanha de marketing de todos os tempos sobre o bom moço dos Jardins que vai salvar os pobres e está tudo dominado de novo.

Falta combinar com os russos? Huck tem apenas 25% de rejeição. Segundo o DataFolha, ficaria com 8% dos votos de Lula se o ex-presidente fosse impedido de concorrer. Tem a imagem associada ao altruísmo (mesmo que patrocinado). É um velho novo, tem bons dentes, é casado com Angelica e não recebe auxílio-moradia.

Mas tem aquela história da amizade com Aécio. E tem outras histórias ainda não bem contadas. Tem a sociedade com um mafioso, Alexandre Accioly, o grande laranja de Aécio. É amigo do Diogo Mainardi, o cara que ameaça há horas se transformar no homem-mosca. Tem aquelas fotos com o Aécio (que ele apagou de seus espaços nas redes sociais). Tem a destruição ambiental de Angra.

Celebridades fofas (assim como os jornalistas fofos) não gostam de desconfortos. E uma campanha será desconfortável demais para o casal. Eu acho que Huck não aguenta o tranco. Essa não será uma eleição para moços frágeis.

Abandonaram Bolsonaro

Bolsonaro está se defendendo sozinho do massacre da imprensa. Hoje, a Folha denuncia que ele emprega (com salário de assessora da Câmara) uma vendedora de Açaí que mora em Angra dos Reis.
Ontem, vi aqui só um debatedor defendendo Bolsonaro. Abandonaram o cara que iria vencer Lula. A direita é ingrata.
Vão abandonar Bolsonaro como abandonaram Eduardo Cunha. Só Aécio e os amigos tucanos não são desprezados pela direita, porque fazem parte da elite. Bolsonaro era apenas um servidor intermitente do reacionarismo para atacar o PT e Lula. Não era da direita cheirosa.
O erro dele: achar, como Eduardo Cunha achou, que seria protegido para sempre pelo Parcão, pelos Jardins e pela Avenida Paulista.
Bolsonaro iludiu-se com o plano de ter o voto dos ricos e do pato amarelo à presidência da República. Golpistas não poupam nem os aliados mais empenhados no golpe.

O MATADOR

Parcão, Jardins, Avenida Paulista, paneleiros, mulheres da classe média que adoram homens violentos, estudantes sem rumo, militaristas, armamentistas, riquinhos e assemelhados.
É hora de se despedir de Bolsonaro. Deve ter sido bom para vocês enquanto durou. Bolsonaro está morto politicamente.
Em entrevista à Folha sobre o uso de auxílio-moradia em Brasília, mesmo tendo imóvel próprio, ele admitiu que em determinada época embolsou mesmo o dinheiro. E disse o que fazia com a verba:
“Como eu estava solteiro naquela época, esse dinheiro do auxílio-moradia eu usava pra comer gente”.
Mas o ex-candidato Bolsonaro ainda tem contas a prestar. Ele é processado no Supremo por incitamento ao estupro pelas ofensas à deputada Maria do Rosário.
Que ninguém se diga surpreso se o Supremo, presidido por uma mulher, engavetar o processo do homem que usava dinheiro público para comer gente.
(O sujeito dá a entender na entrevista que usa a informação de que é comedor para ofender os repórteres da Folha. Foi o que fez quando ofendeu Maria do Rosário. Bolsonaro gosta de fazer o papel de estuprador e matador. É um esforço que denuncia que algo está errado.)