GROTESCO

Um dia perguntei aqui se Bolsonaro teria mesmo o voto das mulheres. Ontem, li esta nota no perfil da Claudia Penalvo: “Tenho 10 “amigos/as” que curtem Jair Bolsobosta. 10! Entre mulheres e bichas. Eu, hein?”
Já não surpreende mais. São manifestações de espanto que se repetem. Se não descobrirmos o que está dando errado, estaremos todos ferrados.
E a manchete da Folha hoje trata da nova paixão do mercado financeiro por Bolsonaro, porque ele seria a única saída para enfrentar Lula.
Para o mercado, Bolsonaro estaria a caminho da transformação. Deixaria de ser um ogro que ataca mulheres, negros e gays para ser o liberal anti-Lula.
O mercado pode pensar o que quiser, porque o mercado só pensa em dinheiro. Mas as mulheres? E os gays?
Não esqueçamos que Bolsonaro é processado no Supremo por incitação ao estupro (em que gaveta estaria esse processo?). Ou já esquecemos?
As vítimas do mercado e de Bolsonaro também se atiram nos braços do algoz.

O doutor do Bolsonaro

Está na Folha de hoje: o economista Adolfo Sachsida, funcionário do Ipea, é o conselheiro e o guru de Bolsonaro. Ele diz que Bolsonaro vai encampar uma ‘agenda liberal’. Sachsida é doutor em economia.
Alguém pode perguntar: mas como um doutor em economia pode ser guru de Bolsonaro e dizer que o sujeito terá uma agenda liberal? O mercado tem guru para todos os gostos.
Sachsida é filiado ao PFL e foi integrante do MBL. O economista acha que Bolsonaro tem pensamento parecido com o de alguns texanos republicanos (ele estudou no Texas). Então tá. Tem cada doutor.

O único

Apenas um candidato da direita, só um, resiste a duas semanas de campanha. Bolsonaro será triturado logo na largada. Doria sairá do confronto como um pacote de farinata. Huck nem começará a disputa. Aécio já virou pó.
O que sobra para a direita é Geraldo Alckmin. Eles virão de Alckmin de novo (o que não quer dizer que Doria não concorra por um partido pequeno ou pelo PFL). Mas o candidato da direita, o avalizado pelo mercado, será Alckmin, o candidato da Globo, do pato e da imprensa.
Mas e Henrique Meirelles? Este foi soterrado pela tal conta no Caribe. O Brasil descobriu que um homem da categoria de Meirelles guardava seu dinheirinho em lugar seguro, e o lugar seguro neste caso não era o Banco de Boston, que ele presidia, mas um banco de contas secretas.
A direita pode estar mais perdida do que a esquerda. Por isso a eleição do ano que vem pode, a qualquer momento, subir no telhado.

Moro não aguenta

Li a notícia sobre a previsão de Sergio Moro de que a Lava-Jato está chegando ao fim em Curitiba. Seria, segundo alguns, o aviso de que ele pode renunciar à magistratura e ser mesmo candidato em 2018.

Na eleição de 2014, Marina Silva não resistiu a dois meses de campanha e foi pulverizada por suas ideias obtusas.

Desta vez, Bolsonaro não resistirá a duas semanas. E Sergio Moro, se decidir concorrer, não resiste a dois dias de campanha.

Até porque num debate Moro não poderá dizer a Lula o que disse na última audiência em Curitiba, quando o ex-presidente perguntou se poderia dizer à família que prestou depoimento a um juiz imparcial. Moro foi incisivo: “Não cabe ao senhor perguntar isso a mim”.

Lula teria outras perguntas a fazer ao juiz. A não ser que Lula seja mesmo condenado em segunda instância e preso, e Moro fique livre para concorrer, sem o receio de ter de responder perguntas diversas, como uma sobre o tal amigo denunciado publicamente por um mafioso como vendedor de acordos de delação em Curitiba (já que a imprensa nunca quis saber nada do juiz sobre o sujeito).

E, além disso, Moro não aguentaria a campanha porque é muito ruim de retórica. Ele e Deltan Dallagnol são os pregadores do moralismo óbvio de conversa de boteco pouco antes de fechar, quando ninguém aguenta mais ninguém. Não se aproveita quase nada.

Bolsonaro

Bolsonaro vai ganhar um lustro para se apresentar como aceitável pela classe média que o seguiu até agora, mas que não chegaria ao exagero de apoiá-lo em uma eleição.
Bolsonaro vai virar liberal (imaginem a situação dos marqueteiros), desde que ninguém esqueça que ele tem um processo no Supremo por incitação ao estupro.
Não há salvação para Bolsonaro. Ele é o que foi até agora. Bolsonaro não desempenha um personagem, como muitos fazem (entre os quais o pastor Feliciano). Bolsonaro é Bolsonaro.
E a classe média que o exaltou tem parte na criação desta criatura. Inclusive as mulheres que o consideram exemplo de conduta. Sim, há mulheres que adoram Bolsonaro.

BOLSONARO ‘ECOLÓGICO E PATRIOTA’

Bolsonaro foi lançado hoje como pré-candidato à presidência por um partido que se chama Ecológico e que pode se chamar Patriota. Bolsonaro pode ser candidato até por um partido dito humanista, porque nome de partido de direita no Brasil não significa muita coisa.
O que não pode acontecer, e o Brasil precisa estar atento, é o engavetamento do processo contra Bolsonaro no Supremo pelas ofensas graves à deputada Maria do Rosário.
Era só o que faltava o Supremo, presidido por uma mulher, arquivar o processo de um estuprador declarado, que incentiva a violência contra as mulheres.
Prestem atenção nos movimentos de Bolsonaro. Essa figura peçonhenta e oleosa do deputado Wladimir Costa, o sujeito da tatuagem do jaburu-da-mala, induz a pensar, como consolo, que haveria sim uma criatura mais repulsiva do que Bolsonaro no Congresso.
Mas não se enganem. Ninguém consegue ser mais repulsivo do que o autoproclamado violentador Jair Bolsonaro. Nem esse Wladimir Costa.

Alice

O melhor da polêmica provocada pela Alice Ruiz, ao pedir que parem de disseminar os vídeos do Bolsonaro, é que no fim estamos falando dela mesma, de Alice Ruiz.
Compartilho o site da poeta (ela prefere ser chamada assim, e não de poetisa), para que seus hai kais, e não as bobagens do Bolsonaro, prevaleçam no meio dessa conversa toda.

http://www.aliceruiz.mpbnet.com.br/

Duas provocações

Desde ontem à tarde lido com duas provocações, sem saber destrinchar nenhuma delas. Tomei 14 mates agora de manhã, enquanto caía um chuvisco, e fiquei ainda mais confuso, quando geralmente o chimarrão me traz a sensação de que fiquei mais esperto.

A primeira provocação é a da poeta Alice Ruiz. Alice diz que fizeram uma bobagem ao disseminar os vídeos com a ‘palestra’ de Bolsonaro na Hebraica do Rio.

A poeta curitibana lembra que foi publicitária. E que a publicidade ensina que, quanto mais se mexe com algo, mais essa coisa se propaga, inclusive o lixo. Estariam fazendo propaganda de graça para o Bolsonaro.

Será? Não sei se o melhor, em mais uma exibição de fascismo de Bolsonaro, é ignorar a fala dele. O discurso de Bolsonaro deveria ficar num biombo, para que poucos privilegiados (os mais espertos e informados?) o examinassem com atenção?

Defendo que se ofereça a todos a chance de refletir sobre ameaças como essa.

A segunda provocação é do economista Márcio Pochmann, que presidiu o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Pochmann acha que, se não houver uma radicalização da reação ao golpe, não sai eleição no ano que vem.

E o que significa radicalizar? Ele não diz direito, diz apenas que tudo deve ser feito dentro da democracia. Sair às ruas? Parece que poucos querem sair. Acionar a força dos sindicatos? Gritar mais na internet?

Pela tese de Alice, Pochmann não deveria falar em mais um golpe, desta vez contra a eleição de 2018, porque a disseminação da hipótese poderia transformá-la em algo real.

Vou tomar mais uns mates.

A nova cara da direita bem nascida

Duas faces da direita que vem aí, com projetos para 2018 e para mais adiante: a direita desbocada e fascista de Bolsonaro e a cheirosa, dissimulada, do bom mocismo de Luciano Huck. Que direita deve ser mais temida?

Bolsonaro pode ser jogado para fora da estrada com um empurrão. É um fanfarrão que a direita atiça para que faça o serviço sujo de bater nas esquerdas, nos negros, gays e índios.

Huck é o sujeito que o Ministério Público Federal (aquele que não caça apenas petistas) tenta enquadrar como destruidor da natureza, por ter se apropriado de uma ilha do Rio e degradado sua paisagem.

Já foi condenado e recorreu ao Superior Tribunal de Justiça. É provável que escape, como escapam quase sempre todos os que (desde que não sejam sem-terra) se adonam de espaços públicos e destroem praias e rios.

E Huck tem fama. Anda pelo mundo a apresentar-se como bom moço, pensando na possibilidade de um dia vir a ser candidato à presidência. Essa semana, foi aplaudido de pé por estudantes de Harvard e do MIT. Americanos? Não, brasileiros.

São os brasileiros pós-golpe. A nossa elite que vai estudar fora agora se sensibiliza com a conversa de um apresentador de TV. Ele é o exemplo de empreendedorismo. Mas no que Luciano Huck empreende? Na exploração comercial das misérias alheias?

Se os Estados Unidos tiveram o seu apresentador presidente, por que não podemos ter o nosso? Ainda mais um bem nascido. A receita de Huck é esta, nas palavras usadas por ele: ética e altruísmo.

É de se temer muito mais um Luciano Huck, como ameaça concreta, do que um Bolsonaro, apenas um instrumento a serviço de uma empreitada (e não só da direita extremada).

Bolsonaro é a direita de boca suja. Huck, que pode ser a terceira via tucana, é a direita benemerente, altruísta, que faz rifa com os sonhos dos pobres, desde que com bons patrocínios.

Alguém pode perguntar: mas antes do Huck não há o Dória? Talvez. Antes do Dória, quem existia era o Alckmin. Antes do Alckmin, o Aécio. Não há mais Alckmin, nem Aécio, nem Serra. É a vez da direita com berço.

Ninguém beija a mão de Bolsonaro impunemente

É torta a premissa segundo a qual Bolsonaro discursou na Hebraica do Rio em nome da liberdade de pensamento. Tudo o que Bolsonaro faz é conspirar contra a liberdade de pensamento.

Bolsonaro é a maior aberração entre todos os políticos que refugam publicamente todas as liberdades. E não porque seja o mais reacionário, nem o mais esperto. Talvez até exista reacionário ainda mais radical do que ele, mas sem a mesma tribuna, a mesma desenvoltura e a mesma impunidade.

Bolsonaro é a maior aberração porque não oferece nenhuma contribuição nem mesmo ao reacionarismo. Bolsonaro é a negação do pensamento.

Judeus e descendentes de judeus que o receberam no Rio sabiam que não ouviriam nada que prestasse. Mas estavam ali para fomentar uma ideia: a de que Bolsonaro é uma alternativa da direita ao impasse da democracia desde o golpe de agosto.

Bolsonaro não foi a um debate na Hebraica. Foi a um evento em que seria aclamado como mito pela maioria das 300 pessoas que estavam ali.

Há quem estranhe que judeus exaltem um fascista com todos os componentes de um nazista do século 21. Outros não veem nada demais, porque os judeus convivem com o paradoxo de que foram perseguidos e massacrados e agora têm um Estado que também persegue e massacra.

O debate é longo, se passar por essas questões. Mas não há debate sobre o resto, sobre o fato de que Bolsonaro não é uma opção política, mas uma excrescência que a própria democracia, tão boazinha, permite que exista.

Os judeus deveriam ter fugido, e não atraído Bolsonaro para o seu reduto. Deveriam ter feito o que Sergio Moro fez quando escapou dele no aeroporto de Brasília.

A imagem dos judeus cariocas ficou mal nessa história. E não venham dizer que judeus, por tudo o que passaram, têm foro especial e devem ser imunes a críticas.

Ninguém beija impunemente a mão de um sujeito que abomina mulheres, negros, índios, gays e possivelmente até os que foram aplaudi-lo.