MORO PRESENTEIA BOLSONARO

O jornal argentino Página 12 diz o que a maioria dos brasileiros está pensando. Que a prisão do jaburu é um presente de aniversário de Sergio Moro para Bolsonaro.
O jornal observa que Bolsonaro e Moro enfrentam momentos difíceis. A prisão desvia a atenção para a Lava-Jato e tenta dar a entender que ninguém escapará.
O Página 12 assegura que, sem a colaboração de Sergio Moro durante a campanha eleitoral, Bolsonaro não teria sido eleito.
A prisão também põe o Supremo contra a parede. Com o STF cada vez mais atritado com o ex-juiz e os procuradores da Lava-Jato, quem terá coragem de autorizar a libertação do jaburu?
O que o jornal não diz é que a prisão terá um alto custo político, com o aumento da desagregação da base parlamentar de apoio ao governo, num momento em que se diz que a reforma da previdência não seria aprovada hoje pelo Congresso.
O jaburu pode, sem querer, puxar Bolsonaro para o penhasco.

O SUL BOLSONARISTA

A última pesquisa do Ibope mostra a devastação na imagem de Bolsonaro, que tem somente 34% de bom e ótimo. O pior dado para ele é este: 53% dos eleitores não confiam no vizinho de Ronnie Lessa.
E o pior dado para nós é este: os moradores do Sul, sempre eles, são os que sustentam o apoio a Bolsonaro. Os sulistas estão ao lado dos evangélicos, dos mais ricos e dos homens na sustentação do desastre.
Os pobres, os jovens, as mulheres e até o Brasil reacionário do Centro-Oeste nunca apoiaram ou abandonaram Bolsonaro. Mas o Sul e os machos resistem.
O Sul dos descendentes de imigrantes que se consideram uma raça superior é há muito tempo a expressão do Brasil bolsonarista, armamentista, xenófobo, homofóbico e racista.

ENTREGARAM TUDO

Um dos filhos de Bolsonaro, o deputado Eduardo Bolsonaro, disse nos Estados Unidos que o brasileiro quer mesmo é entrar sem visto na terra do Trump para ficar por lá como clandestino. Esse pessoal envergonha o Brasil, segundo o rapaz.

Bolsonaro pai disse logo depois que a maior parte dos imigrantes que tentam entrar nos Estados Unidos, incluindo brasileiros, não tem boas intenções.

O pai já havia contrariado os interesses de exportadores brasileiros para os mercados árabes e da China, embarcando numa manobra americana que favorece o mercado americano.

Nos Estados Unidos, o pai disse também que a Amazônia não é mais nossa. E anunciou o decreto que permite que americanos entrem sem visto no Brasil. E ainda fechou um acordo que permite o uso da Base de Alcântara pelos americanos.

Vivemos uma situação inédita no mundo. Um presidente vai à maior potência mundial para defender unicamente os interesses do país visitado. E não ganha nada. Nada.

Não se esperava que ele defendesse o povo, porque o povo nem consegue viajar mais (como fazia nos tempos de Lula e Dilma).

Mas ele não defende nem os interesses dos produtores, nem da classe média que o apoiou. E aí surge de novo aquela pergunta. Como Bolsonaro teve apoio suficiente para se eleger e continua com apoio de boa parte da população?

É simples. Porque os eleitores de Bolsonaro da classe média se acham defensores dos ideais americanos. E os pobres que votaram nele acham que têm os mesmos interesses dessa classe média.

O brasileiro médio tem em Bolsonaro um espelho do que pensa que é. Bolsonaro pensa que, bajulando Trump, banca o esperto. A classe média também. E o pobre de direita faz o mesmo.

Em casos como esses, não são os espertos que vencem, são os imbecis que perdem.

VIZINHOS, ARMAS E PIPOCAS

Vamos imaginar Sergio Moro tentando explicar aos agentes do FBI em Washington (dizem que ele terá encontro com os homens) como o maior traficante de armas do Brasil era vizinho do presidente da República. Não vizinhos de rua, mas do mesmo condomínio de luxo.

O traficante e matador de aluguel era vizinho de Bolsonaro e investigava na internet a vida de um professor desafeto do filho de Bolsonaro. Mas tudo por acaso.

Mas acasos são acasos. Contam que certa vez, nos anos 80, acharam um pipoqueiro vizinho de Lula em São Bernardo do Campo. Soube-se que o pipoqueiro havia juntado um dinheirinho e comprara o apartamento simples ao lado do apartamento de onde Lula e Marisa Letícia moravam.

O pipoqueiro disse ter ficado sabendo do imóvel à venda e pensou que poderia, quem sabe, ser vizinho do líder metalúrgico e depois deputado Constituinte. Era admirador de Lula e, depois que foi morar ali, Lula disse que o reconhecia como vizinho. Um sabia quem o outro era.

Agora, imaginem se forem fazer a mesma pergunta a Ronnie Lessa, o ex-sargento miliciano traficante de armas acusado de ter matado Marielle.

O que ele dirá sobre o fato de que foi morar, como inquilino, há três anos no condomínio da Barra numa casa a poucos metros da casa de Bolsonaro?

Ele pode dizer que não sabia que Bolsonaro morava ali naquelas casas da Barra da Tijuca. Que nem sabia quem era Bolsonaro. Que Bolsonaro não sabia que ele iria morar ali porque nem sabia quem ele era. Que a Barra tem menos de cem condomínios de luxo e que coincidências acontecem.

A vida é assim. Seu vizinho pode ser um pipoqueiro, que sabe quem você é e você sabe que ele existe, ou pode ser um matador de aluguel e traficante de armas, que não sabe que você existe, assim como você não sabe nada dele.

Armas e pipocas. Por coincidência, as duas estouram, mas só uma corrompe e mata.

O OLHAR DE SERGIO MORO

Sergio Moro não erguia a cabeça e não abria os olhos diante das câmeras de TV, enquanto falava para os repórteres sobre a prisão do homem acusado de ter assassinado Marielle.
Por que Moro não conseguia olhar para quem o questionava sobre a prisão do miliciano no condomínio dos Bolsonaros na Barra da Tijuca?
O ex-juiz está diante de um dilema que pode consumi-lo. É insustentável para um caçador de criminosos a convivência com amigos e parceiros de milicianos.
Homens públicos convivem com todo tipo de corrupto. Mas pela primeira vez passam a circular ao lado de cúmplices de milicias que abrigam assassinos de aluguel.
Por mais que Moro diga que não há nada provado contra o presidente, são muitas as conexões da família com milicianos. As homenagens de Flavio Bolsonaro, o dinheiro da caixinha gerida pelo Queiroz, as assessoras parentes de milicianos, o matador que por coincidência é vizinho do presidente.
Moro sabe que foi parar no lugar errado na hora errada, se é mesmo alguém disposto a perseguir o crime organizado. Nada é mais organizado hoje, nem mesmo o tráfico, do que a estrutura e o funcionamento das milícias no Rio.
Moro tem várias opções. A primeira é continuar, para não desistir da vaga ao Supremo, que é seu grande sonho.
A segunda é abandonar Bolsonaro e aliar-se aos militares, no autogolpe previsto já nas eleições por Hamilton Mourão.
E a terceira é ir embora, abrir uma banca para bacanas e ficar rico em poucos anos lidando com os casos de gente do crime empresarial organizado (ou alguém imagina que Moro irá defender os pobres?).
Sergio Moro caiu numa armadilha, porque desejava estar ao lado dos tucanos. O golpe o empurrou para os braços do bolsonarismo. Convivendo com quem convive, Moro pode, a qualquer momento, ser testemunha de algo grave.
Nas entrevistas, o ex-juiz não olhava para baixo, porque nem abria os olhos. Moro olhava para o fosso que pode tragá-lo junto com os Bolsonaros.

Os garotos

Estão preocupados com os generais? Preocupem-se com os filhos de Bolsonaro e suas relações milicianas.
Os generais terão de ser os mediadores do reencontro do país com a democracia pisoteada e degradada pelo bolsonarismo.
Não há outra saída agora que não passe por uma mediação do que resta de sensatez no governo. Não delirem. Não temam os generais, nem imaginem que voltaremos aos tempos da ditadura.
Nem valorizem demais as bravatas tardias de antibolsonarismo de Ciro Gomes.
Prestem atenção nos garotos de Bolsonaro, mais do que no próprio Bolsonaro, que já é um zumbi sem serventia.
Os filhos de Bolsonaro, que agora filmam jornalistas em Brasília para atemorizá-los, são Damares com fuzis. Ou aquelas armas exibidas por eles são de brinquedo?

UMA IDEIA

O Facebook só aceita texto hoje, mas às vezes nem isso. Muita gente tentou e não conseguiu publicar fotos do Bolsonaro e de seus garotos com metralhadoras, fuzis, bazucas e armas de dedinho.

É um bug mundial. Se o Facebook não voltar nunca mais, é preciso arranjar algo para fazer, e Bolsonaro pode pagar o pato.

Sem Facebook, o povo pode finalmente ir pra rua pra derrubar o Bolsonaro no grito.

Mas se o Facebook voltar, a gente repensa a estratégia e talvez volte a fazer apenas combate virtual.

Enquanto isso, fico pensando como deve ser a vida sem Facebook no condomínio dos Bolsonaros e do miliciano acusado do assassinato de Marielle. Deve ser um tédio.

 

MILAGRES

O que reaparece, com a prisão do homem acusado de ter matado Marielle, é que o vereador Carlos Bolsonaro, o Carlucho, também é dono de casa no condomínio da Barra da Tijuca onde o ex-sargento alugava um sobrado.

Carlucho morava com um primo, mas depois se mudou para o condomínio de luxo.

Como é que eles conseguem? Como Bolsonaro e o filho têm casas onde os imóveis custam ao redor de R$ 3 milhões? Como a família Bolsonaro pode ter acumulado um patrimônio de R$ 15 milhões em imóveis?

Que milagres são esses? Como esse sargento amigo deles pagava aluguel de R$ 8 mil? Como o homem foi parar no condomínio de Bolsonaro, há uns três anos, para morar na mesma rua do amigo e quase em frente à casa de Carlucho?

Que coincidências são essas? Será que, depois da eleição de Bolsonaro, o homem achava que ninguém entraria no condomínio sem autorização da Polícia Federal de Sergio Moro?

Como será a noite no condomínio dos Bolsonaros e do amigo dos Bolsonaros que mata por encomenda?

Como será a noite no Palácio da Alvorada? Como serão as noites do outono que está vindo aí?

Como serão as noites dos generais?

CASUALIDADES

O Rio de Janeiro tem mais de 2 milhões de domicílios, incluindo casas, apartamentos, favelas, cortiços, tudo onde alguém possa morar. Está no Censo do IBGE.
O Rio de Janeiro tem 6,7 milhões de habitantes. E o cara preso acusado de ter matado Marielle mora no mesmo condomínio do presidente da República.
Falta procurar agora, como tem dito desde o início da manhã Mônica Benício, a viúva de Marielle, quem matou matar. E por que Marielle foi morta por milicianos, se nunca teve enfrentamentos com milicianos?
O deputado Marcelo Freixo, com quem Marielle trabalhou, também pergunta: ela foi morta a mando de quem?
O provável é que o mandante more ou tenha morado num desses 2 milhões de domicílios.
É preciso procurar. É muito domicílio. Mas essa agora é a missão da polícia, do Ministério Público e da Justiça.
É preciso achar o mandante do assassinato de Marielle. E como diz Mônica, tem que ser já.