Ideia de quem?

Esse delegado da Polícia Federal que pretendia cercar Lula de sabujos da direita estava cumprindo ordens de quem?
O delegado é apenas quem faz a gestão do cárcere. Um delegado não tem nenhum poder para dizer quem deve ou não ser entrevistado. Ninguém tem. Nem Lula nem ninguém pode ser obrigado a falar.
Era só o que faltava o Lula ser obrigado a dar entrevista para o Alexandre Garcia. Saberemos um dia essa história completa. Como saberemos muitas outras histórias desses tempos estranhos.
A direita nunca conseguiu ter todos os seus desmandos encobertos por todo o tempo. Em algum momento a História irá cobrar a conta dessa gente.
Ainda bem que o ministro Ricardo Lewandowski determinou que Lula vai falar apenas para a Folha e o El País, porque esses jornais pediram a entrevista que estava previamente censurada.
Mas a pergunta permanece: quem teve a ideia de sugerir que Lula falasse com jornalistas bolsonaristas?

DELEGADOS DEMOCRATAS

Tem destemor, tem dignidade, tem um vigor que não se via há muito tempo o gesto dos delegados federais em defesa da instituição e contra a manobra para engavetamento das investigações sobre o jaburu-da-mala e sua turma.
Não é pouca coisa. É a melhor notícia do ano. Os delegados, através de suas entidades, enfrentaram o poder de um chefe nomeado pelo jaburu e desafiaram as insinuações do xerife Fernando Segovia de que o comandante do Quadrilhão deve ser poupado no inquérito das propinas dos portos.
Segovia talvez não esperasse a reação. É sinal de que a Polícia Federal tem focos importantes de resistência ao golpe. Que não sejam apenas focos, que eles representem a maioria.
Que vençam os delegados democratas (mesmo que nada se espere da Justiça mais adiante), e não a gangue sob investigação.

Malas

É sobre malas a primeira declaração de impacto do novo diretor da Polícia Federal, Fernando Segóvia. Segundo ele, “uma única mala” talvez não dê o que ele chama de materialidade, para definir se há ou não um crime. Por isso uma mala não é suficiente para incriminar o jaburu.
Conclui-se que a Polícia Federal só lida com muitas malas. Tipo as malas do Geddel. Uma mala para o jaburu (carregada pela mula Rocha Loures) e uma mala para Aécio (levada pelo primo-mula Fred Pacheco) não são grande coisa, segundo o novo diretor da PF.
E nós aqui achando que uma mala é uma mala. Uma mala com R$ 500 mil, pelos novos critérios para definir crime, talvez não seja nem uma pochete. O que será que a turma de Curitiba tem a dizer dos conceitos do delegado sobre mala e malas?

A PF que se despluga dos tucanos da Lava-Jato

As últimas ações da Polícia Federal podem indicar que a instituição será reabilitada, se finalmente conseguir descolar sua imagem da reputação seletiva da turma de Curitiba.

Por muito tempo, na época em que um agente ‘japonês’ foi o símbolo (viu-se depois que precário e corrupto) da PF na Lava-Jato, a corporação correu o risco de ficar marcada como subordinada aos interesses da força-tarefa de Deltan Dallagnol e da vara especial de Sergio Moro.

Tanto que a PF da Lava-Jato de Curitiba chegou a ter um grupo declaradamente tucano, cuja missão seria a de comprometer o PT, Lula e Dilma, enquanto torcia descarada e vergonhosamente por Aécio nas eleições de 2014.

O grupo, flagrado no WhatSapp, acabou por expor a evidente politização da Lava-Jato e constrangeu a porção não-tucana da PF. Nunca ninguém foi punido e, ao que se sabe, afastado por causa da torcida tucana.

Os últimos movimentos, como a prisão de Geddel Vieira Lima, na sequência de outras ações contra a direita corrupta, mostram que, fora de Curitiba, a Polícia Federal deixa de ser subalterna e consegue fazer o que a maioria do país deseja. Que sejam enquadrados também os propineiros golpistas até agora impunes.

A PF e o Ministério Público que se articularam para pegar Geddel são a prova de que a força-tarefa de Curitiba perdeu o controle da caçada aos corruptos e que outros, e não só os ligados ao PT, podem ser encarcerados (mesmo que não se saiba por quanto tempo).

Caçar corruptos já não é monopólio da estranha turma de Deltan Dallagnol e Sergio Moro.

Os federais ameaçados e os tucanos da Lava-Jato

Os policiais federais temem o novo ministro da Justiça. Torquato Jardim teria sido o escolhido do jaburu-rei para esvaziar a ação da PF na Lava-Jato e fazê-la, quem sabe, ficar mais seletiva. Mas por que esse medo só agora?

Vamos relembrar. José Serra e Aécio Neves foram grampeados em conversas entre eles e de Aécio com o delator da JBS em que pedem que o bosta do Osmar Serraglio (a definição é de Aécio) fosse substituído na Justiça. E que derrubassem o chefe da Polícia Federal.

Serraglio era um fraco que deixava a Federal chegar nos corruptos da direita sem criar obstáculos. Ficava lá preocupado em defender latifundiários e grileiros na briga contra posseiros e índios e deixava a Lava-Jato sem controle.

Um ministro forte não permitiria, como insinuavam Serra e Aécio, que os inquéritos da Lava-Jato fossem parar em delegados errados. E que pegassem os frigoríficos. “E vai vir inquérito de uma porrada de gente”, como disse Aécio a Joesley.

Pois agora Torquato Jardim está aí, como homem forte do jaburu, e os federais temem que ele faça o que Aécio, Serra e Joesley queriam que alguém fizesse.

Só que a Polícia Federal foi contaminada pela política muito antes, não por autoridades estranhas, mas por seus servidores. Muito se ouviu dizer, quando Lula e o PT passaram a ser cercados, que o então ministro da Justiça no governo Dilma, José Eduardo Cardozo, precisava (segundo petistas) ser mais presente nas ações dos federais.

Deveria fazer o quê? Deveria, segundo alguns, identificar e mandar investigar, por exemplo, os delegados que, dentro da Lava-Jato, fizeram um grupo em Curitiba que torcia por Aécio e esculachava com Lula e Dilma.

O grupo de cinco delegados foi flagrado no whatsapp chamando Lula e Dilma de antas e exaltando as qualidades do mineirinho que, se sabe agora, estava disposto a mandar matar mulas depois que entregassem suas propinas.

O flagra vergonhoso do bloco tucano no whatsapp foi em 2014, depois das eleições. O líder da turma anti-PT e pró-PSDB era o delegado-chefe da PF na Lava-Jato, Igor de Paula. Igor está até hoje na Lava-Jato (não se tem notícia dos outros delegados tucanos), porque Cardozo não interferiu em nada em Curitiba.

Não se viu, em nenhum momento, um delegado dirigente da associação da categoria, um que fosse, dar entrevistas sobre o caso dos delegados de Curitiba que trocavam gracinhas contra Lula e Dilma na gandaia do whatsapp, como foi denunciado em 13 de novembro de 2014 pelo Estadão.

Mas agora os delegados estão preocupados com o risco de esvaziamento da Lava-Jato ou a infiltração dos homens do jaburu na Federal. Devem ser os mesmos que ficaram quietos quando o Estadão expôs a politização da operação dentro da organização há quase três anos.

Além dos cinco flagrados, quantos mais tentavam (e ainda tentam) tucanizar a Federal para o líder Aécio? Sem falar dos tucanos do Ministério Público e do Judiciário.

Mas naquela época a prioridade era a caçada a Lula e ao PT. Hoje, não sei se alguém sabe dizer ao certo qual é a prioridade da Polícia Federal. Talvez seja o esforço para livrar a instituição do controle dos que ainda conduzem o golpe.

Só que a PF esvaziada pelo protagonismo do Ministério Público na Lava-Jato pode estar reagindo tardiamente.

(Este é o link da matéria do Estadão em 2014)

http://politica.estadao.com.br/noticias/geral,delegados-da-lava-jato-exaltam-aecio-e-atacam-pt-na-rede,1591953

Vazadores caçados e vazadores impunes

 

A grande caçada da Justiça Federal hoje tem foco na Suíça. Mas não para repatriar os R$ 23 milhões que a Odebrecht diz ter depositado lá em nome de José Serra.

A Justiça caça o ex-delegado da Polícia Federal Protógenes Queiroz (foto), aquele que em 2008 tentou pegar o banqueiro Daniel Dantas por crimes financeiros diversos e espionagem de concorrentes (a lista é grande), na famosa Operação Satiagraha.

A Justiça quer Protógenes na cadeia. Ele foi condenado em 2014 a dois anos e seis meses de prisão por vazamento de informações da Satiagraha para a imprensa. Um ano depois, foi demitido da Polícia Federal. O ex-delegado, que se refugiou na Suíça, faltou a uma audiência.

Por acaso, no último dia 26 o ex-ministro Nelson Jobim publicou um artigo na Folha sobre os vazamentos sistemáticos da Lava-Jato e deixou no ar esta pergunta: o que acontecerá com quem passa informações sigilosas à imprensa e comete delito funcional previsto em lei?

Jobim escreveu, a respeito da suspeita de que os próprios procuradores da Lava-Jato vazam as informações: “O Estatuto do Ministério Público da União veda essa conduta. O artigo 246 impõe aos membros da instituição, ‘em respeito à dignidade de suas funções e à da Justiça’, ‘guardar segredo sobre assunto de caráter sigiloso que conheçam em razão do cargo’ e ‘desempenhar com zelo e probidade as suas funções’. A demissão é a penalidade imposta pelo estatuto em tais casos de revelação de assuntos sigilosos”.

Quem adverte é alguém com a autoridade de quem foi ministro da Justiça e presidente do Supremo: os vazadores devem ser identificados, punidos e perder o emprego.

O próprio Jobim relembra ao final do artigo o caso de Protógenes, o delegado demitido da Polícia Federal por delito funcional, quando tentava enquadrar um banqueiro que ninguém consegue pegar.

Agora, Protógenes é caçado. Não perguntem onde está o banqueiro, porque eu não vou responder. E também não perguntem o que foi feito da denúncia de vazamento, publicada pela ombudsman da Folha, Paula Cesarino Costa, na edição do dia 19 deste mês, e reafirmada pela mesma jornalista na edição do dia 22.

Paula diz ter mais de três fontes que asseguram que os vazamentos foram cometidos por procuradores federais. Ninguém se mexeu.

Enquanto isso, Protógenes é caçado e Dantas ri da minha, da sua, da nossa cara.

 

Esgotado

Márcio Adriano Anselmo, o delegado federal que decidiu abandonar a Lava-Jato, “por esgotamento físico e mental”, é conhecido de todos nós. Ele fazia parte da turma de delegados de Curitiba mostrados em reportagem da jornalista Julia Duailibi, do Estadão, em 13 de novembro de 2014.
Ele e outros colegas ficaram famosos torcendo por Aécio na eleição e atacando Lula e Dilma. Cada um torce para quem quiser. Mas envolvido numa complexa operação policial com conotações políticas evidentes? A turma de torcedores de Facebook (que perdeu a eleição, é claro) deve ter sido denunciada na época por um ex-integrante do grupo.
Apenas para lembrar, foi isso que Julia escreveu na Estadão naquela reportagem sobre os delegados:
“Alguém segura essa anta, por favor”, declarou o delegado Marcio Anselmo, ex-coordenador da Operação Lava Jato, em uma notícia cujo título era: “Lula compara o PT a Jesus Cristo”. Ele também falou sobre habeas corpus que foram impetrados nos tribunais a favor dos investigados. “Vamos ver agora se o STF aguenta ou se vai danieldantar”, declarou, numa referência ao banqueiro Daniel Dantas, que teve a prisão revogada pela Corte em 2008.
Ele também compartilhou uma notícia sobre hospedagem de Lula na suíte mais cara do Copacabana Palace. “Assim é fácil lutar contra azelite!!!”, escreveu. Na reta final do 2º turno, fez comentários em outra notícia, na qual Lula dizia que Aécio não era “homem sério e de respeito”. Escreveu: “O que é ser homem sério e de respeito? Depende da concepção de cada um. Para Lula realmente Aécio não deve ser”. O delegado apagou há poucos dias o seu perfil no Facebook”.
Anselmo foi quem indiciou Lula e dona Marisa Letícia no caso do tríplex do Guarujá, em agosto do ano passado. Ele sai agora da Lava-Jato para trabalhar na Corregedoria da PF no Espírito Santo.

Os delegados e os médicos

Na campanha às eleições de 2014, delegados federais da equipe da Lava-Jato em Curitiba formaram um grupo no whatsapp para atacar e depreciar Dilma e Lula e exaltar Aécio. Um grupo aparentemente inofensivo, formado para tirar sarro.
Mas até o chefe deles, o delegado Igor de Paula Romário, participou da turma, depois denunciada por um ex-participante. As mensagens foram publicadas em reportagem do Estadão. O delegado é o mesmo que disse há pouco que Lula será preso dentro de 30 ou 60 dias.
Esta semana, um grupo de médicos também se reuniu no whatsapp para desejar a morte de dona Marisa Letícia, compartilhar os exames médicos dela e trocar mensagens idiotas. E, fazendo parte de outra turma, o procurador de Justiça mineiro Rômulo Paiva Filho escreveu na internet: “Morre logo, peste! Quero abrir logo o meu champagne!”
Para alguns, pode parecer natural que, em meio à disseminação de ódio e imbecilidades, até delegados, médicos, procuradores e outras tantas categorias façam o que andam fazendo. Em muitos casos, é bem mais do que idiotia, é criminoso.
Entidades da área médica anunciam que irão identificar seus filiados. Os torcem pela morte serão punidos. O histórico não recomenda nenhuma expectativa, porque essa é a hora em que se erguem todos os escudos corporativos.
Com o procurador e os delegados também não acontecerá nada, porque há sempre a desculpa da liberdade de expressão (mesmo que a pregação política e as grosserias de 2014 tenham sido feitas entre investigadores de gravata numa operação que não deveria, mas já foi contaminada pela política dentro de todas as instituições).
O que todos sabemos, com base na realidade, e não por nenhuma ‘convicção’ distraída, é que os delegados estavam mesmo empenhados em desqualificar Lula e Dilma e pregar o voto em Aécio. E perderam a eleição.
Alguém pode dizer também que tudo isso parece ter uma coerência, porque de lá de 2014 e até aqui, a PF, o Ministério Público e o Judiciário pegaram Lula (com cinco processos) e dona Marisa Letícia (com dois) e não pegaram nenhum tucano. É verdade. Mas aí é apenas uma casualidade.

Eficiência total

Eike Batista desembarcou em Nova York, acomodou-se no apartamento da Madison Avenue (todo decorado com quadros e bibelôs de Romero Britto), pediu uma pizza e pensou: escapei da Polícia Federal e agora vou ser feliz na Alemanha.
Conferiu de novo o passaporte alemão, recalculou as vantagens e os riscos, pensou em morar em Frankfurt, depois achou que o melhor seria ficar mesmo em Berlim, onde tem conhecidos, e então aconteceu o pior: ficou sabendo que a Interpol já estava com seu retrato de peruca nos computadores de todos os aeroportos.
Não dava mais para escapar. O brasileiro que pretendeu um dia ser o sujeito mais rico do mundo, bajulado e adorado pelos nossos liberais, era apenas um cão sarnoso em Nova York.
Hoje, a Polícia Federal pode dizer que não evitou a fuga de Eike porque tudo estava bem planejado. A PF sabia que ele fugiria, mas teria uma crise existencial, que refletiria sobre o erro cometido e que iria preferir encarar uma cadeia imunda (por tempo indeterminado) a virar um foragido sempre em fuga.
Por isso a operação da PF para pegar Eike Batista se chamou Eficiência. Eike está de volta ao Brasil porque tudo foi pensado, a fuga, o drama na solidão de Nova York, o retorno e a confissão dos crimes.
É provável até que acrescentem um adjetivo para assegurar mais impacto à imagem de uma operação perfeita: Eficiência Total.