CUPINS

Ainda bem que as instituições estão funcionando. Hoje, um dia depois do voto histórico da ministra Rosa Weber, Lula deveria receber seus advogados.
O ex-presidente iria tratar da possibilidade real de libertação, com o voto que restitui o respeito à Constituição e deve assegurar maioria no Supremo contra a prisão em segunda instância.
Mas a Polícia Federal decidiu dedetizar o prédio, exatamente hoje.

Os generais, os milicianos e as almas

Duas instituições terão de reagir com vigor aos ataques que sofrem há muito tempo, ou serão irremediavelmente desmoralizadas.
O Supremo acossado pela fala ameaçadora reincidente de militares e a Polícia Federal sob suspeita de estar sendo manobrada por Sergio Moro e Bolsonaro.
A resposta de STF e PF pode ser a mais óbvia possível: provar, com atitudes, que não se submetem nem a generais sem tropas e sem voz dentro das Forças Armadas e tampouco a grupos articulados com milicianos.
Até o delegado Waldir sabe o que o Supremo e a Polícia Federal devem fazer para que ainda consigam salvar a reputação e a alma.

Manuela D’Avila entregou o celular à Polícia Federal, para que passe por perícia. Tudo porque o hacker que invadiu os celulares dos lava-jatistas telefonou para Manuela para saber como poderia falar com o jornalista Glenn Greenwald.

Entregou por iniciativa própria, e não porque tenham pedido. E aí vem a pergunta aquela: e o celular de Deltan Dallagnol nunca será entregue?

E aí vem a resposta: não precisa mais. Hoje mesmo o UOL divulgou uma rase de Dallagnol em mensagem de 2015 sobre o que fazer com um réu que se nega a aderir ao esquema da delação.

A Lava-Jato não investigava nada, comia e bebia das delações. E Dallagnol, o procurador sem escrúpulos, diz então o que fazer. Essa é a frase, com os verbos no infinitivo: “Colocar ele de joelhos e oferecer a redenção”.

Alguém pode dizer que a Lava-Jato era uma masmorra medieval. Não era. Os réus eram postos de joelhos, mesmo que no sentido figurado, porque Dallagnol é religioso.

O procurador faz pregações com grande eloquência, no púlpito, nos cultos dos domingos de uma igreja Batista do Bacacheri, bairro de Curitiba.

Réus de procuradores religiosos ficam de cabeça baixa e de joelhos. E aí então obtêm a redenção. Dallagnol deve rezar antes, como bom beato, para que isso aconteça.

Dallagnol é bíblico, tem fé. Tanta fé que está certo de que vai escapar de punições no Conselho Nacional do Ministério Público e continuar fazendo palestras por muita grana.

Dallagnol acredita que irá sobreviver porque foi escolhido por Deus. Mas nem um exorcismo será capaz de salvá-lo.

Dallagnol poderia ser um delator a caminho da redenção. Mas a soberba o condena. O diabo ordenou e Dallagnol já está de joelhos.

OS ADVOGADOS E O FASCISMO

E se colar essa tentativa da polícia de pedalar os escritórios dos advogados, sob o argumento de que se beneficiam de eventuais delitos de seus clientes?
A invasão de escritórios de advogados poderá se disseminar pelo Brasil, como tentou ontem a Polícia Federal?
A nova OAB reagiu com vigor, como nos tempos da ditadura, ao fascismo da Lava-Jato moribunda contra um advogado de Lula. Mas quem mais vai reagir? Só a OAB?
(Sempre lembrando que Sergio Moro grampeou os telefones dos advogados de Lula.)

Abaixo, a nota da OAB, assinada pelo presidente, Felipe Santa Cruz:
“A propósito de notícias sobre a deflagração, nada data de hoje (dia 23), da cognominada “Operação Pentiti” pela Polícia Federal de Curitiba, em que há referência à banca do advogado José Roberto Batochio, o Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil vem a público manifestar o seu mais veemente repúdio à violência que se pretendeu exercer contra referido e modelar profissional da advocacia, numa execrável demonstração de que o abuso, nos dias que correm, não conhecem mesmo quaisquer limites.
O advogado jamais pode ser confundido com seu constituinte. Em boa hora o Ministério Público Federal se manifestou contrariamente ao pleito de busca e apreensão formulado pelo Delegado de Polícia Federal e, com acerto e justiça, o Poder Judiciário rechaçou prontamente essa ilegal e abusiva medida, reafirmando a inviolabilidade da advocacia e a preservação do direito de defesa.
É passada a hora de haver, para violências como estas, a necessária e devida repressão, mostrando-se necessária e urgente a sanção da lei de abuso de autoridade aprovada pelo Congresso Nacional.
Felipe Santa Cruz”

SÓ CACHORRO GRANDE

A Lava-Jato tenta sobreviver do jeito que dá, mesmo que provocando guerras destruidoras dentro da Polícia Federal.
Os ataques a setores da polícia que não acompanham o trote de Curitiba estão em reportagem de José Marques, na Folha. Não há limite para que o cenário fique mais assustador.

Força-tarefa da Lava Jato denuncia policiais federais desafetos da operação
Acusados de vazar informações sigilosas, denunciados falam em perseguição após relato de escuta ilegal

José Marques
SÃO PAULO
A força-tarefa da Lava Jato em Curitiba denunciou policiais federais tidos como desafetos da operação, sob a acusação de que eles violaram sigilo funcional e vazaram informações confidenciais.
A denúncia, que está sob sigilo, foi apresentada no último dia 8 à Justiça Federal do Paraná e obtida pela Folha.
Os denunciados negam as irregularidades e afirmam que têm sido perseguidos pelos procuradores. Segundo eles, isso aconteceu após eles terem revelado que uma escuta ilegal gravou, indevidamente, mais de 260 horas (11 dias) na cela do doleiro Alberto Youssef, em 2014.
São alvos das acusações da força-tarefa o delegado Mario Renato Castanheira Fanton, o agente Dalmey Fernando Werlang e ainda Fernando Augusto Vicentine, ex-presidente do Sindicato dos Policiais Federais do Paraná.
Segundo os procuradores, eles revelaram dados sigilosos de um inquérito que apurava a conduta de outros agentes federais e de advogados, suspeitos de tentarem produzir um dossiê contra a Lava Jato.
O Ministério Público Federal diz que os denunciados repassaram essas informações a outro delegado e também à CPI da Petrobras no Congresso.
As polêmicas que envolvem a atual denúncia começaram nos primeiros anos da Lava Jato. Em 2015, foi instalado um inquérito a respeito de “veiculação na imprensa de material depreciativo a policiais federais responsáveis pela Operação Lava Jato” e “confecção de um dossiê com o objetivo de atribuir a prática de ilícitos penais a determinados membros da Polícia Federal”.
Essa investigação acabou arquivada em 2017, a pedido do próprio Ministério Público Federal, por falta de provas.
Fanton era o delegado responsável pelo inquérito e Dalmey, um dos agentes que trabalhavam nessa investigação.
Foi nesse período que Fanton descobriu, segundo documentos internos da Polícia Federal que a Folha teve acesso, que houve, de fato, a instalação de um grampo ilegal na cela de Youssef em 2014.
Quem confessou ter instalado esse grampo foi o próprio agente Dalmey —segundo ele, sob orientação do delegado Igor Romário de Paula, que hoje faz parte da cúpula da PF em Brasília.
Na época, já havia sido feita uma sindicância sobre o grampo, que havia concluído, erroneamente, que a escuta fora instalada em 2008, com autorização judicial, para investigar o traficante Fernandinho Beira-Mar. Com a nova descoberta, a investigação sobre o grampo foi reaberta.
Nos anos seguintes, Fanton virou alvo de diversas ações da Lava Jato —três processos disciplinares e quatro inquéritos policiais, todos arquivados. Em sua defesa, afirmou ser considerado “inimigo” pelos seus ex-chefes.
A denúncia deste mês é mais um episódio dessas trocas de acusações. Segundo o Ministério Público Federal, Fanton vazou em 2015, junto a Dalmey, informações do inquérito que conduziu.
Para basear as acusações, a Lava Jato quebrou o sigilo telemático dos investigados.
A força-tarefa diz que Fanton elaborou um documento chamado “despacho”, com informações que constavam no inquérito —uma cópia desse documento, segundo a Procuradoria, foi remetida a Fernando Vicentine, que presidia o sindicato dos policiais federais no Paraná.
Esse documento foi lido pelo deputado federal Aluisio Mendes (Pode-MA) na CPI da Petrobras.
Fanton, segundo a força-tarefa, ainda repassou informações ao delegado Alberto Iegas, que foi diretor de inteligência policial. Também teria relatado à CPI fatos sigilosos.
Procurada, a defesa de Fanton afirma que a denúncia é “uma tentativa de encobrir os crimes de falsa perícia praticados nos processos da Lava Jato”. Diz ainda que “sindicância falsa sobre a escuta na cela de Youssef” (que negava ter havido escuta) foi usada em processo da Lava Jato, o que poderia levar à anulação de atos da operação.
Também afirma que Iegas foi o delegado que intermediou a ida de Fanton à Corregedoria-geral da PF em Brasília. Ainda diz que o delegado não tem dever de sigilo na CPI da Petrobras “sobre crimes de falsa perícia e denunciação caluniosa que testemunhou à frente do inquérito 737/15, bem como tem o dever de falar a verdade numa sob pena de crime de falso testemunho”. A reportagem não localizou as defesas de Dalmey e Vicentine.
Também procurada, a força-tarefa da Lava Jato em Curitiba afirma que a denúncia “está amparada em provas de materialidade e autoria colhidas em inquérito policial conduzido pela Corregedoria-Geral da Polícia Federal”.
“As mesmas questões referentes à suposta escuta já foram levantadas e afastadas em diversas ações penais porque, embora investigadas, jamais foram provadas. O vazamento das informações sigilosas no curso da investigação policial é um dos fatores que pode ter contribuído para frustrar as apurações”, diz, em nota.

QUEM VAI REAGIR AO APARELHAMENTO?

A Polícia Federal, a Receita e o Coaf estão sendo descaradamente aparelhados. Não há dúvida. A única dúvida é sobre a capacidade de Bolsonaro de completar o serviço e sobre a reação dos servidores desses órgãos.

Se ficarem acomodados, Bolsonaro, Moro e os milicianos irão determinar o que pode e não pode ser feito em instituições decisivas para que os próprios Bolsonaros sejam investigados.

A Polícia Federal já reagiu duas vezes a declarações de Moro e de Bolsonaro. Agora falam que os delegados em postos de comando podem pedir demissão coletiva por causa da tentativa de Bolsonaro de desqualificar o ex-superintendente da PF no Rio Ricardo Saadi e de impor um substituto que não incomode as milícias.

A bola da vez é Marcos Cintra, secretário da Receita, que pode ser degolado a qualquer momento.

No início de agosto, 200 auditores da Receita enviaram um manifesto ao Supremo, pedindo que o STF revisse a decisão de suspender a investigação de poderoso, incluindo ministros da Corte.

Gente ligada à Receita mandou recados pelos jornais com ataques aos ministros do STF, bradando que ninguém, nem os poderosos Gilmar Mendes e Dias Toffoli, está acima da lei.

O que irão fazer agora, quando a caçada é comandada por Bolsonaro, que acusou o golpe ao dizer que tem familiares (um irmão) perseguido pela Receita?

O presidente da Federação Nacional do Fisco Estadual e Distrital (Fenafisco), Charles Alcântara, já disse: “O presidente queria que o irmão ficasse a salvo da fiscalização só por ser irmão dele?”

Mas Alcântara é sindicalista e está fazendo o que lhe cabe. E os auditores que foram se queixar da blindagem do Supremo?

Bolsonaro e Moro estão se livrando de incômodos para a família, para as milícias e para o escondido e protegido Queiroz. Moro só obedece, não manda em mais nada. O Estado foi aparelhado.

QUEIROZ DERRUBA O DELEGADO

Queiroz, o sumido, ajudou a derrubar o delegado Ricardo Saadi da superintendência da Polícia Federal no Rio. O delegado não participa das investigações sobre os milicianos, mas Bolsonaro desconfiava que o policial ajudava informalmente os colegas envolvidos com as sindicâncias. É o que informa a Folha.
Durante a campanha das eleições de 2014, um grupo de delegados, liderado pelo chefe da Lava-Jato na PF, Igor de Paula Romário, formou um grupo no WhatsApp para esculhambar com Dilma e Lula e para torcer por Aécio.
A direita acha que tudo que faz fica impune. Mas um dos membros do grupo passou anonimamente os arquivos com as mensagens para a jornalista Julia Dualibi, hoje comentarista da GloboNews, que publicou as besteiras no Estadão.
No grupo, Lula e Dilma eram “as antas” e Aécio era, segundo Igor, “o cara”. Não vou repetir aqui as mensagens do grupo de tucanos que torcia pela direita e atacava o PT, com o propósito (podem rir) de denunciar que “o comunismo e o socialismo são um mal que ameaça a sociedade”.
A turma se intitulava Organização de Combate à Corrupção. O símbolo era uma caricatura de Dilma com dois dentões, com uma faixa vermelha onde se lia: “Fora PT”.
O ministro da Justiça era José Eduardo Cardozo. Não fez nada. Ninguém fez nada. Nem a PF, nem o ministro, nem o Supremo. Ninguém. A Lava-Jato, se sabe hoje, agia como bem entendia, até com torcida de delegados. Tudo impune.
Pois agora cai um delegado que, sem interferência direta no caso das milícias e dos laranjas dos Bolsonaros, poderia atrapalhar o esquema de proteção ao Queiroz.
E Sergio Moro faz o quê? Finge que não é com ele. A Polícia Federal, pelo que informam de Brasília, não segue mais as ordens de Moro. Bolsonaro manda diretamente na PF, ou tenta mandar. Queiroz agradece.

POLÍCIA FEDERAL DESMENTE O CHEFE

É bem provável que Sergio Moro não mande na Polícia Federal como pensa que deveria mandar. Hoje à tarde o ex-juiz anunciou para a imprensa que a PF iria destruir as provas apreendidas com os hackers de Araraquara.
Chegou a telefonar para autoridades que teriam sido vítimas dos hackers para avisar: tudo será eliminado, fiquem tranquilos.
Logo depois a direção da Polícia emitiu nota dizendo que não é bem assim, que não tem autoridade para deletar, queimar ou triturar nada. E destruir, nesse caso, significaria o quê?
Moro está atucanado para se livrar das provas que o incriminam nos conluios com seu subordinado Deltan Dallagnol.
Ele mandou e desmandou nos procuradores federais da Lava-Jato, que o temiam como chefe poderoso de todos eles, mesmo que o juiz não tivesse relação hierárquica nenhuma com aquele pessoal.
Mas Moro depreciou o Ministério Público e constrangeu toda uma instituição em nome das suas ações como justiceiro.
Talvez não consiga fazer o mesmo com a Polícia Federal, o que é bom para o país e péssimo para um juiz acossado pelas armadilhas que criou. Moro talvez não mande mais nem no Dallagnol.

Ideia de quem?

Esse delegado da Polícia Federal que pretendia cercar Lula de sabujos da direita estava cumprindo ordens de quem?
O delegado é apenas quem faz a gestão do cárcere. Um delegado não tem nenhum poder para dizer quem deve ou não ser entrevistado. Ninguém tem. Nem Lula nem ninguém pode ser obrigado a falar.
Era só o que faltava o Lula ser obrigado a dar entrevista para o Alexandre Garcia. Saberemos um dia essa história completa. Como saberemos muitas outras histórias desses tempos estranhos.
A direita nunca conseguiu ter todos os seus desmandos encobertos por todo o tempo. Em algum momento a História irá cobrar a conta dessa gente.
Ainda bem que o ministro Ricardo Lewandowski determinou que Lula vai falar apenas para a Folha e o El País, porque esses jornais pediram a entrevista que estava previamente censurada.
Mas a pergunta permanece: quem teve a ideia de sugerir que Lula falasse com jornalistas bolsonaristas?

DELEGADOS DEMOCRATAS

Tem destemor, tem dignidade, tem um vigor que não se via há muito tempo o gesto dos delegados federais em defesa da instituição e contra a manobra para engavetamento das investigações sobre o jaburu-da-mala e sua turma.
Não é pouca coisa. É a melhor notícia do ano. Os delegados, através de suas entidades, enfrentaram o poder de um chefe nomeado pelo jaburu e desafiaram as insinuações do xerife Fernando Segovia de que o comandante do Quadrilhão deve ser poupado no inquérito das propinas dos portos.
Segovia talvez não esperasse a reação. É sinal de que a Polícia Federal tem focos importantes de resistência ao golpe. Que não sejam apenas focos, que eles representem a maioria.
Que vençam os delegados democratas (mesmo que nada se espere da Justiça mais adiante), e não a gangue sob investigação.