SÓ O BRASIL TEM ALGUÉM COMO BOLSONARO

A vitória do peronismo kirchnerista nas prévias argentinas induz parte das esquerdas brasileiras, no entusiasmo, a enxergarem Maurício Macri como uma espécie de Bolsonaro portenho finalmente a caminho do fracasso. Não é bem assim. Não há ninguém como Bolsonaro.

Macri é a expressão da direita arcaica argentina, líder de uma família considerada mafiosa, mas não é um Bolsonaro. Tem pai (já morto) e irmão envolvidos com corrupção. Mas quase nada do que diz e faz o aproxima de um legítimo Bolsonaro.

A política argentina não aceitaria um Bolsonaro completo. É impensável imaginar-se alguém que defenda pública e impunemente a tortura na Argentina. Muito menos no Uruguai.

Na Argentina, um político do baixo clero da extrema direita, o deputado Alfredo Olmedo, tentou ser candidato a presidente em outubro e não emplacou.

O homofóbico Olmedo, do Partido Salta Somos Todos Nós, defende a construção de um muro entre a Argentina e a Bolívia, para evitar o tráfico de drogas. Mas ainda não é um Bolsonaro. Lá, a extrema direita é mais folclórica do que perigosa.

No Uruguai, chegaram a propagar que Juan Sartori, candidato derrotado nas prévias do Partido Nacional, seria um novo Bolsonaro.

Sartori tinha a simpatia de Bolsonaro, tentava apresentar-se como anti-sistema, como apolítico e imune à corrupção, porque é um bilionário que não precisa se corromper (como se isso servisse de habeas). É um direitoso, mas não é um Bolsonaro. E foi rejeitado pela direita uruguaia.

Nem o empresário uruguaio Edgardo Novick, do Partido de la Gente, que faz o mesmo discurso de que vai caçar bandidos e traficantes e moralizar o país, é um Bolsonaro.

O que a Argentina fez agora, contrariando muitos dos que viam a América Latina correndo em direção a novos Bolsonaros, foi se proteger de novo no peronismo kirchnerista.

Alberto Fernández e Cristina Kirchner são o contraponto à direita macrista, mas não são tão de esquerda como muitos brasileiros pensam que possam ser.

Os próprios peronistas consagraram, desde o momento da escolha do centrista Alberto Fernández, que a salvação para o kirchnerismo será andar para o centro. Até Macri escolheu um peronista como vice (Michel Pichetto), na tentativa de se reeleger. Não caminhou para a direita, mas para o centro, um pouco até para a esquerda.

Na América Latina, a radicalização que transforma uma excrescência em expressão política relevante só existe no Brasil. Não há como tentar transferir para os vizinhos um fenômeno nacional. Nem o golpista venezuelano Juan Guaidó seria um modelo bolsonarista.

Não há, em nenhum vizinho, alguém capaz de defender torturadores, como Bolsonaro faz, ou simular que irá matar inimigos, como retórica política formadora de base de apoio capaz de levar à presidência da República. Só aqui.

Outros países têm políticos que atacam gays, negros, mulheres e índios e disseminam o ódio e a violência. Mas sem a expressão eleitoral de Bolsonaro.

A democracia brasileira elegeu, a partir do golpe de agosto de 2016, a criatura que talvez estivesse apenas hibernando para finalmente expressar o caráter dos nossos ricos e a ignorância dos nossos pobres.

Não busquem Bolsonaros em outros lugares. Eles não existem com esse poder destruidor da extrema direita brasileira, porque não chegaram ao poder e talvez nunca cheguem.

Bolsonaro presidente é uma aberração nacional, verde-amarela, genuína, terrivelmente única.

QUEM É O MACRI BRASILEIRO?

Um jornalista lembrou hoje na TV C5N que há poucos meses algumas publicações internacionais liberais apontavam Mauricio Macri como um dos cem homens mais importantes do mundo… No Brasil, Macri era adorado.
A mesma TV apresentou uma pesquisa com esse dado assustador: 53% da população da Grande Buenos Aires não consegue pagar a conta de luz. Macri atacou a renda e os direitos dos pobres e dos aposentados e agora quebrou a Argentina.
No final de 2005, ao completar três anos de governo, Lula quitou as dívidas do Brasil com o FMI. Na mesma época, Nestor Kirchner também decidiu pagar ao Fundo tudo o que a Argentina devia.
Em dois anos no poder, desde o golpe de 2016, o jaburu conseguiu quebrar o Brasil e só não recorre ao FMI porque Lula e Dilma deixaram as maiores reservas em dólares da história brasileira.
Na Argentina, em dois anos e meio, Macri acabou com a Argentina e, com a fuga de dólares, provocou a volta do país ao comando do FMI.
E a direita brasileira, desencantada com a insistência de Alckmin em concorrer e com a desistência de Barbosa, ainda corre atrás de um candidato ‘liberal’. Parecido com Macri? Não. Agora, Macri não presta mais.
O candidato liberal da direita brasileira acabará sendo mesmo Bolsonaro.

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OS ABUTRES E OS LIBERAIS

Por que os governos de esquerda de Nestor e Cristina Kirchner enfrentaram, por 12 anos, os ataques dos abutres do mercado financeiro e agora o governo liberal de Mauricio Macri sucumbe aos mesmos abutres que deveriam ser seus parceiros e passa a vergonha de ter de recorrer ao FMI?
Porque os governos de esquerda de Lula e Dilma conseguiram, por 13 anos e meio, até o golpe, aumentar produção e emprego, enquanto o governo liberal de Henrique Meirelles e do jaburu não consegue tirar o Brasil da estagnação e do desemprego e interromper o aumento da miséria?
(A cena de amor entre Macri e Christine Lagarde é de uma montagem que tirei hoje da TV C5N.)

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O JABURU DOS ARGENTINOS

Os abutres do mercado financeiro mundial atacaram o governo de Cristiana Kirchner sem piedade. Mauricío Macri foi eleito com a certeza dos liberais de que as hienas que só pensam em dinheiro iriam confiar na Argentina.
O liberal que os brasileiros adoram como modelo sofre agora os mesmos ataques especulativos e seu governo está à beira do precipício.
O que os liberais brasileiros (ou imitadores de liberais) dizem disso tudo? Que Macri fracassou porque fazia um governo de centro-esquerda. É de rir de se afogar na água do mate.
O sujeito que liderou a máfia da família dentro dos correios argentinos (e chegou ao poder com o apoio do que há de pior no país) governa para os ricos, com inflação em disparada, aumento da pobreza, tarifas e dólar nas alturas. É rejeitado pelo povo e pelos sindicatos, mas não seria de direita…
A verdade é que Macri foi abandonado pelos próprios parceiros. A direita brasileira jogou mais um na sarjeta. Macri é o jaburu dos argentinos.

Direitas e direitas

A direita brasileira fica desamparada e assustada com a queda do ministro da Fazenda da Argentina, enquanto inflação, desemprego e miséria crescem.
Fracassa o arrocho a qualquer custo de Mauricio Macri, que os nossos ‘liberais’ arrogantes têm como inspiração.
Mas na Argentina a direita nunca dorme em paz. Aqui a direita dorme, ronca, baba e ainda sonha com mais um golpe.