Terra da extrema direita

Porto Alegre é a capital com o maior número de painéis (sem assinatura dos autores) de apoio à campanha antecipada e descarada de Sergio Moro.
O Rio Grande do Sul é o Estado que terá o maior número de escolas militarizadas do Abraham Weintraub.
Tinga já disse, com autoridade, que esse é também o Estado mais racista do Brasil.
O RS terá em pouco tempo o maior número de lojas de bugigangas chinesas do véio da Havan.
Por machismo, por acharem que as mulheres devem ficar em casa cuidando dos filhos, temos o menor índice de creches do Brasil.
Somos um dos Estados mais armados. Somos exportadores de bravateiros reacionários para todas as regiões do país, não só em áreas rurais, mas também urbanas.
Porto Alegre já foi o lugar de se pensar coletivamente que um outro mundo é possível. Hoje, temos uma posição privilegiada como modelo de bolsonarismo de bombacha a toda Terra.
Os fascistas conseguiram. Essa é hoje a nossa fama.

Ingênuos?

Uma das reações previsíveis aos efeitos do Pacote das Bombas que destruiu as fundações gaúchas é um argumento batido, que passa a ser repetido por certos jornalistas.
Dizem eles, com ar de sabedoria, que a sociedade, este ente às vezes aparentemente abstrato, deve se organizar para substituir o setor público.
Os governos, dizem esses sábios, não podem gerir e sustentar tudo. Sabe-se que não é bem isso que eles querem dizer, quando o fechamento de fundações põe na rua mais de mil trabalhadores e elimina a possibilidade de uma produção cultural, jornalística e de entretenimento alternativa, mesmo que na periferia do poder concentrador dos meios de comunicação.
O que eles querem dizer é que o Estado não serve mais para oportunizar a prestação de serviços na área da cultura (só se for na Europa), porque tem outras coisas a fazer.
O Estado, é o que eles querem dizer, deve ficar entregue aos amigos de quem estiver no poder e, como uma empresa, pensar em resultados e benefícios para a parceria que fica no entorno.
E o resto? O resto que se vire. O Estado idealizado por certos jornalistas, que apenas reproduzem o discurso da direita, é o Estado que privatiza suas estruturas para alguns.
A este tipo de Estado não interessa lidar com bens e serviços culturais que contemplem o que o setor privado não oferece, porque às empresas só o que importa são as grandes audiências.
Mas este jornalismo adesista é apenas papagaio de donos de vozes mais poderosas, que só pensam em abocanhar as verbas da propaganda estatal e em um palco que seja todo deles.
Estes jornalistas agem assim por ingenuidade, por má fé ou por ignorância mesmo, ou por tudo isso junto e misturado.

A mesma turma

Para piorar, no meio da escuridão, alguns ainda ressuscitam comentários, em tom sério, sobre o tempo em que o Estado teria desfrutado do tal ‘déficit zero’.

E muitos dos exaltadores dos tempos das mágicas contábeis são os mesmos que atacaram as pedaladas de Dilma.

No fim das contas, aqueles lá daquela época das mágicas e estes que estão aí agora têm quase todos as mesmas origens e frequentaram, com pequenas variações, as mesmas turmas.

 

Vocação separatista

gaucho

Defendi certa vez que Rosário e Alegrete se separassem do Brasil, sem se separarem do Rio Grande, e se juntassem ao Uruguai, levando junto Santa Catarina. Foi num grupo pequeno e tive apoio imediato da maioria.

Precisei dizer que estava de brincadeira, e alguns insistiam para que se levasse a proposta a sério. Mas, brincando, brincando, o desejo separatista está muitas vezes apenas hibernando em algum canto do nosso bom senso.

Nós, meridionais, temos vocação para o melindre, a desconfiança, para a suspeita de que a ideia de República chegou aqui à força e incompleta. É uma mania de quem está nos extremos, separado, meio que apartado do resto, como os ingleses. Estamos achando sempre que somos perseguidos.

Vem daí o costume de comemorar todo ano a Revolução Farroupilha e de cantar o hino gaúcho em jogo de futebol. O hino rio-grandense deveria ser cantado lá de vez em quando, em ocasiões muito especiais, e só pelos Fagundes (sim, é como manifesto minha porção separatista).

Divago sobre separatismos porque parece complicado entender os britânicos que desejam voltar a se afastar do resto da Europa. Será que vencerão os que se acham diferentes dos que acolhem refugiados e convivem com as controvérsias do multiculturalismo e – dizem eles – suas ameaças?

Você e eu chegamos a imaginar, em alguns momentos, que o século 21 daria um passo gigantesco no sentido da integração mundial. O movimento inverso é um risco real. Diferentes poderão ser condenados cada vez mais à discriminação e, pior, à rejeição.

Não é assunto para ser tratado com candura. O racismo (e não só a questão econômica) que mobiliza muitos ingleses é o mesmo que mobilizaria vizinhos, colegas, parentes, amigos nossos num plebiscito. E quantos deles descendentes de imigrantes que chegaram aqui como restolho da Europa.

Os nossos xenófobos, nem todos separatistas, tentam negar, mas a maioria teve um ancestral que ficou na dependência de acolhimento em terras estranhas para sobreviver. Se não tivesse sido assim, esse descendente nem existiria. Mas quem consegue dizer isso a um deles?

 

Modelo a toda Terra

macanudo

Quem vai querer saber se o chefe da Advocacia-Geral da União, o gaúcho Fábio Medina Osório, pode cair esta semana por ter usado um jatinho da FAB para uma viagem a Curitiba?

Conto por curiosidade, para saber com quem lidamos nesse governo interino. Osório bateu pé na pista da Base Aérea de Brasília, na semana passada, porque queria porque queria viajar em avião do governo para uma homenagem ao juiz Sergio Moro em Curitiba.

O pessoal da FAB teria dito que ele não podia, que o advogado-geral havia perdido o status de ministro. Mas Osório viajou. Imagine ser ministro sem direito a aviãozinho. Temer chegou a anunciar que iria demitir o homem do carteiraço. Parece que não vai mais. Quem se importa com o chefe da AGU numa hora dessas?

O governo interino é cheio de gaúchos, mas o advogado-geral não parece ser o mais surpreendente até agora. O mais instigante não é nenhuma dessas figuras manjadas do PMDB que estão em volta do poder.

É um novo frequentador das altas rodas, militante avulso do golpe que se anunciou (muito antes do golpe) como previamente poderoso. Mas não chegou a vingar como integrante da copa e da cozinha de Michel Temer. Foi para um almoxarifado.

Este também queria viajar de jatinho em cargo de ministro. Ganhou função de terceira linha de assessor de imprensa, apesar da formação sorboniana.

É da natureza dos golpes não agradar a todos os seus protagonistas e figurantes. Mas os gaúchos deveriam, pela soberba, ter prioridade. Ainda mais os filósofos que servem de modelo a toda Terra – com maiúscula, a Terra, não o filósofo.