O ATORMENTADO

Se a Vaza-Jato já fosse uma investigação criminal (em algum momento será), o procurador Carlos Fernando dos Santos Lima poderia ser um candidato a delator.
Santos Lima é o servidor atormentado pelas arbitrariedades de Sergio Moro, como revelam as conversas divulgadas hoje pela Folha.
O procurador da Lava-Jato sabia que Moro era um autoritário que passava por cima das leis e do bom senso quando impunha como deveriam ser os acordos de delação.
Mas ele era apenas um servidor desconfortável entre procuradores submissos, que cumpriam as ordens do juiz porque Dallagnol achava que assim deveria ser.
Dallagnol foi dominado por Moro e acabou constrangendo os colegas que deveria liderar.
As falas de Santos Lima nas conversas vazadas mostram que os métodos de Moro deixaram sequelas profundas na força-tarefa do Ministério Público.
O procurador aposentado Santos Lima deveria falar, em respeito ao Ministério Público.

A hora de investigar o instituto do procurador endinheirado

Chegou a hora de investigar a fundo os negócios de Deltan Dallagnol, mas sem vacilações. Em março, a Procuradoria-Geral da República travou a criação das Organizações Tabajara do procurador da Lava-Jato. Mas isso não basta.
Com as novas mensagens divulgadas pela Folha, é preciso ir adiante para desvendar por completo a ideia do procurador de criação da fundação com os R$ 2,5 bilhões da multa imposta à Petrobras.
Ninguém mais fala do instituto de Dallagnol, cuja criação teve o aval da vara especial comandada por Sergio Moro, ou não teria sido nem mesmo projeto. A imprensa e o Ministério Público abandonaram o assunto, ressuscitado pelas mensagens agora publicadas.
Dallagnol queria ganhar dinheiro desde 2015, como mostram as mensagens. Mas é preciso ordenar o conjunto de informações que ele passa aos colegas para entender quando a ideia da fundação ainda está viva e quando ele parece optar por outra saída.
Essa mensagem abaixo é recente, de 3 de março deste ano:
“Se fizéssemos algo sem fins lucrativos e pagássemos valores altos de palestras pra nós, escaparíamos das críticas, mas teria que ver o quanto perderíamos em termos monetários”.
Duas semanas depois, a procuradora-geral, Raquel Dodge, determinou formalmente que Dallagnol desistisse da ideia da fundação.
A dúvida é esta: o procurador insistia com o projeto, com outro formato, mesmo sabendo que sua chefe estava tratando do seu plano esdrúxulo e que iria, logo depois, determinar que ele abandonasse tudo?
É a investigação a ser feita. O que as mensagens sugerem é que, ao perceber que a fundação não iria prosperar, Dallagnol agarra-se ao novo projeto da entidade sem fins lucrativos, mas já sabendo que não pode contar com o dinheiro da Petrobras.
O que ele quer, ao criar o grupo de mensagens que trata do assunto com colegas, em dezembro 2018, é ganhar dinheiro. O procurador envolve até a esposa em suas expectativas de ficar rico. Fernanda, a mulher dele, seria dona-laranja numa empresa promotora de palestras.
Esse texto é da Folha: “Cerca de três meses antes de iniciar o grupo para discutir a abertura da empresa, Deltan informou a esposa sobre a lucratividade das palestras apurada até setembro de 2018.
Essa é a mensagem: “As palestras e aulas já tabeladas neste ano estão dando líquido 232k [R$ 232 mil]. Ótimo… 23 aulas/palestras. Dá uma média de 10k [R$ 10 mil] limpo.”
No mês seguinte, como mostra a Folha, o procurador manifestou suas previsões de renda extra para o fechamento de 2018.
“Se tudo der certo nas palestras, vai entrar ainda uns 100k [R$ 100 mil] limpos até o fim do ano. Total líquido das palestras e livros daria uns 400k [R$ 400 mil]. Total de 40 aulas/palestras. Média de 10k limpo”, disse o procurador.
Dallagnol era um homem que fazia contas. O jornalismo ainda deve a grande reportagem sobre a evolução do plano do instituto com dinheiro da Petrobras e de outros projetos para faturar alto.
O Ministério Público não pode continuar calado. Se ficar, estará daqui a pouco diante de algo maior.

OS ARAPONGAS INTERNACIONAIS DA LAVA-JATO

Essa do Moro e do Dallagnol tramando para derrubar Maduro e assim interferir nas eleições no Brasil é a prova do esquema internacional da Lava-Jato.
É nojento demais ler os diálogos publicados hoje pela Folha. O ex-juiz e seus subalternos da procuradoria tramavam para romper um acordo de delação que mexia com questões de outro país, enquanto viviam de delações.
Moro e Dallagnol são duas das figuras mais repulsivas de toda a história brasileira. Porque desqualificaram as instituições que deveriam proteger e imbecilizaram um país ao trabalharem como serviçais dos americanos.
Os dois devem agora ser investigados como agentes internacionais. Os democratas americanos precisam ajudar a desvendar esse escândalo. A Lava-Jato foi uma trama golpista a serviço de estrangeiros, e certamente não só dos Estados Unidos.
Numa democracia de verdade, Moro e Dallagnol estariam presos antes de clarear o dia.
O Supremo vai continuar se acovardando?

MORO PODE SE PREPARAR PARA UMA NOVA TRAIÇÃO

Tentem imaginar, depois do que aconteceu ontem na Câmara, uma reunião de Sergio Moro com sua equipe. O ex-juiz fazendo pregações sobre condutas moralmente inabaláveis, sobre o combate ao crime organizado, as imparcialidades da Justiça, o respeito às leis e, claro, o grande plano de defesa do cigarro nacional.

Tentem imaginar Sergio Moro pregando moralidades numa reunião no Ministério da Justiça com seus assessores, que, segundo o site Antagonista, o porta-voz do fascismo, agora são mobilizados para caçar jornalistas.

Tentem imaginar Sergio Moro dizendo que a lei é para todos, numa reunião com seus assessores do primeiro time, que vão investigar a vida de quem o governo considera inimigo, segundo o site que noticia tudo o que Sergio Moro deseja, mesmo que sejam apenas ameaças.

Tudo o que for imaginado, por mais absurdo que pareça, nunca será improvável no momento em que o bolsonarismo definha e Sergio Moro é massacrado por deputados que finalmente dizem o que ele de fato é.

Tentem imaginar uma reunião no Ministério da Justiça em que, segundo o site manobrado pelo ex-juiz e pelos filhos de Bolsonaro, os assessores de Moro recebem tarefas que só na ditadura eram executadas.

Mas tentem também imaginar que, entre os assessores de Sergio Moro, existem servidores republicanos que poderão fazer o que um deles fez na Lava-Jato, vazando para jornalistas as conversas dos conluios do juiz com o procurador que ele chefiava.

Se investir mesmo no aparelhamento do Estado, como informa o site que fala pelo fascismo, o ex-juiz estará cometendo o mesmo erro que cometeu na Lava-Jato.

Moro estará afundando de novo no pântano da prepotência e das arbitrariedades de quem se acha mas nunca será uma unanimidade.

Alguém do Ministério da Justiça, que pode ser um servidor, um só, irá denunciar seus desmandos, como fizeram com suas conversas com o procurador subalterno.

Alguém que respeita a instituição em que trabalha sempre trai os que aparelham o Estado.

MANDARAM A CONTA PARA SERGIO MORO

O fracasso das manifestações de domingo é a primeira fatura entregue ao ex-juiz que virou político e vê sumir a chance de virar ministro do Supremo, depois da força destruidora dos vazamentos de conversas pelo Intercept.

Agora, Moro é considerado pelos aliados e pelos inimigos políticos apenas um deles. É nesse pantanal que tanto desdenhou que o ex-chefe da Lava-Jato terá de aprender a se movimentar, ou fracassará também em relação às suas pretensões às eleições de 2022.

Moro já está até procurando acertar o tom, como fez na mensagem que despachou pelo Twitter no domingo: “Eu vejo, eu ouço. Lava-Jato, projeto anticrime, previdência, reforma, mudança, futuro”.

É algo na linha da política de autoajuda, mais religiosa, rasa, que tenta se aproximar do povo com o que tem de pior.
Então Moro vê e ouve. E interpreta assim que o povo quer mais Lava-Jato, combate ao crime, nova previdência. E algo mais vago sobre mudança e futuro.

É o ministro da Justiça fazendo média com o chefe e erguendo a bandeira da reforma da previdência, o mais impopular dos projetos políticos das últimas décadas. Mas é o preço a ser pago.

Há um dado a favor desse Moro religioso. Nas manifestações, foi ele, e não Bolsonaro, o mais lembrado em faixas, cartazes e gritos de guerra. A classe média reage à ameaça de enfraquecimento da sua figura diante dos vazamentos e da possibilidade de libertação de Lula.

Mas há mais coisas contra do que a favor dele. Os políticos, inclusive aliados, começam agora a tramar para fragilizá-lo. Desaparece o ex-juiz que caçava o crime organizado e pretendia ser colega de Luiz Fux. Entra no baile o sujeito que não sabe direito o que poderá ser na semana que vem.

Pelas atitudes, pelo discurso ainda enviesado e pela necessidade de sobrevivência, Moro vai se afastando do homem de preto de gravata borboleta, que frequentava as festas tucanas, e tenta construir a figura do juiz do povo que fará política. Por isso ele vê e ouve, como um mestre que aprende com seus discípulos.

Moro tem ingredientes para ser uma das figuras mais esdrúxulas da política brasileira, porque talvez não se livre completamente dos cacoetes dos togados e possivelmente não consiga alcançar o tom dos que pretende imitar.

O chefe da Lava-Jato desaparece aos poucos como caçador de corruptos e é provável que nada surja em seu lugar. O ex-juiz talvez venha a ser enquadrado pela definição que ele mesmo usou para os mais recentes vazamentos do Intercept. Um balão vazio cheio de nada.

O DELATOR QUE DELATOU A LAVA-JATO

A situação dos procuradores da força-tarefa da Lava-Jato é, a partir de agora, mais dramática do que a de Sergio Moro. Os procuradores sabem que qualquer movimento em falso pode acionar o que eles mais temem: a comprovação de que as mensagens saíram de dentro do comando da masmorra de Curitiba.

Esse é o dilema dos procuradores, reforçado pelos vazamentos mais recentes de mensagens em que eles atacam as arbitrariedades de Moro e articulam a delação de Leo Pinheiro, para que Lula fosse incriminado. Eles sabem que o vazamento de suas conversas não foi obra de um hacker.

O hacker não existe. Os procuradores sabem (e sabem bem, porque estão ali todos os diálogos sobre a operação) que alguém de dentro do esquema vazou as conversas.

Eles podem dizer que não reconhecem a autenticidade dos diálogos. Podem insinuar que as mensagens foram manipuladas, que os vazamentos contêm inverdades.

Mas nunca, em momento algum, nenhum dos procuradores disse: eu nunca falei o que foi vazado pelo Intercetp e pela Folha. Nunca disseram de forma categórica.

Eles não podem dizer. Porque sabem que o anônimo que passou os arquivos ao Intercept é ou foi parte do esquema da tropa de choque da Lava-Jato montada a partir de 2014 pelo Ministério Público.

Foram mais de 30 procuradores, com apoio de técnicos e aspones das mais variadas áreas, todos mobilizados pelo esforço de conseguir delações. As investigações, se é que existem, são na verdade a sequência dos rastros deixados pelos delatores em confissões feitas depois de meses de prisão ‘preventiva’.

Os vazamentos são de conversas dos procuradores. Sergio Moro só aparece porque fala com eles.

Os procuradores sabem bem que dificilmente alguém iria hackear mais de quatro anos de conversas. O Telegram também sabe. O Intercept já disse que não existe hacker.

O Intercept não diz e talvez nunca vá dizer, mas é fácil concluir que os arquivos foram sendo guardados por alguém de dentro da baleia. Esse é o tormento dos vazados. É gente deles.

O Brasil ficou sabendo, por obra desse anônimo, que a operação era conduzida pelo juiz, e não pelo promotor, e que métodos no mínimo questionáveis foram usados para que, em nome da lei, da ordem, da moral e da família, delatores incriminassem Lula e o PT.

Pode aparecer a qualquer momento o hacker que entrou no celular de Sergio Moro. Até pode. A Polícia Federal poderá encontrar alguém ou alguns que seriam os acusados do hackeamento.

Mas isso não terá nenhuma relação com o vazamento das mensagens dos procuradores, mesmo que o governo tente criar essa confusão. E temos certeza de que policiais republicanos não deixarão que se crie essa confusão.

E a divulgação dos vazamentos vai continuar. E os procuradores vão continuar dizendo, a cada vazamento, que não reconhecem isso e aquilo. E vão apontar detalhes irrelevantes sobre incorreções na transcrição dos diálogos pelo Intercept, comuns em qualquer tarefa jornalística, por mais simples que seja.

O que eles não dirão nunca é que nunca disseram aquilo que agora ficamos sabendo.

Os procuradores terão de lidar com o mesmo dilema que criaram para os delatores forçados a incriminar Lula. A Lava-Jato gerou um delator, talvez o mais poderoso de todos eles.

A mais assustadora das criaturas é o delator criado pela própria Lava-Jato.

ALCOLUMBRE ACABA COM SERGIO MORO

Pergunte ao cidadão que circula pela Esquina Democrática ou pela Avenida Paulista quem é David Alcolumbre. Ele vai dizer que já ouviu falar, que talvez seja mesmo um político de nome estranho. Mas o cidadão médio não sabe de onde saiu Davi Alcolumbre.

O brasileiro sabe quem é Fabrício Queiroz, mas não quem é Alcolumbre. Até sua eleição para a presidência do Senado, em fevereiro, poucos sabiam em Brasília que alguém em condições de liderar a mais alta casa do Congresso se chamava Davi Alcolumbre.

Pois este amapaense do Democratas, do ex-PFL, aliado de Bolsonaro, eleito para liderar o Senado com o esforço de Onyx Lorenzoni ao enfrentar a turma de Renan Calheiros com galhardia, largou a mais perigosa bola nas costas de Sergio Moro desde o começo dos vazamentos do Intercept.

Não é uma pedrada. É uma bola como aquela que Tostão jogou nas costas de Ancheta na Copa de 70 e deixou Jairzinho pronto para marcar. A bola nas costas do zagueiro uruguaio entortava a coluna, pensamentos, reações, era a perfeita bola nas costas, a bola inalcançável.

Essa é a bola que Sergio Moro tentará rebater, mas sem chance nenhuma de êxito. Alcolumbre, homem que só se tornou poderoso por obra do bolsonarismo, disse a Sergio Moro o que quase todo o Congresso gostaria de dizer: você está agora no jogo da política e só irá sobreviver como político, se é que conseguirá.

Sergio Moro é um ex-magistrado. OAB, juízes ex-colegas, juristas, operadores do Direito não mais o reconhecem como alguém que os representa. Moro agora tem advogado para defendê-lo, é um sujeito acossado por denúncias graves.

Mas faltava alguém do meio político que mandasse o recado que coube agora a Alcolumbre. Ontem à noite, em jantar promovido pelo site Poder360, Alcolumbre disse sobre a situação do ex-juiz: “Se fosse deputado ou senador, estava no Conselho de Ética, cassado ou preso”.

Pronto. Alcolmbre, que não é nem nunca será um Sarney, um Calheiros, um Eduardo Cunha, talvez nem um Severino Cavalcanti, disse o que os congressistas queriam dizer. Que Moro não é mais nada e que poderia estar preso.

Estaria preso, talvez não se fosse senador ou deputado (Aécio e Serra estão?), mas se tivesse alguma militância como petista ou de qualquer outro partido de esquerda. Se não fosse guru da direita, Moro seria hoje a figura mais execrada do país.

Alcolumbre mandou mais um recado a Moro: desista da ideia de que poderá um dia ser sabatinado e aprovado pelo Senado como pretendente a uma cadeira no Supremo.

Sergio Moro é ex-juiz, ex-candidato a ministro do STF e pode, a qualquer momento, ser ex-ministro. Moro está dependurado na ‘reputação’ de Bolsonaro. Sua sobrevivência no cargo depende daquele que um dia ele esnobou em um aeroporto.

Sergio Moro está nu ao lado de Bolsonaro, que lhe alcança o que tem: um manto que talvez já tenha sido usado por seu grande amigo de festas e empréstimos Fabrício Queiroz.

Moro está sob a proteção de uma família enrolada numa investigação por cumplicidade com milicianos.

Um juiz cuidadoso

Sergio Moro, o ex-juiz que não queria melindrar Fernando Henrique, disse o seguinte hoje em nota oficial:
“O ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, não reconhece a autenticidade de supostas mensagens obtidas por meios criminosos, que podem ter sido editadas e manipuladas, e que teriam sido transmitidas há dois ou três anos”.
Não reconhece? Não se lembra do que conversou sobre FH, como também não se lembra das biografias que leu?
Alguém exposto mais uma vez pelos vazamentos de conversas indecorosas não pode dizer apenas que não reconhece as mensagens publicadas pelo Intercept.
Tem de afirmar com vigor: é mentira, eu nunca disse e nunca diria que um político suspeito não pode ser melindrado.
Sergio Moro teria de ser afirmativo, assertivo, categórico, ou não dizer nada.
Por que Sergio Moro não se encoraja e desmente logo o Intercept?
Outra questão. Sergio Moro determinou 115 prisões preventivas na Lava-Jato e repetiu sempre o mesmo argumento: evitar que os acusados destruíssem provas, influenciassem e ameaçassem testemunhas ou fugissem.
Alguns presos preventivos ficaram encarcerados sem julgamento por quase dois anos em nome da preservação de provas.
Sergio Moro e seus procuradores passavam dando aulas com esse ensinamento: destruir provas é crime.
Vamos lembrar então: destruir provas é crime. Incluindo, claro, mensagens com conversas escabrosas em celulares.
Repetindo: destruir provas é crime.

JORNALISMO

Vou reafirmar o que disse ontem, para que a nossa torcida pelo desfecho do escândalo Moro-Dallagnol não nos transforme em seres semelhantes aos que combatemos.
Não podemos repetir as mesmas falas simplificadoras e as mesmas atitudes desqualificadoras de quem ataca o Intercept e o jornalismo.
Então, o que reafirmo agora, como jornalista, é que considero a reportagem de Álvaro Pereira ontem no Fantástico correta e esclarecedora de muitos aspectos que pretensos entendidos em Telegram só ajudam a confundir.
Muitos esperavam, ingenuamente, que o Fantástico fosse acabar com Sergio Moro no domingo. Aí não dá.
A reportagem esclarece, por exemplo, um detalhe decisivo: Sergio Moro já se livrou de boa parte da bronca ao eliminar mensagens e avisar que não usa mais o Telegram.
Por que o ex-juiz fez isso? Porque, como explica um professor da USP, o Telegram armazena as mensagens, mas não preserva as que o próprio usuário elimina. Moro certamente foi orientado a se livrar de rastros no celular, preocupado com uma eventual perícia (e mesmo que a perícia venha a ser feita por gente da Polícia Federal que ele chefia).
Explica-se por isso mesmo a tática do juiz de passar a dizer que não reconhece a autenticidade das mensagens, depois de inicialmente admitir a veracidade das conversas e mais tarde cair em contradição ao dizer que cometeu “um descuido” ao enviar uma “recomendação” a Dallagnol na tentativa de incriminar Lula.
Então, não me convidem para fazer o que a direita vem fazendo. Quem quiser, que veja ou reveja a reportagem e critique, claro, suas tantas imperfeições. Mas não acredito que Álvaro Pereira tenha produzido qualquer conspiração contra o trabalho do Intercept ou contra o jornalismo. O link está logo abaixo.
(Lamento, como muitos lamentaram, que a Globo tenha dado a entender que havia entrevistado o russo criador do Telegram. O único Russo entrevistado até agora é Sergio Moro, que assim era chamado por seus procuradores na Lava-Jato.)

https://g1.globo.com/fantastico/noticia/2019/06/16/conheca-a-vida-exotica-do-russo-criador-do-telegram-aplicativo-que-virou-assunto-nacional.ghtml?fbclid=IwAR17E6MTjdr3HAh_Rdd4G4Q3gWicRF6_CZmv3tWULp9wVyKv9R311QaJ9go

O AMEAÇADOR

“Não cabe ao Poder Judiciário ser guardião dos segredos sombrios dos nossos governantes.”
Juiz Sergio Moro, no dia 27 de novembro de 2017, em evento promovido pela revista Veja em São Paulo.

Pois agora são os segredos sombrios de Sergio Moro e dos procuradores que estão sendo denunciados, e não cabe a ninguém, muito menos ao Judiciário e tampouco ao Ministério Público, tentar proteger o ex-juiz e seus cúmplices.
Judiciário e MP não podem ser acobertadores dos delitos cometidos pelo ex-juiz e os procuradores que ele manobrava como bem entendia em Curitiba.
Mas o procurador aposentado (aos 55 anos) Carlos Fernando dos Santos Lima, que atuou na força-tarefa da Lava-Jato, emitiu uma nota em que ataca o Intercept e ameaça:
“Lembro, por fim que a liberdade de imprensa não cobre qualquer participação de jornalistas no crime de violação de sigilo de comunicações”.
Pela parte que me toca ao compartilhar o que o Intercept publica, digo apenas que não temo as ameaças do ex-procurador, que aparece nos diálogos como submisso às ordens de Sergio Moro.
O jornalismo não pode ser guardião dos crimes cometidos por homens que diziam agir em nome da lei e envolveram o Ministério Público na caçada de um juiz obcecado por um ex-presidente.
Alguém deve temer alguma coisa nesse momento. E não são os jornalistas que denunciaram o conluio.