Vik Muniz e o filho do homem

Um texto de Vik Muniz para Eduardo Bolsonaro, publicado no Facebook. Um dos maiores artistas brasileiros dá nos dedos do filho do vizinho de Ronnie Lessa. E diz que não precisou do pai para crescer na vida.
“Eu vivi ilegalmente nos Estados Unidos por seis anos, trabalhando por uma fração do salário mínimo e sendo constantemente chantageado por patrões exploradores. Eu fiz isso para pagar dívidas de família e ajudar meus pais. Hoje sou representado como americano nos mais importantes museus do mundo, inclusive na embaixada Americana em Brasília. Eu fui obrigado a sair do Brasil por não ver nenhuma condição de desenvolvimento pessoal aqui durante a ditadura. Foi justamente por causa de demagogos baratos como Eduardo Bolsonaro que eu sim, vergonhosamente, fui obrigado a viver longe da minha família para poder ajudá-la. O senhor Bolsonaro devia se envergonhar de um contexto político que propicia tal diáspora e não de pessoas honestas tentando sobreviver em países mais justos do que o que nasceram. Pode ter vergonha de mim, Eduardo Bolsonaro. Meu pai, que nunca precisou me ajudar, não tem. As pessoas vivem no mundo que elas constroem dentro de si mesmas. Eu sinto pena de quem vê o próprio conterrâneo através dessa ótica tacanha e mendicante e se imagina sóbrio o suficiente para imaginar tais asneiras como capital político”.

O FILHO E O OGRO 

O filho de Bolsonaro ataca o próprio guru do bolsonarismo, quando diz que tudo o que os brasileiros querem é entrar sem visto nos Estados Unidos e lá ficar para sempre.

Eduardo Bolsonaro era muito jovem quando Olavo de Carvalho, que agora se considera americano, ganhou espaço nos grandes jornais brasileiros para atacar Lula, o PT e as esquerdas. Tinha espaços permanentes em jornais, revistas, rádios, TV.

Era um dos que tentaram ocupar o espaço deixado pela morte de Paulo Francis em 1997. Fazia conferências, dava consultoria. A elite empresarial o paparicava. Esteve muitas vezes em Porto Alegre.

Olavo sempre foi um blefe da direita, acolhido sem restrições pelos que tentavam evitar que o PT chegasse ao poder. Mas em 2002 Lula foi eleito, e três anos depois Olavo se mudava para os Estados Unidos.

Por que o astrólogo foi embora? Porque a direita o abandonou. Olavo de Carvalho era tão grosso como pretenso pensador do conservadorismo que durou apenas o tempo necessário para fazer os ataques que não evitaram a vitória de Lula. Exposto como grande enganador, foi abandonado.

Os jornais usaram e dispensaram Olavo de Carvalho. Não havia o que fazer com ele. Sem utilidade, foi embora e ficou durante anos morando num rancho na Virgínia.

Quem foi Olavo de Carvalho por mais de 10 anos, até a ascensão do bolsonarismo ao poder? Nada. A direita nunca mais quis saber dele. Mas ele seria útil para a extrema direita adormecida, que via seus vídeos de quinta série no youtube.

O filho de Bolsonaro deve saber que Olavo de Carvalho conseguiu visto de permanência nos Estados Unidos em três anos. Como conseguiu, se poucos com o perfil dele conseguem? Porque Olavo de Carvalho aproximou-se da direita americana.

É morador oficial e de lá faz o que a direita nacional mais gosta de fazer: emite do Exterior palpites diversos sobre qualquer coisa no Brasil.

É o que fazem Diogo Mainardi e seus colegas de Manhattan Connection e outros menos votados. Atacam a esquerda, os índios, os ambientalistas, debocham de professores e de pobres. Tudo o que Francis fazia.

O grande sonho do ‘pensador’ de direita é ir morar no Exterior para de lá atacar tudo o que considera inimigo e manter em estado de alerta a conversa da ameaça comunista. Não vão como exilados, porque não estão sendo perseguidos por ninguém, mas como imitadores do reacionarismo americano, morando lá ou em Veneza.

Olavo de Carvalho é o cara que chegou ao topo. Levou década e meia para ser reconhecido por alguém no poder. Outros continuam tentando. É preciso dedicação. Se Olavo conseguiu, qualquer pangaré pode conseguir.

Folha para o professor

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VIZINHOS, ARMAS E PIPOCAS

Vamos imaginar Sergio Moro tentando explicar aos agentes do FBI em Washington (dizem que ele terá encontro com os homens) como o maior traficante de armas do Brasil era vizinho do presidente da República. Não vizinhos de rua, mas do mesmo condomínio de luxo.

O traficante e matador de aluguel era vizinho de Bolsonaro e investigava na internet a vida de um professor desafeto do filho de Bolsonaro. Mas tudo por acaso.

Mas acasos são acasos. Contam que certa vez, nos anos 80, acharam um pipoqueiro vizinho de Lula em São Bernardo do Campo. Soube-se que o pipoqueiro havia juntado um dinheirinho e comprara o apartamento simples ao lado do apartamento de onde Lula e Marisa Letícia moravam.

O pipoqueiro disse ter ficado sabendo do imóvel à venda e pensou que poderia, quem sabe, ser vizinho do líder metalúrgico e depois deputado Constituinte. Era admirador de Lula e, depois que foi morar ali, Lula disse que o reconhecia como vizinho. Um sabia quem o outro era.

Agora, imaginem se forem fazer a mesma pergunta a Ronnie Lessa, o ex-sargento miliciano traficante de armas acusado de ter matado Marielle.

O que ele dirá sobre o fato de que foi morar, como inquilino, há três anos no condomínio da Barra numa casa a poucos metros da casa de Bolsonaro?

Ele pode dizer que não sabia que Bolsonaro morava ali naquelas casas da Barra da Tijuca. Que nem sabia quem era Bolsonaro. Que Bolsonaro não sabia que ele iria morar ali porque nem sabia quem ele era. Que a Barra tem menos de cem condomínios de luxo e que coincidências acontecem.

A vida é assim. Seu vizinho pode ser um pipoqueiro, que sabe quem você é e você sabe que ele existe, ou pode ser um matador de aluguel e traficante de armas, que não sabe que você existe, assim como você não sabe nada dele.

Armas e pipocas. Por coincidência, as duas estouram, mas só uma corrompe e mata.

Parou por quê?

Deltan Dallagnol desistiu da fundação de R$ 2,5 bilhões da Lava-Jato porque sabe que seria investigado.
Mas eu ainda acho que, mesmo com a desistência e com a decisão do Supremo de suspender o esquema, ele e seus parceiros devem se submeter a uma investigação. Inclusive, e se for comprovado que há delito, com uso do recurso da delação.
Dallagnol tem imunidade assegurada? Por quem? Todos temos o direito de saber o tamanho do rolo que estava sendo armado.
Ações de combate à corrupção não precisam de organizações bilionárias com dinheiro de uma estatal. Precisam de procuradores republicanos.
Procurador não pode ficar pensando em dinheiro.

O youtuber

Fiquei sabendo agora que o fascista australiano que matou 50 pessoas nas mesquitas na Nova Zelândia deixou uma mensagem que repete uma frase consagrada mundialmente.

A frase é: “Assinem PewDiePie”. PewDiePie é Felix Kjellberg, o maior youtuber do mundo, com 89 milhões de seguidores.
E eu aqui no meu canto nunca ouvi falar desse cara.

Agora sei muito dele pela reportagem que a Folha tirou do New York Times. O rapaz de 29 anos é um fenômeno que fatura R$ 50 milhões por ano.

Mas é considerado ídolo de uma certa direita, é antissemita, já fez comentários racistas (citando Hitler) e sugere ser propagador da ideia da supremacia branca.

Esse é o Grande Youtuber, adorado pelos jovens de toda parte e pelo assassino de muçulmanos. Não há saída, ou há?

Os milicianos concordam?

Hoje pela manhã, enquanto tomava meu mate com cannabis ruderalis uruguaia, tentava entender a confusão geral. A Justiça Eleitoral tem competência para investigar caixa dois? O Supremo diz que sim, e Deltan Dallagnol e Sergio Moro dizem que não.
Deltan Dallagnol pode criar uma fundação para se apropriar de R$ 2,5 bilhões de uma multa paga pela Petrobras? Dallagnol e Sergio Moro acham que pode (eles podem quase tudo). Mas Gilmar Mendes, Raquel Dodge e Alexandre de Moraes acham que não.
O Supremo pode determinar que uma investigação apure a disseminação de ofensas e notícias falsas sobre o próprio Supremo?
Deltan Dallagnol acha que não. Raquel Dodge também pensa assim. Mas o presidente do STF acha que pode.
Sergio Moro pode participar de um governo sob suspeita de ligação com milicianos e ao mesmo tempo anunciar uma caçada implacável ao crime organizado?
Pelo menos metade do Brasil acha que não. Moro e Dallagnol acham que sim. Por que os milicianos achariam que não?

Murchou

Deltan Dallagnol ditando lições de combate à corrupção no Jornal Nacional. Mas a voz parece menos assertiva.
Gilmar Mendes abalou a confiança do moço que pretendia se apropriar, com uma fundação tipo Organizações Tabajara, de R$ 2,5 bilhões da Petrobras.
Está ruim a cara de Dellagnol. Está bem murcha, sem brilho. Mas ele é muito religioso. Com fé, ainda pode tentar outro tipo de empreendimento mais modesto.

Lessa, de novo

Eu faço força para acreditar em coincidências, mas estou desistindo. Ainda mais depois dessa notícia que está no 247.
“Após a imprensa revelar em 2017 um atrito entre o então deputado estadual Flávio Bolsonaro (PSL) e o professor da rede estadual Pedro Mara, o ex-policial Ronnie Lessa, acusado de efetuar os disparos que mataram Marielle Franco (PSOL-RJ), pesquisou na internet querendo saber mais detalhes sobre Mara. Lessa está preso e morava no mesmo condomínio de Bolsonaro”.
Deveria estar fazendo a pesquisa também por coincidência? Pra quê? Para mediar a paz entre os dois?
Os Bolsonaros são perseguidos por coincidências.

O dever da memória

ABRÃO SLAVUTZKY

Psicanalista

No canto IX da Odisseia, Homero relata a história dos lotófagos, os que comem loto, um fruto gostoso que gerava esquecimento. Nosso Brasil, desnorteado com a violência crescente, está, aos poucos, aprendendo a não se embriagar com lotos. O dia 14 de março pode entrar para a História como o dia da memória do assassinato da vereadora Marielle Franco e do seu motorista Anderson Gomes. Lembrar sua vida, sua luta pelos Direitos Humanos, incomoda, inquieta os poderes. Lembrar de Marielle é dar voz a ela e ao seu trabalho, logo ela está viva na memória e na prática de sua luta. Aliás, indico o documentário O silêncio dos outros, que relata a luta dos espanhóis pelo dever da memória dos enterrados sem identificação na Guerra Civil Espanhola. Vi o filme com um casal amigo, nos encontramos no cinema; ela espanhola, teve seu pai morto quando era um bebê. Falamos muito do filme, de nosso dever de memória e fui alertado: não esqueça dia 14, dia da Marielle e do movimento feminista.
Na Espanha, no Brasil e no mundo todo, o dever da memória é hoje um novo imperativo categórico. O dever da memória é, na verdade, um dever de humanidade. E esse dever foi seguido no carnaval, no desfile da escola de samba da Mangueira, ao contar a história de índios, negros e pobres esquecidos no País. Houve um carro alegórico corajoso lembrando a ditadura assassina. Aliás, em 2014, nos cinquenta anos do golpe militar, foi editada uma revista de psicanálise, Percurso, número 52. Entre outros temas estão os traumas externos, a tortura, os indígenas, a memória, a clínica do testemunho. É a psicanálise enfrentando o desafio de pensar, escrever sobre o trauma psíquico, o silenciamento, a dor dos filhos desaparecidos em que as marcas do sinistro, do irrepresentável, se fazem presentes. Nenhuma geração pode ocultar das gerações seguintes o que ocorreu, escreveu o velho e bom Freud: temos o dever da memória.
Cedo aprendi que devia conhecer o passado, ao comemorar a festa judaica do Pessach, a festa da passagem da escravidão do Egito à liberdade. Não demorou para fazer a ponte com o Brasil ao aprender o quanto sofreram os negros escravos. Há uns trinta anos, convidado a escrever sobre o colonialismo e os judeus, optei por apresentar “As marcas da escravidão”, que consta no livro Psicanálise e Colonialismo, organizado pelo amigo e professor da UFRGS Edson Luiz André de Sousa. Na adolescência percebi como diferentes identidades podiam se integrar na luta pela liberdade. Muito escutei no velho Bom Fim dos que se mostraram indiferentes diante do antissemitismo e da tragédia do Holocausto. E aí pensei que não podia ficar indiferente ao racismo, ao preconceito contra os judeus, negros, índios, LGBT e pobres. E também não podia ignorar os que foram assassinados, torturados e desapareceram nos tempos ditatoriais e do temível DOPS. Tempos em que se criou a expressão “os inimigos internos” para justificar a luta fratricida. O ódio do passado está de volta hoje, abrindo o caminho ao autoritarismo, à ditadura e ao pior do humano.
Na realidade psíquica, há as marcas mnêmicas, as marcas da memória, que não são esquecidas. Num sonho noturno, essas marcas têm a chance de chegar à consciência. É quando recebemos a visita dos mortos que vivem na memória de cada um. Essas marcas constituem o sistema inconsciente. Hoje, entretanto, me refiro às marcas da memória da História, marcas que não devemos permitir que as águas de março lavem e levem para o esquecimento. Marielle está presente mesmo depois da morte, e a cena das bandeiras da Mangueira com seu rosto tremulam corajosamente. Ontem, dia 14 de março, ocorreram dezenas de manifestações nas cidades do Brasil e também no exterior. Aqui em Porto Alegre milhares cantavam ontem:“Mariele presente, virou semente”. Quem mandou matar Marielle é a questão a não ser esquecida. Definitivamente Marielle Vive. O dever da memória é um dever de humanidade.