A ILHA

O jovem brasileiro é habitante da maior e mais estranha ilha do mundo. Os jovens moram num lugar cercado de revoltas por todos os lados.

Eles sabem de todos os levantes contra os poderosos da direita. Souberam hoje, com fotos, que no Chile até as crianças com mochilas nas costas são perseguidas pela polícia nas ruas.

A ilha brasileira é cercada de tensão, bravura e resistência. Mas, como é uma ilha, o Brasil apenas acompanha o que se passa lá fora. A ilha brasileira é somente espectadora.

Não há outra ilha parecida no mundo. Não existe um país sob democracia aparente em que uma família controle o governo, as redes sociais, os empresários, o Judiciário, as milícias, as igrejas neopentecostais, o fundamentalismo, onde estiver, e parte da imprensa.

Em nenhum outro lugar destruíram, em tão pouco tempo, sonhos, empregos, aposentadorias, escolas, liberdades, o patrimônio e os serviços públicos. Talvez não exista outro país em que o ódio seja disseminado impunemente como no Brasil.

Mas não há como reagir, porque não existem em nenhum outro lugar jovens tão resignados, deprimidos e envelhecidos como os jovens do Brasil.

Os jovens do inverno de 2013, que saíram às ruas para reclamar dos 20 centavos, envelheceram décadas em apenas seis anos. Os black blocs ficaram tão reacionários que alguns teriam virado bolsonaristas.

É complicado, porque não há inquietação, afronta aos déspotas e mobilização de rua sem o vigor dos jovens.

Equatorianos, argentinos, chilenos, russos, peruanos, ucranianos, espanhóis nos mostram isso todos os dias.

Nada é mais triste numa hora dessas do que um jovem que deixou de ser jovem antes do tempo.

O inverno de 2013

Foi há exatos cinco anos, na grande passeata de 20 de junho de 2013, que os jovens perderam o controle dos protestos de rua e a Globo passou a se apropriar da ingenuidade, da desinformação e dos medos da classe média para preparar o golpe. Este é o meu texto publicado hoje no jornal Extra Classe online.

E os jovens dos 20 centavos?

OS JOVENS ENVELHECIDOS

Vi e revi as cenas de estudantes gritando palavras de ordem da direita, ontem, no saguão da PUC. Eram seguidores do juiz Sergio Moro, que participava do Fórum da Liberdade, e de outros ‘gurus’ que muitos desses jovens preferem não dizer o nome.
O mundo sempre teve jovens reacionários e jovens progressistas, além dos indiferentes e ausentes e dos pretensamente neutros. Quem muda o mundo são, claro, os progressistas.
Um jovem até pode ser conservador na Noruega, onde conservar significa manter o que está bom e funciona, em quase todas as áreas. Mas ser mais do que conservador, ser reacionário no Brasil é brabo.
E o que um jovem ganha sendo reacionário, na idade em que deveria ser um instigador e transgressor do que está dado? Ganha mais de 20 anos nas costas e envelhece na adolescência.
Nunca antes o Brasil teve tantos jovens já idosos como agora. O golpe fez muito mal a muitos jovens.

Os jovens

Encontro seu Mércio numa esquina da Avenida Cavalhada. Ele desce da bicicleta e puxa conversa.
Digo que os eleitores de Bolsonaro terão de prestar contas não aos amigos e colegas, mas aos próprios filhos.
Um dia eles terão de dizer aos filhos, hoje adolescentes ou iniciando a faculdade, o que os levou a votar no Bolsonaro.
E aí seu Mércio me interrompe:
– Quanta ingenuidade. A realidade é dura, meu cumpadi. Tem muito filho dizendo aos pais que devem votar no Bolsonaro.
E monta na bicicleta se vai.

ONDE FOI PARAR A REBELDIA?


Uma grande pauta para o grande repórter da TV brasileira. Me perguntam muitas vezes porque ainda vejo o Fantástico. Eu não vejo o Fantástico. Eu fico de tocaia à espera das reportagens do Marcelo Canellas. Como essa que veremos domingo.
Esta é a chamada de Canellas para a reportagem:
“Onde foi parar a rebeldia da juventude? Onde estaria a inquietude benigna que tantas vezes esteve na vanguarda das mudanças na história da humanidade? Domingo, no @showdavida, os efeitos – sobre a juventude brasileira – da grave crise econômica e política em que estamos metidos.O que a chamada “geração Z” pensa da vida? Ao fazer esta reportagem especial, não pude deixar de me angustiar com o país que estou deixando para os meus filhos”.