A LUTA CONTRA O MILICIANISMO BOLSONARISTA

Publico abaixo o trecho final do artigo do jurista e professor da FGV Oscar Vilhena Vieira, uma mente brilhante em meio às sombras desses tempos fundamentalistas. Está na Folha. É impossível fazer uma síntese melhor do que esta:
“O desafio deste momento político, no entanto, não é lidar apenas com a dimensão reacionária e mesmo populista do governo Bolsonaro. Isso é parte do jogo. Como esse primeiro ano de mandato presidencial demonstrou, o sistema de freios e contrapesos, associado ao sistema de liberdades públicas, tem servido de anteparo às medidas mais estapafúrdias e contrárias aos pressupostos do regime republicano.
A questão que se coloca neste momento é como as instituições têm lidado com a dimensão mais corrosiva deste governo, contígua ao populismo reacionário, que é o milicianismo. Aqui a resposta parece não ser tão positiva assim.
A ampliação das invasões de terras indígenas, o aumento das queimadas na Amazônia, o crescimento das mortes pela polícia, os ataques à liberdade de expressão, a total negligência com o sistema educacional e o combate frontal à cultura não decorreram de mudanças propriamente institucionais. Ao contrário, foram consequência de uma ação paraestatal sistemática promovida pela dimensão miliciana do atual governo que provoca a erosão, captura e desgaste das instituições.
O grande desafio da sociedade brasileira em 2020 é dar início a uma ampla concertação político-institucional contra o milicianismo e em favor da República”.

BOLSONARO E OS FILHOS VIVEM COM MEDO

Bolsonaro e os três filhos formam a família mais poderosa e mais atormentada do Brasil. A mais acossada desde o Império. Bolsonaro simula que manda em quem quiser mandar, mas desconfia do porteiro do condomínio e teme os arquivos do major Olímpio, do delegado Waldir, de Bebianno e de Joice Hasselmann.

Os filhos de Bolsonaro desconfiam de todos que dizem confiar neles. Não há filhos mais assombrados por sombras e medos do que os três filhos de Bolsonaro.

Eles temem traições entre os milicianos. Desconfiam do Queiroz, dos parentes do Queiroz, dos laranjas insatisfeitos com a partilha das rachadinhas, dos robôs das fake news.

Os Bolsonaros desconfiam do vice Hamilton Mourão. Não podem confiar em Rodrigo Maia. Bolsonaro abandonou o próprio partido por desconfiar dos gestores do cofre. E desconfia de Witzel.

Tudo do entorno dos Bolsonaros gera desconfiança. Bolsonaro sempre soube que os grandes empresários não confiam nele, muito menos os banqueiros. Os investidores estrangeiros sabem que ele não sabe de nada.

A família Bolsonaro não dorme em paz, como as famiglias da Sicília. Os Bolsonaros não sabem mais quem são seus inimigos, porque não sabem há muito tempo quem são seus amigos.

Desde aquela noite em que Bolsonaro comemorou a vitória gritando que eliminaria os marginais vermelhos na ponta da praia, a maldição abateu-se sobre o pai e os filhos.

Não são mais os velhos adversários que os Bolsonaros precisam abater. Desde aquele momento, desde a comemoração com o alerta aos inimigos, que os amigos dos Bolsonaros são suas verdadeiras ameaças.

Os Bolsonaros nunca temeram tanto os inimigos que o pai ameaçou matar quanto temem os ex-amigos. Temem os acordos não cumpridos com os coronéis do Congresso e os parceiros do Judiciário.

Temem a memória e a alma de Marielle Franco e os rastros deixados pelos seus assassinos. Temem a presença de Sergio Moro, mesmo que o ex-juiz e Bolsonaro precisem sobreviver abraçados, até o dia em que um deles será obrigado a dar o bote. Pela frente mesmo, porque já é um bote esperado.

Bolsonaro não tem tempo para governar, porque é ocupado pela tensão permanente e pelo medo de ser traído. Bolsonaro não confia em Trump, nem em Paulo Guedes, porque Guedes fala como candidato e quer ocupar o lugar do chefe no coração do empresariado e dos golpistas.

O governo já demitiu seis generais, porque Bolsonaro não acredita na fidelidade deles. Ele, os filhos e seus subalternos fiéis tentam cuidar de cada movimento dos 2.500 oficiais empregados no governo.

Os Bolsonaros não confiam nos bispos neopentecostais e não podem confiar em ninguém da direita, dentro ou fora dos templos, porque a direita abandona seus perdedores, como abandonou Collor, Aécio, Serra, Eduardo Cunha.

Os Bolsonaros só confiam em Olavo de Carvalho, mas esse não tem poder real, não tem quartéis e nem votos. Olavo de Carvalho é o rasputin dos Bolsonaros, só tem a poção da Terra plana.

Mas os Bolsonaros ainda não estão diante de todos os seus medos. Um dia, daqui a pouco, eles poderão temer os próprios Bolsonaros, quando uns terão medo dos outros, e aí talvez já nem estejam mais no poder.

MORO, O SUPREMO E AS MILÍCIAS

Todas as análises sobre o comportamento de Sergio Moro indicam que o ex-juiz não responderá às provocações de Lula porque ainda quer ser ministro do Supremo.
Moro não fez referência direta a Lula, no tuíte em que afirma que não responde a criminosos. O ex-juiz tenta se cuidar, porque atritos políticos diretos podem prejudicá-lo.
Mas Lula sabe que, ao atacar Moro, denuncia mais do que suas perseguições como justiceiro de Curitiba.
O que Lula disse ontem é que o governo se submete aos interesses de milicianos.
Se Moro é estrela desse governo, estamos diante de uma situação no mínimo esdrúxula.
Será a primeira vez que um aspirante a uma cadeira no Supremo tem laços com pessoas ligadas às milícias.
O Supremo aceitaria um ex-juiz que deixou a magistratura para ser ministro de Bolsonaro e da extrema direita no poder?
Pior do isso: a mais alta Corte do país pode ceder uma cadeira a alguém que compartilha sua autoridade com figuras acusadas de vínculos com milicianos?
As milícias, que ocupam espaços em todas as áreas, podem se dedicar ao sonho grandioso de se sentirem representadas no Supremo?

O PODER DE QUEIROZ

O áudio em que Queiroz ressurge como participante da partilha de cargos dos Bolsonaros em Brasília é um deboche largado no colo do Ministério Público, do Supremo e de todo Brasil alienado e acovardado.
“Tem mais de 500 cargos lá, cara, na Câmara e no Senado. 20 continho caía bem”, diz o chefe dos laranjas dos Bolsonaros.
Não interessa se ele está blefando. O blefe também é um deboche. O que o miliciano diz é que ele sabia de tudo no Rio e agora sabe como as coisas funcionam em Brasília.
Queiroz pode aparecer amanhã dizendo que ele é quem chefia a distribuição de cargos nos gabinetes do pai e dos filhos, e não acontecerá nada.
Queiroz tem o controle da situação e da família. Os Bolsonaros brigam com aliados, com generais, com a China, com a Argentina, mas não brigam com Queiroz.
Em qualquer democracia séria, polícia, Ministério Público e Judiciário seguiriam os passos, o dinheiro, os laranjas e os empréstimos de Queiroz para chegar aos donos do poder.
O Ministério Público do Rio bem que tentou, mas foi amordaçado pelo Supremo. Queiroz é mais temido pelos Bolsonaros do que os generais dissidentes.
Os generais mandados embora nem tropas têm mais. Queiroz tem as milícias e conhece tudo o que os Bolsonaros fizeram nas últimas décadas.
Queiroz vale muito mais do que vinte continhos.

E OS MILICIANOS?

A Lava-Jato tenta limpar a barra e, num momento ruim, anuncia que investiga bancos suspeitos de omissão ou conivência com a lavagem de dinheiro.
O que se conclui: é possível até investigar os bancos, mas poucos se atrevem a tocar nos milicianos do Rio amigos dos Bolsonaros.
Os promotores que tentaram, no caso do Queiroz, se deram mal.

UMA CIDADE SOB CONTROLE DOS FASCISTAS

Uma cidade que se cala, como o Rio se calou, diante do assassinato de uma criança por milícias do próprio Estado que deveria protegê-la, é uma cidade que não pode exigir o respeito de ninguém.
Se não reagir amanhã, se continuar alienado, se permanecer indiferente à matança de pobres, negros e crianças, o carioca estará dizendo que aceita a barbárie de Witzel porque não tem forças para enfrentá-lo.
O carioca elegeu um pastor pilantra como prefeito e um juiz justiceiro como governador e construiu a carreira de uma família orientadora e inspiradora de tudo o que esses dois têm de pior.
O Rio incapaz de reagir ao extermínio ordenado pelo governo não precisa dizer que está indignado com o assassinato de Ágatha. Indignação é a palavra mais gasta e imprestável do Brasil do bolsonarismo.
O carioca deveria reagir, parar a cidade e derrubar pela força das ruas o governador criminoso que o massacra com tiros de fuzil. Mas o carioca dorme quieto, sabendo que amanhã os milicianos de Witzel voltarão a matar os pobres.
Se a polícia não matar um rico na Barra ou em Ipanema, a classe média continuará dormindo sem culpas.
O Rio é hoje a cara do Brasil dividido, quebrado, sem emprego, sem direitos, sem perspectivas, mas bovinamente submetido ao controle absoluto do fascismo bolsonarista.

O porto dos milicianos

A Globo cutucou Bolsonaro no JN com a pauta das máfias do contrabando do Porto de Itaguaí, no Rio.
As máfias derrubaram o comando dos auditores fiscais e o superintendente da Polícia Federal, que vinham reprimindo os contrabandistas.
A bandidagem do contrabando trabalha articulada com os milicianos amigos da família Bolsonaro, que controlam a região.
O que Sergio Moro pensa disso tudo? Moro é muito cuidadoso e não comenta nada que envolva as milícias.

A AMPLIAÇÃO DAS MILÍCIAS

Está nos cantinhos dos sites. Nenhum jornal da grande imprensa teve o peito de dar em manchete a declaração de Bolsonaro ontem em Santa Maria, quando finalmente explicitou em discurso o objetivo do armamentismo bolsonarista:
“Nossa vida tem valor, mas tem algo com muito mais valoroso do que a nossa vida, que é a nossa liberdade. Além das Forças Armadas, defendo o armamento individual para o nosso povo, para que tentações não passem na cabeça de governantes para assumir o poder de forma absoluta. Temos exemplo na América Latina. Não queremos repeti-los. Confiando no povo, confiando nas Forças Armadas, esse mal cada vez mais se afasta de nós”.
(Vi ontem no Diário de Santa Maria os vídeos da visita de Bolsonaro. Havia uma certa euforia histérica nas ruas da cidade universitária. Tem alguma coisa na água e no ar de Santa Maria.)

O SENADOR APENAS AMIGO DOS MILICIANOS

Li agora mas parece ser gozação. Uma nota do senador Flávio Bolsonaro anunciando que vai processar o jornalista Ancelmo Gois, do Globo.
Diz a nota, sobre um texto de Ancelmo a respeito da tragédia do desabamento dos prédios construídos pelas milícias no Rio:
“Em sua coluna de hoje, Ancelmo Gois afirma que eu apoio milícia, cometendo um crime contra mim e atingindo minha honra. Vai ter que provar no Judiciário, pois vou processá-lo cível e criminalmente. Enfia meu nome no meio de um assunto que não tem absolutamente nada a ver comigo, no único intuito de atacar um Bolsonaro. Ignora a dor de familiares que perderam seus entes queridos para explorar politicamente a tragédia. Sempre apoiei e continuarei apoiando POLICIAIS!”
Flavio Bolsonaro poderá dizer que não apoia milicianos. Mas que apenas dá emprego a parentes e amigos de milicianos.
E que elogia, exalta e concede honrarias a milicianos (como fez quando era deputado).
E que mantinha um motorista ligado a milicianos que gerenciava uma caixinha com parte dos salários dos seus assessores.
Ele pode admitir que fazia tudo isso, porque há provas de que fazia. Há provas até de que tira fotos fazendo pose com milicianos.
Mas apoiar milicianos? Nunca.