A AMPLIAÇÃO DAS MILÍCIAS

Está nos cantinhos dos sites. Nenhum jornal da grande imprensa teve o peito de dar em manchete a declaração de Bolsonaro ontem em Santa Maria, quando finalmente explicitou em discurso o objetivo do armamentismo bolsonarista:
“Nossa vida tem valor, mas tem algo com muito mais valoroso do que a nossa vida, que é a nossa liberdade. Além das Forças Armadas, defendo o armamento individual para o nosso povo, para que tentações não passem na cabeça de governantes para assumir o poder de forma absoluta. Temos exemplo na América Latina. Não queremos repeti-los. Confiando no povo, confiando nas Forças Armadas, esse mal cada vez mais se afasta de nós”.
(Vi ontem no Diário de Santa Maria os vídeos da visita de Bolsonaro. Havia uma certa euforia histérica nas ruas da cidade universitária. Tem alguma coisa na água e no ar de Santa Maria.)

O SENADOR APENAS AMIGO DOS MILICIANOS

Li agora mas parece ser gozação. Uma nota do senador Flávio Bolsonaro anunciando que vai processar o jornalista Ancelmo Gois, do Globo.
Diz a nota, sobre um texto de Ancelmo a respeito da tragédia do desabamento dos prédios construídos pelas milícias no Rio:
“Em sua coluna de hoje, Ancelmo Gois afirma que eu apoio milícia, cometendo um crime contra mim e atingindo minha honra. Vai ter que provar no Judiciário, pois vou processá-lo cível e criminalmente. Enfia meu nome no meio de um assunto que não tem absolutamente nada a ver comigo, no único intuito de atacar um Bolsonaro. Ignora a dor de familiares que perderam seus entes queridos para explorar politicamente a tragédia. Sempre apoiei e continuarei apoiando POLICIAIS!”
Flavio Bolsonaro poderá dizer que não apoia milicianos. Mas que apenas dá emprego a parentes e amigos de milicianos.
E que elogia, exalta e concede honrarias a milicianos (como fez quando era deputado).
E que mantinha um motorista ligado a milicianos que gerenciava uma caixinha com parte dos salários dos seus assessores.
Ele pode admitir que fazia tudo isso, porque há provas de que fazia. Há provas até de que tira fotos fazendo pose com milicianos.
Mas apoiar milicianos? Nunca.

PEDE PRA FICAR, PADILHA

José Padilha, o cineasta que ajudou a propagar o ódio contra o PT e contra Lula e a exaltar Sergio Moro como herói nacional, saltou fora. Escreveu na Folha para dizer que Moro é uma farsa.
Por que Padilha e outros escrevem só agora para dizer que fizeram essas descobertas, quando todo mundo sabe que eles já sabiam que Moro apenas fazia (e continua fazendo agora como bolsonarista) o jogo do antipetismo?
Que história é essa de descobrir agora que Moro vai proteger as milícias e que as milícias estão dentro do governo?
Por que Padilha, que sabe tudo de milícias, só pediu pra sair agora, quando a direita gostaria que ele pedisse pra ficar abraçado a Bolsonaro?
Por que abrir a boca quando todo mundo já sabe que os amigos dos milicianos detêm o poder compartilhado com Sergio Moro?
O que não deu certo nos planos de Zé Padilha?

…………

Este é o artigo:

O ministro antiFalcone

Pacote de Moro contra o crime vai fortalecer milícias

José Padilha

Sergio Moro sabe que:
1 – As milícias são organizações criminosas controladas por policiais civis e militares corruptos e violentos;
2 – Esses policiais utilizam o aparato do Estado, como armas, helicópteros e caveirões, para expulsar o tráfico e dominar as favelas;
3 – As milícias cobram por proteção e dominam atividades econômicas importantes nas áreas que controlam: distribuição de sinais de TV e de gás de cozinha e transporte alternativo;
4 – As milícias decidem quem faz propaganda eleitoral nas suas áreas e financiam campanhas políticas;
5 – Milicianos e políticos ligados a milicianos foram eleitos no Brasil para cargos legislativos e executivos em níveis municipal, estadual e federal.
Mesmo sabendo de tudo isso, o ministro Sergio Moro declarou que as milícias representam a mesma coisa que as facções criminosas dentro das prisões, sugerindo que esses grupos operam como o varejo do tráfico de drogas.
Ora, o leitor sabe que sempre apoiei a operação Lava Jato e que chamei Sergio Moro de “samurai ronin”, numa alusão à independência política que, acreditava eu, balizava a sua conduta. Pois bem, quero reconhecer o erro que cometi.
O ministro da Justiça, Sergio Moro, durante participação no Fórum Econômico Mundial, em Davos (Suíça) Fabrice Coffrini – 22.jan.2019/AFP
Digo isso porque não há outra explicação: Sergio Moro finge não saber o que é milícia porque perdeu sua independência e hoje trabalha para a família Bolsonaro. Flávio Bolsonaro não foi o senador mais votado em 74 das 76 seções eleitorais de Rio das Pedras por acaso…
O pacote anticrime que Sergio Moro enviou ao Congresso —embora razoável no que tange ao combate à corrupção corporativa e política— é absurdo no que se refere à luta contra as milícias. De fato, é um pacote pró-milícia, posto que facilita a violência policial.
Se Sergio Moro tivesse estudado os autos de resistência no Brasil teria descoberto que:
1 – Apenas no Rio de Janeiro, a cada seis horas, policiais em serviço matam alguém;
2 – A versão apresentada por esses policiais costuma ser a única fonte de informações nos inquéritos instaurados em delegacias para apurar os homicídios;
3 – Como policial tem fé pública, a sua versão embasa a excludente de ilicitude, evitando a prisão em flagrante;
4 – A Polícia Civil, além de raramente escutar testemunhas ou realizar perícias no local dos assassinatos, tem mania de desfazer as cenas do crime para prestar socorro às vítimas, apesar de a maioria delas morrer instantaneamente em decorrência de disparos no tórax;
5 – Desde 1969, quando o regime militar editou a ordem de serviço 803, que impede a prisão de policiais em caso de “auto de resistência”, apenas 2% dos casos são denunciados à Justiça e poucos chegam ao Tribunal do Júri.
Aprovado o pacote anticrime de Sergio Moro, esse número vai tender a zero. Isso porque o pacote prevê que, para justificar legitima defesa, bastará que o policial diga que estava sob “medo, surpresa ou violenta emoção” —ou, ainda, que realizava “ação para prevenir injusta e iminente agressão”.
O hábito que os policiais milicianos têm de plantar armas e drogas nos corpos de suas vítimas para justificar execuções é tão usual que deu origem a um jargão: todo bom miliciano carrega consigo um “kit bandido”. Aprovado o pacote de Moro, nem de “kit bandido” os milicianos precisarão mais.
Sergio Moro nunca sofreu atentados e nunca lidou com a máfia. Mas o juiz Giovanni Falcone, em quem o ministro diz se inspirar, foi morto aos 53 anos de idade na explosão de uma bomba colocada pela máfia em uma estrada. Sua mulher e três seguranças morreram com ele.
O crime foi uma reação da máfia à operação “Maxiprocesso”, que prendeu mais de 320 mafiosos na década de 1980. Ela deu origem à operação “Mãos Limpas”, que mostrou que a máfia elegia e controlava políticos importantes na Itália.
Ora, no contexto brasileiro, é obvio que o pacote anticrime de Moro vai estimular a violência policial, o crescimento das milícias e sua influência política. Sergio Moro foi de “samurai ronin” a “antiFalcone”. Seu pacote anticorrupção é, também, um pacote pró-máfia.

José Padilha

Cineasta, diretor dos filmes “Tropa de Elite” (2007) e “Tropa de Elite 2” (2010).

As escolas do Rio ficam agora à espera do bom jornalismo (e da ciência política) para que se compreenda a dimensão da trincheira que criaram na resistência democrática. E que resistência.
O que se viu na Sapucaí é a arte popular tentando sobreviver ao avanço do moralismo neopentecostal e da extrema direita aliada aos milicianos, porque tudo está misturado. Não é gente de esquerda. É gente tentando dar sobrevida à expressão da sua alma.
Parece meio doido que a cidade da maior festa popular do planeta tenha que dizer ao próprio prefeito corrompido e corruptor do fundamentalismo político-religioso: nós, o povo, o elegemos, mas nós resistiremos a esse erro.
É um paradoxo, porque o eleitor de Crivella e dos Bolsonaros também está ali naquele ambiente difuso e gasoso. As escolas conseguirão enfrentar o bolsonarismo, afrontado este ano de todas as formas na Sapucaí? E sem falar dos blocos de rua.
Repórteres que sabem tudo sobre as perucas da Bruna Marquezine estão desafiados.
Que nos digam logo como as escolas se armaram para resistir à tentativa de revanche da direita, da extrema direita, do militarismo, do fundamentalismo e das milícias, inclusive as ditas religiosas.

AS MILÍCIAS E A GLOBO

Todos os dias o Globo traz alguma reportagem sobre as milícias e os Bolsonaros. Hoje, não achei nada, até porque não há como manter o assunto em pauta todo tempo.
O Brasil já teve e tem políticos ligados descaradamente a grileiros, desmatadores, assassinos de índios, banqueiros, sonegadores, juízes e todo tipo de mafioso.
Mas o país não sabia (apenas desconfiava) que tinha políticos envolvidos com milicianos e suas famílias. É o que o Globo tenta dizer todos os dias.
E vai continuar dizendo, porque o grande duelo do bolsonarismo é o do pai e dos manos com a Globo.
O enfrentamento mortal dos Bolsonaros não é com as esquerdas, a igreja Católica, o papa, os sem-terra, os sem-teto, os partidos.
Não é com os movimentos sociais, os estudantes, os professores. Não é, por enquanto, com nenhum deles, até porque a capacidade de reação de todos esses grupos está fragilizada.
Por enquanto, o duelo explícito, descarado, a guerra aberta para matar ou morrer, desde o começo do governo, é com a Globo. Os Bolsonaros atiram e a Globo responde.
Por isso o Globo não pode deixar de nos informar, todos dias, alguma coisa sobre a relação das milícias com os Bolsonaros.
Hoje, senti falta. Não achei nada sobre as milícias do Rio das Pedras. Mas posso ter sido distraído.

Mistério?

Como a ligação dos Bolsonaros com as milícias ficou intocável antes e durante a campanha eleitoral?
Que incompetência coletiva (principalmente das esquerdas) livrou a família da confusão que só agora os Bolsonaros enfrentam?
Como Queiroz e os amigos do Rio das Pedras circulavam incólumes nos mesmos ambientes dos Bolsonaros durantes anos (e por eles eram protegidos), sem nenhum incômodo?
Falharam todos, inclusive o jornalismo que só faz o óbvio desde o golpe.
Mas o que falhou mesmo foi a política.

O gesto desesperado de Jean Wyllys

É mais do que um gesto pessoal, é um gesto político devastador para a imagem do Brasil. Jean Wyllys decidiu não assumir o terceiro mandato de deputado federal pelo PSOL. Vai deixar o Brasil para tentar sobreviver como exilado em algum lugar.
O mundo ficará sabendo como uma perseguição implacável tira do Congresso e afugenta do país um político que não consegue mais resistir aqui dentro.
Jean Wyllys é ameaçado de morte pelas milícias, há muitos anos, as mesmas milícias e máfias cariocas ligadas à morte de Marielle e à família de Bolsonaro.
Em 2014, Wyllys foi o deputado mais votado do Rio, com 144.770 votos. Em 2018, foi atacado por todos os lados e acusado até de pedófilo pelos bolsonaristas em campanha pelo WhatsApp.
Teve 24.295 votos e quase não se elegeu, apesar de ser o único candidato com apoio gravado em vídeo por Chico Buarque. A extrema direita destruiu Jean Wyllys, que passa o dia todo sob a proteção de uma escolta especial.
“Quero cuidar de mim e me manter vivo”, disse em entrevista à Folha.
Wyllys é perseguido por ser gay assumido, por ser de esquerda, por ser humanista e, principalmente, por ter enfrentado Bolsonaro na Câmara.
Que proteja sua vida como asilado em outro lugar e nos ajude a resistir, onde estiver e do jeito que for possível.

MILÍCIAS

O filósofo Marcos Nobre lança uma pergunta que pode contribuir para a ideia de que ninguém deve largar a mão de ninguém e para que esse apelo por solidariedade e cumplicidade seja mais do que uma frase.

Nobre fala em entrevista ao El País de um medo antigo, relacionado não só com a perseguição dita ‘institucional’ do previsível aparelhamento do Estado pelo bolsonarismo, mas pela possível ação de grupos que se sentem autorizados a agir com violência contra quem considera inimigo.

Qual será a força dessas milícias informais que podem agir não em nome da moralidade que a extrema direita prega, mas dos ódios e dos ressentimentos acumulados contra quem identifica como adversário ou ameaça.

Já escrevi aqui sobre a performance grotesca de um vizinho que, no dia da eleição, logo após o anúncio do resultado, saiu pela rua a gritar que os petralhas seriam finalmente caçados.

O homem andou meia hora pra cima e pra baixo, aos berros, no meio da rua (uma rua em que quase não passa carro), mas não obteve apoios.

Gritou muito, fez estardalhaço, ao lado de duas filhas, apresentando-se talvez como uma liderança em busca seguidores. Fracassou e retornou pra casa com o rabo entre as pernas. Mas não tentará de novo de outra forma?

Quem são essas figuras? São pessoas “mais radicais” que, segundo Marcos Nobre, poderão se sentir autorizadas “a fazer coisas que antes não faziam”. Fazer o quê?

Quem irá nos defender dessa gente? A polícia? A Justiça, o Ministério Público? Eu não acredito. Teremos de nos defender do jeito quer for possível, contando com as autoridades que ainda preservem um resquício de confiabilidade.

Sim, porque a confiança nas instituições está abalada desde o golpe, como enfatiza Marcos Nobre.

Por isso a ideia de que ninguém deve largar a mão de ninguém precisa ser levada adiante com firmeza. Mas não só como retórica da resistência. Que todos, desde um vizinho, sejam capazes de acolher quem se sentir ameaçado.

Não basta fechar as janelas diante da gritaria de um candidato a chefe da milícia da rua.