DA ARGENTINA

Acompanho as notícias da Argentina com interesse, por causa do jornal Pagina12 (não temos nada parecido aqui) e da TV C5N (também não temos nada que se assemelhe).
E há duas notícias interessantes. A primeira é que dois ex-diretores da Ford foram condenados à prisão por terem participado do sequestro de funcionários da própria empresa durante a ditadura argentina (1976-1983).
Héctor Sibilla, 91 anos, ex-diretor de segurança da Ford, foi condenado a 12 anos de prisão, e Pedro Muller, 86 anos, ex-gerente de manufatura, a 10 anos.
No Brasil, diretores da Volks, Chrysler, Ford, GM, Toyota, Scania, Rolls-Royce e Mercedes-Benz, para ficar só na área de automóveis, colaboraram com a ditadura perseguindo funcionários e sindicalistas e ajudando inclusive no encaminhamento para centros de tortura.
São casos documentados pela Comissão da Verdade. Nunca serão julgados, porque a anistia poupou assassinos, torturadores e seus colaboradores.
A outra notícia é que Mauricio Macri não vem à posse de seu amigo Bolsonaro. O juiz federal Claudio Bonadio intimou seu pai, Francesco Raúl Macri, e seu irmão, Gianfranco Macri, para que prestem esclarecimento sobre acusações de corrupção.
Os Macri são bilionários e se caracterizam como máfia na Argentina, com atuação nos Correios e em várias áreas da infra-estrutura, mas nunca foram pegos.
Agora há esse desconforto, que talvez não dê em nada. Por isso Macri não virá abraçar seu amigo liberal.

LICENÇA PARA ATIRAR

O que pode acontecer no Brasil já está liberado na Argentina. Desde ontem, um decreto do governo Macri permite que policiais façam disparos com armas de fogo nas mais variadas circunstâncias de “perigo iminente”.
O detalhe que começa a valer lá e que é defendido aqui pelos bolsonaristas (principalmente pelo governador eleito do Rio): o policial pode fazer disparos, antes mesmo de ser atacado, quando achar que o suspeito poderá usar arma letal. Sem esperar que seja feita uma constatação do que ele suspeita e sem aguardar qualquer enfrentamento. A ordem é: atire antes.
O decreto permite que policiais façam disparos em mobilizações populares. A ordem teria sido baixada com o argumento de que haveria a reunião do G20. Mas é permanente (o G20 foi apenas uma carona).
Já chamam a deliberação de Macri de Gatilho Fácil. Entidades de todas as áreas se mobilizam para derrubar a medida que consideram inconstitucional.
A repressão de direita tem um novo modelo na América Latina. A ordem é atirar. Se matar, terá sido um acidente. O faroeste virou lei. Preparem-se.

O FIM DE MACRI

Frase dita ontem por Nicolás Dujovne, ministro da Fazenda de Mauricio Macri: “A Argentina terá mais inflação e menos crescimento”.
É o anúncio oficial do começo do fim. O dólar continua subindo e chegou agora pela manhã a 25,30 pesos.
Macri perdeu apoios importantes. Um dos maiores críticos da situação do país é o seu ex-ministro da Fazenda Alfonso Prat-Gay Alfonso Prat-Gay.
Analistas da TV C5N disseram ontem que comércio e indústria perderam a noção de preços relativos. Lojas e prestadores de serviços cobram o que acham que devem cobrar.
E hoje vence um lote das chamadas Lebacs (Letras do Banco Central), que são títulos de curto prazo que financiam o governo. Ou o governo rola a dívida ou abre a porteira para a quebra.
Para completar, anuncia-se que finalmente será fechado o cerco da Justiça para que a família Macri pague US$ 75 milhões que deve ao governo desde a quebra dos Correios (explorados pela família de 1997 a 2003).
E os liberais brasileiros? Todos quietos. Os liberais vão votar em Bolsonaro para aplacar suas consciências. O modelo Macri já era. Está valendo o modelo Geisel.

OS JORNALISTAS E A IMPRENSA

Esta foto é de uma manifestação desta semana de jornalistas argentinos diante do Congresso, em Buenos Aires. Mais de 30 jornalistas, principalmente fotógrafos, foram feridos por tiros de bala de borracha e bombas de gás da polícia de Macri nas manifestações da semana passada.
O que eles pedem é o direito elementar de trabalhar para poder informar. Mas quem vai dizer aos fascistas no poder na América Latina que esse é um direito dos cidadãos, e não só da imprensa? A direita assumiu o controle quase absoluto dos países que governa.
Os jornalistas de campo, que vão às ruas, fazem o que podem, como sempre fizeram com valentia em situações em que o reacionarismo manda e desmanda.
Mas, infelizmente, o direitismo, o golpismo e o fascismo têm o suporte da grande imprensa. Na Argentina e no Brasil.

A LAVA-JATO DA DIREITA ARGENTINA

A oposição argentina está fazendo uma denúncia que os brasileiros conhecem bem. Parte do judiciário do país foi sequestrada pela direita, que amplia a perseguição aos adversários do governo Macri, principalmente os ligados à ex-presidente Cristina Kirchner.

Li no Página 12 que agora à noite a Unidade Cidadã, o grupo de oposição liderado por Cristina, emitiu uma nota em que acusa Macri de articulação com a Justiça no caso da prisão do ex-vice-presidente Amado Boudou, acusado de corrupção e obstrução de Justiça. A prisão, como se banalizou no Brasil, é preventiva.

A nota diz: “O governo do presidente Macri está utilizando o poder judiciário para perseguir os dirigentes da oposição”. E acrescenta que o juiz Ariel Lijo, que mandou prender Boudou hoje à noite, é o mesmo que trata do processo do envolvimento de Macri e sua família num escândalo com os Correios.

A família de Macri quebrou os correios (que exploravam como grupo privado) e deixou uma dívida de US$ 256 milhões. O atual presidente decidiu que a dívida com o governo deveria ser anistiada (mais de 90% do total).

Um Macri anistiou os Macri. Mas não pergunte quem da família deles está preso. Lá não prendem os Macri, como aqui não prendem tucanos.

A nota emitida pela Unidade Cidadã diz ainda: “Denunciamos a delicada situação que atravessa a democracia argentina, onde foram atacados (ou foram extintos) o estado de direito e a divisão dos poderes”.

O que está claro é que uma máfia se apoderou do poder e de parte importante da Justiça na Argentina. Qualquer semelhança com o Brasil do golpe e da Lava-Jato não terá sido mera coincidência.

O Judiciário é a grande trincheira da direita na América Latina. E vem mais.

Mais uma lição dos argentinos para o Brasil anestesiado por um golpe que domina o Judiciário e retroage agora ao escravismo. Está para ser finalmente desvendado, por força das mobilizações de rua, o ‘mistério’ do desaparecimento do artesão Santiago Maldonado, sumido desde agosto depois de um confronto com a polícia na Patagônia.
A suspeita sempre foi de que a polícia da região, a mando de aliados da direita de Maurício Macri, prendeu e matou Maldonado. Testemunhas viram o rapaz sendo preso, e depois ele nunca mais foi localizado.
Agora, encontraram um corpo que pode ser dele, jogado no Rio Chubut, com as características de desova de cadáver, como as ditaduras sempre fizeram em toda a América Latina.
Se o corpo for mesmo de Maldonado, a direita argentina estará mal para sempre e especialmente para as eleições legislativas de domingo. Porque lá, ao contrário do que acontece no Brasil, a população se mobilizou em grandes passeatas para obrigar o governo a esclarecer o que havia acontecido com o artesão.
E Maldonado era apenas um artista andarilho que apoiava os índios mapuche da região, que perderam suas terras pela invasão da Benetton. Não era um nome importante, não era político, não era líder. Era um cidadão aliado de indígenas que defendem seu território, e foi por ele que o povo gritou por várias vezes nas ruas de Buenos Aires.
A direita não age impunemente. Pelo menos na Argentina.

A volta de Cristina

A direita argentina esperava derrotar Cristina kirchner de goleada nas eleições prévias do fim de semana. Deu empate do kirchnerismo com as forças de Macri na Grande Buenos Aires. E, na soma dos votos de todos os partidos, o projeto reacionário do jaburu argentino foi derrotado.
Esta é a realidade que assusta a direita. Cristina, massacrada como Lula e Dilma aqui (e com a ajuda do Judiciário seletivo), está viva politicamente. As direitas argentina e brasileira temem que eles voltem.
Alguns jornalistas brasileiros estão desolados e enfatizam que Macri venceu com uma diferença de algo como 0,0056%.
Na Argentina, a direita pelo menos chegou ao poder no voto. Mas as prévias podem ter sido fraudadas. Viva Cristina.

A lição dos argentinos

Há poucos dias o jornalismo brasileiro dito ‘independente’ deu festivamente a informação sobre uma grandiosa manifestação de rua na Argentina a favor do governo Macri.
Era como se a situação estivesse sob controle. E que o povo adorava o neoliberal que o Brasil tanto quer imitar.
Foi uma festa de efeito rápido. Os argentinos deram a resposta e pararam o país hoje. Fizeram o que o Brasil não consegue fazer. E lá eles não tiveram nenhum golpe recente.
A direita argentina pode ter experimentado o ensaio do que vem por aí. O jornalismo ‘independente’ ficou muito abatido.

Direitas e direitas

A direita brasileira fica desamparada e assustada com a queda do ministro da Fazenda da Argentina, enquanto inflação, desemprego e miséria crescem.
Fracassa o arrocho a qualquer custo de Mauricio Macri, que os nossos ‘liberais’ arrogantes têm como inspiração.
Mas na Argentina a direita nunca dorme em paz. Aqui a direita dorme, ronca, baba e ainda sonha com mais um golpe.