O FIM DE MACRI

Frase dita ontem por Nicolás Dujovne, ministro da Fazenda de Mauricio Macri: “A Argentina terá mais inflação e menos crescimento”.
É o anúncio oficial do começo do fim. O dólar continua subindo e chegou agora pela manhã a 25,30 pesos.
Macri perdeu apoios importantes. Um dos maiores críticos da situação do país é o seu ex-ministro da Fazenda Alfonso Prat-Gay Alfonso Prat-Gay.
Analistas da TV C5N disseram ontem que comércio e indústria perderam a noção de preços relativos. Lojas e prestadores de serviços cobram o que acham que devem cobrar.
E hoje vence um lote das chamadas Lebacs (Letras do Banco Central), que são títulos de curto prazo que financiam o governo. Ou o governo rola a dívida ou abre a porteira para a quebra.
Para completar, anuncia-se que finalmente será fechado o cerco da Justiça para que a família Macri pague US$ 75 milhões que deve ao governo desde a quebra dos Correios (explorados pela família de 1997 a 2003).
E os liberais brasileiros? Todos quietos. Os liberais vão votar em Bolsonaro para aplacar suas consciências. O modelo Macri já era. Está valendo o modelo Geisel.

OS JORNALISTAS E A IMPRENSA

Esta foto é de uma manifestação desta semana de jornalistas argentinos diante do Congresso, em Buenos Aires. Mais de 30 jornalistas, principalmente fotógrafos, foram feridos por tiros de bala de borracha e bombas de gás da polícia de Macri nas manifestações da semana passada.
O que eles pedem é o direito elementar de trabalhar para poder informar. Mas quem vai dizer aos fascistas no poder na América Latina que esse é um direito dos cidadãos, e não só da imprensa? A direita assumiu o controle quase absoluto dos países que governa.
Os jornalistas de campo, que vão às ruas, fazem o que podem, como sempre fizeram com valentia em situações em que o reacionarismo manda e desmanda.
Mas, infelizmente, o direitismo, o golpismo e o fascismo têm o suporte da grande imprensa. Na Argentina e no Brasil.

A LAVA-JATO DA DIREITA ARGENTINA

A oposição argentina está fazendo uma denúncia que os brasileiros conhecem bem. Parte do judiciário do país foi sequestrada pela direita, que amplia a perseguição aos adversários do governo Macri, principalmente os ligados à ex-presidente Cristina Kirchner.

Li no Página 12 que agora à noite a Unidade Cidadã, o grupo de oposição liderado por Cristina, emitiu uma nota em que acusa Macri de articulação com a Justiça no caso da prisão do ex-vice-presidente Amado Boudou, acusado de corrupção e obstrução de Justiça. A prisão, como se banalizou no Brasil, é preventiva.

A nota diz: “O governo do presidente Macri está utilizando o poder judiciário para perseguir os dirigentes da oposição”. E acrescenta que o juiz Ariel Lijo, que mandou prender Boudou hoje à noite, é o mesmo que trata do processo do envolvimento de Macri e sua família num escândalo com os Correios.

A família de Macri quebrou os correios (que exploravam como grupo privado) e deixou uma dívida de US$ 256 milhões. O atual presidente decidiu que a dívida com o governo deveria ser anistiada (mais de 90% do total).

Um Macri anistiou os Macri. Mas não pergunte quem da família deles está preso. Lá não prendem os Macri, como aqui não prendem tucanos.

A nota emitida pela Unidade Cidadã diz ainda: “Denunciamos a delicada situação que atravessa a democracia argentina, onde foram atacados (ou foram extintos) o estado de direito e a divisão dos poderes”.

O que está claro é que uma máfia se apoderou do poder e de parte importante da Justiça na Argentina. Qualquer semelhança com o Brasil do golpe e da Lava-Jato não terá sido mera coincidência.

O Judiciário é a grande trincheira da direita na América Latina. E vem mais.

Mais uma lição dos argentinos para o Brasil anestesiado por um golpe que domina o Judiciário e retroage agora ao escravismo. Está para ser finalmente desvendado, por força das mobilizações de rua, o ‘mistério’ do desaparecimento do artesão Santiago Maldonado, sumido desde agosto depois de um confronto com a polícia na Patagônia.
A suspeita sempre foi de que a polícia da região, a mando de aliados da direita de Maurício Macri, prendeu e matou Maldonado. Testemunhas viram o rapaz sendo preso, e depois ele nunca mais foi localizado.
Agora, encontraram um corpo que pode ser dele, jogado no Rio Chubut, com as características de desova de cadáver, como as ditaduras sempre fizeram em toda a América Latina.
Se o corpo for mesmo de Maldonado, a direita argentina estará mal para sempre e especialmente para as eleições legislativas de domingo. Porque lá, ao contrário do que acontece no Brasil, a população se mobilizou em grandes passeatas para obrigar o governo a esclarecer o que havia acontecido com o artesão.
E Maldonado era apenas um artista andarilho que apoiava os índios mapuche da região, que perderam suas terras pela invasão da Benetton. Não era um nome importante, não era político, não era líder. Era um cidadão aliado de indígenas que defendem seu território, e foi por ele que o povo gritou por várias vezes nas ruas de Buenos Aires.
A direita não age impunemente. Pelo menos na Argentina.

A volta de Cristina

A direita argentina esperava derrotar Cristina kirchner de goleada nas eleições prévias do fim de semana. Deu empate do kirchnerismo com as forças de Macri na Grande Buenos Aires. E, na soma dos votos de todos os partidos, o projeto reacionário do jaburu argentino foi derrotado.
Esta é a realidade que assusta a direita. Cristina, massacrada como Lula e Dilma aqui (e com a ajuda do Judiciário seletivo), está viva politicamente. As direitas argentina e brasileira temem que eles voltem.
Alguns jornalistas brasileiros estão desolados e enfatizam que Macri venceu com uma diferença de algo como 0,0056%.
Na Argentina, a direita pelo menos chegou ao poder no voto. Mas as prévias podem ter sido fraudadas. Viva Cristina.

A lição dos argentinos

Há poucos dias o jornalismo brasileiro dito ‘independente’ deu festivamente a informação sobre uma grandiosa manifestação de rua na Argentina a favor do governo Macri.
Era como se a situação estivesse sob controle. E que o povo adorava o neoliberal que o Brasil tanto quer imitar.
Foi uma festa de efeito rápido. Os argentinos deram a resposta e pararam o país hoje. Fizeram o que o Brasil não consegue fazer. E lá eles não tiveram nenhum golpe recente.
A direita argentina pode ter experimentado o ensaio do que vem por aí. O jornalismo ‘independente’ ficou muito abatido.

Direitas e direitas

A direita brasileira fica desamparada e assustada com a queda do ministro da Fazenda da Argentina, enquanto inflação, desemprego e miséria crescem.
Fracassa o arrocho a qualquer custo de Mauricio Macri, que os nossos ‘liberais’ arrogantes têm como inspiração.
Mas na Argentina a direita nunca dorme em paz. Aqui a direita dorme, ronca, baba e ainda sonha com mais um golpe.

O santo argentino

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Fiquei sabendo da santificação de um argentino conhecido como o padre gaúcho e achei que o meu santo clandestino tinha finalmente virado santo oficial.

Mas não era o Gauchito Gil, o santo que carrego na carteira, mas o padre o José Gabriel del Rosario Brochero, conhecido como o padre gaúcho.

Gauchito Gil talvez nunca vire santo, porque era um Robin Hood argentino do século 19. Morreu e virou milagreiro. Mas agora, com esse Papa valente, quem sabe…

Essa imagem que mostro aí é do santinho de papel que ganhei de uma simpática família de andarilhos argentinos em 2001.

Eu o Fernando Gomes fazíamos uma reportagem sobre a crise que destruía o país com o fim da dolarização e encontramos a família na estrada. Saíram em viagem para pedir um milagre.

O chefe do grupo me deu o santinho. Guardo pelo afeto daquela família e por causa da minha memória de infância de casas com santinhos espalhados por todo lado.

Quando me sinto numa encruzilhada, digo (e digo mesmo): Gauchito, me ajuda.

Sei que ele tenta e se esforça e só não interfere quando não pode mesmo. Gosto de carregar esse santinho na carteira. É como se os santos amigos da minha avó, da minha mãe e das minhas tias também estivessem por perto.