A MÁFIA E A IMPRENSA

A bomba nos pés do jornalismo da Argentina hoje é a denúncia de Pérez Esquivel sobre o esquema de espionagem montado pela direita macrista.
O caso não é novo e já está na Justiça. A novidade é a descoberta de envolvimento de jornalistas da grande imprensa.
O esquema mafioso, para perseguir as esquerdas, especialmente Cristina Kirchner, era comandado pelo falso advogado Marcelo D’Alessio, que agia em conluio com promotores e gente do Judiciário.
A gangue produzia dossiês, extorquia, forçava delações e tentava envolver kirchneristas em falsas denúncias.
O relatório divulgado por Esquivel, que agora envolve a imprensa, foi produzido pela Comissão Provincial da Memória e encaminhado à Justiça.
Tudo muito parecido com o que aconteceu com a Lava-Jato. Falta chegar aqui aos cúmplices que agiam dentro das redações.
O Intercept já deu a entender que sabe quem são. Está na hora de divulgar.

A resposta de Sorín ao amigo de Bolsonaro

Não há hoje no Brasil ninguém parecido com Juan Pablo Sorín, ex-lateral da seleção argentina, que jogou no Barcelona e no Cruzeiro. Sorín foi um craque. É politizado, engajado a questões sociais e tem uma mente brilhante.
Desde ontem, ele está na capa do jornal Página 12, porque Maurício Macri disse mais uma de suas bobagens.
O amigo de Bolsonaro afirmou no Twitter que “o sonho de qualquer menino, que alguma vez chutou uma bola contra uma parede, é jogar na Champions League”.
Sorín respondeu de um jeito que ninguém do meio dito futebolístico do Brasil responderia:
“Presidente, desculpe, mas cada vez que jogava a bola contra a parede eu sonhava com o futebol de várzea, com as crianças, os mais pobres. Meu sonho verdadeiro era ser profissional em meu país e no clube pelo qual eu torço e, claro, o sonho de vestir a camiseta argentina um dia, como Diego (Maradona), Bocha (Bochini), Beto (Alonso), Bichi (Borghi) e tantos gênios para admirar”.
Por isso eles têm Sorín e nós temos Neymar.

O cerco do Judiciário à Cristina Kirchner

O juiz federal Claudio Bonadio, o Sergio Moro argentino, fez hoje o que estava previsto. Como Alberto Fernández e Cristina Kirchner devem vencer a eleição no primeiro turno, Bonadio voltou a indiciar Cristina em mais um processo por corrupção. A poucos mais de um mês da eleição de 27 de outubro, a direita joga pesado e age descaradamente no Judiciário.

É a volta do chamado escândalo dos cadernos, com denúncias de propinas que teriam sido pagas por empresários aos governos de Nestor e Cristina Kirchner, entre 2005 e 2015 (e que estariam anotadas em um caderno).

Tudo muito parecido com a Lava-Jato. O juiz quer a prisão preventiva de Cristina, mas depende da derrubada da imunidade parlamentar da senadora. O peronismo e o kirchnerismo têm maioria no Senado.

Lula responde a sete processos. Cristina enfrenta 11. Lá e cá, o golpismo depende sempre da Justiça seletiva.

Na Argentina, a família Macri também enfrenta processos por corrupção, mas – pela mesma coincidência em relação ao Brasil dos Aécios, Serras, milicianos e jaburus – as acusações contra a direita gostam das gavetas dos magistrados.

No Brasil, Moro conseguiu transformar Lula em preso político e, num país anestesiado, resignado e alienado, facilitou a eleição de Bolsonaro. Mas na Argentina o furo é mais embaixo.

ELES SABEM QUE NÃO PODEM

O macrismo comete na Argentina com o espanhol o que o bolsonarismo faz aqui com o português.

O slogan da campanha de Maurício Macri é “Sí, se puede”, copiada descaradamente do Yes, we can, de Obama. Hoje há versões de podemos para todos os gostos, principalmente na direita, inclusive no Brasil.

Mas aconteceu um erro grave. O próprio Macri, imitando os filhos de Bolsonaro, largou em sua conta no Twitter o slogan sem o acento no i.

Ficou assim: #SiSePuede.

Alterou o sentido. O si sem acento funciona como um se, uma conjunção que conduz à dúvida ou à interrogação. O macrismo acabou cometendo um ato falho: será que podemos mesmo?

A gozação está na capa do jornal Página 12. Maurício Macri não tem filhos na campanha. Então, é claro que vai sobrar para um assessor.

A outra informação sobre a campanha de Macri é que o amigo de Bolsonaro decidiu usar a estratégia tradicional, com mais presença nas ruas e em comícios do que nas redes sociais.

Mas nem a ajuda marqueteira das fake news do Carluxo salva Macri. Se é que não foi dele a ideia do #sisepuede.
Sim, tudo é possível no mundo da direita latino-americana.

O metrô e a fome

A direita argentina ofereceu aos moradores de Buenos Aires uma experiência única.
O governo da província suspendeu uma linha do metrô, para impedir que as pessoas se mobilizassem em direção ao centro, para um protesto de denúncia da miséria e da fome.
Mas o protesto aconteceu, com repressão e tudo. A foto é do Página 12.

A ARMADILHA ARGENTINA

Alberto Fernández e Cristina Kirchner poderiam conversar com Dilma Rousseff e líderes das esquerdas daqui para que não caiam de novo numa armadilha.
Enquanto os empresários abandonam Maurício Macri, a imprensa de direita se aproxima do peronismo kirchnerista. Não são poucas as análises nessa direção.
Héctor Magnetto, controlador do grupo Clarín, a Globo deles, inimigo declarado dos Kirchner, está se aproximando de Fernández e Cristina. Tudo porque Macri será derrotado em outubro e é preciso chegar a uma trégua.
Cristina e Magnetto (foto) já foram aliados, no início do governo de Nestor Kirchner, e durante muito tempo brigaram mas se toleravam, até que um dia romperam e o Clarín (envolvido em muitas falcatruas) passou a atacar furiosamente o peronismo.
Cristina pode dizer que sabe tudo de Magnetto, desde os tempos em que chegaram a conviver sem grandes conflitos e até com alguns interesses convergentes. Pode ser, talvez seja.
A tese que circula na Argentina é a de que nenhum dos lados aguentaria uma nova briga, num país quebrado, com a volta do kirchnerismo ao poder. Foi o que se disse aqui em relação a uma fantasiosa pacificação PT-Globo. Deu no que deu.

SÓ MACONHEIROS RICOS

O bolsonarismo tem sua versão argentina. Vejam o que defende a modelo, apresentadora de TV e deputada de direita Amalia Granata, que pede a legalização da maconha apenas para os ricos.
“Uma coisa é legalizar a maconha para quem tem apartamento em Palermo (bairro chique de Buenos Aires) e se junta com amigos para ver Netflix e fumar um baseado, e outra coisa é quem vive numa casa de lata com chão de barro, que não tem banheiro, e começa a consumir maconha”.
Seria como liberar a maconha para os moradores do Moinhos de Vento, em Porto Alegre, mas não para quem mora na Restinga.
Amalia, uma das mais fortes vozes argentinas contra o aborto, foi eleita este ano como deputada da Província de Santa Fé com 146 mil votos. Ela não esclareceu se vê séries na TV fumando um baseado.
(Li a reportagem sobre a sensacional ideia da deputada no jornal página 12)