Voltem

Faço um esforço para ser modesto mas não consigo. Em debate com Juremir Machado e Marco Weissheimer, na semana passada, na Feira do Livro, eu disse o que Dilma Rousseff afirmou agora à Folha.
Não haverá política, nem conciliação, nem democracia sem o retorno de quem entrou na fria de bater panelas.
O fim do golpe depende da volta à política dos que se equivocaram e enfrentam agora o constrangimento do silêncio.
Não falo, claro, da extrema direita que nunca saiu da política, mas da classe média que entrou na conversa do pato amarelo e da Globo. Voltem. Vamos conversar.

http://www1.folha.uol.com.br/poder/2017/11/1935029-e-preciso-perdoar-quem-bateu-panela-diz-dilma-rousseff.shtml

 

 

O GOLPE DOS JAGUNÇOS E DOS CORONÉIS

Quase sempre sou voto vencido em debates sobre os mecanismos de viabilização do golpe, dos estratégicos aos operacionais. Não tenho muita simpatia pelas velhas teorias que sempre buscam explicações nas conspirações internacionais. É uma conversa que tem evoluído nos últimos meses.

É claro que tudo contra governos ou projetos de esquerda tem apoio de fora, tem dinheiro (e muito dinheiro), com interferência em ações que interferem na política e na economia. E há o desejo permanente de impor ordens e interesses por meios não democráticos. Mas o golpe foi, na essência, resultado das aspirações e da mobilização do Brasil arcaico.

Sim, o pato da Fiesp e a imprensa foram protagonistas, mas o tocador do golpe foi o Congresso de Eduardo Cunha, do jaburu, do Caiado, do Zé Agripino, de Aécio, do Bolsonaro e do baixo clero, esse baixo clero do qual poucos sabem dizer os nomes.

O Brasil primitivo, esse Brasil do século 19 ainda vivo, fez a operação que derrubou Dilma. E faria com ou sem apoio internacional. E nada resolveria ter apoio internacional sem esse Congresso.

A bancada BBB é da bala, do boi e da Bíblia. Ainda não foi preciso acrescentar o B dos bancos, que estão presentes, até indiretamente, mas de forma insignificante, porque atuam nos bastidores. As bancadas que decidiram o golpe são as do Brasil do atraso, dos senhores apresentados ao país em maio do ano passado, quando o processo contra Dilma foi aberto pela Câmara, e depois em agosto, quando o Senado consumou o ataque ao governo.

Os porta-vozes da família, da ordem, de Deus e da moral derrubaram Dilma na câmara e no Senado e agora protegem Aécio e o jaburu. Por ação fisiológica, por recompensas diversas, em aliança com a parte ideológica da direita do Congresso. Eles foram e são os condutores do golpe.

Defendi esse ponto de vista nada original na sexta-feira, em debate do 1º Encontro Gaúcho pelo Direito à Comunicação, promovido pelo Comitê Gaúcho do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC), CUT-RS, Sindicato dos Jornalistas, Sindsepe-RS e Fabico da UFRGS.

Falo disso agora porque o jornalista e cientista político André Singer, ex-porta-voz de Lula, estudioso do lulismo, escreveu na mesma linha seu artigo de sábado na Folha. Dilma foi golpeada pelo que temos de mais reacionário no Congresso, pela parcela manobrável que ela mesma subestimou ao enfrentar o poder de Eduardo Cunha.

Dilma não perdeu para o sistema financeiro mundial, perdeu para a base do novo escravismo, para os destruidores das florestas, grileiros, coronéis, jagunços rurais e urbanos, para os que defendem a eliminação de pequenos bandidos (e a proteção dos grandes), dos que estimulam e financiam, em nome de Deus, a perseguição a negros, gays, exposições, professores, artistas. Singer prevê que estes mesmos deputados e senadores ou seus similares estarão de volta na eleição de 2018.

Por isso, colocar a culpa no sistema financeiro é tentar sofisticar o golpe. Fomos todos golpeados pela chinelagem. Claro que a evolução do golpismo se dará com eles e com todos os que sustentaram o teatro de maio e agosto, incluindo parte do Judiciário (e o que é mais alarmante agora, com o suporte policialesco que intensifica a perseguição aos movimentos sociais, ao lado das milícias fascistas).

Mas o golpe mesmo foi aplicado e é liderado pelo Brasil arcaico que não precisa se submeter às ordens de ninguém.

 

Com tudo e com todos eles

A delação do doleiro Lucio Funaro finalmente mostra em detalhes como o Quadrilhão apenas aperfeiçoou a máquina de arrecadação de propinas quando o jaburu virou vice-presidente. Enquanto isso, a direita enrolava quem queria ser enrolado com a história das pedaladas.
Eles enchiam de malas o apartamento de Salvador, e Janaína Paschoal era possuída pelo demônio e hipnotizava a classe média das panelas. O exorcismo de Janaína e o debate sobre as pedaladas encobriam as ações do Quadrilhão e a compra de votos dos 300 picaretas, como revela agora o doleiro.
Funaro pede passagem como um dos grande personagem das máfias da direita. Em pouco tempo, poderá suplantar Joesley. Marcelo Odebrecht, com aquele jeitão de corrupto enjeitado, virou um contador de causos (saudade das histórias do pai dele, o seu Emílio, contando aos procuradores que Lula pediu um emprego para um sobrinho.)
Mas a máfia para quem Funaro trabalhava está no poder, contando com o Supremo e com tudo, enquanto destrói leis trabalhistas, Previdência, pré-sal, empresas estatais, educação, saúde, empregos e futuro. E Dilma Rousseff está em casa.

Covardes em matilhas

A trajetória do golpe até aqui reforça a certeza de que Dilma Rousseff foi uma valente ao ser cercada pelas hienas do Congresso e por outras matilhas camufladas como patos, principalmente no dia em que as enfrentou no Senado.

Claro que ninguém esperava que a bravura de Dilma tivesse algo correspondente entre os golpistas. Mas o Brasil nunca teve tantos covardes amontoados no poder como agora.

 

 

O alvo

O próximo duelo será Dilma-Moro. O ministro Edson Fachin, relator da Lava-Jato no Supremo, já enviou ao juiz de Curitiba as delações do casal João Santana e Mônica Moura.

Enquanto isso, Aécio e Serra, com o tal foro privilegiado, estão na moita. E o caso de Fernando Henrique Cardoso, também delatado por caixa dois por Emílio Odebrecht?

Este não foi para Curitiba. Foi para a Justiça Federal de São Paulo. Sergio Moro não terá o trabalho de analisar a denúncia contra FH, que muitos dizem que já prescreveu.

Por que vai para São Paulo e não para Curitiba? Por que é Odebrecht, mas não é Lava-Jato? Não sei, não entendo e acho que nunca entenderei.

Talvez se alguém fizer um powerpoint. Aguardo manifestação dos meus amigos juristas.

Suador

Completa-se hoje uma semana da liberação dos vídeos com as delações. Imaginem, nessa maratona diária de ver os vídeos, o suador de delatores e procuradores para tentar apontar qualquer delito de Dilma Rousseff.
E imaginem, nesses sete dias, o suador que editores da força-tarefa da Globo estão passando atrás de algo nos vídeos que possa comprometer Dilma.
A única consequência dessa busca até agora deve ter sido um aumento fantástico de horas extras.

(Sabe-se que a grande aposta da Lava-Jato está nas delações do marqueteiro João Santana e da mulher dele, Mônica Moura. Seria a última chance de comprometer Dilma)

O que Dilma está fazendo na lista de Janot?

Do que Dilma Rousseff é acusada para aparecer na lista de Rodrigo Janot? Alguém participou de algum jantar com Dilma, como aconteceu com o homem do Jaburu quando pediu doação ao presidente da Odebrecht em 2014?

Nenhum delator falou nada. Não há jantar, nem almoço, nem café da tarde, nada citado até agora. Mas o que levou Janot a incluir Dilma na lista, se não há nenhuma delação e nenhum indício que a envolva em caixa dois ou corrupção?

Dilma teria entrado de contrapeso, numa lista dominada pela direita? Ou será por causa das pedaladas, de novo? E sobre Lula? Ah, bem, a citação a Lula não surpreende, porque ele irá aparecer em todas as listas que forem produzidas no Brasil.

Abaixo, a nota distribuída pela assessoria de Dilma a respeito de sua inclusão na lista:

“A propósito das notícias veiculadas nesta quarta-feira, 15 de março, sobre a suposta inclusão da ex-presidenta Dilma Rousseff na chamada “lista de Janot”, a Assessoria de Imprensa de Dilma Rousseff informa:

1. Desde o início das investigações sobre a Operação Lava Jato, há quase três anos, nunca surgiram provas ou indícios sobre o envolvimento direto de Dilma Rousseff em desvio de recursos públicos ou corrupção. 

2. Suspeitas são sempre lançadas contra ela no terreno das ilações ou citações indiretas em conversas de terceiros.

3. As delações de empresários e executivos da Odebrecht estão cobertas pelo manto do sigilo judicial, mas, de maneira usual, os vazamentos seletivos continuam sendo praticados justamente por aqueles agentes públicos que deveriam zelar pela Justiça.

4. Dilma Rousseff defenderá sua honra e provará sua inocência na Justiça, mesmo sem saber sequer do que está sendo acusada desta vez.

Assessoria de imprensa

Dilma Rousseff”