QUEM TEM AS MÃOS SUJAS DE SANGUE?

Dilma Rousseff vai processar Bolsonaro. O homem que desmente à tarde o que disse pela manhã (como desmentiu que tivesse feito acordo para indicar Sergio Moro ao Supremo) afirmou em Dallas:
“Quem até há pouco ocupava o governo teve em sua história suas mãos manchadas de sangue na luta armada. Matando inclusive um capitão, como eu sou capitão, naqueles anos tristes que tivemos lá no passado”.
A acusação mentirosa era claramente dirigida a Dilma, que agora à noite emitiu a seguinte nota:
“Durante a resistência à ditadura — e muito menos no período democrático —, jamais participei de atos armados ou ações que tivessem ou pudessem levar à morte de quem quer que seja. A própria Justiça Militar — as auditorias, o STM e até o STF — em todos os processos que foram movidos contra mim, comprovaram tal fato. Os autos respectivos documentam isso. Ao contrário dos heróis e homenageados pelo senhor Bolsonaro que, durante a ditadura e depois dela, tiveram suas mãos manchadas do nosso sangue – militantes brasileiros e brasileiras – pelas torturas e assassinatos cometidos contra nós.
Minhas mãos estão limpas e foram fortalecidas, ao longo da vida, pela militância a favor da democracia, da justiça social e da soberania nacional. Foi esta luta que me levou à Presidência da República, cargo que honrei representando dignamente meu País, sem me curvar a qualquer potência estrangeira, respeitando todas as nações, da mais empobrecida à mais rica.
Se o senhor Bolsonaro quer se ocultar do “tsunami” das investigações que recaem sob seu clã, a partir da abertura dos vários sigilos, não me use como biombo, nem tampouco menospreze os cidadãos e cidadãs que foram às ruas do País em defesa de uma educação de qualidade.
Senhor Bolsonaro, as ruas estão cheias porque ao se dispor, com seu ministro desinformado, a destruir a educação, vocês estão tirando a esperança de melhores dias para milhões de estudantes já beneficiados e também os que poderiam sê-lo pela expansão e interiorização das universidades e institutos federais de educação. Oportunidades de acesso ao ensino superior que foram proporcionadas pelos nossos governos do PT em todo o País.
“Idiotas úteis” são aqueles que esquecem um ditado popular: “a mentira tem pernas curtas”. O senhor Bolsonaro responderá no juízo criminal e cível por mais essa leviandade contra mim. Ele não poderá se escudar no cargo de Presidente da República e irá ser cobrado por suas mentiras, calúnias e difamações.
Dilma Rousseff”

JOAQUIM E DILMA

Joaquim não gosta de ver nas paredes aqui de casa as fotos em que aparece. Não sei se não gosta ou se faz onda.
Ontem, olhou um mural do meu escritório com algumas fotos soltas que vou trocando de vez em quando.
Joaquim queria investigar o que havia ali. Descobriu uma foto minha com Dilma Rousseff.
E ficou espantado:
– Aqueeeela ali é a Dillllma?
– Sim, é a Dilma.
– Mas a Dilma Dilma mesmo?
– Sim, a Dilma Dilma.
– Que legallll.
É bom ouvir de um neto que é legal ver uma foto do avô ao lado de Dilma.
(A foto em que ele examinava de perto pra ver se era Dilma mesmo não está muito boa porque foi um flagrante. Joaquim não gosta de ser fotografado. Talvez, quem sabe, um dia queira uma foto ao lado de Dilma.)

Voltem

Faço um esforço para ser modesto mas não consigo. Em debate com Juremir Machado e Marco Weissheimer, na semana passada, na Feira do Livro, eu disse o que Dilma Rousseff afirmou agora à Folha.
Não haverá política, nem conciliação, nem democracia sem o retorno de quem entrou na fria de bater panelas.
O fim do golpe depende da volta à política dos que se equivocaram e enfrentam agora o constrangimento do silêncio.
Não falo, claro, da extrema direita que nunca saiu da política, mas da classe média que entrou na conversa do pato amarelo e da Globo. Voltem. Vamos conversar.

http://www1.folha.uol.com.br/poder/2017/11/1935029-e-preciso-perdoar-quem-bateu-panela-diz-dilma-rousseff.shtml

 

 

O GOLPE DOS JAGUNÇOS E DOS CORONÉIS

Quase sempre sou voto vencido em debates sobre os mecanismos de viabilização do golpe, dos estratégicos aos operacionais. Não tenho muita simpatia pelas velhas teorias que sempre buscam explicações nas conspirações internacionais. É uma conversa que tem evoluído nos últimos meses.

É claro que tudo contra governos ou projetos de esquerda tem apoio de fora, tem dinheiro (e muito dinheiro), com interferência em ações que interferem na política e na economia. E há o desejo permanente de impor ordens e interesses por meios não democráticos. Mas o golpe foi, na essência, resultado das aspirações e da mobilização do Brasil arcaico.

Sim, o pato da Fiesp e a imprensa foram protagonistas, mas o tocador do golpe foi o Congresso de Eduardo Cunha, do jaburu, do Caiado, do Zé Agripino, de Aécio, do Bolsonaro e do baixo clero, esse baixo clero do qual poucos sabem dizer os nomes.

O Brasil primitivo, esse Brasil do século 19 ainda vivo, fez a operação que derrubou Dilma. E faria com ou sem apoio internacional. E nada resolveria ter apoio internacional sem esse Congresso.

A bancada BBB é da bala, do boi e da Bíblia. Ainda não foi preciso acrescentar o B dos bancos, que estão presentes, até indiretamente, mas de forma insignificante, porque atuam nos bastidores. As bancadas que decidiram o golpe são as do Brasil do atraso, dos senhores apresentados ao país em maio do ano passado, quando o processo contra Dilma foi aberto pela Câmara, e depois em agosto, quando o Senado consumou o ataque ao governo.

Os porta-vozes da família, da ordem, de Deus e da moral derrubaram Dilma na câmara e no Senado e agora protegem Aécio e o jaburu. Por ação fisiológica, por recompensas diversas, em aliança com a parte ideológica da direita do Congresso. Eles foram e são os condutores do golpe.

Defendi esse ponto de vista nada original na sexta-feira, em debate do 1º Encontro Gaúcho pelo Direito à Comunicação, promovido pelo Comitê Gaúcho do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC), CUT-RS, Sindicato dos Jornalistas, Sindsepe-RS e Fabico da UFRGS.

Falo disso agora porque o jornalista e cientista político André Singer, ex-porta-voz de Lula, estudioso do lulismo, escreveu na mesma linha seu artigo de sábado na Folha. Dilma foi golpeada pelo que temos de mais reacionário no Congresso, pela parcela manobrável que ela mesma subestimou ao enfrentar o poder de Eduardo Cunha.

Dilma não perdeu para o sistema financeiro mundial, perdeu para a base do novo escravismo, para os destruidores das florestas, grileiros, coronéis, jagunços rurais e urbanos, para os que defendem a eliminação de pequenos bandidos (e a proteção dos grandes), dos que estimulam e financiam, em nome de Deus, a perseguição a negros, gays, exposições, professores, artistas. Singer prevê que estes mesmos deputados e senadores ou seus similares estarão de volta na eleição de 2018.

Por isso, colocar a culpa no sistema financeiro é tentar sofisticar o golpe. Fomos todos golpeados pela chinelagem. Claro que a evolução do golpismo se dará com eles e com todos os que sustentaram o teatro de maio e agosto, incluindo parte do Judiciário (e o que é mais alarmante agora, com o suporte policialesco que intensifica a perseguição aos movimentos sociais, ao lado das milícias fascistas).

Mas o golpe mesmo foi aplicado e é liderado pelo Brasil arcaico que não precisa se submeter às ordens de ninguém.

 

Com tudo e com todos eles

A delação do doleiro Lucio Funaro finalmente mostra em detalhes como o Quadrilhão apenas aperfeiçoou a máquina de arrecadação de propinas quando o jaburu virou vice-presidente. Enquanto isso, a direita enrolava quem queria ser enrolado com a história das pedaladas.
Eles enchiam de malas o apartamento de Salvador, e Janaína Paschoal era possuída pelo demônio e hipnotizava a classe média das panelas. O exorcismo de Janaína e o debate sobre as pedaladas encobriam as ações do Quadrilhão e a compra de votos dos 300 picaretas, como revela agora o doleiro.
Funaro pede passagem como um dos grande personagem das máfias da direita. Em pouco tempo, poderá suplantar Joesley. Marcelo Odebrecht, com aquele jeitão de corrupto enjeitado, virou um contador de causos (saudade das histórias do pai dele, o seu Emílio, contando aos procuradores que Lula pediu um emprego para um sobrinho.)
Mas a máfia para quem Funaro trabalhava está no poder, contando com o Supremo e com tudo, enquanto destrói leis trabalhistas, Previdência, pré-sal, empresas estatais, educação, saúde, empregos e futuro. E Dilma Rousseff está em casa.

Covardes em matilhas

A trajetória do golpe até aqui reforça a certeza de que Dilma Rousseff foi uma valente ao ser cercada pelas hienas do Congresso e por outras matilhas camufladas como patos, principalmente no dia em que as enfrentou no Senado.

Claro que ninguém esperava que a bravura de Dilma tivesse algo correspondente entre os golpistas. Mas o Brasil nunca teve tantos covardes amontoados no poder como agora.

 

 

O alvo

O próximo duelo será Dilma-Moro. O ministro Edson Fachin, relator da Lava-Jato no Supremo, já enviou ao juiz de Curitiba as delações do casal João Santana e Mônica Moura.

Enquanto isso, Aécio e Serra, com o tal foro privilegiado, estão na moita. E o caso de Fernando Henrique Cardoso, também delatado por caixa dois por Emílio Odebrecht?

Este não foi para Curitiba. Foi para a Justiça Federal de São Paulo. Sergio Moro não terá o trabalho de analisar a denúncia contra FH, que muitos dizem que já prescreveu.

Por que vai para São Paulo e não para Curitiba? Por que é Odebrecht, mas não é Lava-Jato? Não sei, não entendo e acho que nunca entenderei.

Talvez se alguém fizer um powerpoint. Aguardo manifestação dos meus amigos juristas.

Suador

Completa-se hoje uma semana da liberação dos vídeos com as delações. Imaginem, nessa maratona diária de ver os vídeos, o suador de delatores e procuradores para tentar apontar qualquer delito de Dilma Rousseff.
E imaginem, nesses sete dias, o suador que editores da força-tarefa da Globo estão passando atrás de algo nos vídeos que possa comprometer Dilma.
A única consequência dessa busca até agora deve ter sido um aumento fantástico de horas extras.

(Sabe-se que a grande aposta da Lava-Jato está nas delações do marqueteiro João Santana e da mulher dele, Mônica Moura. Seria a última chance de comprometer Dilma)