A perversidade bolsonarista

O governo e seus cúmplices escolhem datas para expressar suas crueldades. Bolsonaro sancionou a criação do Dia do Rodeio, a ser comemorado em 4 de outubro, a mesma data em que se celebra o Dia Internacional dos Animais e seu padroeiro, São Francisco de Assis.

O Globo informa que a decisão foi publicada no Diário Oficial desta quinta-feira. A data foi escolhida “por ser mundialmente reconhecida como o Dia dos Animais e também o Dia de São Francisco de Assis, um dos santos mais queridos na comunidade católica e padroeiro dos animais”.

A lei sancionada por Bolsonaro surgiu a partir de um projeto do deputado Capitão Augusto (PL-SP). O autor do projeto ressaltou a importância dos rodeios, “uma modalidade de esporte que tem inequívoco significado cultural, além de sua relevante dimensão econômica”.

Uma data para exaltar os que fazem eventos milionários para maltratar os animais, no dia dos animais. É mais um deboche deles.

É aquela história. Os bolsonaristas pediram que arranjassem um racista para presidir a Fundação Palmares, que existe, entre outras missões, para combater o racismo. Radicalizaram e acharam um negro racista.

Agora, essa lei que festeja o Dia dos Rodeios já é uma afronta por exaltar os que maltratam animais. Pois não basta que exista o dia dos que cansam os bichos para se divertir, mas que seja o mesmo dia já dedicado aos animais e ao seu padroeiro.

O projeto de lei proposto pelo governo, que acaba com as cotas das empresas para pessoas com deficiência, foi apresentado agora, dia 3, exatamente no Dia das Pessoas com Deficiência. Por perversidade do bolsonarismo.

E assim a extrema direita avança, com o apoio de muitos negros, de pobres, de familiares de pessoas com deficiência e de católicos franciscanos e de pretensos defensores dos animais.

Se proibiram animais em circos, por que não proíbem em rodeios e festas em que são maltratados pelo bolsonarismo, antes mesmo de o bolsonarismo existir como existe hoje? Mas já era bolsonarismo.

O capanga

Um capanga de Sérgio Camargo Nascimento, o jornalista racista nomeado para a Fundação Palmares, ameaçou meio mundo de processo por dano moral.
O capanga dizia aqui na internet que Nascimento, descendente de escravos, não podia ser chamado de racista por defender o fim do movimento negro e dizer que a escravidão foi boa para os negros.
Imaginem ser processado por um racista. Pois a Justiça determinou que a nomeação dele seja suspensa. O juiz Emanuel José Matias Guerra, da 18ª Vara Federal do Ceará, acatou ação popular para que um racista não ocupe o cargo de uma fundação criada para defender o negro, a diversidade e as liberdades.
Mais adiante, um juiz bolsonarista irá derrubar a liminar, se é que já não derrubaram. O que importa é que um juiz já reconheceu que um racista não pode ocupar esse cargo.
Que Nascimento vá defender suas posições com os amigos do governo de Bolsonaro, e não dentro de uma fundação pública. Negros, pardos, brancos, amarelos, todos rejeitam sua presença na Palmares. Os que o aceitam, que criem uma fundação pra ele, ou o abriguem num aparelho do bolsonarismo.

A reportagem

Quem irá fazer a grande reportagem sobre Paraisópolis, a favela que o Brasil descobriu como um enclave de pobres e miseráveis cercado de ricos por todos os lados?
Tem muita gente boa que escreveria um texto direto, seco, limpo, sem firulas e sem abordagens chorosas. Mas eu queria mesmo ler o texto de um cara sensacional.
Eu espero um texto com o olhar de João Moreira Salles.

A matança

Os nove jovens mortos em Paraisópolis não devem entrar nas estatísticas da matança diária da Polícia Militar de São Paulo. Até porque, segundo Sergio Moro, as autoridades cometeram erro operacional.
Monica Bergamo informa hoje na Folha que até outubro 697 pessoas foram mortas por policiais fardados no Estado. Em 2018, foram 686 no mesmo período.
É preciso que se repita sempre: matam pobres e negros. E os assassinos são, na maioria, da mesma base social das vítimas.
São pobres e negros matando pobres e negros a mando dos brancos.

A CULPA É DO ERRO OPERACIONAL?

Um erro operacional grave. É como Sergio Moro define o massacre de Paraisópolis.
O estouro da bomba no colo do sargento Guilherme do Rosário, no atentado do Riocentro, em 1981, também foi resultante de um erro operacional.
Torturadores da ditadura diziam se exceder em suas tarefas e assim cometiam assassinatos por erro operacional. Vladimir Herzog foi morto assim numa masmorra militar.
O erro operacional pode ser usado para explicar de delitos leves a crimes bárbaros, nas mais variadas circunstâncias.
O massacre de 111 presidiários do Carandiru, em 1992, teria sido provocado pela perda de comando e por um erro operacional da polícia militar.
Na origem das matanças das barragens que estouram em Minas, estão erros operacionais.
Quanto maior a chance de impunidade, maior a possibilidade de ‘erro operacional’.
Pobres, negros, índios e mulheres são eliminados todos os dias por assassinos que recorrem à desculpa do erro operacional.

POR QUE GLOBO E FOLHA ODEIAM BOLSONARO

Se não estivessem sob o ataque de Bolsonaro, que tomou a iniciativa da guerra, Globo e Folha teriam a mesma fúria contra a criatura que ajudaram a inventar com o golpe de agosto de 2016?
Foi Bolsonaro quem determinou que Globo e Folha eram inimigas e deveriam ser derrotadas, e não o contrário. No dia 1º de dezembro de 2017, Bolsonaro declarou, em vídeo caseiro, no primeiro ataque direto ao que definiu como “trabalho sujo da Globo”, quando ainda era pré-candidato:
“Vocês aí têm uma audiência de 40% (referindo-se à Globo). Mas pegam 80% da propaganda oficial do governo, que em grande parte sustenta a mídia. Se eu chegar lá, vou fazer justiça, vão perder metade disso, vão ganhar só 40%”.
Lula liderava as pesquisas e Bolsonaro vinha em segundo. A Folha só iria ser atacada diretamente no dia 29 de outubro do ano passado, quando Bolsonaro, já eleito, concedeu entrevista ao Jornal Nacional.
Ao comentar reportagens da Folha sobre seus assessores laranjas, Bolsonaro disse que “por si só, esse jornal se acabou”. E completou: “Não quero que [a Folha] acabe. Mas, no que depender de mim, imprensa que se comportar dessa maneira indigna não terá recursos do governo federal”.
A partir daí, a guerra não teve tréguas. Bolsonaro reduziu as verbas do governo para a Globo, tentou acabar com a obrigatoriedade de publicação de balanços de empresas em jornais (a MP caducou por boicote da base aliada) e determinou que o Planalto cancelasse as assinaturas online da Folha.
Nunca os jornalistas de Globo (TV, rádio e jornal) e Folha estiveram tão à vontade para bater num governo de direita como agora. Talvez nem nos governos petistas a artilharia das duas organizações tenha sido usada com tanta intensidade, todos os dias, na direção de Brasília. Até Merval bate na direita.
Não há, na Globo e na Folha, ninguém que defenda Bolsonaro. As concessões são feitas apenas a figuras, em especial Paulo Guedes e Sergio Moro. O caçador de Lula e fornecedor de grampos ilegais merece tratamento vip. A dívida da Globo com Moro é impagável.
Guedes é exaltado pela sua obstinação com as ‘reformas estruturais’, que interessam aos bancos e aos empresários. E agora ainda tem a festa para o pibinho do trimestre.
Os inimigos de Bolsonaro nos jornais e na TV calibram os ataques quando o foco é a economia e o desmonte do Estado, porque concordam com a liquidação do pré-sal e do que resta de patrimônio público, a precarização de serviços na saúde e na educação (para que sejam assumidas pela área privada) e a depreciação da imagem do servidor público.
Não há uma crítica, uma só, de Folha e Globo, ao Ministério da Agricultura e à liberação criminosa de venenos para a lavoura. Porque a Globo tem um compromisso com o agronegócio, e o agro é pop.
Para quase todo o resto, Globo e Folha mandaram um recado: salvem-se os que puderem se salvar. As mais fulgurantes estrelas do reacionarismo na imprensa brasileira são agora críticos implacáveis de um governo de direita.
As redações de Globo e Folha se divertem com a possibilidade de atacar Damares, Araújo, Weintraub, os subalternos dos órgãos culturais, o filho que pretendia ser embaixador, o negro que se revela racista, o sujeito que acusa os Beatles de disseminarem o comunismo e a adoração ao diabo, os terraplanistas olavistas e o Salles omisso com grileiros e incendiários da Amazônia. A Globo defende a floresta, porque também nessa área há munição para atacar Bolsonaro e fazer o marketing do ambientalismo.
Mas Globo e Folha atacariam os Bolsonaros, sairiam atrás da história do Queiroz e debochariam do fundamentalismo religioso do governo, se Bolsonaro não tivesse declarado guerra?
Como seriam as relações das organizações que Bolsonaro quer exterminar, se o armistício tivesse sido assinado logo depois da posse, e Globo e Folha mantivessem, apenas por protocolo, uma postura crítica branda diante dos desatinos de Bolsonaro?
A Folha continuaria dizendo, como assegurou em outubro, em meio à campanha, que Bolsonaro não era um candidato da extrema direita? Hoje, para a Folha em guerra, é um autoritário “fantasiado de imperador”.
A briga é boa, porque pode reposicionar a Folha golpista e prolongar mais um pouco a sobrevida do jornal impresso. E pode salvar a Globo, se Bolsonaro cair e só se Bolsonaro cair.
Mas Globo e Folha teriam a mesma fúria se Bolsonaro não tivesse declarado guerra aos seus interesses? Os donos, os jornalistas, os leitores, os ouvintes, os telespectadores sabem que não. Bolsonaro também sabe.

A FRAUDE DO PIBINHO

O pibinho de 06,% do último trimestre, comemorado pela Globo, é uma fraude resultante da manipulação de números das exportações pelo governo. A denúncia é do jornal Financial Times e virou assunto mundial hoje.
A grande imprensa brasileira, que faz festa pelo pibinho para agradar o mercado e induzir o povo ao consumo, está sendo humilhada pela imprensa britânica.
O bolsonarismo frauda até os dados de uma economia morta, que a Globo tenta ressuscitar de qualquer jeito, na função de animadora da extrema direita.
(Sempre lembrando que o Financial Times é o jornal dos liberais e vem apoiando as reformas de Paulo Guedes. É liberal, mas não é imbecil.)

Logo agora?

Visita do conselheiro para Assuntos Políticos da Embaixada dos Estados Unidos, Willard Smith, ao presidente do Tribunal Regional Federal da 4ª Região, Victor Luiz dos Santos Laus.
Foi ontem. José Reinaldo Carvalho, editor do Brasil 247, está perguntando: por que a visita de um emissário americano ao tribunal que reafirmou e aumentou a condenação de Lula, e logo numa hora dessas?
Também dá pra perguntar: e por que aquela meia?

DESAFIO A SERGIO MORO

Depois do massacre de Paraisópolis, Sergio Moro participaria de um debate ao vivo sobre excludente de ilicitude?
Não de um debate com jornalistas amigos na TV, mas com pessoas comuns, com moradores de comunidades que tiveram os filhos, os irmãos e os amigos assassinados pela ação da polícia.
Moro iria defender com o povo a ideia de lei aguardada pelos que massacram, batem, reprimem e atiram em jovens pobres e negros sem medo de serem punidos?
Moro circularia hoje, como defensor do povo e caçador de bandidos, pela favela de Paraisópolis? Ou Moro só fala de excludente de ilicitude para empresários e facções de políticos da extrema direita?
Moro foi esses dias ao Congresso defender suas ideias sobre a licença para matar bandidos.
Se o ex-juiz é o defensor do povo inseguro, que vá defender sua tese lá onde o povo mora.