Exceções e exceções

Seu Mércio entrou apressado hoje à tarde na ferragem da Juca Batista. Pediu dois metros de brita para fazer uma meia sola em buracos de rua aqui na Aberta dos Morros e largou no ar esta pergunta:

– O que falta para que o regime de exceção de hoje seja igual ao da ditadura iniciada em 64.

Eu e mais dois que se encostavam no balcão nos entreolhamos. Seu Mércio simulou uma pausa, fingindo que aguardava as respostas, mas logo se encarregou de esclarecer:

– O que falta é que os civis e os militares sejam mais competentes.

Disse e saiu às gargalhadas, avisando que que sua missão agora é tapar buracos.

Quando montou na bicicleta, emitiu seu último parecer:

– Quem quiser votar este ano, que se contente em votar no clube, no grêmio estudantil, no Rotary, na associação do barro ou na rainha do colégio.

O BOM SENSO DE WILLIAM WAACK

William Waack me deve uma xícara de café, que derramei agora ao ler um comentário dele em debate da Folha sobre manuais de redação e a conduta dos jornalistas. Tive um acesso de riso de três minutos.
Leiam o que ele disse: “Sou libertário. Manuais são bons para quem precisa responder a críticas e servem para apoiar o aparelho de televisão, mas são poucos usados na prática. Eu sou contra regulamentos e a favor de que cada um arque com sua responsabilidade. Sou a favor do bom senso”.
O bom senso de William Waack o levou a fazer um comentário racista na TV e a obrigar a Globo, tão zelosa com seus pupilos de direita, a mandá-lo embora.
(Deve ser interessante um debate em que um sujeito execrado por discriminação racial apresenta-se como conselheiro de bons modos para jornalistas. Pobre jornalismo, pobres libertários.)

Põe quarenta

Puxo converso com quem pode me ajudar a entender o que está acontecendo. Tem um bombeiro de posto de gasolina que me esclarece muitas coisas aqui na Aberta dos Morros.
Abasteci agora há pouco e ele me disse o seguinte: o cliente chega e diz o tradicional “põe quarenta” e vai embora cada vez com menos gasolina no tanque.
E aí então o bombeiro soltou uma frase que eu vi como uma tese, ou uma premonição.
Esse cara que põe sempre o mesmo valor só vai reagir quando descobrir que com R$ 40 ele terá direito a apenas dois ou três litros de gasolina.
Achei interessante e perguntei:
– E qual será a reação dele?
– Ele vai passar a dizer: põe sessenta.

O MANUAL E O BOATO

Esta é uma das recomendações do novo Manual de Redação da Folha de S. Paulo aos seus jornalistas sobre como se comportar nas redes sociais: não compartilhem boatos.
Parece um conselho óbvio. Só que o jornalismo sempre dependeu dos boatos, e o jornalismo brasileiro vive de boatos há muito tempo.
Comentarista de jornal, rádio ou TV, engajado ao golpe, só funciona com boatos das suas fontes ligadas a tucanos e jaburus, no governo, no Congresso, no Judiciário, no Ministério Público.
Desde o começo da Lava-Jato o que o jornalismo faz nem é compartilhar boatos. É produzir boatos. As colunas de fofocas da política existem por causa do boato.
A Lava-Jato sustentou todo o trabalho da imprensa (sem nenhuma reportagem investigativa relevante, uma que fosse) com a alcaguetagem e o boato. Desde que a vítima fosse Lula, Dilma e o PT.
Sem o boato, a Folha de S. Paulo não seria o que é. O boato, sob as mais variadas embalagens, é a matéria-prima e o produto acabado de quem cobre a Lava-Jato.
Mas para a Folha e os grandes jornais, não é boato, é informação privilegiada.

O PRÓXIMO LANCE DO GOLPE

Por que a renúncia de Luciano Huck à candidatura à Presidência mereceu tantas manchetes, mesmo sendo a segunda renúncia dele em menos de três meses?

A repercussão da decisão deu a entender que um grande candidato, com chances de vencer, estava abandonando a disputa. Pode ser? Huck tinha 8% nas pesquisas. Era um pangaré.

É muito pouco para o sujeito que a imprensa tentou apresentar como o novo, no mesmo modelo do Despacito Júnior e do Farinata Júnior.

Huck não era quase nada até agora. Seria daqui a pouco a Marina Silva desta campanha. Levaria tanta pancada que não aguentaria o tranco.

Luciano Huck foi um factoide inventado por Fernando Henrique, pela imprensa e pela direita em geral, que não têm mais em quem se agarrar. Nem a Globo levava Huck a sério.

Com o fim de Huck, eles vão tentar outro nome (Meirelles e Maia têm, cada um, 1% nas pesquisas, e Bolsonaro é o candidato dos patos, mas não do mercado e da Fiesp).

Se não conseguir outro nome, a direita vai tentar melar a eleição. Eles vão inventar algo. Já estão inventando. Uma dessas invenções será até tentar trazer Huck de volta nos braços do mercado financeiro.

 

E OS MILITARES?

Mesmo antes da tal abertura, antes mesmo da anistia de 1979, parte da imprensa produzia reportagens sobre os antagonismos nas Forças Armadas.
A revista Status, uma espécie de Playboy brasileira, muito bem feita, publicava esse tipo de análise, quase como contrabando em meio a mulheres nuas.
Era um embate que na época se resumia aos pró e aos contra a abertura, aos militares da linha-dura em geral e aos da linha-mais- ou-menos-mole, aos nacionalistas e aos abertos ao mercado internacional.
A imprensa deve há muito tempo uma boa análise sobre o que pensam os militares hoje. Se o jornalismo fazia isso em meio à ditadura e sob ameaça, por que não faz nada hoje?
O jornalismo se submeteu mesmo ao golpe, como protagonista, e não consegue produzir mais nada de relevante na política, ou teria a desculpa de que está sob intervenção federal?
Pois eu gostaria de saber quem das Forças Armadas se posicionou contra a intervenção no Rio. Mas aí também não sei se não estou pedindo demais.

Guampa pode

Há um detalhe engraçado nessa história da censura à faixa presidencial do vampiro da Tuiuti. Censuraram a faixa, mas liberaram as guampas do vampiro?
Se a censura for como no tempo da ditadura, vamos ter pelo menos muito humor com essa intervenção. Regimes de exceção têm essa virtude.