Um milagre salva Lula

Alguns dizem, repetem e insistem que as sentenças do juiz Sergio Moro nos processos contra Lula terão de ser muito bem amarradas, ou poderão ser desatadas pela segunda instância. E a segunda instância é a o Tribunal Regional Federal da 4ª Região, em Porto Alegre.

Pois se sabe que o TRF delibera quase tudo a favor de Sergio Moro. Em março, o Tribunal refugou um processo de Lula contra o juiz por abuso de autoridade (o grampo da conversa com Dilma e a condução coercitiva).

O argumento básico é o de que o juiz está em missão única, excepcional, e que suas deliberações podem então ser fora da curva.

O TRF ratifica 70% das sentenças que saem de Curitiba. Este é o grande argumento da Lava-Jato para a conduta do juiz Moro.

Tenho minhas fontes no Judiciário e elas recomendam o seguinte: não alimentem as expectativas dos mais otimistas com possíveis decisões do Tribunal Regional que possam vir a favorecer Lula. Não embarquem nessa ilusão.

A situação de Lula (com cinco processos, nem todos em Curitiba, e outros que ainda poderão aparecer) é a mesma do jogo do Brasil com a Alemanha. Ele pode até marcar um, mas vai tomar sete.

Lula foi cercado. Não haveria mais o que fazer, a não ser esperar por um milagre. Os delatores irão se multiplicar. Vão levar Lula para o canto e massacrá-lo, em Curitiba e no Jornal Nacional. Com ou sem provas, com ou sem convicções.

E ninguém enfrenta Sergio Moro, porque desafiá-lo formalmente, nas instâncias da Justiça (pobre corregedoria), seria correr o risco de ficar marcado como inimigo da Lava-Jato, da Globo, do pato da Fiesp e dos golpistas do Jaburu.

Moro pode manter alguém em prisão preventiva, como mantém, pelo tempo que quiser (porque a lei o favorece!!!), para depois obter delações de farrapos morais. Alguns colegas reagem, como os Juízes para a Democracia, mas e daí?

Poucos ou quase ninguém fica sabendo que há discordâncias graves dentro do próprio Judiciário e do Ministério Público em relação aos métodos medievais de Sergio Moro. É uma discordância honrosa, decidida, mas ainda inconsequente, porque aparentemente minoritária e escondida pela própria imprensa.

E, para completar, o único juiz de instância superior a enfrentar Moro, num episódio pontual, ao recriminá-lo pelo delito de grampear Dilma e mandar a gravação para a Globo, foi o ministro do Supremo Teori Zavaschi.

Mas Teori Zavaschi está morto.

 

FINALMENTE, AS PROVAS

Fico sabendo só agora, porque passei o dia distraído, que apareceram as provas do empreiteiro Léo Pinheiro de que o tríplex do Guarujá é de Lula.

A primeira prova, já nas mãos de Sergio Moro: dois carros em nome do Instituto Lula passaram pelo sistema automático de cobrança dos pedágios a caminho do Guarujá entre 2011 e 2013.

A Folha informa a outra prova: registros de ligações telefônicas entre Léo Pinheiro e pessoas ligadas a Lula.

Mais provas: e-mails que mostram a agenda de Lula, na qual aparece a previsão de encontros com Pinheiro, e mensagens da secretária do instituto para Okamotto, que preside a entidade, avisando que o empresário havia ligado para falar com ele (Lula).

Com provas como estas até eu consigo provar que aquele helicóptero tucano com cocaína mineira era de Lula.

Ah é?

É inquietante esta pergunta que circula nas redes: se o empreiteiro Léo Pinheiro disse a Sergio Moro que Lula mandou destruir as provas das doações por caixa 2 ao PT, por que o juiz não quis saber se ele de fato as destruiu?
Qualquer aprendiz de repórter teria feito a pergunta. O erro (será?) é tão primário que até a Globo registrou ontem, no Jornal Nacional, que Moro ficou em silêncio.
Por que Pinheiro fez a afirmação e o juiz não quis saber mais nada? Porque, se o empreiteiro dissesse que destruiu as provas, não haveria por que ele estar ali. Um delator, dizem, só vale alguma coisa se tiver provas do que afirma.
Ou será que as provas ressuscitarão de repente, junto com outras que nunca aparecem? Ou teremos mais uma convicção?

Uma armadilha para Sergio Moro

O jornalismo de direita comete um erro grave, quase infantil, ao tentar induzir Sergio Moro a pensar que não há outra saída que não seja prender Lula.

A estratégia é precária, porque constrange o juiz. Moro sabe que se transformou em ídolo dos golpistas. É dado estatístico que quase todos os seus gestos (inclusive fotos e presença em eventos) acabam por atender as demandas dessa turma.

Mas o juiz, que tanto valoriza a comunicação com a população, também sabe que seus atos não podem ser vistos como gestos inspirados no ativismo da direita na imprensa. Um juiz não pode ser guru da direita mais reacionária, em lugar algum.

Prender Lula é o desejo primitivo de quem bateu panelas, apoiou o golpe de agosto e viu a quadrilha do Jaburu apropriar-se do poder. E está vendo agora a destruição dos seus ídolos tucanos Aécio, Serra e Alckmin. E verá mais adiante que não terá nem Previdência nem leis trabalhistas. E que seu guru passa a ser Doria Júnior e que um dia poderá vir a ser Luciano Huck.

Essa gente deprimida, que já andou de braços dados com Bolsonaro, não pode acreditar que  orienta a missão do Judiciário na Lava-Jato.

Moro não tem o direito de cometer novas barbeiragens. Duas delas, em circunstâncias normais, teriam avariado seriamente sua carreira: o grampo da conversa de Dilma com Lula, depois entregue à Globo, e a condução coercitiva de Lula.

Prender Lula agora, sem provas, não seria apenas mais uma barbeiragem. Poderá ser um dos maiores erros já cometidos pela Justiça, com consequências políticas imprevisíveis.

Os jornalistas de direita, que babam pedindo a prisão de Lula, os patos sonegadores da Fiesp e os batedores de panela atormentados pelos estragos do golpe que eles mesmos patrocinaram não podem ter a ambição de orientar a conduta de Sergio Moro.

E o juiz sabe que os brasileiros não podem ser induzidos por esta direita abusada ao equívoco de achar que os golpistas pedem e ganham tudo da força-tarefa da Lava-Jato em Curitiba

Um juiz com a missão de Sergio Moro não é alguém tomando decisões em uma ilha, alheio às ansiedades e expectativas de um país inteiro. Um juiz indiferente ao que se passa ao seu redor, nessas circunstâncias, pode cometer falhas brutais.

Se um juiz ignora seu contexto, ou se acha que seu talento e seu marketing pessoal são infalíveis, que Themis, a deusa da Justiça, o proteja.

Os estragos de Palocci

Muita gente não dormiu esta noite e não irá dormir bem a partir de agora com essa declaração do Palocci de que tem assunto para um ano de trabalho da Lava-Jato.
Dizem que os insones não serão tesoureiros do PT, não são Lula, nem Dilma, não serão os delatados de sempre.
A insônia irá pegar uma turma até agora imune e impune.
Aguardemos os estragos que Palocci pode fazer, se é que a delação dele (que atingiria os bancos, dizem) será aceita pela turma de Curitiba.
Os jornalistas da direita mais alegre esperavam muito de Palocci, mas poderão se frustrar com o italiano.

Mais uma do gari tucano

João Doria Júnior está processando (já com despacho favorável de um juiz) os organizadores de um evento virtual em São Paulo, que debocham das suas decisões sobre a Virada Cultural.
Na ditadura, os militares passaram a perseguir quem fazia ironias com o governo, mas a reação geral os obrigou a calibrar a repressão.
Em tempos de democracia, quando o Judiciário ratifica a perseguição a críticos de um prefeito tucano, é porque a coisa ficou feia mesmo.
Golpistas sempre lidaram muito mal com o riso e o humor, mas a Justiça não pode ser cúmplice desta gente.
Confirmam-se as previsões de que a direita cumpre agora a nova etapa do golpe, recorrendo ao Judiciário para intimidar e fazer valer sua postura autoritária, mesmo com quem faz humor.
E dizem que as instituições estão funcionando. Estão mesmo…

O príncipe e o leão

Li há muito tempo aqui na internet que Sergio Moro está querendo prender Lula porque o juiz seria um leitor contumaz, pertinaz e sagaz de Maquiavel.
Como se fosse grande coisa alguém ler Maquiavel. O Príncipe é um livrinho de 160 páginas. Meus netos daqui a pouco estarão lendo e recitando Maquiavel: “O tempo lança adiante todas as coisas e pode transformar o bem em mal e o mal em bem”.
Mas os meus netos não vão querer que prendam Lula só porque leram O Príncipe.
Maquiavel escreveu: “Aqueles que agem apenas como leão não conhecem a sua arte”.
Sergio Moro pode ter pulado esta parte ou lido um resumo de O Príncipe na Wikipédia.

 

Moisés Mendes é autor de  Todos querem ser Mujica 

(crônicas, Editora Diadorim).

A verdade

Imaginem que o juiz Sergio Moro tem à sua frente o empreiteiro Léo Pinheiro e decide então utilizar o novo método das nove mentiras e uma verdade para que o delator conte o que sabe.
E Léo Pinheiro começaria contando esta história:
– Lula mandou, porque ele mandava em todo mundo, que eu destruísse as provas de caixa 2 das doações da OAS ao PT.
E Moro interromperia então o empreiteiro:
– Chega, chega!!! Assim está bom. Esta é a verdade.
E Léo Pinheiro insistiria:
– Mas eu nem contei o resto, doutor?
– O resto não importa. Você está liberado. Pode ir embora com as nove mentiras.

O belo mundo do FMI

A diretora-gerente do FMI, Christine Lagarde, já sabe em Washington que a economia brasileira voltou a crescer sob o comando seguro do homem do Jaburu.
É a manchete esfuziante dos jornais online, que noticiam a declaração da moça como se fosse coisa séria. O Brasil deve ser o único país do mundo que ainda dá manchete para o FMI.
O engraçado é como alguém fica sabendo em Washington de algo do Brasil que aqui ninguém viu, ninguém sabe e ninguém sente.
Aqui na Aberta dos Morros, só o que se vê na TV é a desova de dúzias de delatores que atacam Lula por todos os lados.