FASCISTAS

Já tive, como todos temos, vizinhos inconvenientes de todo tipo. Tive vizinhos que arrastavam os móveis no andar de cima todas as noites. Tive vizinho que cantava alto no banho de madrugada.
Tive vizinho racista, porque ouvia suas conversas nojentas. Tive vizinhos que nunca me disseram bom dia. Tive vizinhos que sumiram sem deixar rastros, como se estivessem fugindo de alguma coisa.
Mas pela primeira vez tenho agora um vizinho assumidamente fascista. É uma experiência que o golpe e a Lava-Jato me oferecem. A Lava-Jato estimulou os fascistas a agirem sem medo, com ou sem relho.
Os fascistas estão certos de que ficarão impunes. Mas eles não sabem que, mais dia menos dia, o fascismo sempre é derrotado.
(Peço desculpas aos que já leram a respeito aqui. Não pretendo voltar ao assunto. Mas esta nota é para dizer que o fascista continua ativo e que as ‘autoridades policiais’ o subestimam, mas eu não.)

EIS UM CONTISTA

Alguns dos desafios que se apresentam para o jornalista que decide fazer ficção: escapar dos cacoetes do texto ‘objetivo’, que se repete todo dia na nossa vida, ou mesmo das narrativas ditas naturalistas de quem escreve uma novela ou um conto como se escrevesse uma reportagem.
Grandes narradores fizeram ficção de alto nível como se fossem repórteres escrevendo sobre o que haviam acabado de ver. Mas o escritor que desencarna do jornalista vai além disso e se solta por outros caminhos e vira ficcionista.
O ficcionista tem que fugir das amarras do que sempre fez como jornalista e inventar, transgredir e arriscar mesmo, no sentido de ser mais do que jornalista.
Li agora alguns contos do Flávio Ilha, nome consagrado do jornalismo gaúcho, um texto facilmente reconhecível pela excelência e pelas particularidades.
Pois Flávio faz ficção da boa em Longe Daqui, Aqui Mesmo (Editora Diadorim). Quem quiser procurar, claro que irá encontrar o jornalista aqui e ali. Mas o que se apresenta mesmo é o ficcionista. Flávio é contista.
Mais não digo. O livro será lançado terça, dia 29, a partir das 20h, no Baden Cafés Especiais (Jerônimo de Ornelas, 431).

Beija-flor

Tema para aulas de cursos de jornalismo. Os repórteres da Globo e da GloboNews não saem de dentro de postos de gasolina. Para dizer que não têm combustível.
A Globo mobilizou dezenas de repórteres que repetem a mesma coisa. E a cobertura nas estradas é feita do alto de passarelas, de dentro de helicópteros ou por drones.
O jornalismo passou a ser atividade de risco em qualquer conflito, porque a reputação da imprensa é precária. Repórter no chão é raridade em qualquer cobertura no Brasil do golpe.
O golpe consagrou o jornalismo beija-flor.

O GOLPE ZUMBI

O jaburu é um farrapo derrotado pelos caminhoneiros. Mas o grande derrotado é o golpe.
O jornalismo que ajudou a golpear Dilma e fomentou a caçada a Lula ainda tenta transformar a guerra do diesel numa briga jaburu x transportadores.
Não é. A batalha das estradas é parte coerente do golpe de agosto de 2016. Quem causou o caos foi o golpe.
O Quadrilhão continuará no poder apenas para cumprir mais uma etapa (até quando?). Mas está destroçado. 
Os golpistas, incluindo tucanos, pato da Fiesp, o Judiciário da Lava-Jato, o Supremo, ‘juristas liberais’ e a imprensa, abandonam o jaburu para fingir que nunca estiveram com ele.
Todos são cúmplices e culpados pela destruição do país. O jaburu é apenas o preposto que não deu certo. O desafio agora é arranjar logo um substituto que a Globo procura há meses.
O golpe é uma criatura desnorteada e fora de controle.

O TARADÃO E O QUADRILHÃO

O ministro Marco Aurélio determinou que ninguém pode prender o fazendeiro mandante do assassinato de irmã Dorothy Stang, a missionária americana morta no Pará em 2005.

O ministro do Supremo argumentou que Reginaldo Galvão foi condenado em segunda instância a 30 anos de cadeia, mas que ele, Marco Aurélio, é contra o cumprimento de prisão provisória antes da apreciação do último recurso da defesa pelo Supremo.

Foi o argumento usado pela defesa de Lula, mas que a maioria do Supremo rejeitou (Marco Aurélio era contra a prisão do ex-presidente condenado a 12 anos de prisão em julgamento a jato do Tribunal Regional Federal em Porto Alegre).

Mas o que importa agora é que o fazendeiro, conhecido como Taradão, que mandou matar (com provas) uma religiosa indefesa, ficará solto, e Lula está preso (sem provas), por causa de um tríplex que não é dele.

Por quê? Porque o pedido de libertação de Taradão caiu nas mãos de Marco Aurélio. E os pedidos de libertação de Lula caem em todas as mãos possíveis, por motivos que qualquer ministro pode explicar, mas que só os cínicos são capazes de entender.

Na última tentativa, todos os cinco ministros da segunda Câmara do STF negaram o pedido de liberdade para Lula.

Pergunte então a um juiz do Supremo porque Taradão está solto e Lula está preso. Eles podem tentar dizer, e juristas serão mobilizados para ajudá-los, mas nem eles mesmos se convencem das suas explicações.

Mas Aécio, a irmã de Aécio, Serra, o jaburu e os membros do Quadrilhão sabem porque estão livres no mesmo mundo do Taradão.

Ordens da Globo

A Globo liberou as afiliadas (ou orientou) para que façam o que bem entendam e deixem de lado a programação em rede.
A ordem é: cubram a ‘greve’ dos caminhoneiros e esqueçam o Vídeo Show. Ê decisão rara, de tempos de guerra.
A coisa vai ficar feia. O jaburu mandou desalojar os ‘grevistas’ à força. A Globo decidiu fazer jornalismo, ou melhor, foi empurrada para a rua…

E agora?

O jaburu anunciou na TV que vai pra guerra contra os caminhoneiros “com as forças federais”.
Aguardemos a reação da turma que ajudou a derrubar Dilma fechando estradas e sempre defendendo o golpe militar.
Que se entendam com os militares.

Rossetto

Conversei há pouco por telefone com Miguel Rossetto. É mais do que o nome do PT para o governo do Estado, é uma figura inspiradora dos gestos do partido e das esquerdas também fora do Rio Grande do Sul.
Tratamos de amenidades e da resistência com a candidatura de Lula. O problema de quem liga pra mim é que a pessoa pensa em falar e quem acaba falando sou eu. Hoje, incluí os netos como tema da conversa.
Mais adiante vou escrever a respeito de Rossetto, que tem minha admiração há muito tempo. É exemplo de gaúcho sério, com uma trajetória política vigorosa e íntegra.