SERIA CIRO UM TERRAPLANISTA?

Ciro Gomes tem alguma coisa de Deltan Dallagnol misturado com Damares e chanceler Araújo, um esoterismo de um moralismo religioso, exacerbado, sempre com o antipetismo antes de qualquer coisa.
Na entrevista que deu à BBC, ele disse que vive de palestras, como Dallagnol pretendia viver. Mas não cobra nada de sindicatos e estudantes.
E aí vem a parte mais interessante, de quem pode estar hoje mais perto da Lua do que da Terra:
“Nas horas vagas, evidentemente, eu continuo especulando sobre cosmologia, astrofísica, que são limites do conhecimento humano que mexem muito com a minha cabeça”.
Conheço muita gente que foi tolerante até agora com as confusões e grosserias de Ciro Gomes, mas que desistiram. A cosmologia antipetista subiu para a cabeça de Ciro Gomes.
Só falta esse cara ser terraplanista.

Pesquisas que assustam

Para os otimistas e os que acordam no sábado cheios de esperança, um dado de pesquisa do DataFolha é destruidor.
Depois dos cortes de verbas para educação, saúde e investimentos, das negociatas de emendas com cúmplices no Congresso, da eliminação de bolsas estudantis e do dinheiro para pesquisa, do fim dos recursos para combater as agressões à Amazônia, depois da destruição dos serviços públicos, o brasileiro melhorou sua avaliação sobre uso do dinheiro público na Era Bolsonaro.
Historicamente, menos de 10% consideram que o dinheiro público está sendo bem aplicado. Com Bolsonaro, esse percentual sobe para 23%.
Pode ser efeito da consolidação do nicho bolsonarista como pode ser produto da negação e da desinformação. Por que aumenta, com Bolsonaro, a percepção de bom uso do dinheiro público?
A confusão é grande, porque cresce ao mesmo tempo (em relação à pesquisa de dezembro de 2016) de 39% para 50% o índice dos que acham que as verbas públicas são insuficientes.
Se desse pra resumir, Bolsonaro aplica menos dinheiro, mas vem melhorando a qualidade da aplicação.
Divirtam-se.

O DRAMA DE BOLSONARO

Por que Bolsonaro corre o risco da exposição da fragilidade física e grava um vídeo no hospital com a sonda no nariz? Bolsonaro se expõe porque precisa dizer, sem força na voz, que está vivo e no comando.

Bolsonaro não consegue ficar um dia, um só, sem dizer algo, sem mandar um recado que expresse seu controle do poder. Não governa, não detém o poder por completo, mas precisa dizer que governa.

A exposição pública da lenta convalescença, num vídeo em que não tem nada a dizer, é o grito do sujeito fragilizado: eu estou aqui, mas estou me comunicando com vocês.

O drama de Bolsonaro é o de qualquer político inseguro: a sensação de que não tem o amor que merece. Não o apoio, mas o amor mesmo.

Bolsonaro é rejeitado pelos líderes mundiais da direita. É considerado pela imprensa conservadora como a figura pública mais repulsiva em todo mundo.

Sua base de apoio é calculada em menos de 20%. Tem ricos, tem classe média decadente, tem uma minoria de jovens e tem até pobre que se acha rico. Mas não tem massa.

Se tivesse, todas as manifestações pró-direita, desde a sua posse, estampariam seu nome e sua imagem em faixas de cartazes. Não há fotos com a imagem do seu rosto nas aglomerações da Paulista da turma vestida com a camiseta da Seleção.

O nome levado para as ruas, mesmo pelo bolsonarista de raiz, é o de Sergio Moro. O bolsonarista tem vergonha de ser publicamente bolsonarista.

Bolsonaro disse que, se erguer a borduna, será seguido. Por quem? Pelos homens racistas e homofóbicos de meia idade? Pelos militares? Bolsonaro confia nos militares?

Bolsonaro acha que pode formar grupos de milicianos, mas não tem povo ao seu lado, não tem fidelidade em número e entusiasmo. Falta massa crítica a Bolsonaro.

Mas o que ele sente mesmo é falta de adoração. O bolsonarista branco e rico é um oportunista que no fundo rejeita Bolsonaro. E Bolsonaro sabe que é assim e sofre muito.

Vão averiguar

Mais uma notícia dos tempos bolsonarianos. A Corregedoria-Geral da Assembleia Legislativa do Espírito Santo vai avaliar se o deputado estadual Capitão Assumção (PSL-ES) quebrou decoro ao oferecer na tribuna recompensa de R$ 10 mil para quem matasse um criminoso.
Na Era Bolsonaro, avaliam se Deltan Dallganol e Sergio Moro cometeram delitos, se alguém pode encomendar a cabeça de alguém e até se Queiroz pode continuar foragido.
No bolsonarismo, tudo que é absurdo passa antes por uma avaliação, como se fizesse parte do normal. O cara que manda matar e anuncia um prêmio para o matador pelo menos remunera bem.
Os bolsonaros mandam matar de graça.

Plágio

O repórter Matheus Magenta, da BBC, descobriu o mais novo plagiador da praça, o governador da metralhadora Wilson Witzel.
O texto da tese de mestrado do juiz amigo de Sergio Moro tem 63 parágrafos copiados de trabalhos de seis autores, incluindo um artigo inteiro e a íntegra de um capítulo de outro texto.
A tese é sobre Medida Cautelar Fiscal, que trata de alguma coisa que ninguém vai ler. Mas o repórter leu, para desmascarar o justiceiro carioca.

O porto dos milicianos

A Globo cutucou Bolsonaro no JN com a pauta das máfias do contrabando do Porto de Itaguaí, no Rio.
As máfias derrubaram o comando dos auditores fiscais e o superintendente da Polícia Federal, que vinham reprimindo os contrabandistas.
A bandidagem do contrabando trabalha articulada com os milicianos amigos da família Bolsonaro, que controlam a região.
O que Sergio Moro pensa disso tudo? Moro é muito cuidadoso e não comenta nada que envolva as milícias.

CIRO GOMES NO TÚMULO DE GETÚLIO

Esta foto de Eduardo Knapp, da Folha, é de 24 de agosto de 2002. Brizola, Ciro Gomes e Antônio Britto estão diante do túmulo de Getúlio Vargas, no Cemitério Jardim da Paz, em São Borja.

Se a foto fosse um pouquinho mais aberta, poderia mostrar o homem que surge do lado esquerdo (perto de Brizola) e grita, enquanto Brizola discursava:

– É o enterro do trabalhismo.

Foi uma cena paralisante. Só uma pessoa se mexeu. O deputado Pompeo de Mattos, que está de lenço, bem atrás de Brizola, gritou alguma coisa e saiu atrás do homem. O mensageiro do fim do trabalhismo disparou e sumiu entre os túmulos.

Eu estava lá como repórter e vi a cena daquele sábado pela manhã, no dia do aniversário do suicídio de Getúlio. Ciro Gomes era o candidato do PPS à presidência. Britto, do mesmo partido, concorria ao governo do Estado.

Também estavam lá Paulinho da Força, vice de Ciro pelo PTB, o deputado Roberto Jefferson, presidente do partido, e gente que Brizola atraiu para sua última tentativa de aliança com a direita.

Ciro Gomes estava estreando como “homem de esquerda”, sempre tendo ao lado a mulher dele, Patrícia Pillar. A caravana passou por São Borja, Itaqui e Uruguaiana.

Muitos não entendiam aquele ajuntamento em volta de Brizola. Me lembro de um bêbado gritando no comício em Uruguaiana:

– É tudo corrupto.

Um brigadiano tirava o bêbado, e o bêbado voltava. O que mais guardo daquele dia é que de repente, na visita a uma granja de criação de porcos em Itaqui, eu vi Brizola velhinho.

Tentei, muitos anos depois, entrevistar o homem que decretou o enterro do trabalhismo. É conhecido em São Borja. Ele preferiu ficar quieto, enquanto outros continuaram falando o que a maioria não queria ouvir.

Naquela eleição vencida por Lula, Ciro ficou em quarto lugar no primeiro turno, com 11,7% dos votos, atrás de Lula, Serra e Garotinho. Germano Rigotto venceu no Estado.

Brizola morreu quase dois anos depois, no dia 21 de junho de 2004, com 82 anos. E Ciro Gomes está aí. Tem gente que ainda acha que ele é trabalhista e até brizolista e getulista.

Ciro Gomes talvez seja o melhor exemplar brasileiro hoje daquelas figuras camaleônicas. Não se sabe direito o que elas possam ser, mas se sabe com certeza o que elas não são.

A UTI do Brasil

A Era Bolsonaro tem mais uma imagem síntese da grande tragédia brasileira com a cena da UTI a céu aberto no Rio.
Morreram pelo menos 11 pessoas no Hospital Badim, e a manchete da Folha online nesse momento é sobre o caixa dois nas eleições…
No país em que florestas, hospitais e doentes são consumidos pelo fogo, o jornalismo é um bêbado discursando na esquina.

CELSO DE MELLO VEM AÍ

O ministro Celso de Mello está dando vários recados nos últimos dias, como se avisasse aos desentendidos que tomará uma decisão importante quando da votação pela segunda turma do STF da suspeição de Sergio Moro, no habeas solicitado pela defesa de Lula.
Leiam o que ele disse hoje, no discurso da cerimônia de despedida de Raquel Dodge da Procuradoria-Geral da República:
“O Ministério Público não serve a governos, a pessoas, a grupos ideológicos, não se subordina a partidos políticos, não se curva à onipotência do poder ou aos desejos daqueles que o exercem. O Ministério Público também não deve ser o representante servil da vontade unipessoal de quem quer que seja, ou instrumento básico de ofensa de direito das minorias”.
Sim, ele tratou do MP, e não do Judiciário. Mas o recado serve para quem quiser usar a touca, dentro de todo o sistema de Justiça.
Por coerência com a sua trajetória, Celso de Mello irá oferecer ao país, no dia da decisão sobre a suspeição do ex-juiz, um dos votos históricos do Supremo.
Celso de Mello, com o voto de desempate, finalmente irá livrar o Supremo da submissão aos lavajatistas.