BOM SENSO?

Leio alguns jornalistas pedindo sensatez aos vereadores de Porto Alegre no exame da abertura de processo de impeachment contra o gestor da cidade.
Dizem os jornalistas que uma cassação de mandato é coisa muita séria, que não pode ser levada adiante por motivações políticas.
Procurem em algum lugar um texto, um só, desses mesmos jornalistas com as mesmas posições categóricas quando do processo contra Dilma em 2016.
Vocês lerão artigos com posições circulares e volteios, mas nunca a defesa exaltada do que eles chamam agora de bom senso. O que mais eles escreveram é que o Congresso tinha a prerrogativa de decidir o que bem entendia como correto, porque uma cassação de mandato é também um ato político.
Outro argumento foi o de que Dilma seria derrubada não só pelas tais pedaladas, mas pelo ‘conjunto da obra’ e que isso fazia sentido. Mesmo que não dissessem que ‘obra’ seria essa, ficava claro que a motivação era política.
Nenhum dos que agora pedem sensatez viam golpe no ato contra Dilma. Mas veem motivações ideológicas e partidárias no processo que pode ser aberto contra o gestor.
Falta bom senso a esses jornalistas. Um jornalista não pode subestimar seus leitores ao tentar defender o mais atrapalhado gestor que Porto Alegre já teve.

O PODER DAS MULHERES 

Conclusões dos dados de pesquisa do Datafolha, em boa análise na Folha de hoje. A grande maioria de mulheres, pobres e nordestinos não quer saber de Bolsonaro.
Os grandes eleitores do sujeito são homens brancos jovens e de meia idade com diplomas e boas rendas.
Bolsonaro não é o candidato dos pobres e de pessoas consideradas “sem acesso às informações”. Ao contrário, ele é o ídolo do macho do Sul e do Sudeste com boa formação, mas inseguro com as esquerdas, as conquistas sociais dos últimos anos e a ascensão de pobres e mulheres.
Bolsonaro é o ídolo do macho branco em crise, que foi convencido por ele de que ficará fortão e viril se estiver armado. Este macho sabe muito bem quem é Bolsonaro.
E ele sabe também que as mulheres (inclusive as da sua família) vão derrotar Bolsonaro.

Croácia? Onde?

Amanhã à noite, numa mesa de bar da Cidade Baixa, poucos ainda saberão dizer onde fica a Croácia e porque afinal falamos tanto do seu passado e do seu presente controversos.
Estamos livres das dúvidas cruéis sobre torcer para um país de neonazistas (é o que diziam com certezas absolutas) ou para uma nação que vence a Copa com seus craques negros, mas que deverá continuar sob o contágio da xenofobia.
Torcer era preciso, para não ficar neutro. Muitos não saíram de casa para votar, votaram em branco ou anularam o voto nas últimas eleições, porque também essas são escolhas possíveis. Mas na Copa, não. Na Copa era preciso torcer para alguém.
Mas acabou. O fim da pior Copa de todos os tempos, com seu futebol de robôs, a Copa que não teve um lance excepcional (desses que se vê na Série C a cada fim de semana) nos devolve ao conforto das nossas certezas e à realidade do mafioso futebol brasileiro.
(Se prorrogação e disputa por pênaltis significassem algo excepcional e salvassem jogos ruins, os campeonatos de várzea seriam os melhores do mundo. E talvez sejam.)

Saldo da Copa

Seu Mércio me manda agora pelo WhatsApp:
O grande lance da Copa, o mais espetacular, foi aquele em que o fotógrafo salvadorenho Yuri Cortez, da AFP, ficou sob uma tonelada de jogadores da Croácia, quando da comemoração do gol contra a Inglaterra.
Em segundo lugar, a cena da festa de encerramento em que Ronaldinho gaúcho toca uma versão russa de bumbo leguero, como se tentasse imitar o Ernesto Fagundes, o Kako Pacheco e o Pedro Borghetti.
E em terceiro o Maradona dançando rumba.

O ALMOÇO

Um pai e um filho discutem sobre as virtudes e os defeitos de Bolsonaro. Os dois com diploma de curso superior. Com boa renda, boas leituras, boas amizades importantes.

É o filho quem alerta o pai para os perigos da sua adesão apaixonada ao candidato da extrema direita. E o pai diz ao filho que se frustra porque percebe agora que ele não aprendeu com seus ensinamentos.

O avô entra então na conversa. Não para ficar ao lado do neto, como vocês acham que seria, mas ao lado do filho.

E chega a mãe do filho. E a mãe do filho fica ao lado do filho. E argumenta que é inacreditável que alguma mulher possa votar em Bolsonaro.

E chega a avó do neto com um prato de maionese. E a avó também fica ao lado do neto. E sai do quarto a irmã do filho do pai que vota no Bolsonaro.

E a irmã também diz que votar em Bolsonaro seria admitir que as mulheres devem se submeter aos machos mais primitivos e mais cruéis e retornar à Idade Média. E a família vai para o almoço de domingo dividida.

Esta cena, que se repete por aí a toda hora, é pior do que as cenas do tempo da ditadura.

Porque no tempo da ditadura as famílias se dividiam, mas a perspectiva e o sonho da democracia eram um aceno de que tudo logo adiante se resolveria.

Que a luta contra o arbítrio fazia algum sentido e que no fim a vitória seria da civilização. Como acabou sendo, pelo menos até agosto de 2016.

Hoje, no pós-golpe de 2016, não se sabe mais nada, porque o eleitor de Bolsonaro não é o que a direita chamaria de ignorante, é o cara aparentemente bem formado, bem informado e bem endinheirado. E esse cara defende Bolsonaro porque defendeu o golpe.

E assim a humanidade caminha para o almoço do domingo. Quando chegam o irmão do pai que vai votar no Bolsonaro e mais a mulher dele carregando uma sacola plástica com um frango assado de TV de cachorro.

E a tia larga o frango sobre a mesa e inventa de dizer que vai torcer para a Croácia. E o pai que vai votar no Bolsonaro diz que não acredita, porque a Croácia é um país com forte presença de neonazistas.

E o tio, casado com a tia que vai torcer para a Croácia, diz que torcerá pela França, porque o que importa é a liberdade, a igualdade e a fraternidade. E que exatamente por isso também vota em Bolsonaro.

O tio começa a esquartejar o frango. A Croácia faz um gol.

Desaforo

Parece um desaforo bem programado contra os negros. Alexandre Garcia apresentou agora há pouco no Jornal Nacional uma reportagem sobre a ainda pequena participação de negros na publicidade.
Que cara de pau. Alexandre Garcia é o sujeito que entende que o sistema de cotas nas universidades criou o racismo no Brasil.
E que negros, brancos, caucasianos, negróides, mongóis (as expressões são dele) são tudo a mesma coisa.
Porque sendo a mesma coisa, como ele acha, devem todos se submeter às regras da meritocracia exaltada por reacionários e golpistas.
Que diabo é isso? – pergunta o sujeito nesse vídeo.
A única meritocracia que a direita não defende é a do voto. A direita para a qual Alexandra Garcia faz assessoria de imprensa gosta mesmo é da meritocracia dos golpes.

O MAIOR DE TODOS OS ZAGUEIROS

 

Nenhum zagueiro da Copa que termina amanhã jogou tanto quanto esse senhor aí da foto. Nenhum tem a elegância que ele exibia dentro da área. Ninguém impõe o respeito que ele impunha, sempre com a cabeça erguida.

Nunca nenhum zagueiro da Copa fez o que esse senhor fez uma vez e eu vi. A bola espirrou na área e ele saltou como um acrobata e tirou a bola com a sola do pé, por cima do centroavante, erguendo a perna para trás como um escorpião. Ele aplicou um balãozinho no centroavante, dentro da área.

Era um jogo amistoso contra um time de Porto Alegre. Mas o zagueiro fez tudo com categoria, sem exageros, como se fosse a coisa mais simples do mundo. E o centroavante ficou espantado.

Pois esses dias fui a Rosário, a minha terra, e disse ao amigo Marco Valerio Flores Andreazza que desejava visitar o Estádio Centenário, o estádio da minha infância, ali na baixada dos trilhos.

Fomos com o fotógrafo Emílio Pedroso, e alguém nos mostrou no chão a calçada da fama, com estrelas com os nomes de jogadores de Rosário que se destacaram pelo Brasil ou eram ídolos do Internacional, o clube da cidade, mantido pela Swift (um Internacional que jogava de camisa azul).

Mas não estava ali na calçada o apelido do melhor zagueiro que vi jogar. Reclamei com um funcionário e o homem esclareceu: ele tem a sua estrela, mas está com o nome. E lá estava escrito: “Alexandre Mendonça. Reconhecemos o seu talento e o seu valor”.

Na minha infância, ninguém sabia quem era Alexandre Mendonça. Mas todos sabiam e sabem até hoje quem foi Vacacaí. É este senhor ao meu lado, localizado em sua casa, a poucas quadras do estádio, pelo Marco Valério.

Os franceses podem dizer que viram Varane jogar. Eu vi o grande Vacacaí, o cara que a Swift levou de São Gabriel para Rosário só para jogar no seu time. Seu apelido saiu do nome de um rio gabrielense.

Eu vi todos os jogos do Internacional entre os meus 12 e 13 anos, quando morei em Rosário. Todos. No dia em que eu encontrei Vacacaí, eu disse que me lembrava de alguns outros jogadores.

Mas não sabia mais o nome de nenhum deles, mesmo dos atacantes que sempre ficam na memória da gente. Só me lembrava de um. O único nome de que lembro até hoje é este: Vacacaí.

Eu disse isso a esse senhor de 83 anos, ele se emocionou e eu admito que me enxerguei ali naquele momento na arquibancada descoberta do Centenário (que foi demolida), lá entre 1965 e 1966, com o Minuano batendo nas costas, eu ali catando amendoins num saquinho feito de jornal velho, eu sempre sozinho, sem nenhum adulto me acompanhando, aprendendo com os gritos da torcida o que significava corner, offside, back, score, centre foward, e eu então admito que comecei a me lembrar daquele tempo e chorei sim ao lado de Vacacaí.

Ele me olhou com respeito. Este senhor foi o maior zagueiro que vi jogar e por isso ele é pra mim o maior zagueiro do mundo de todos os tempos. Vacacaí foi a minha primeira referência no futebol, muito antes de Alcindo.

No dia em que nos encontramos, na semana passada, eu comecei a conversa perguntando a Vacacaí se ele se lembrava daquele lance com a sola do pé, que levantou a arquibancada.

Eu nunca esqueci aquele lance. Ele me disse que sim. Que também não poderia esquecer aquela façanha. E recontou a jogada em detalhes.

Ninguém sabe, nem ele nem eu, ninguém mais quer saber o placar daquele jogo, porque não interessa.

O que importa é que naquele domingo gelado de 65 ou 66 Vacacaí enfrentou o Grêmio e deu um balãozinho com a sola do pé em Alcindo, o Bugre, o maior goleador da história do Olímpico.

Como jogava este Vacacaí.

UM A MENOS

Uma dúvida a nos atormentar no fim de semana, uma dúvida maior do que o dilema sobre torcer para a França ou para a Croácia no domingo.
Essa é a dúvida: o que será da democracia brasileira com a grave decisão de Flávio Rocha, o homem da Riachuelo e de parte da extrema direita brasileira, de retirar sua candidatura a presidente da República?
Que tormento.