O SAMBA FEMINISTA

O Brasil da resistência deveria ter a valentia da Mangueira, ser mais atrevido, ter menos medo.
No que tem de mais evidente, o samba enredo da escola homenageia Marias e Marielles e ataca machismos e fascismos.
Mas tem também outros recados políticos fortes. Fala dos anos de chumbo, de sangue, da história não contada.
Um dos versos mais fortes é o que manda tirar a poeira dos porões. Para quem quiser e para quem não quiser entender. 
É o mais poeticamente político samba enredo de todos os tempos. É um samba feminista que vai incomodar a extrema direita.
Será que os reaças irão ao Sambódromo só para vaiar a Mangueira?

(Abaixo a letra de Deivid Domênico em parceria com Tomaz Miranda, Mama, Marcio Bola, Ronie Oliveira e Danilo Firmino)

HISTÓRIAS PARA NINAR GENTE GRANDE

Brasil, meu nego
Deixa eu te contar
A história que a história não conta
O avesso do mesmo lugar
Na luta é que a gente se encontra

Brasil, meu dengo
A Mangueira chegou
Com versos que o livro apagou
Desde 1500
Tem mais invasão do que descobrimento
Tem sangue retinto pisado
Atrás do herói emoldurado
Mulheres, tamoios, mulatos
Eu quero um país que não está no retrato

Brasil, o teu nome é Dandara
Tua cara é de cariri
Não veio do céu
Nem das mãos de Isabel
A liberdade é um dragão no mar de Aracati

Salve os caboclos de julho
Quem foi de aço nos anos de chumbo
Brasil, chegou a vez
De ouvir as Marias, Mahins, Marielles, malês

Mangueira, tira a poeira dos porões
Ô, abre alas pros teus heróis de barracões
Dos Brasil que se faz um país de Lecis, jamelões
São verde e rosa as multidões

JOAQUIM E DILMA

Joaquim não gosta de ver nas paredes aqui de casa as fotos em que aparece. Não sei se não gosta ou se faz onda.
Ontem, olhou um mural do meu escritório com algumas fotos soltas que vou trocando de vez em quando.
Joaquim queria investigar o que havia ali. Descobriu uma foto minha com Dilma Rousseff.
E ficou espantado:
– Aqueeeela ali é a Dillllma?
– Sim, é a Dilma.
– Mas a Dilma Dilma mesmo?
– Sim, a Dilma Dilma.
– Que legallll.
É bom ouvir de um neto que é legal ver uma foto do avô ao lado de Dilma.
(A foto em que ele examinava de perto pra ver se era Dilma mesmo não está muito boa porque foi um flagrante. Joaquim não gosta de ser fotografado. Talvez, quem sabe, um dia queira uma foto ao lado de Dilma.)

O recuo do juiz

Sergio Moro, o político que não mente, tentou aplicar um migué até nos seus adoradores.
Mesmo já atuando como futuro ministro e afastado da magistratura, pretendia continuar recebendo como juiz até a posse, em janeiro.
Preparou-se para fazer mais uma manobra de quem pensa em dinheiro e auxílios diversos.
Seu argumento era furado. Deveria pensar na família, pois se saísse do judiciário e algo acontecesse com ele, até a posse, os seus poderiam ficar mal.
Foi pressionado pelos próprios colegas a desistir da grana. Segunda-feira estará oficialmente exonerado.
Ainda bem que o juiz não inventou de dizer que receberia os vencimentos e depois faria uma doação a entidades filantrópicas.

(Crônica publicada no Globo)

CACÁ

Luis Fernando Verissimo

Sou Salgueiro, mas duvido que se ouvirá um samba enredo melhor do que o da Mangueira no desfile das escolas do Rio, no ano que vem. O samba é em homenagem à Marielle Franco, vítima por duas vezes, das balas dos assassinos e do descaso das autoridades em identificá-los.

Dizem que o que está dificultando a investigação é que todo o mundo sabe quem foram os atiradores e quem são os mandantes, a questão agora é decidir se vale a pena denunciá-los ou se é melhor deixar tudo, brasileiramente, pra lá – “lá” sendo aquele lugar em que nossos crimes e nossas culpas vão para serem convenientemente esquecidos.

O samba da Mangueira homenageia a Marielle, mas também fala sobre um Brasil desejado, “o Brasil que não está no retrato”, que não é o falso Brasil da história ensinada nas escolas. Agora, querem que a história oficial seja única e sem contestação.

Boa parte da nossa história oficial é mentirosa, ou apena uma versão entre outras versões possíveis do que realmente aconteceu. Contestá-la não é fazer doutrinação ideológica, é uma maneira de formar, não pequenos comunistas, mas alunos capazes de aceitar a diversidade e as razões por trás do que aparentam ser apenas histórias de triunfos e heróis.

Ouvi o samba da Mangueira na internet, cantado pela turma de compositores da escola com uma participação importante, a da Cacá (guarde este nome) Nascimento, uma menina que não deve ter mais do que doze anos, com uma bela voz e uma bela cara.

Quero agradecer a Cacá. Às vezes, quando a gente está por baixo, pensando o pior da humanidade, alguma coisa vem e nos salva. Você recupera a esperança, o apetite e o prumo existencial, seja isso o que for.

Aconteceu comigo vendo o sorriso aberto da Cacá cantando Marielle. O rosto da Cacá apaga tudo de ruim deste momento nacional. É o rosto da nossa reação. Lidere-nos, Cacá.

Arrotos

Comecei a rir sozinho hoje à tarde num café (costumo me controlar em lugares públicos) ao imaginar uma conversa do Sergio Moro com o futuro chanceler Ernesto Araujo.
Não cheguei a ter um dos meus acessos de riso, porque me controlei quando vi todo mundo me olhando.
Mas ri muito porque imaginei que no meio da conversa, quando Moro engolia um arroto (ele sempre parece engolir arrotos), chegou o Magno Malta.

Aldyr

Tenho inveja da Lelei Teixeira e de todos os que conversaram e tiraram fotos com Aldyr Schlee na Feira do Livro. Perdi a chance de vê-lo pela última vez e de conversar pela segunda vez.
Eu só conversei com Aldyr, de conversar mesmo, não de vê-lo por perto, no final de 2016, quando telefonei para saber se ele poderia se engajar a uma mobilização pela democracia, idealizada pelo deputado Tarcísio Zimmermann, que mais tarde se chamaria Movimento 3D (Democracia, Diálogo e Diversidade).
Falamos quase uma hora ao telefone. Começamos a conversa sobre o manifesto e fomos falando de política, da crise do jornalismo, de literatura (ele falou do relançamento do romance Don Frutos) e de Porto Alegre. Senti que a literatura ainda o entusiasmava.
Sua preocupação era com a mulher, dona Marlene, que andava doente e morreria logo depois.
Aldyr morreu agora há pouco. Mais uma vez, eu escrevo para dizer que falhei de novo em mais uma despedida que deixei de fazer.

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