O GOLPE, OS MACHOS E AS MULHERES

Esta senhora da foto, para quem não conhece ou não se lembra, é a socióloga Eleonora Menicucci, ministra da secretaria de Políticas para Mulheres no governo Dilma Rousseff. Ouvi o que ela disse hoje no encontro Elas por Elas, organizado pelas mulheres do PT, sob a coordenação de Misiara Oliveira.
A sala estava lotada, com 300 mulheres, no Hotel Everest, e meia dúzia de homens. Estávamos lá eu, os deputados Tarcísio Zimmermann e Adão Villaverde, o vereador Marcelo Sgarbossa e mais meia dúzia de machos curiosos.
Eleonora não poupou os homens. O golpe foi machista. Os homens continuam machistas em toda parte, inclusive em casa (incluindo, claro, os de esquerda). O Congresso é machista.
Outras mulheres discursaram, entre as quais a deputada Maria do Rosário, para reafirmar que Dilma Rousseff foi derrubada por machos inseguros e frustrados que também odeiam pobres e negros.
Fiquei impressionado com a qualidade e o vigor dos discursos das pré-candidatas do PT à Câmara e à Assembleia. Todas atacaram defensores e defensoras da república do relho. A força das mulheres puxa a revitalização do partido.
Miguel Rossetto estava lá e prometeu um governo lilás. Foi o único homem a falar.
(No ano passado, Eleonora Menicucci sofreu um ataque de Alexandre Frota na Justiça. A socióloga criticou o sujeito por ter feito a apologia do estupro numa entrevista, e este pediu R$ 10 de indenização. Ganhou na primeira instância e perdeu na segunda. Com um detalhe: quem acolheu a queixa do indivíduo e condenou Eleonora por danos morais foi uma juíza chamada Juliana Nobre Correa.)

A CAMISETA E O CHORO

Fiquei sabendo que as torcidas que aparecem na Globo, nas ruas de várias cidades, foram uniformizadas com camisetas amarelas distribuídas pela própria Globo.
É do jogo, é do marketing, num momento em que a Seleção é um produto abalado, mas é também a prova de que, sem patrocínio, fica difícil vestir a camiseta. É a realidade dessa Copa.
Eu só lamento que o estrago produzido pelo golpe na imagem da Seleção tenha tirado de muita gente a chance de obter uma renda extra na Copa.
É comovente ver nas esquinas as pessoas sentadas ao lado de varais de camisetas, gorros e outros objetos que pouco atraem a atenção de quem passa. Pode melhorar com vitória contra a Costa Rica. Espero que melhore.
Aproveito e esclareço que não torço contra Seleção, nunca faria isso, até porque teria pouco resultado prático.
Só não me entusiasmo mais com a ideia de que Seleção é a expressão da nossa identidade. Desde a Copa no Brasil. Escrevi a respeito, lá em 2014, e mantenho o que disse.
Não é preciso dizer que devemos respeitar os que entendem o contrário. E que esses devem respeitar quem não tem o mesmo entusiasmo por um time que sofre para vencer a Costa Rica. Só isso.
É nesse contexto que tudo hoje parece exagerado, como o choro de Neymar. Imagine-se a pressão sobre Neymar como maior esperança dos que ainda enxergam a Seleção como expressão de brasilidade. O medo do fracasso, da vaia, da rejeição e do rebaixamento à condição de perdedor.
É natural que chore e se distensione. Vamos respeitar também a fragilidade de um craque e os seus vínculos principalmente com as crianças (Pelé chorou, com 17 anos, no final da Copa de 1958).
Mas o choro de Neymar, depois de um jogo contra a Costa Rica, não pode virar produto da Globo. A Globo não pode se apropriar de tudo, como se apropriou das passeatas que levaram ao golpe.
O bom mesmo é se Neymar tivesse chorado num canto do vestiário, depois do jogo, e alguém nos contasse daqui a alguns dias ou anos o que viu.

Os pinos

A revista Época tem uma interessante reportagem sobre a tomada de três pinos, com a pergunta que todo mundo faz: quem ganhou com isso, se nós não ganhamos nada?
O Brasil é, desde o golpe, um país-tomada-de-três pinos. O golpe é uma tomada de três pinos. A elite, os racistas, os machistas, os homens dos relhos, os homofóbicos, os justiceiros da Lava-Jato.
Todos são tomadas de três pinos. O Supremo, o jaburu, o Quadrilhão. Inclusive a Globo dona da Época.

https://epoca.globo.com/tecnologia/noticia/2018/06/sete-anos-depois-quem-ganhou-dinheiro-com-tomadas-de-tres-pinos.html

OS JOVENS E A CLASSE MÉDIA

Escrevi para o jornal Extra Classe online sobre os cinco anos dos protestos do inverno de 2013 e lancei mais perguntas do que afirmações.
Mas vou esclarecer um ponto da minha posição, para que não especulem sobre o que não escrevi.
Entendo que quaisquer tentativas de ver as passeatas pós-junho de 2013 como uma cauda dos movimentos iniciados pelos estudantes no começo daquele ano em Porto Alegre (e não no Rio, como muitos analistas acham que foi), comete um erro brutal.
O que vem depois, com a classe média que vai às ruas (nunca vi tanta tristeza em passeatas como aquelas) não tem nenhuma relação com os impulsos dos jovens que se mobilizam com força a partir do começo de 2013.
Os jovens tinham seus motivos variados para sair às ruas e queriam desafiar, transgredir e serem jovens. Protestaram contra o aumento da passagem do ônibus, contra o Fuleco, contra o governo e o que viesse pela frente. Mas eram na essência jovens em movimento, não eram golpistas.
Já a classe média assustada com a ascensão dos pobres, que engrossa as mobilizações de rua a partir do inverno de 2013, tomando a inquietação das mãos dos estudantes, tinha apenas suas incertezas e seus medos.
Os jovens que em algum momento perdem o controle dos protestos para a Globo e Sergio Moro estavam sendo jovens. E a classe média estava tentando se manter como classe média.
Dizer que os movimentos de rua iniciados pelos estudantes têm alguma relação com as passeatas da classe média desiludida, porque essas vêm na sequência e nas ruas, é mais ou menos como querer ver Trump como uma continuação de Obama só porque ambos ocuparam a Casa Branca.

O IMBECIL DA ERA DA LAVA-JATO

O macho que foi a Moscou para tentar debochar das mulheres russas é um aparentado do homem do relho. Todos têm uma conexão entre si e se consideram imunes a qualquer abordagem da lei, mesmo na Rússia.
Eles não são babacas fazendo bobagens porque não pensaram nas consequências. São, ao contrário, sujeitos que pensam no que fazem e se consideram inalcançáveis por qualquer consequência.
Os imbecis dos vídeos de Moscou são os empoderados pela inspiração da Lava-Jato. A direita arcaica, nas suas manifestações diversas, tudo pode, inclusive na Copa e em qualquer parte do mundo.
Os idiotas de Moscou, que certos jornalistas fofos consideram apenas rapazes mal-educados e inconsequentes, são parte do contexto do golpe, da perseguição às esquerdas, do encarceramento de Lula e do aparelhamento das instituições.
O babaca de Moscou se acha protegido pelo golpe e seus desdobramentos, porque o golpe é consequência do seu apoio. O golpe lhe deve favores.
Aqui ele não é “apenas” machista, é um fascista fantasiado de verde-amarelo. Lá ele se apresenta como um engraçadinho.
O bobalhão dos vídeos se acha dono de tudo, inclusive em Moscou. Dono da piada, das grosserias, do machismo e das mulheres russas.
O imbecil brasileiro de direita foi aperfeiçoado pelo golpe, que o estimula a ir em frente. Ele mesmo é um golpista a passeio, que talvez nem veja os jogos.
Ele quer fuzarca e exibicionismo. O imbecil dos vídeos quer dizer que foi a Moscou só para azarar e que mesmo lá nada de errado acontecerá com ele. A soberba do fascista se manifesta onde ele estiver.

O EXEMPLO DE OLÍVIO

Muita gente acha que eu decidi disputar uma eleição a deputado estadual no pior momento da política. Para mim, esse é o melhor momento, porque eu não seria submetido a teste algum em tempos de calmaria.
Me apresento como pré-candidato do PT a deputado no ano em que Lula foi encarcerado. E tenho certeza de que, por Lula e pelo que ele representa como preso político, a eleição trará de volta muita gente que, por motivos variados, havia se distanciado da crença de que não há democracia sem partidos.
Hoje mesmo participei de uma roda de conversa com o presidente licenciado da CUT/RS e pré-candidato a deputado federal Claudir Nespolo, coordenada pela ex-secretária de Cultura Margarete Moraes.
O vereador Adeli Sell estava lá. Adeli é um dos entusiasmados com a perspectiva de resgate de parte da classe média que, na hora de votar, vai dizer: eu quero meu espaço de volta na política.
Mas nada foi mais motivador, ali naquele encontro, do que o vigor de um líder da grandeza de Olívio Dutra. Olívio pediu licença (como se preciso fosse) para fazer três intervenções no debate.
Falando de Porto Alegre, pediu que se questione sempre os rumos erráticos da gestão da cidade. Que se encaminhe o debate da regulação da mídia (para que a comunicação seja democratizada) e que os candidatos se dediquem com afinco à discussão e formulação de conteúdos caros ao PT, como as leis trabalhistas.
Mas o que o ex-governador passou mesmo a todos foi o sentimento de dedicação ao partido e à democracia. Com Olívio por perto, não há como esmorecer. Hoje me convenci mais um pouco, diante da energia de Olívio, de que vou para uma batalha na hora certa.

O inverno de 2013

Foi há exatos cinco anos, na grande passeata de 20 de junho de 2013, que os jovens perderam o controle dos protestos de rua e a Globo passou a se apropriar da ingenuidade, da desinformação e dos medos da classe média para preparar o golpe. Este é o meu texto publicado hoje no jornal Extra Classe online.

E os jovens dos 20 centavos?