Especialistas

O mais patético nessa história do Bolsonaro afirmar que não há fome no Brasil são as reportagens que ouvem especialistas, para que eles afirmem que há fome, sim.
Já li uma dúzia de reportagens e artigos nessa linha. O jornalismo brasileiro chega ao ridículo quase no mesmo patamar de Bolsonaro. Para desmentir uma asnice, os jornais precisam ouvir especialistas.
É como sair atrás de alguém especializado em bobagens para dizer, cientificamente, que Bolsonaro só dissemina besteiras.
Alguns jornais que ouvem especialistas em fome nunca ouviram alguém com fome.

O PRESENTE DE TOFFOLI PARA OS BOLSONAROS

Denúncia da Folha. Dias Toffoli fez com o caso de Flávio Bolsonaro o que o TRF4 fez com o processo de Lula no caso do tríplex.
O TRF4 bateu recorde de tramitação para reafirmar a condenação de Lula. Toffoli foi uma flecha para livrar o filho de Bolsonaro e os milicianos no caso do Coaf.
Está na Folha:
“Antes de beneficiar o senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ) com liminar, o presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), Dias Toffoli, atuou ao longo de dois anos em caso sobre compartilhamento de dados fiscais sem autorização judicial, mas não viu razão para determinar anteriormente a suspensão de investigações pelo país.
Flávio, filho do presidente Jair Bolsonaro (PSL), pegou carona em um recurso que tramita na corte, relatado por Toffoli. A ação questiona o uso de informações fiscais, sem autorização judicial, em uma condenação de SP.
Em abril de 2018, esse caso foi considerado de “repercussão geral” pela corte, ou seja, seu desfecho embasaria outros casos semelhantes.
Desde então, 42 outros processos, com origens diversas, foram colocados como dependentes dessa definição, sendo que quatro deles também são relatados por Toffoli.
A Folha nalisou esses 42 processos, que tratam principalmente de crimes de sonegação fiscal, enquanto Flávio é investigado sob suspeita de peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa”.
A reportagem detalha a manobra que beneficia os Bolsonaros e os milicianos e deixa na gaveta outros casos menos graves.
A frase de Jucá está vez mais viva. É com o Supremo e com tudo. Mas agora até dá saudade do Jucá.

ACREDITE

Para quem achava que a deputada trabalhista Tabata Amaral ainda merecia uma chance como representante de uma nova esquerda meio liberal, meio assim, meio direita, meio tucana, mas sempre com a cara do que seria a nova política.
Tabata é a velha política, não só por ser uma neoliberal dentro do PDT. Agora se sabe que ela recebeu R$1,3 milhão de doadores privados (empresários graúdos, é claro) na campanha. É dinheiro gordo doado pela direita ideológica. E ela teve ainda R$ 100 mil do fundo partidário, que é dinheiro público.
E o que Tabata fez com parte do dinheiro? Desembolsou R$ 23 mil para o namorado, o colombiano Daniel Martinez Garcia, por serviços prestados como assessor.
Tabata fez o que os políticos tradicionais, que ela diz combater, sempre fizeram. Deu dinheiro para quem não deveria ter dado. Parece pouco, mas deu.
O movimento que ela lidera, com gente endinheirada de São Paulo, chama-se Acredito. Esse é o nome. Acredite.

O simplório

Sergio Moro, o simplório, aposta na imbecilidade bolsonarista para dizer que Bolsonaro ama o Nordeste.
Quando o Brasil se revolta com os comentários do racista, o ex-juiz e chefe do Dallagnol vem com essa:
“Um testemunho: Em janeiro, na crise de segurança do Ceará, o PR @jairbolsonaro , primeira semana de governo, não hesitou em autorizar o envio da Força nacional e da Força de intervenção penitenciária e em disponibilizar vagas em presídios federais para as lideranças criminosas.
Resultado, em conjunto com o Governo Estadual, mesmo sendo o Governador do PT, a crise foi controlada em semanas. Nada mais do que a obrigação. Mas ilustra que o Nordeste tem sido tratado sem preconceito pelo Governo Federal. Afirmações diferentes não resistem aos fatos”.
Afirmações diferentes talvez sejam as saídas da boca do chefe que odeia paraíbas.
Moro acredita que a repressão a bandidos expressa respeito pelo Nordeste.
O ex-juiz deveria falar dos milicianos cariocas.

O Brasil vai continuar miseravelmente acovardado diante dos racistas que odeiam negros, índios, gays, nordestinos, mulheres, pessoas com deficiência, artistas, estudantes, professores, ambientalistas, humanistas, feministas, pobres e crianças?

SÓ OS PARAÍBAS PODEM NOS SALVAR

Foi amplificada desde ontem a pergunta que voa em torno de Bolsonaro como uma mosca que o golpe engordou: qual é o limite do apoio da direita a ele e ao governo, se o próprio Bolsonaro prova todos os dias que suas falas e atitudes não têm limites?

Qual é a racionalidade do apoio de uma direita dita liberal a um presidente que nega a existência de famintos e miseráveis (ainda mais miseráveis desde a eleição) e que ataca nordestinos como paraíbas governados por políticos inimigos, que não devem ter apoio nenhum do governo?

A direita, à espera do FGTS e dos efeitos da reforma da Previdência (que efeitos difusos seriam esses?) não vai brigar com Bolsonaro agora. A direita tentou e recuou da ideia de que Mourão poderia ser uma alternativa. Entraram na arapuca que elegeram e não conseguem sair.

Mas não há alternativa em manobras. A única saída contra a destruição da educação, da saúde, do ambiente, a única forma de salvar o que sobrou de alguma coesão social, das expectativas e, claro, dos restos de sonhos é a reação crítica das pessoas, uma mobilização mínima contra o que está claramente caracterizado como autoritarismo e revanchismo.

E aí há quem debata se Bolsonaro tem método. Não há método na cabeça do ministro do Meio Ambiente que destrói o ambiente? Da ministra da Agricultura que libera venenos? Do cara da Educação que vai acabar com a educação pública? Do Batman da Justiça, que reafirma no governo as táticas da Lava-Jato?

O método básico, bem representado pelos filhos, é o movido pelo ressentimento, pelo ódio, pela perseguição e pela discriminação. Bolsonaro quer destruir tudo que for de esquerda ou que acha que seja de esquerda e governar para os 18% da sua base dita ideológica, formada pelos brancos ricos, a classe média decadente e os pobres que se acham ricos.

Mas e o resto? O resto ainda pensa no que fazer, se é que pensa depois de cada gesto de reafirmação de que a coisa se movimenta mesmo com os militares, com o Supremo e com tudo, incluindo os milicianos.

O resto pode ser dividido entre os tomados pela ignorância profunda, os resignados, os omissos, os cansados, os acovardados e suas subdivisões.

O resto é maior do que Bolsonaro e sua base de apoio, muito maior, mas só uma parte pequena desse resto tem manifestado alguma força para pensar, se articular e reagir. O resto é um imenso resto.

Hoje, só os paraíbas poderiam nos salvar.