Aumentinho

Já mostrou armas a futura procuradora-geral da República, Raquel Dodge, que irá substituir Rodrigo Janot a partir de setembro. Ela exigiu de Janot que a previsão orçamentária da Procuradoria inclua aumento de 16,7% para os procuradores federais em 2018.
Nem os mais gananciosos recebedores de propina devem ter sido contemplados, em algum momento, com aumento tão generoso. É uma proposta esdrúxula (para não dizer indecente), que ainda depende do Supremo, num ano como este em que a encomia morta empurrará a inflação para 4% ou 5%.
E essa turma da Procuradoria-Geral tem a pretensão de moralizar o Brasil, desde que a moralização pegue quase sempre a esquerda.

Falsificadores

Quem me assegura (com provas mesmo, e não com convicções) que tal marca de azeite de oliva produz mesmo azeite de oliva?
É que flagraram em São Paulo mais fábricas vendendo óleos diversos como sendo de oliva. Eu mesmo consumo azeite de oliva na salada sabendo que não é de oliva.
Leite não é leite, cerveja não é cerveja, azeite não é azeite. Quantos fabricantes dessas guarapas se apresentam como democratas, mas são golpistas batedores de panelas. No Brasil, só os canalhas não são falsificados.

O silêncio do moralista

Uma das vozes mais fortes do moralismo de direita na Câmara dos Deputados, relator do projeto messiânico de Deltan Dallagnol de caça a corruptos, tenta agora se livrar do julgamento do Supremo.
O moralista é um dos denunciados da lista de Janot por recebimento de caixa dois (que o STF terá de dizer se não é propina, mesmo que no caso da direita nunca seja…).
O ex-diretor da Odebrecht Alexandrino Alencar disse em delação a respeito desse deputado: “Estamos percebendo o seu desempenho, a sua conduta, e nós gostaríamos de tê-lo aí como um parceiro futuro nas suas atividades como deputado federal”. E foi assim que o tal parlamentar recebeu dinheiro por fora.
Agora, o denunciado pede para abrir mão do foro privilegiado para que seu processo saia do Supremo e vá para a Justiça de primeira instância. É uma manobra escapista que em outros tempos ele condenaria aos gritos.
Aliás, ultimamente ninguém escuta um pio deste deputado sobre a Lava-Jato e o pacote justiceiro de Dallagnol contra a corrupção. O PFL já foi mais valente.

No faroeste

Seu Mércio me telefona para dizer que tem mais uma tese. Como não vê seriado (ele diz seriado, e não série), seu Mércio não sabe que personagem Sergio Moro seria nesses seriados de hoje.
Mas se fosse um personagem dos faroestes das antigas, Moro nunca seria o xerife, disse seu Mércio. Nem o amigo do xerife, mas o cara do saloon que sempre está secando os copos com um guardanapo quando os bandidos chegam.
Nos faraoestes, esse cara parecido com o Moro, com aquele jeitão do Moro, só seca copos.
Seu Mércio pergunta como é que um cara com todo jeito de figurante de filme de faroeste vira xerife no Brasil.
A realidade nem sempre imita a ficção, me disse seu Mércio, antes de desligar contando que Panfílio, o seu sabiá guaxo, não aguenta mais o calor.

As máfias intocáveis

Duas notícias de hoje tratam de facções de uma área de mafiosos intocáveis da economia brasileira, o setor financeiro.
A primeira é a decisão da Justiça de acolher denúncia do Ministério Público contra o BankBoston por ter corrompido membros do Carf, no caso da Operação Zelotes. O banco conseguiu ficar com R$ 509 milhões do Fisco.
A outra notícia é a denúncia do Ministério Público contra uma quadrilha que atuava em cartel em cinco bancos (Standard Chartered, Royal Bank of Canada (RBC), Bank of America Merrill Lynch (BofA), Deutsche Bank e Morgan Stanley) para manipular o mercado de câmbio (combinavam entre eles o tal spread, a diferença entre os preços de compra e venda de dólar).
Nos dois casos, o que se denuncia mesmo é o seguinte: o sistema financeiro, que simula atuar num mercado de concorrência no Brasil, com juros de 500% ao ano e lucros que nem banco americano tem, é a caixa preta da corrupção que ninguém consegue pegar.
Nos dois exemplos, quem acredita que os casos seguirão adiante e as máfias dos bancos serão punidas? Eu não acredito. No Brasil, ninguém toca em tucanos e banqueiros.

O CRACHÁ

 

Usei este crachá 15 anos atrás, exatamente 15 anos, no dia 24 de julho de 2002, em Ijuí. Era a identificação que o PT distribuiu aos jornalistas, para facilitar os acessos na cobertura à presença de Lula na cidade.

Lula fazia ali o lançamento nacional de sua candidatura à presidência da República. O que me lembro daquele dia é de um Lula feliz, mas também atrapalhado com o terno e a gravata, desde o momento em que desceu do avião, foi recebido por Olívio e Tarso e disse, como se ordenasse:

– Vamos trabalhar.

Me lembro bem dessa frase: vamos trabalhar. E lá se foram os três para a Unijuí. Estava muito quente. Não era um 24 de julho morno, era um dia de calorão. Depois da palestra para agricultores, estudantes e professores na Unijuí, Lula foi para a praça da cidade, de colete e gravata, e ali fez um discurso.

Era a primeira vez que se apresentava ao Brasil com as vestimentas do novo Lula. Apesar do calor, permaneceu de colete e gravata, porque os marqueteiros não podiam desperdiçar o figurino.

Relembro e escrevo agora para dizer que pretendo voltar a usar um crachá como este em 2018, para ver Lula em campanha, mas sem gravata e sem concessões a fardamentos que agradem a direita.

Somente Lula pode radicalizar as posições da esquerda pela democracia, depois do golpe de agosto, pelo que passou antes e depois de chegar ao governo, pela sua história como sindicalista, pelo enfrentamento da ditadura e agora pela resistência ao cerco do pato da Fiesp e do Judiciário tucano.

Lula está hoje mais à esquerda, pelas circunstâncias, pela redescoberta da sua vocação, pelas expectativas pós-golpe.

Seria bom ver um Lula sem gravata, dando o troco nos que o induziram, lá em 2002, às conversas e coalizões com as facções hoje articuladas com o reacionarismo togado.

E que o crachá seja como este que está aí, com as cores sequestradas pelos panelaços e pelo golpe.