O DEBOCHE DO BOLSONARISTA

As referências da minha geração quando se fala de liberdade de imprensa têm a grandeza de Barbosa Lima Sobrinho, Prudente de Moraes Neto, Herbert Moses, Audálio Dantas.
Era deles que sempre ouvi falar, desde a adolescência, quando o tema era o direito à informação e à opinião. Todo estudante de jornalismo deveria saber quem foram essas figuras monumentais que enfrentaram os ditadores.
Pois chegamos, em tempos de bolsonarismo, ao estágio inimaginável em que a liberdade de imprensa só ganha relevância no Brasil (e acaba forçando o Supremo a rever sua postura de censor) por interferência de um sujeito chamado Diogo Mainardi.
Censuraram o site de Diogo Mainardi e foi um Deus nos acuda. Barbosa Lima Sobrinho foi substituído por um indivíduo que nunca defendeu liberdade alguma e que só berrou quando seu site foi atingido.
Diogo Mainardi, como lembrou Monica Bergamo hoje, riu da Folha quando o jornal foi censurado por Luiz Fux e impedido de entrevistar Lula. Mainardi ri da democracia, das minorias, das esquerdas, dos movimentos sociais, das feministas.
De Veneza, Mainardi debocha do Brasil, porque se considera europeu. Ter Mainardi como paladino da liberdade de imprensa é coerente com o tempo que vivemos.
Um golpista e bolsonarista como defensor das liberdades. O Brasil estava merecendo.

SÉRIES

O escritor português João Pereira Coutinho, cronista da Folha (reaça, mas bom demais), escreveu um texto muito engraçado para contar que não vê séries. Eu também não vejo e me sinto culpado.
Trechos do que ele escreveu:
“Serite aguda é uma obsessão autoinfligida em que adultos razoavelmente sãos iniciam uma competição entre eles para descobrir quem vê a maior quantidade de séries recentes.
Mas não só. Dentro das séries recentes, a serite aguda se desdobra em vários sintomas. Um deles é saber quem viu mais episódios da série em causa e, de preferência, em quantas horas.
O vencedor sente um alívio temporário e uma sensação de superioridade que dura até ao lançamento da próxima série. O derrotado questiona se vale a pena viver”.
Pois eu leio pelo menos 10 comentários por dia aqui no Facebook sobre séries. Acompanho só os comentários. Às vezes, quando perco algum, me sinto meio confuso e não entendo a série.
Não gosto de séries, mas gosto de comentários sobre séries, ou de série de comentários. A última série que vi foi O Vigilante Rodoviário.

Lula

A Folha está liberada para entrevistar Lula. A decisão, segundo a própria Folha, é de Dias Toffoli, que havia censurado a revista Crusoé e o site o Antagonista e agora levanta a censura imposta por Luiz Fux.
É uma maravilha a clareza de entendimento do Judiciário. Ainda mais quando as medidas são tomadas por imposição da imprensa de direita.
A imprensa que mais conspira contra as liberdades (incluindo o site do bolsonarista Diogo Mainardi) é a maior beneficiada pelas liberdades.
O Supremo ainda tem que se entender com os procuradores da República. O STF deu corda e ajudou a criar os monstros da Lava-Jato que agora prometem devorá-lo.
Mas o que falta mesmo é o Supremo, se tiver coragem, mandar soltar Lula. Se o Supremo cede às pressões do golpista e bolsonarista Diogo Mainardi, terá de ceder ás pressões da Constituição e da democracia.

O CINISMO DOS PROCURADORES

Bolsonaro pode dizer que defende a imprensa livre, desde que não chegue perto do Queiroz, como não vem chegando. Ele pode dizer e não significa nada. Todo mundo sabe o que ele pensa. O que ele diz não tem relevância.
Mas os procuradores da República que gritam contra os desmandos do Supremo, diante da ameaça de serem investigados, são mais cínicos do que o próprio Supremo. Os procuradores nunca ergueram a voz contra os desmandos de colegas que atuaram e atuam na Lava-Jato.
Nunca ouvi um procurador dizer que as delações forjadas e os vazamentos eram ilegais ou imorais. Nunca se ouviu uma voz em desacordo com o power point de Deltan Dallagnol, só para dar um exemplo.
E agora a jornalista Consuelo Dieguez mostra na Piauí que, incentivada pelo Ministério Público, para que seus executivos façam delações na Lava-Jato, a empreiteira CCR vai remunerar os delatores.
Mais do que remunerar, vai premiar quem fizer delação. Para que os delatores não enfrentam problemas financeiros, a CRR gastará R$ 71 milhões com esse prêmio.
Cada delator vai receber da empresa R$ 78 mil mensais por cinco anos. Tudo como compensação pelas delações. Para que se faça justiça, um procurador, Adonis Callou, ouvido por Consuelo critica a mutreta.
“Os acordos (de delação) existem para ressarcir os lesados e não os que cometeram crime”, disse o procurador à jornalista.
Pois então não venham os procuradores com essa história corporativa e pretensamente legalista de que o Supremo não pode conduzir investigações porque isso é ilegal ou inconstitucional, além de caracterizar perseguição.
A Lava-Jato será um dia desvendada quando chegarem aos seus subterrâneos. E muitos procuradores, que hoje gritam contra perseguições, estarão lá ou terão deixado rastros das suas atuações no mínimo controversas.

O poder da direita

Agora só falta o Supremo levantar a censura imposta a Lula, que não pode ser entrevistado pela Monica Bergamo por decisão de Luiz Fux (que, aliás, está caladinho sobre esse epísódio de agora do STF).
O ministro Alexandre de Moraes revogou há pouco a censura a reportagens da revista Crusoé e do site O Antagonista sobre o presidente do Supremo, Dias Toffoli.
O que é o poder da imprensa bolsonarista da direita, ou Diogo Mainardi também está entre os que não são mais bolsonaristas, como o José Padilha?

Tristeza

É evidente o constrangimento do índio paresí ao lado do homem que um dia disse (está na Folha de hoje) que os indígenas fedem.
Eu queria ver Bolsonaro receber os caciques guaranis e kaingangues que participaram anteontem de um evento na Fundação Ecarta, em Porto Alegre.
Convidem um deles para ir a Brasília, se tiverem peito. Todos estão na luta pela retomada de terras indígenas invadidas pelos brancos.
Duvido que Bolsonaro fizesse foto com o cacique Santiago, morador da Barra do Ribeiro. Nem Santiago iria querer.

https://www.extraclasse.org.br/movimento/2019/04/fala-indigena-impressiona-publico/

Bangu

Neymar e o pai devem mais de R$ 60 milhões à Receita. Hoje, o pai, Neymar da Silva Santos, foi recebido pelo ministro Paulo Guedes e pelo secretário especial da Receita, Marcos Cintra.
Depois, o pai foi ao gabinete de Bolsonaro. Falaram nas duas reuniões de futebol, só futebol, e da possibilidade de Neymar jogar no Bangu no ano que vem.

Calhorda

Um dos momentos mais calhordas de toda essa situação criada pelo Supremo censor foi o do Alexandre Garcia dizendo que teme ser perseguido pelo Judiciário.
É muito deboche. Um sujeito que foi porta-voz da ditadura, que depois ficou décadas na Globo como porta-voz da direita, exercendo seu papel de antiLula e antiPT com toda fúria, e que nunca defendeu liberdade alguma, falando agora de censura e de medo.
Garcia foi porta-voz de um regime que disseminou o medo e o terror e que dominou e desqualificou o Judiciário. O brabo é que tem gente que acredita na conversa fiada desse sujeito de que ele é crítico da Justiça e que por isso pode ser perseguido.
Alexandre Garcia, que agora bajula Bolsonaro, deve ter medo de ser perseguido pela própria consciência.