As valentes Fernandas

Não há como evitar as conexões da vida cotidiana e de seus simbolismos com a realidade imposta pela política, muito menos em tempos de golpe e fascismos.
Foi o que fizeram Fernanda Montenegro e Fernanda Torres ao lidarem com um convite aparentemente singelo.
Sabe-se agora que as duas rejeitaram o apelo de uma agência para que fossem as estrelas da propaganda do Dia das Mães da Riachuelo.
O argumento de mãe e filha: não dá para fazer propaganda de uma rede de lojas que tem Flávio Rocha como dono e candidato a presidente da República. Sabemos bem quem é Flavio Rocha, e quem não sabe deveria saber.
Faltam mais gestos como este. Falta para muita gente admitir que, sem o enfrentamento da direita, em todas as áreas, o golpe continuará andando.

PLATITUDES

Uma frase original de Sergio Moro em discurso na cerimônia de formatura da Universidade de Notre Dame, nos Estados Unidos.
– Ninguém está acima da lei.
Sergio Moro é o mediano que chega ao topo para repetir frases de autoajuda como se fossem expressões de sabedoria.
Moro é o juiz das platitudes. Se juntar Moro, Cármen Lúcia e Alexandre de Moraes, a frase será dita em jogral: ninguém está acima da lei.
Os tucanos saem em revoada toda vez que a frase é pronunciada por um desses juízes. Tucanos adoram frases de autoajuda sobre as leis e a justiça para todos.

QUEM CALA AS MULHERES?

O mundo passou o sábado aplaudindo o gesto de Meghan Markle, que se negou a jurar obediência ao príncipe Harry (seguindo o exemplo de Lady Di). É complicado para os príncipes e para os machos em geral, inclusive eu, ficar diante de uma mulher que diz publicamente: não haverá obediência.
Pois no começo da madrugada, ao enfrentar o vizinho que me atormenta e me ameaça, decidi finalmente pedir a mediação da Brigada. Em determinado momento dos relatos, um dos soldados me ordenou, com voz de comando:
– Diga a sua esposa para se acalmar e não falar.
Eu respondi na hora:
– Não posso fazer isso.
Não cometeria o desatino de mandar que se calasse, até porque sei bem que não tenho essa autoridade.
O soldado insinuou que poderia então me enquadrar por desacato, eu reagi e passamos a olhar para as árvores em busca de sabiás. O que ele queria mesmo era poder determinar: manda ela calar a boca.
Não sei se a recomendação para que as mulheres não falem, ou falem baixinho ou apenas concordem com os maridos faz parte dos protocolos da Brigada, se foi uma barbeiragem do jovem soldado ou se é assim mesmo.
Sei apenas que está cada vez mais difícil pedir para que as mulheres calem a boca. Se elas se calarem, os fascistas passarão a mandar nas nossas vidas.
(E o caso do vizinho agressor vai agora para a Justiça.)

O OGRO FASCISTA

Enfrento há uns quatro anos o cerco de um vizinho fascista, já denunciado por três vezes à polícia, que nada investiga. Que começou desrespeitando a mim e à vizinhança com festas de música alta, com tambores e gritarias, em qualquer dia da semana, até a madrugada.
Que é capaz de ligar o som da TV, para que todos ouçam, da manhã à noite. Que bateu panelas no golpe e que grita o nome de Bolsonaro. E que mais recentemente, porque reclamei da falta de respeito, me ameaçou com amigos dele que podem me pegar.
Por que a polícia não faz nada? Talvez porque eu não seja de grupos de extrema direita que o sujeito parece admirar. E a polícia está dedicada à “guerra ao tráfico”…
Os amigos dele, atraídos para as festas, são da mesma laia. Inclusive as mulheres, todas jovens (algumas são assustadoramente machistas e bagaceiras).
Esse sujeito e sua turma são o mais genuíno produto do fascismo e de outros efeitos acionados pelo golpe.
É o ogro imbecil que atormenta a todos (ninguém o suporta na vizinhança), porque se sente representado pela direita que pretende continuar aparelhando as instituições e controlando o país.
O ogro é estudante de Direito. Seus convidados para as festas que rolam toda a noite seriam colegas de faculdade. São o retrato do Brasil repulsivo e fascista inspirado nos heróis fajutos da Lava-Jato.

Lula Livre

Participo neste domingo da aula pública Lula Livre, a convite da deputada Maria do Rosário, ao lado de Andreia Nunes e de Edson Thomassim, com a mediação da Carol Lima.

Vou falar da imprensa que resistiu à ditadura, depois de 68, e da imprensa que cada vez mais adere hoje ao golpe de agosto de 2016, não como coadjuvante, mas como protagonista da tomada do poder, com o Judiciário e com tudo.

Ídolos

As pessoas que têm Sergio Moro como herói irão votar em Bolsonaro, abanam bandeiras no Parcão pedindo a volta da ditadura e das mortes comandadas por Geisel, admiram Alexandre Garcia e os jornalistas fofos e publicam no Face pensamentos de autoajuda com fotos de flores catadas no Google.
Nem todas, claro. Algumas que votam em Bolsonaro admiram Merval Pereira, têm João Batista Figueiredo como referência de ditador e fazem jejum quando Deltan Dallagnol recomenda.

A caçada à C5N

Estou tentando entender, porque só descobri agora, porque o canal argentino C5N foi retirado do ar no Youtube.
Leio comentários de que o governo agiu para que o canal fosse caçado, com ç, e depois cassado, com dois ss. E foi. Caçado e cassado.
A C5N faz na Argentina o que nenhum canal de TV faz no Brasil: afronta os poderosos, põe o dedo na cara da direita, informa o que as máfias da Casa Rosada tentam esconder. A C5N vem mostrando em detalhes a derrocada do governo Macri.
O Youtube informa, no espaço onde deveria estar o canal, que a C5N saiu do ar devido a denúncias sobre “violação de direitos de autor”. Tentei ver a TV pelo Face, não consegui. Lamentável. Eu era viciado em C5N.
Mas era previsto. A TV sofre uma caçada da direita há muito tempo. Este vídeo, de março, mostra o que iria acontecer.

Frustração

Edson Fachin é uma daquelas figuras das quais se espera tudo, por sua trajetória dita progressista.
Quando começa a falhar em sequência, sempre em favor da direita, espera-se o possível, mesmo que o possível seja vago e impreciso.
Quando a frustração aumenta, não se espera mais nada. Fachin é hoje um Alexandre de Moraes piorado, porque de Alexandre de Moraes nunca se esperou nada mesmo.

AGORA, UM TRIBUNAL SEM PRESSA

Perguntei aqui, há alguns dias, o que todo mundo perguntava: o Tribunal Regional Federal da 4ª Região estaria mantendo o mesmo ritmo do julgamento recorde de Lula, depois da reafirmação da condenação do ex-presidente por Sergio Moro?
Pois se confirma agora, por reportagem da Folha, o que todos suspeitavam, inclusive os que torceram pela condenação. Quatro meses depois de sentenciarem Lula a 12 anos e um mês de prisão, os desembargadores julgaram apenas um recurso de outros processos.
Apenas um. UM recurso. Em quatro meses. O Tribunal não conseguiu manter a pressa com que julgou Lula. Uma pena. Por quê? Não vou dizer o que todos sabem.

Esta é a reportagem:

Após ação de Lula, TRF-4 reduz ritmo de julgamento de processos da Lava Jato

José Marques

SÃO PAULO

O ritmo das ações da Lava Jato no TRF-4 (Tribunal Regional Federal da 4ª Região) não é mais o mesmo que precedeu o julgamento do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em janeiro.

A oitava turma do tribunal, que chegou a julgar quatro processos da operação em novembro, só concluiu decisão sobre um caso desde que aumentou a pena de Lula para 12 anos e um mês de prisão.

Em parte, isso se deve a três pedidos de vista do juiz federal Victor Luiz dos Santos Laus em casos que chegaram a ser pautados e colocados em votação em sessões.

Os outros dois membros da turma, o relator da Lava Jato João Pedro Gebran Neto e o revisor Leandro Paulsen deram os seus votos, mas Laus pediu mais tempo para analisar melhor os casos.

Não há data para que os processos sejam devolvidos.

Desde que saiu da primeira instância, o processo contra Lula tramitou com uma velocidade acima da média no TRF-4, o que provocou reclamações da defesa e de apoiadores.

Depois dele, foi concluído apenas o julgamento de recurso do ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares, acusado pelo Ministério Público de lavagem de R$ 6 milhões.

A defesa nega que ele tenha cometido irregularidades. Delúbio teve a pena aumentada de cinco para seis anos de prisão. Outros réus no processo também foram julgados.

O primeiro pedido de vista aconteceu no mesmo dia, 27 de março, no processo que envolve o pecuarista José Carlos Bumlai, amigo de Lula.

Na ocasião, Laus afirmou que não estava convencido das acusações contra Bumlai.

No último dia 9, o magistrado pediu vista de mais dois processos após a votação dos colegas: o de Cláudia Cruz, mulher do ex-deputado Eduardo Cunha, e o do ex-deputado André Vargas.

Procurado, o TRF-4 informa que o pedido de vista “é ato personalíssimo do desembargador que quer analisar melhor o processo e não precisa justificar o pedido”.

O regimento do tribunal diz que em qualquer fase do julgamento o magistrado pode pedir vista dos autos, suspendendo o julgamento.

O tribunal ainda reafirma que os três julgamentos em que houve pedido de vista já foram iniciados.

Para a sessão do próximo dia 30, estão previstos o julgamento de outros dois casos que chegaram ao TRF-4 no ano passado. Um deles é o recurso do ex-ministro José Dirceu à sua segunda condenação pelo juiz Sergio Moro, de 11 anos e três meses por corrupção e lavagem de dinheiro, em março do ano passado.

Também entrou em pauta o julgamento do recurso do ex-governador do Rio Sérgio Cabral, condenado por corrupção e lavagem de dinheiro.

A oitava turma começou a apertar o passo e julgar a maioria dos processos da Lava Jato no ano passado. De maio a junho, foram quatro julgamentos concluídos.

Depois, de agosto a novembro, outras 11 ações foram decididas pela turma de Porto Alegre, que revisa as decisões que Moro toma na primeira instância. Houve uma pausa para o recesso do judiciário até o julgamento do ex-presidente Lula, em 24 de janeiro.

Em fevereiro e abril deste ano —e, em maio, até a próxima sessão, marcada para a quarta (23)— não houve decisões conclusivas sobre o mérito dos processos da operação.

Além das apelações, o TRF-4 também decide sobre outros recursos da Lava Jato, como embargos de declaração e pedidos de desbloqueio de bens.