A passeata que não passeia

O que aconteceu ontem nas manifestações da direita representa um fenômeno novo desde o começo da articulação do golpe. Pela primeira vez as passeatas ficaram no mesmo lugar.

Em todas as imagens mostradas pela TV, em todas as cidades, as aglomerações permaneceram como ajuntamentos. Não havia como movimentar um número tão pequeno de pessoas sem que a cena ficasse mais patética.

A passeata paralisada mostra que os golpistas perderam o pretexto e o rumo. Não há para onde ir. A direita ficou petrificada na Avenida Paulista.

Não havia unidade de discurso (foram para a rua monarquistas, militaristas e outros grupos menores), não havia um mote (o apoio a Sergio Moro parece que cansou) e no fim não havia nem gente.

Só havia a Regina Duarte. A direita brasileira inventou ontem a passeata que não passeia.

O golpe e os invasores

Informei hoje pela manhã (alertado por quem me lê) que meu blog havia sido hackeado, porque muita gente tentava acessar um texto sobre os vazamentos na Lava-Jato e era levada para uma informação de que a página havia sido invadida.

Sei que isso é comum, mas eu precisava informar e reagir, recuperando o texto original e republicando no site. Sofro com frequência a ação de hackers, que tiram do ar alguns textos, como se dissessem que picharam um ou ou dois, mas poderiam, se quisessem, pichar tudo o que escrevi. Hoje, eles tiraram o principal texto da página.

Agradeço pela solidariedade de todos. Muitos se dispuseram a me ajudar a melhorar as defesas do blog.

Por que sou hackeado, se mantenho um blog minúsculo no latifúndio da internet? Porque não acredito em ações sistematicamente ‘aleatórias’.

Acredito nos que preveem que, a partir de agora, os aliados do golpe passarão à perseguição miúda, covarde, que inclui (preparem-se) a disseminação desse tipo de ataque e, entre outras providências, as ações na Justiça.

Eles sabem com quem contar. A direita não precisa mais da força de um regime autoritário fardado, mas do suporte de parte de um Judiciário seletivo, omisso ou engajado aos golpistas. Hackers, vazadores e outros delinquentes estão liberados para trabalhar à vontade a serviço da direita.

Resistiremos. Gracias pela força.

Um moço sem modos

Tem que ter coragem para tomar a iniciativa de conceder a medalha do Mérito Farroupilha a alguém com o perfil do deputado Jean Wyllys. A deputada Manuela D’Ávila tem.

Sei que andaram dizendo que este baiano eleito pelo Rio não tem afinidades com o macho gaúcho, nunca usará uma bombacha e nem sabe que somos um modelo à toda Terra. E ainda é gay assumido.

Pois ele receberá a medalha na terça, dia 28, às 19h, na Assembleia. Precisamos de mais Jeans Wyllys, para que o Brasil pós-golpe não seja tomado pelos Gilmares Mendes.

Depois da homenagem, haverá um debate sobre Direitos Humanos, com Maria Berenice Dias e Marcos Rolim. Jean Wyllys, Manuela, Berenice e Rolim. Não é todo dia que se tem um time desses no mesmo palco, nesse Estado cada vez mais reacionário, capaz de fechar um parque para receber o filho do Bolsonaro, mas vacilante na hora de reconhecer o destemor de um humanista abusado.

Eu estarei lá para ouvi-los. Manuela me pediu um texto sobre Jean Wyllys, entre tantos depoimentos de divulgação do evento, e eu escrevi esses dois parágrafos:

“Uma democracia até prospera com gente bem-comportada, mas uma democracia acossada, como a nossa, depende de transgressores com a radicalidade de um Jean Wyllys. Que combatam em voz alta, que não se atemorizem diante dos mais ferozes cães do golpe.

É o que eu mais admiro no Jean Wyllys, essa capacidade de peitar os agressores com uma linguagem que também eles, os racistas, os xenófobos, os homófobos e os misóginos, possam entender. A defesa das diferenças, da democracia e de todas as liberdades depende muito da valentia sem modos deste moço”.

Por que Sergio Moro não enfrenta os vazadores da Lava-Jato

 

Esta é a grande pergunta da semana: por que Sergio Moro decidiu voltar atrás na sua decisão de mandar a Polícia Federal recolher o blogueiro Carlos Eduardo Guimarães, sob condução coercitiva, para saber quem havia vazado a informação de que Lula seria detido à força em março?

Por que, em nota depois da ‘condução’ de Guimarães, Moro disse que estava interessado apenas em saber se o blogueiro havia antecipado a informação a Lula, alertando-o para o fato de que seria buscado em casa pela Polícia, também sob condução coercitiva?

O juiz diz na nota que não estava interessado na identificação do autor do vazamento (até porque o próprio blogueiro teria revelado sua fonte), mas sim no possível alerta ao investigado, no caso, Lula.

Mas o que provocou mesmo uma reviravolta na posição de Moro, se estava claro desde o começo que a investigação do blogueiro, com apreensão de equipamentos, buscava a identificação da fonte do vazamento da ‘condução’ de Lula?

São muitas as hipóteses. A primeira delas, a mais previsível, informa que Moro desistiu da tese de que o blogueiro deveria revelar a fonte porque se deu conta de que sua imposição iria violar uma garantia da Constituição. Ele não sabia disso e foi alertado. Ou sabia?.

Esse é o argumento mais banal, que circula em quase todas as tentativas de entendimento do que ocorreu. Mas a questão é mais complexa.

Moro diz agora que sua intenção não era obter a fonte do blogueiro, para não cair em outra armadilha. E esta é a armadilha da qual ele tenta, mas talvez não consiga escapar. Se fosse levar adiante o desejo de identificar, em quaisquer circunstâncias, as fontes que vazam informações, Moro teria de consultar a ombudsman da Folha de S. Paulo.

Paula Cesarino Costa deveria ser ouvida, pelo menos pelo Ministério Público, para que se saiba de onde ela tirou a informação de que o pessoal de Janot na Lava-Jato vaza informações à imprensa.

Paula divulgou, na edição do dia 19 da Folha, que um conluio entre procuradores subordinados a Rodrigo Janot e jornalistas da grande imprensa permitiu que todos divulgassem os mesmos nomes de políticos da última lista do procurador, que o MP enviou ao Supremo.

Janot rebateu a denúncia, mas a jornalista manteve o que escreveu. No dia 22, ela reafirmou em nota que “as informações foram confirmadas por mais de três fontes independentes”.

Janot e Moro sabem que o conluio dos vazamentos seletivos (que vem desde o começo da Lava-Jato) põe em risco a operação, porque a antecipação seletiva de informações sigilosas submete todo o Ministério Público a desconfianças e pode resultar na anulação de delações.

Janot tentou desqualificar a denúncia da ombudsman, endossada por Gilmar Mendes (a que ponto chegamos), dizendo que isso é coisa de “mentes ociosas”. Paula foi a primeira pessoa a afirmar: os procuradores vazam informações da Lava-Jato. Moro ficou quieto, porque não se mete em inquéritos de gente com foro privilegiado. E não se mete com Janot.

Mas os vazamentos não aconteceram só agora, são sistemáticos na Lava-Jato. E o modelo, também para gente sem foro, parece ser o mesmo agora denunciado pela ombudsman.

O último movimento do juiz foi este de anunciar que não estava interessado na fonte do blogueiro. Moro já sabe que uma funcionária da Receita foi a informante de Guimarães. Pergunta-se agora se o juiz estaria interessado nas fontes ouvidas pela ombudsman, que podem ter participado do conluio com os procuradores.

Não é uma fonte, nem são duas fontes, são mais de três fontes da jornalista. Moro gostaria de saber quem são os vazadores da Lava-Jato, ou isso só o preocupa quando Lula e blogueiros estão envolvidos no caso?

Moro não se sujeitaria a enfrentar a grande imprensa, que o apoia descarada e incondicionalmente? Será que não descobriria a origem dos vazamentos que se repetem, mesmo em processos sem foro privilegiado?

O juiz comandante da Lava-Jato precisa prestar contas, não só a colegas, nem só ao Judiciário, mas ao país, para que todos fiquem sabendo se pretende enfrentar os procuradores vazadores, não para puni-los (porque nem eles, acima do bem e do mal, devem saber direito quem pode fazer isso), mas para pelo menos alertá-los de que cometem um delito.

Um juiz que submete um blogueiro ao tacão das suas vacilantes convicções sobre vazamentos deverá saber enfrentar procuradores que deveriam agir dentro da lei. Mas Moro talvez não queira se incomodar com o poderoso Rodrigo Janot.

Em nome da transparência e da defesa da operação, espera-se que em algum momento Sergio Moro identifique quem o desafia (no privilegiado foro do Ministério Público) como autoridade maior na tarefa de julgar os criminosos da Lava-Jato.

Máquina de delatar

Leio mais informações sobre as delações de Alexandrino Alencar, um dos executivos do alto escalão da Odebrecht. Ele não para de delatar. É conhecido dos jornalistas gaúchos. Quando trabalhei na editoria de Economia de Zero Hora, nos anos 90, Alexandrino circulava pelo jornal, sempre atencioso, distribuindo informações do grupo na área petroquímica.

Sabe-se agora que era parte da equipe de gestão da distribuição de propinas. E cuidava até dos carregadores de malas com dinheiro.

Alexandrino sempre foi uma pessoa simpática, acessível. Agora, está aí delatando sem parar. Ele era a cara institucional da empresa, o sujeito dos sorrisos, do cafezinho e do abraço.

Muita gente deve estar comemorando o fato de não ter se tornado amigo mais próximo de Alexandrino, porque o homem virou uma máquina de delatar.

Vazamento

Seu Mércio me telefonou agora. Contou que recebeu uma notícia vazada por um informante que sabe tudo da Lava-Jato. Alguém (que não ele não sabe quem é) informou murmurando que irão conduzir coercitivamente um tucano nos próximos dias.
Como sou blogueiro e posso ser acusado de obstrução da Justiça, não perguntei mais nada, e nem seu Mércio me disse.
Mas fica o alerta: pode ser pedalada a casa de um tucano graúdo a partir de segunda-feira (nos fins de semana não há condução coercitiva, e as leis são muito respeitadas no Brasil).
Será a primeira condução coercitiva de um tucano corrupto na Lava-Jato. Imaginem a cobertura do Jornal Nacional.
Quem telefonou para o seu Mércio assegurou: é de fonte segura. Seu Mércio só estranhou que o homem tenha desligado o telefone às gargalhadas.

Mentes omissas

Gilmar Mendes ficou quieto por dois dias, depois que Rodrigo Janot o atacou como alguém que tem a “mente ociosa” (sem citar seu nome, claro), mas reagiu hoje. Voltou a pedir que os vazamentos dentro da Lava-Jato sejam investigados.
Os autores dos vazamentos foram denunciados pela ombudsman da Folha de S. Paulo, Paula Cesarino Costa. Ela sabe que os vazamentos são produzidos por procuradores, todos subalternos de Janot. É preciso identificá-los.
O problema é que o procurador-geral, que tudo investiga, se nega a admitir que existam vazamentos.
E o juiz Sergio Moro, que investiga com afinco o vazamento de informações a um blogueiro, até agora não parece muito entusiasmado com a ideia de que deve investigar vazamentos cometidos por gente de dentro da Lava-Jato para a grande imprensa.
Se o nome de Lula não aparece, o interesse cai bastante.

O combo dos terceirizados

A terceirização está dentro do projeto golpista de acabar com a Previdência pública. Isso é o básico. Assim como vão tentar acabar com o SUS.

Para que manter a Previdência, se todos um dia serão terceirizados, com algumas exceções? Ou dito de outra forma: como existir previdência pública, se não haverá quem contribua para a sua sustentação?

Quem recebe telefonemas de planos funerários (eu recebo um por semana) passará a receber também ofertas de vendedores de combos, com a seguinte promoção: quem compra um plano de aposentadoria privada, para desfrutar a partir dos 86 anos, terá direito a um confortável jazigo.

Se o cliente não conseguir se aposentar a tempo de ser beneficiado pelo plano privado (porque o público não existirá mais), e morrer enquanto paga as prestações, terá direito ao jazigo.

O capitalismo brasileiro e os golpistas se preocupam com o conforto dos mortos.